quarta-feira, 23 de setembro de 2015

São José das Torres - Histórias [Parte 3]

Parte da Serra das Torres - São José das Torres - Mimoso do Sul
Fonte da foto: [www.mapio.cz/a/14476254]
Traçamos, no post anterior (Parte 2), um apanhado geral que explicou e demonstrou como foi a ocupação e exploração das terras das montanhas e encostas, mais altas, que ficam situadas na parte norte, noroeste e oeste do distrito de São José das Torres. Foi a colonização dessa área que nucleou a formação do que se tornaria o distrito e que daria origem ao arraial que hoje é a vila sede do mesmo distrito. Vimos que a ocupação dos terrenos baixos nas margens do Itabapoana foi mais antiga, mas que estancou por lá mesmo e não teve papel substancial na ocupação posterior das regiões cafeeiras do oeste e norte da região. Também vimos que a ocupação das terras de São José das Torres ocorreu em duas fases, com conjunturas próprias. A primeira fase, tímida, na década de 1890, quando houve a exploração e a abertura dos primeiros sítios, situações e posses. E a segunda fase, mais pujante, nas décadas de 1910 e 1920, quando foi ocupado ou demarcado praticamente toda a extensão do território.

Agora, seremos um pouco mais específicos, e discorreremos mais vivamente sobre a história dessa região nessas duas fases, e também no interstício entre elas. Começando, obviamente, pela primeira fase.

Por volta de 1885, quando a quase totalidade da região central do município de São Pedro do Itabapoana já estava ocupada e demarcada, quando enormes fazendas cafeeiras com suas grandes sedes pululavam pelos vales do ribeirão São Pedro e do médio e alto Muqui do Sul, quando já existiam os povoados de São Pedro de Alcântara (praticamente uma vila, seria elevada à essa condição em 1887) e de Nossa Senhora da Conceição do Muquy, bem como o recente arraial de Ponte de Santo Eduardo (atualmente, Ponte do Itabapoana) e o "proto-arraial" da Ponte do Mimoso (atual sede de Mimoso do Sul), além do antigo povoado de Limeira (que começava a decair), começou-se a olhar para aquelas terras que ficavam nas encostas orientais da cadeia de montanhas que se estendia no rumo nordeste-sudoeste, no extremo leste da Freguesia de São Pedro do Itabapoana. Até então, na prática, aquela cordilheira servia como limite entre São Pedro, então pertencente ao município de Cachoeiro de Itapemirim, e o município de Itapemirim. Em toda a sua extensão, matas virgens e floresta fechada desciam dos cumes, cobrindo as encostas e estendendo-se pelos suaves morretes até as pastagens nativas do rio Preto que, legalmente, formava a divisa entre São Pedro (município de Cachoeiro de Itapemirim) e Barra do Itabapoana (município de Itapemirim).

Nesse ano, as autoridades do município de Itapemirim propuseram a colonização dessa região de terras devolutas que, na época, se chamava de Torres do Rio Preto. Tal pretensão não se concretizou na ocasião, até porque havia dúvida no que toca às divisas entre os municípios nas cabeceiras do rio Preto, que servia como limite entre as comunas. Mas a ideia de se colonizar aquela região foi lançada e, poucos anos depois, teve início a primeira fase de ocupação efetiva da localidade. Já vimos que em 1892 foi feita a primeira venda de terras devolutas, uma área de quase 50 hectares no córrego Flores requerida pelo Dr. José Coelho dos Santos, então governador municipal (vereador) da Câmara de São Pedro do Itabapoana. Também já vimos que foi nessa época que a "fronteira agrícola" alcançou as vertentes do Rio Preto em sua porção norte e oeste, nas montanhas e encostas das terras mais altas. Muitos fazendeiros abastados de São Pedro do Itabapoana requereram a compra de terras nessa região, entre 1894 e 1895, como o comendador Leopoldino Gonçalves Castanheira (Torres), José Olympio de Abreu, Julio Cesar Monteiro da Gama e Pedro Ricardo de Sant'anna (os três no córrego Paraízo) e Manoel Teixeira de Oliveira (Degredo de Torres). E, também, muitas famílias não tão ricas, mas com dinheiro suficiente para comprar e medir as terras e formar suas lavouras. É nessa época que começa a tímida ocupação dos córregos Paraízo, Santa Rosa, Sabão e Flores, bem como de localidades como o Pharol, Paraizinho, Bandeira e Cajú, além do próprio alto Rio Preto. Em 1896, o Estado remeteu um engenheiro para mapear e levantar todos os lotes em Torres.

Muitas dessas propriedades requeridas ou compradas, porém, não seriam exploradas, como vimos no artigo anterior. A crise de preços do café que se iniciou em 1895 atravancou o investimento e a formação de lavouras cafeeiras nessa região. Nessa primeira fase, quem formou cafezais até 1895 é que permaneceu na localidade. Dos abastados fazendeiros sãopedrenses adquirentes de terras em Torres, nenhum deles chegou a formar lavouras de café nesse período, e a maior parte vendeu as terras compradas ou acabou não comprando as terras requeridas. Coube aos proprietários "novos", não tão ricos mas providos de recursos, ocupar e explorar as terras de São José das Torres. E, conforme já foi relatado, nenhuma nova plantação de café foi formada por cerca de 15 anos, entre 1895 e 1910.

Além da baixa do preço do café, da escassez de capitais e da falta de braços para o trabalho, havia um outro fator que atrasava o desenvolvimento dessa região: a ausência de estradas. As primeiras penetrações foram feitas através de picadas abertas no meio da mata, que subiam a serra pelos vales dos afluentes do rio Rio Muqui do Sul, atingiam as gargantas do divisor de águas entre os maiores cumes e desciam pelos afluentes do rio Preto. A primeira dessas picadas, que serviu como via de comunicação por muito tempo, foi aberta por volta de 1890. Importante salientar que as primeiras explorações da região das vertentes do rio Preto iniciaram-se por volta de 1885, embora o início da ocupação tenha sido pouco posterior. Antes de 1892, quando foi feita a primeira venda pelo Estado de terras devolutas em Torres, já havia quem iniciava as explorações do terreno e abria as primeiras picadas que serviriam aos primeiros posseiros e sitiantes.

Essa primeira picada saía da grande Fazenda Pratinha, no Muqui do Sul e próxima ao porto do Prata, subia pelo córrego Pratinha, passava pela Fazenda do Cedro nas cabeceiras do mesmo córrego e atingia o divisor de águas na garganta entre as serras da Prata e do Farol; daí entrava nas águas vertentes do rio Preto pelo ribeirão Paraízo, passando pelo que se tornaria as Fazendas Vale do Paraízo e Paraizinho e chegando aos alagados do rio Preto. Ao chegar aos alagados, fazia uma dobra para o norte no rumo do córrego do Pharol e do ribeirão das Flores. Anos mais tarde outras picadas seriam abertas, como a que saía do ribeirão Belmonte, subia pelo córrego Candura, atravessava o divisor de águas entre as serras do Palmital e da Estrela e atingia as cabeceiras do córrego do Pharol, bem como a picada que subia pelo córrego Santa Maria, cortava a serra de Santa Rosa a atingia as cabeceiras do córrego Santa Rosa, e a picada que fazia seu caminho passando ao sul da serra de Santa Rosa, subindo pelo córrego Cerejeira e atingindo as cabeceiras do mesmo córrego Santa Rosa acima citado.

Todas essas picadas, algumas das quais se transformaram mais tarde em caminhos, eram abertas rasgando a mata virgem, seguindo e obedecendo as limitações e as vicissitudes do terreno. Foi por elas que se iniciou o povoamento de São José das Torres, servindo de vias de comunicação, e era por elas que se escoava a produção de suas recentes lavouras, apesar de todas as dificuldades. Somente em 1909 é que foram iniciadas as obras da primeira estrada que ligaria o distrito de São José das Torres às estações dos povoados sitos na beira da linha férrea. Mas essa história narrarei mais para frente. Essas picadas e caminhos buscavam comunicar São José das Torres com as localidades por onde se fazia a exportação do café produzido na região. Inicialmente, com o porto do Prata; posteriormente, com as estações da linha férrea.


Gerson Moraes França


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