sexta-feira, 1 de abril de 2011

A Imigração Cearense no Espírito Santo


Flagelados pela seca - Ceará, 1878

O ano foi 1878. No dia 06 de março, "cento e tantos" imigrantes cearenses chegaram à Província do Espírito Santo, fugindo da grande seca que assolava o Ceará e outras regiões do Nordeste. Foram os primeiros de muitos que iriam chegar nos meses e anos seguintes. Até o final do semestre, seriam cerca de dois mil. No final do ano, eram quase cinco mil. Quando a Monarquia chegou ao fim, já eram mais de oito mil os imigrantes cearenses chegados diretamente no Espírito Santo. No final do século XIX,  tinham passado dos onze mil.

Só naquele ano de 1878, cento de oitenta e oito mil cearenses emigraram para várias Províncias do Império, de uma população total de oitocentos mil; cento e vinte mil pessoas morreram naquele ano no Ceará, em virtude da seca. O rebanho de gado da Província foi dizimado em quase noventa por cento.

A imigração cearense em nosso Estado é tema pouco abordado pela historiografia local. Os retirantes não foram alocados em colônias reservadas, como aconteceu com muitos colonos estrangeiros que chegaram no Espírito Santo no século XIX; foram espalhados por todo o Estado, a maioria sendo encaminhada para trabalhar na lavoura. Relativamente, um bom número assentou praça na polícia ou no exército, e alguns foram trabalhar na construção de estradas de ferro. Assim, espalharam-se e integraram-se rapidamente no seio da população capixaba. Não mantiveram uma identidade cultural distinta, embora alguns elementos culturais tenham restado como resquício de sua cultura sertaneja. Apesar de haver sido aventada a hipótese de assentar os retirantes em colônias similares ao modelo adotado para os estrangeiros, tal projeto não foi adiante; foram eles remetidos para localidades já povoadas.

Talvez acima esteja a explicação do porquê que esse importante movimento migratório, que teve grande peso no povoamento do Estado do Espírito Santo, não é tão levantado atualmente. Sem uma identidade cultural diversa e distinta, como temos dentre alguns grupos de imigrantes estrangeiros, os retirantes foram absorvidos pela sociedade e pela cultura capixaba. Assim, não havendo comunidade própria, nunca surgiu um movimento de resgate ou de afirmação comunitário, tal como ocorreu com os descendentes de italianos, alemães e outros imigrantes estrangeiros que vieram para o Espírito Santo no século XIX.

O peso absoluto e relativo da imigração cearense no Espírito Santo foi muito significativo. Para efeitos de comparação, esse movimento migratório, aqui no Estado e em sua época, só foi menor do que a imigração de italianos. Colocando em números redondos aproximados, até o final do século XIX, e considerando os dados de migração direta, vieram cerca de vinte e oito mil italianos, quatro mil alemães e dois mil e quinhentos espanhóis; as outras nacionalidades não chegaram ao milhar, e todas essas somadas não chegaram a três mil, retirados desse cálculo os imigrantes portugueses. Os cearenses, como já dito mais acima, totalizaram um contingente de mais de onze mil imigrantes no período. A população do Espírito Santo em 1870 era de oitenta e dois mil habitantes.

A maioria dos imigrantes cearenses foi para São Mateus. Grande número foi para Itapemirim. Nesses dois Municípios, os retirantes passaram do milhar. Santa Cruz, Viana e Cariacica também receberam expressivo contingente, assim como Serra, Vitória e Guarapari, em escala pouco menor. Em sua esmagadora maioria, eram muito pobres; famílias inteiras chegaram apenas com as roupas do corpo. Mas vieram também algumas pessoas mais abastadas, fazendeiros também acossados pela seca. O flagelo da estiagem alcança ricos e pobres, proprietários e trabalhadores, em medidas diferentes, mas igualmente dolorosas e drásticas.


ELEMENTOS CULTURAIS
POESIA POPULAR - DESAFIO

Os que me acompanham sabem que pesquiso e estudo, de modo mais específico e profundo, a história da região sul do nosso Estado do Espírito Santo. Assim, para exemplificar as reminiscências da cultura sertaneja nordestina no Espírito Santo, reservar-me-ei a faculdade de ficar adstrito aos meus cantados Itabapoana e Muqui, do norte e do sul. Tal não desvirtua a matéria, considerando que essas regiões, então pertencentes ao Município de Cachoeiro do Itapemirim quando da chegada dos retirantes cearenses, foram das que receberam maior contingente desses imigrantes, que para lá se dirigiram após passarem por Itapemirim.

Em 1912, Arquimino Martins de Mattos exerceu o cargo de Interventor do recém criado Município de São João do Muquy. Folclorista, Arquimino observou que existiam elementos culturais nordestinos dentre as manifestações populares da região. Membro da Academia Espirito-santense de Letras, reuniu material e posteriormente proferiu uma palestra na Academia, em uma sessão que homenageava o também folclorista, Desembargador Afonso Cláudio. "Arquimino Mattos, dissertando sobre folclore capixaba, refere que no vale do Muqui e do Itabapoana encontrou a influência dos cantadores do nordeste brasileiro, exercida por esparças colônias de cearenses que ali se domiciliaram". Em sua palestra, mencionou até um "lance de desafio, de sabor acentuadamente nordestino", que segue abaixo:

É de devéra, meu mano,
Devéra vou lhe contá:
Eu já vi uma mambuca
No chifre dum marruá,
Deu sete pipa de azeite,
Três carro de saburá.

O desafio é uma modalidade de poesia popular sertaneja nordestina. Dois cantadores, com viola em punho, na maioria das vezes em tom jocoso ou satírico, improvisam as rimas durante a cantoria. Algumas raízes dessas estrofes tornam-se tradicionais, e passam a integrar os improvisos com certa frequência.

Quando pesquisou em campo, trinta anos depois da chegada dos primeiros imigrantes cearenses ao nosso Estado, Arquimino Mattos encontrou elementos culturais desses nordestinos cearenses que então viviam no Espírito Santo. Tal fato certamente foi marcante para o folclorista, considerando que o mesmo estudou e escreveu sobre o tema, e reservou sua palestra para ser proferida na Academia de Letras em uma ocasião bem especial. Tal como essa manifestação cultural, é muito provável - por que não? - que outras tenham perdurado, e mesmo tenham sido sedimentadas ou amalgamadas na comunidade. A gíria cabrunco, por exemplo, que inclusive foi tratada aqui no BLOG em post anterior, tem origem no vocabulário desses nordestinos. Se procurarmos, é possível - quem sabe? - que encontremos mais palavras ou manifestações que foram trazidas por esses retirantes.


ALGUMAS FAMÍLIAS CEARENSES
NO VALE DO ITABAPOANA

Número significativo dos retirantes cearenses que chegaram ao Município de Itapemirim passaram para Cachoeiro do Itapemirim. Foram direcionados em sua maioria para a lavoura cafeeira, e alguns para trabalhar nas estradas de ferro. E, das regiões de Cachoeiro, o Itabapoana e o Muqui foram das que receberam expressivo contigente. Para essas regiões emigraram, além dos retirantes pobres, alguns proprietários ou comerciantes que, atingidos pela seca, buscavam um novo começo. E assim como também ocorreu com algumas famílias de imigrantes estrangeiros, também houve "imigração indireta": primeiramente estabelecidos em outras localidades, mais tarde vieram assentar-se na região do Itabapoana. Não encontrei (ao menos, ainda) dados específicos sobre a quantidade de cearenses que se estabeleceram na região do vale do Itabapoana, mas, relativamente, foi um número significativo. Todo o vale do Itabapoana, retirando-se apenas a região de Veado (Guaçuí atual), pouco passava dos seis mil habitantes em 1878.

Alguns se tornaram importantes. Em São José do Calçado, por exemplo, radicou-se o cearense Carlos Mourão. Integrou-se à sociedade local, e casou-se com Amélia Teixeira Nunes, filha do coronel Juca Nunes e neta do coronel Antônio Teixeira Siqueira, ambos fazendeiros na região. Desse enlace, nasceu Abner Carlos Mourão, que foi importante jornalista e político capixaba.

Em São Pedro do Itabapoana, estabeleceram-se várias famílias. Ferreira da Costa, Cavalcanti, Aguiar, Feitosa, Gimenes, Sabino, dentre outras, são exemplos de famílias que chegaram em migração direta. A família Cysne, estabelecida mais tarde no distrito de Mimoso, é exemplo de cearenses que chegaram em migração indireta, vindos do Estado do Rio de Janeiro, onde primeiro se estabeleceram.  A maioria dos cearenses que se radicaram na região de São Pedro do Itabapoana era proveniente de Sobral e circunvizinhanças, no Ceará.


"MEUS" CEARENSES

E, como não poderia deixar de ser, reiterando com humor que "o BLOG é MEU", deixei para falar de ascendentes meus nessa parte final. Pois, sim, como "legítimo descendente" dos colonizadores do sul do Estado do Espírito Santo, além de fluminenses do vale do Paraíba e de mineiros da zona da mata, com pitadas de portugueses e uma cereja pury, também sou descendente de cearenses. Serve como exemplo para demonstrar que muita gente que tem família antiga no Itabapoana e nos dois Muqui's pode ter ascendentes cearenses; basta procurar, bem procurado...

De minha parte, minha descendência vem da avó paterna de meu pai, Gervizina Ferreira Cavalcanti (dona Gerviz), casada com meu bisavô Abdenago França (seu Bené). Filho deles foi o meu avô paterno, Gerson Cavalcanti França. Gervizina nasceu em Sobral, no Ceará, filha de Miguel Themístocles Ferreira Cavalcanti e de Amélia Olindina Ferreira da Costa, ambos naturais também de Sobral. Miguel, nascido em 06 de janeiro de 1850, foi proprietário de terras no interior do Ceará. Emigrou com sua família para São Pedro do Itabapoana em 1883, depois da grande seca que assolou sua terra. Faleceu em São Pedro em 16 de março de 1896. Junto vieram outros aparentados, como José Ferreira da Costa e Petronilho Gimenes.

Minha ex-companheira também é descendente de cearenses. O bisavô dela, de nome José Nicodemos Cysne, filho de Joaquim Guilhermino Maria da Costa Cysne e de Maria da Penha Vasconcellos e natural de Santana do Acaraú (próximo a Sobral), também emigrou do Ceará com alguns de seus irmãos. Seu pai Guilhermino foi deputado, jornalista e professor, e proprietário de uma fazenda chamada Jaburú. Migração "tardia", já no século XX. Primeiramente esteve radicado no Estado do Rio de Janeiro, fixando residência depois em Mimoso, então distrito de São Pedro do Itabapoana, na década de 1920. Foi médico e farmacêutico, e proprietário da grande fazenda Belmonte, comprada de José Ribeiro Monteiro da Silva.

Gerson Moraes França
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Fontes:

Província do Espírito Santo
1879 - Basílio Carvalho Daemon

Migração e mão-de-obra: retirantes cearenses na economia cafeeira do Centro-Sul (1877-1901)
2006 - Paulo Cesar Gonçalves
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Violeiros do Norte
1982 - Leonardo Mota

Relatórios dos Presidentes da Província do Espírito Santo - 1878

Projeto Imigrantes - Arquivo Público do Estado do Espírito Santo
Disponível em Estatísticas (informações do número de imigrantes estrangeiros)

Arquivo pessoal de pesquisas