segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Maria Ortiz - A Lenda, a Verdade e a Tradição

Maria Ortiz (foto: reprodução do jornal "A Gazeta")

ESSE ARTIGO, ESCRITO POR MIM EM 2015, FICOU "PERDIDO" EM MEU HD.
REENCONTREI-O, E RESOLVI PUBLICAR.
SEGUE, PORÉM, SEM REVISÃO; TAL COMO ESCREVI NA OCASIÃO.



Vou te devorar
A tua história incorporar
Espírito Santo Guerreiro
Caprichosamente me levar

Profano canto suburbano
Se transforma em divinal
(...)

Trecho inicial do samba-enredo da Caprichosos de Pilares, no carnaval de 2006, de autoria de José Manfredini, Mauro Speranza e Márcio do Swing, intitulado "Na folia com o Espírito Santo, o Espírito Santo caprichou".




Em 2006, a escola de samba Caprichosos de Pilares fez uma homenagem ao Estado do Espírito Santo, em seu samba-enredo. Mas essa homenagem resultou em uma polêmica, que repercutiu em terras capixabas. Maria Ortiz, a tradicional heroína que, com sua valentia e atitude ajudou a repelir uma tentativa de invasão dos holandeses em Vitória, foi retratada em um dos carros alegóricos como se tivesse sido uma cafetina e prostituta. Em efeito cascata, até a água fervente que derramou sobre os invasores que subiam a ladeira, hoje escadaria que leva seu nome, foi complementada por dejetos arremessados sobre os inimigos, esvaziando o "conteúdo dos penicos de sua casa de diversões" (1).



Antes desse enredo e da repercussão que tomou o tema, tive contato com essa versão sobre Maria Ortiz. Ela era propagada, em tom de brincadeira, no meio de alguns artistas e intelectuais com quem tive contato nos primeiros anos da década de 2000; nenhum deles, historiador. Uns tantos acreditavam realmente nisso, mais radicais no revisionismo sobre a personagem. Não tinham, é verdade, a intenção de desqualificar a figura da "mulher heroína", embora o tenham feito. Estavam mais imbuídos daquele espírito desmistificador presente à época, no estilo "Jesus era comunista" ou "Zumbi foi homossexual". Intentavam quebrar o culto ao herói, tornando as personagens mais humanas. E, daí, teciam simples presunções destituídas de fundamentação documental e histórica.



Mas, afinal, quem foi, e o que foi, Maria Ortiz? Ela é personagem real, como rezam uns, ou uma lenda imaginária, como entendem outros? Como foi preservada sua memória e como foi construída a heroína? Nesse artigo, procuro trazer elementos e reflexões sobre isso.



Primeiramente, precisamos contextualizar objetivamente. No início do século XVII Portugal e Espanha viviam o período chamado de "União Ibérica" (1580-1640), que foi quando ambos os Estados estiveram sob o reinado do mesmo soberano. Os holandeses, inimigos dos espanhóis, passaram a atacar as possessões portuguesas. Em 1624 atacaram e ocuparam Salvador, capital das colônias portuguesas no Brasil. No ano seguinte, uma esquadra holandesa penetrou na baía de Vitória, postou-se em frente da então Vila, fez um desembarque e atacou a capital da Capitania do Espírito Santo. Foi nessa ocasião que, segundo a tradição e alguns historiadores, Maria Ortiz teria feito sua aparição na história local. Buscando impedir os invasores que subiam a ladeira onde residia, a mulher derramou água fervente sobre os soldados inimigos em um momento que a defesa local fraquejava. Tal ato animou os defensores que, refeitos, contra atacaram e puseram o inimigo em debandada. Há versões que aumentam o feito, creditando a vitória dos capixabas e a fuga dos holandeses unicamente à água fervente derramada sobre o comandante das tropas holandesas.



Sobre a invasão e tentativa de ocupação de Vitória pelos holandeses, bem como sobre a luta dos capixabas em defesa de sua terra, há documentação contemporânea aos fatos. É acontecimento real, provado pelas fontes. Ao final do texto transcrevemos os documentos que narram o acontecimento. São quatro fontes; três portuguesas e uma holandesa: a Carta Annua do padre Antonio Vieira (1626), a Relação Universal de Manuel Severim (1627), a História do frei Vicente do Salvador (1627) e os Annaes de Johannes de Laet (1644).



Observa-se que as fontes contemporâneas não mencionam Maria Ortiz, nem mulher alguma. Tratam da luta, enaltecem alguns personagens e seus feitos, mas não citam o episódio que consagrou nossa heroína. Uma das fontes até informa que as mulheres e as crianças deixaram a Vila apressadamente e se refugiaram nos matos e arredores, deixando dúvida se alguma mulher teria ficado no povoado. Assim, como e quando surgiu a versão celebrada nos dias atuais pelos capixabas?



O primeiro documento que cita o fato de uma mulher participando da luta e derramando água fervente sobre os invasores é pouco posterior aos acontecimentos. Foi registrado por Francisco de Britto Freire em sua obra "Nova Lusitânia, História da Guerra Brasílica" (1675). Britto Freire participou, como Almirante da esquadra da Companhia de Comércio, dos acontecimentos finais da guerra contra os holandeses no nordeste do Brasil em 1653/54 e, depois, foi governador da Capitania de Pernambuco entre 1661 e 1664. Neste tempo, coletou documentos e relatos sobre o conflito. Preso por motivos políticos em 1669, escreveu sua obra durante os seis anos que permaneceu detido. Seu trabalho é considerado por Pieter Netscher (um dos mais sérios e metódicos historiadores holandeses que escreveram sobre as guerras com os portugueses) como uma das melhores obras sobre os holandeses no Brasil.



Ao final do texto, transcrevemos a parte do livro de Britto Freire que trata das investidas holandesas. Aqui, colocaremos apenas o trecho que nos interessa:

"(...) Ridiculo successo do Almirante Perez
(...) tornando em o dia seguinte, a experimentar no segundo combate, o primeiro successo, huma molher Portuguesa, escolheu ao Perez por singularidade na differença do trajo, & lugar da pessoa, para lançarlhe do alto da casa, hum tacho de agoa fervendo sobre a cabeça. Não o pode molestar braço algum varonil, & molestou-o aquela mão feminina".


Pela primeira vez, o fato de uma mulher ter despejado água fervente sobre os invasores é registrado. Britto Freire foi bem criterioso ao escrever sua obra, e não é crível presumir que o mesmo tivesse inventado esse fato. O mais provável é que tenha colhido algum depoimento sobre o acontecido. Nesse caso, o feito da mulher teria ficado guardado na memória dos locais e, mais tarde, foi tombado pela pena do autor. Não há motivo algum para duvidar da boa-fé de Britto Freire. Mas, preservou-se o feito, e esqueceu-se o nome da mulher. Não há a individualização da personagem, e o nome de Maria Ortiz não é citado.



A segunda vez que esse feito é registrado em obra foi em "Istoria delle guerre del regno del Brasil"(1698), de autoria de Giovanni Gioseppe di Santa Teresa. Em seu trabalho, cita a ida de Petrid para Angola, sua arribada no Espírito Santo e o ataque à Vitória, a atuação de "Francesco di Aghiar Coutigno", dentre outros pormenores. Na parte que trata da mulher que derrama água fervendo, assim escreve:

"(...) Onde sdegnato il Petrid della fortuna, e fommamente arrossiro dello scherzo quivi fattogli da questa per mano di una donna Portoghese, la quase salita sopra la muraglia gli getto sopra la lesta un caldaio di acqua collente, che con gran risa de gli assediati, e parimente de i fuoi in estremo lo molestò; se ritirò subito all'armata, e frese indirittura il viaggio verso Olanda".


Observa-se que o episódio, retratado como algo ridículo à ter acometido Pieter Pieterzoom Heyn, o comandante dos holandeses, por Britto Freire, começa a tomar aspecto de galhofa. Daí em diante, quase todos os historiadores que escreveram sobre o tema, e que citaram o feito, repetem mais ou menos a mesma história, ora em tom de escárnio, ora em tom de feito heroico. Mas as obras que versam sobre o acontecido continuam omitindo o nome da mulher. Não há menção à Maria Ortiz.




APARECE MARIA ORTIZ



Em 1815, Gioseppe di Beauchamp publica sua Histoire du Brésil. Em 1817 e em 1822 teve edições traduzidas para o português. Essa obra também citou o feito da mulher que derramou água fervente sobre os holandeses. Também omitiu o nome da mulher. Mas essa obra teve um papel importante para o resgate dessa história, no Brasil e no Espírito Santo. Livro muito popular, espalhou-se pela elite erudita brasileira, até começar a cair em "desgraça" na década de 1840, acusada de plágio. 



Parece que o resgate da história da mulher que derramou água fervente sobre os holandeses, em terras capixabas, foi fruto dessa obra. Tudo leva a crer que esse feito já havia caído no esquecimento dos espírito-santenses. Em 1817, ao publicar sua Memória Estatística da Província do Espírito Santo, Francisco Alberto Rubim assim trata do ataque holandês de 1625:



"Em Março de 1625 deu fundo na barra uma armada holandesa de 8 velas. Fizeram seu embarque e se fortificaram em diferentes pontos da costa e ilhas. Nos dias 12 e 14 atacaram a vila e foram repelidos, de que resultou retirarem-se vergonhosamente. Não consta o nome do comandante holandês, detalhes destes combates, nem quais foram os Portugueses que mais se distinguiram; e só consta que a câmara por muitos anos no dia 6 de Agosto fazia uma festa em ação de graças pela vitória alcançada aos Holandeses".


Nota-se, nesse trecho, que os capixabas do início do século XIX não conheciam mais os pormenores dos fatos ocorridos em 1625. Diz, textualmente, que não se sabia "quais foram os portugueses que mais se distinguiram" na batalha. Essa passagem é sintomática para que possamos afirmar, com certa segurança, que a heroína Maria Ortiz não era lembrada naquela época.

Quarenta anos depois, em 1856, o jornal "Correio da Victoria" repetia a versão, denotando que até àquele ano havia parcela da elite erudita capixaba que não conhecia a história detalhada da batalha de 1825. Mas o livro de Beauchamp, rico em informações e ao retratar o feito da mulher, despertou o interesse dos capixabas por encontrarem fontes para a produção ou confirmação de sua história. E a obra de Britto Freire, fundamento primeiro da história da mulher, passou a ser conhecida por alguns historiadores locais.

É nessa conjuntura que é publicada a obra de José Marcellino Pereira de Vasconcellos, em 1858, intitulada de "Ensaio sobre a História e Estatística da Província do Espírito Santo". Vasconcellos, ao escrever sobre o episódio de 1625, resgata a obra de Britto Freire e menciona a Carta Ânua do padre Vieira, transcrita por ele em seu livro. Assim escreve sobre o episódio da mulher:

"Por este tempo cruzavão os hollandezes os nossos mares, e pretenderão assenhorear-se de nossas terras em differentes pontos; e pois em maio de 1625 o almirante Patrid com uma armada de oito véllas deu fundo na barra da capitania, fez seu desembarque, e se fortificou em differentes pontos da costa e ilhas; - mas nos dias 12 e 14, em que se abrio um combate, por atacarem a villa, forão repellidos, retirando-se vergonhosamente. Refere Brito Freire, que no segundo dia, em que os hollandezes accommetterão a villa com maior intrepidez, experimentarião de certo melhor fortuna, si uma animosa mulher, posta á janella de uma casa aguardando a passagem do chefe, não derramasse sobre este uma caldeira d'agua fervente, que o fez retroceder, e desanimar a sua gente, declarando-se a victoria pelos habitantes com perda de 38 dos contrarios, que forão mortos, e 44 feridos. Chamava-se esta mulher Maria Urtiz.
(...)"

Pela primeira vez aparece o nome da heroína capixaba, ainda com a grafia "Urtiz". Mas, ao nominar e individualizar a mulher da história de Britto Freire, Vasconcellos não cita a fonte que bebeu. E esse fato destoa do restante de sua obra, que cita documentos e referências para fundamentar seus escritos. Assim, aonde o autor foi buscar o nome da mulher?

Três anos depois, em 1861, um outro historiador, Braz da Costa Rubim, publica o livro "Memorias Historicas e Documentadas da Provincia do Espirito Santo". Farto de documentação, o trabalho descreve em detalhes o ataque holandês de 1625, fundamentado em algumas das fontes já citadas. Mas omite a história da mulher, e muito menos cita o nome dela. Assim escreve:

"(...) O Brasil debaixo do domínio de Castella, por ter seguido a mesma sorte de Portugal, estava como que abandonado e entregue às invasões dos hollandezes que conseguiram apoderar-se da Bahia, inquietando e saqueando outras povoações do littoral.
Uma frota composta de oito náos sob as ordens de um dito almirante Petrid deu fundo na barra da bahia do Espirito Santo, e desembarcou 300 homens que se fortificaram em differentes pontos da praia e das ilhas. Os moradores assaltados assim de improviso abandonaram as casas, e fugiram para as roças. O donatário mandou tocar a rebate, e com a força que pôde juntar, que consistia em poucas espingardas, repelliu o ataque que o inimigo deu á villa no dia 12 de março de 1625. Dous dias depois carregaram com mais força, mas a esse tempo, entrando Salvador Corrêa de Sá e Benevides, que do Rio de Janeiro sahira com duzentos homens em tres canoas de guerra e dous caravellões á custa de seu pai Martim de Sá para acudir á Bahia, fez desembarcar quarenta portuguezes e setenta indios, e unidos estes á gente da terra guarneceram as tronqueiras defensivas da villa, e receberam os invasores com tanta valentia, que ao cabo de um quarto de hora, tanto durou a peleja, os repelliram com alguma perda, havendo da parte dos defensores um só morto. Vendo os aggressores que não podiam apoderar-se da villa, resolveram assaltar as roças; penetraram na bahia com quatro lanchas, e posto que nesta façanha aprisionassem algumas canôas e um caravellão de Salvador Corrêa, quasi desguarnecido, cahiram depois em uma cilada que o mesmo lhes armou, que esperando-os á volta, accommetteu a lancha principal de que ficaram só dous com vida, e as outras com grande perda se reconheram á esquadra. Escarmentados tambem por este lado, com despeito de sahirem mal desta refrega, vingaram-se nos seguintes dias em metter na villa uma grande quantidade de pelouros, que nenhum damno de consideração causaram; e ao cabo de oito dias fizeram-se de vella".


Daí, retornamos à pergunta: aonde Vasconcellos buscou o nome da mulher? Em que documento, já que não cita fonte? Teria ele resgatado o nome da mulher em alguma tradição popular que, passados mais de duzentos anos, ainda existia entre a população de Vitória? Essa última hipótese, que talvez seria a única a fundamentar a "descoberta" do nome da mulher, não parece verossímil. Isso porque um outro historiador, seu contemporâneo, ao publicar seu trabalho, não cita a passagem da mulher. Se essa tradição estivesse viva dentre a população capixaba, dificilmente Costa Rubim a teria omitido ao descrever tão detalhadamente quanto pode o ataque dos holandeses no Espírito Santo.



Outros são os indícios de que a tradição da mulher que derramou água fervente, bem como seu nome, não existia dentre os locais. Para além da ignorância de Rubim e Costa Rubim sobre o fato, encontramos fragmentos de que esta mulher chamada Maria Ortiz só começou a ser celebrada anos após à publicação da obra de Vasconcellos. Em 1868, dez anos após a publicação do livro de Vasconcellos, o "Jornal da Victoria" assim se expressava, embora misturasse a história de Britto Freire de 1625 com o segundo ataque holandês em 1640:



"Fazem hoje 228 anos que uma esquadra hollandeza (...), segundo alguns historiadores (...), deu fundo na barra desta cidade, então vila. (...) Louvou à (...), bem como uma mulher (e que não lhe consignaram o nome!) que de um sótão (...) lançou sobre o comandante da tropa holandeza um taxo de água a ferver".



Ora, como poderia o jornal, dez anos depois da publicação de Vasconcellos, ao tratar de lembrar do ataque holandês, declarar que a história não guardou o nome da heroína, se esse nome ainda fosse lembrado pela população local? Não parece nem um pouco razoável que Vasconcellos tenha colhido o nome de Maria Ortiz junto à qualquer tradição popular. Ele não registrou um nome festejado; mas sim, resgatou um nome esquecido. Só resta saber: aonde, e com que fundamentação, fez esse resgate?


Outro fator que abona a presunção de que não havia a tradição de Maria Ortiz à época pode ser retirado da informação de Afonso Cláudio, em sua obra sobre literatura, publicada em 1912. Afonso Cláudio nasceu em 1859, e tinha quase vinte anos de idade quando o nome de Maria Ortiz se popularizou. Em seu trabalho, o autor questionava a veracidade da história de Maria Ortiz usando, dentre outros argumentos, a ausência de tradição anterior. E Afonso Cláudio passou boa parte de sua infância e adolescência em Vitória; assim, era um contemporâneo e local ao atestar a inexistência de que havia uma tradição que festejava Maria Ortiz em sua época.

Durante as décadas de 1840, 1850, 1860 e a 1870 até seus últimos anos, ao lembrar os ataques holandeses, todos os jornais de Vitória que pesquisamos omitiram o nome da mulher que despejou água fervente sobre o comandante holandês. Somente uma vez, em 1859, após a publicação da obra de Vasconcellos, é que o nome de Maria Ortiz foi citada em alguma publicação jornalística. E o foi feito em uma cartilha elaborada pelo próprio Vasconcellos, denominada "Cathecismo Histórico e Político", para uso nas escolas de primeiras letras da Província do Espírito Santo. Assim está:
"Pergunta: A história conserva os nomes dos heróes, que figurão nessas contendas?
Resposta: Não todos, como devêra - mas a par do de Salvador Correia de Sá e Benavides, encontra-se o de Maria Ortiz, animosa mulher (...)".

Mas, se não houvera tradição que fundamentasse o nome de Maria Ortiz como a mulher do tacho de água fervente, em breve essa tradição seria criada. Vasconcellos lançou a semente. No final da década de 1870, as excelentes obras positivistas da História do Espírito Santo de Misael Penna (1878) e de Basílio Daemon (1879) trariam a história de Maria Ortiz, agora não só nominada e individualizada, mas também tornada protagonista e heroína. A fonte usada por ambos para nominar a mulher do tacho? A obra de Vasconcellos...


LENDÁRIA OU VERDADEIRA?

Na década de 1880 o nome de Maria Ortiz se popularizou. Transformou-se em heroína do povo capixaba. Vasconcellos, o homem que resgatou seu nome, havia falecido em 1874, no Rio de Janeiro. As obras de Penna e Daemon sedimentavam-se como bíblias da nossa história. O espírito de resgate e de construção da história capixaba crescia. Logo se imiscuiu nos eruditos da política e do jornalismo. Discursos e reportagens elevavam Maria Ortiz à condição de grande heroína que expulsou os holandeses. A mulher do tacho passou a ser comparada com outros heróis:"a Judith capixaba", "a Anna Fernandes espírito-santense". Ao final da década de 1870 e durante a década de 1880, as ruas de Vitória começaram a perder seus nomes tradicionais antigos, e receberam nomes de personalidades locais e nacionais. O próprio José Marcelino Vasconcellos seria homenageado com a nomeação da antiga Rua Grande, que tomou seu nome.

Em tom de deboche, e considerando que apenas os nomes de personalidades políticas mais recentes e ligadas ao poder estavam sendo homenageados na nomeação das ruas, o "Jornal de Vitória' brinca, em 1881:
"Mais uma atleta! Maria Ortiz!
Esta heroína festejada pelos historiadores, a mulher destemida que corajosa e valentemente muito influiu na expulsão dos temidos holandeses (...) foi também infeliz, não mereceu o seu nome a mais pequena prova de reconhecimento da representante do município!
A casa, a rua, deve seu nome! Nem uma pintura!"

Não que esta galhofa tenha surtido efeito, mas em 24 de setembro de 1885, em sessão da Câmara Municipal de Vitória, foi aprovada a proposta apresentada pelo vereador Passos Costa Jr, "denominando a Ladeira Municipal : Ladeira de Maria Urtiz, nome da celebrada heroína espírito-santense dos tempos coloniais". Desde então a ladeira, hoje escadaria, mantém o nome "Maria Ortiz".

Um ano antes, algum pesquisador anônimo cuidou de pesquisar a biografia de Maria Ortiz e publicou suas conclusões no jornal "Folha da Vitória". Sem citar fontes, sem descobrir os nomes dos pais da heroína, sem encontrar uma suposta data de nascimento, e citando apenas as histórias já conhecidas sobre a mulher do tacho, o pesquisador informa que Maria Ortiz era descendente de um certo Francisco Gomes Pereira, português que teve terras no Espírito Santo no século XVI e que participou de algumas lutas contra estrangeiros em outras Capitanias. A corajosa mulher de Britto Freire, agora individualizada em Maria Ortiz, tomava novas formas...


REVISIONISMOS

Esse super enaltecimento da personagem, cumulado com uma série de imprecisões sobre a história da mesma, acabou resultando no ceticismo de parcela dos intelectuais capixabas do início do século XX. Tornada protagonista, a individualização da mulher de Britto Freite acabou levando à contestação da própria história que este registrou. A associação da imprecisa Maria Ortiz com a história da mulher do tacho de água fervente fez com que alguns historiadores começassem a duvidar da veracidade não só da existência de Maria Ortiz, mas da própria veracidade do episódio da mulher em 1625.

Em 1908, uma matéria do "Diário da Manhã" reflete o essa problematização. Nessa época, a história de Maria Ortiz já era considerada tradicional. Embora o jornalista reconheça que a história confirmada por Britto Freire tenha sido inspirada em algum cronista da Capitania que lhe teria narrado o fato, não lhe dá crédito como fato histórico para sua autenticidade. A transformação de Maria Ortiz em heroína responsável pela expulsão dos holandeses, bem como a transmutação da história de Britto Freire em histórias mais fantásticas e associadas ao nome da personagem, levam o jornalista a afirmar que essa história era um mito: "Tal é a lenda de Maria Ortiz, que fez ganhar uma batalha com um tacho de água quente". Em 1912, Afonso Cláudio, em sua obra "História da Literatura Espírito-santense", entendeu que a história de Maria Ortiz seria apenas uma lenda. Fundamentou sua presunção dizendo que inexistia tradição anterior, e seu entendimento reverberou no meio intelectual; a posição de que a história era um mito tomava força.

A fundação do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, em 1916, traria mais seriedade e métodos na análise da figura de Maria Ortiz. A demolição da casa que era identificada como sendo a edificação onde residiu a personagem, ocorrida em 11 de abril de 1917 "para embelezamento e higiene da cidade", ajudou a criar um clima de que a história estava se perdendo e que deveria ser salvaguardada. O interesse pela personagem tomou novo corpo. Em 1924, o IHGES estimulava pesquisadores a escreverem e pesquisarem sobre a biografia de Maria Ortiz. A belle epoque capixaba chegava ao auge, e em 1926 projetava-se a construção de um monumento em homenagem à heroína. Historiadores e memorialistas buscavam fontes que pudessem fundamentar a existência de Maria Ortiz, bem como a história narrada por Britto Freire. Os estudiosos formavam suas convicções; uns, mais céticos, colocavam em dúvida a questão, embora sem desqualificá-la como possibilidade; outros, convictos de que a história era verdadeira, buscavam fundamentá-la por meios quaisquer. "Nessa luta que seu deu o fato, verídico para alguns e lendário para outros, mas assinalado por Brito Freire, da heroína Maria Ortiz", assinalava um intelectual em 1919.

Aproximava-se a data da celebração do IV centenário da colonização do solo espírito-santense, e esse fato também estimulou pesquisas e estudos de historiadores sérios, como Mario Aristides Freire. Em 1945, esse autor que se debruçou sobre a problemática de Maria Ortiz publicou seu livro "A Capitania do Espírito Santo". Com cuidado de um historiador preocupado com os métodos, Mario Freire promoveu criterioso revisionismo sobre a história do Espírito Santo, e tratou da questão de Maria Ortiz de forma crítica, não afirmando sua veracidade, mas não descartando sua possibilidade. Fernando Achiamé, ao comentar a reedição da obra de Freire em 2005, atesta a forma responsável com que Freire documentou seu trabalho e revisou a história capixaba.


A PROVA. MAS É VERDADEIRA?

A obra de Mario Freire, como dissemos, não tomava uma posição definida, de atestar ou negar a autenticidade da história de Maria Ortiz. Desqualificava os fundamentos de negação da obra de Afonso Cláudio, mas deixava uma interrogação sobre a veracidade do acontecimento. Essa dúvida, porém, acabava por deixar em suspenso uma definição sobre a real existência da heroína. Até então, ninguém havia conseguido provar, com documentos, a existência de Maria Ortiz. A problemática continuava, portanto, em aberto, servindo como argumentos para os que atestavam o feito como lendário.

E é nessa conjuntura que aparece, nessa questão, Eurípedes Queiróz do Valle. Dois anos depois da publicação do livro de Mario Aristides Freire, em 1947, Queiróz do Valle escreveu um artigo denominado "Maria Ortiz não é uma Lenda". Teria ele, finalmente, encontrado documentos que provavam a existência da heroína capixaba. Fundamentava sua posição com fontes que, segundo ele, teriam sido coletadas por João Bernandes de Sousa, o Barão do Guandu. Falecido o Barão, esses documentos teriam ficado por muitos anos guardados em baús na sua fazenda. Tendo desposado uma neta da viúva do Barão, Queiróz do Valle teria tido acesso à parte desses documentos e, com eles, havia conseguido detalhes sobre a vila de Maria Ortiz: sua filiação, quando seus pais espanhóis vieram para o Brasil, a data de nascimento da heroína e as datas de óbito de Maria e de sua mãe. Ainda segundo Queiróz do Valle, havia uma carta remetida pelo governador do Espírito Santo ao governador Geral, a qual ele não teve acesso na íntegra, que tinha um fragmento com o seguinte teor:


“Na repulsa dos invasores audaciosos é de justiça destacar a atitude de uma jovem moça que, astuciosamente, retardou o acesso dos invasores à parte alta da vila, por eles visada, permitindo assim, que organizássemos com os homens e elementos de que dispúnhamos, a defesa da sede. Essa jovem se tornou para todos nós um exemplo vivo de decisão, coragem e amor à terra. A ela devemos esse valioso serviço, sem o qual a nossa tarefa seria muito mais difícil e penosa. O seu entusiasmo decidido fez vibrar o dos próprios soldados, paisanos e populares na defesa e perseguição do invasor audaz e traiçoeiro”


Diante de tamanho detalhe, com datas precisas e até uma carta, tudo levava a crer que a existência de Maria Ortiz, e a veracidade de seu feito, eram verdadeiros. Mas aí, começaram as dúvidas sobre a autenticidade dessas fontes; principalmente, no que toca à carta. Segundo Queirós do Valle, uma cópia autêntica dessa "carta-relatório" teria sido entregue pelo Barão de Guandu, em 1897, ao seu amigo Reynaldo do Souto Machado. Este, posteriormente, remeteu a cópia da carta ao Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, para melhor guardá-la. O Barão faleceu em 1899, dois anos depois de entregar a cópia autêntica. Desde então, ninguém mais viu tal carta. Os que a procuraram nos baús do Barão, não a encontraram; grande parte do material havia sido destruído pela ação do tempo, de traças e cupins.



A contestação da autenticidade dessa carta adveio devido às suas incongruências, aliada ao fato de que o original ou a cópia autenticada nunca terem sido trazidas à luz. Primeiramente, Queiróz do Valle informou, primeiro, que a Carta-Relatório havia sido escrita pelo Capitão-mor João Dias Guedes, em junho de 1625. O problema é que João Dias Guedes era governador do Espírito Santo quando do ataque holandês de 1640. Assim, Queiróz do Valle, pouco depois, retificou a autoria da carta, imputando-a à Francisco de Aguiar Coutinho, capitão e donatário do Espírito Santo quando da investida de 1625. Outra incongruência ocorre, porém, em relação ao receptor da carta: informa o descobridor do documento que a correspondência foi enviada ao governador-geral Diogo Luís de Oliveira; mas, nessa época, este ainda não era o governador-geral do Brasil.



A análise do texto de Queiróz do Valle, levadas a efeito por Paulo Stuck  e Getúlio Neves, do IHGES, deixam sérias dúvidas sobre a autenticidade dessa Carta-Relatório nunca encontrada, e só citada. Me inclino nessa mesma vertente, por todos os fundamentos aqui postos. Assim, à não ser que alguém encontre essa cópia autenticada que supostamente está no Arquivo Nacional, não podemos dar crédito à autenticidade dessa carta. Todavia, a riqueza de detalhes em relação à data da chegada dos pais de Maria Ortiz e ao dia de seu nascimento e morte nos fazem refletir sobre a existência dessa mulher; teria ele inventado essas datas? A análise do IHGES informa que esses dados foram obtidos, ou confirmados, no Arquivo de Imigração (Imigração Hespanhola para o Brasil - Decênio 1595-1605). Não temos nenhum motivo para questionar essa informação.


MAS, ENFIM.


Mas, enfim, qual é a conclusão, após toda essa exposição?


Primeiramente, em relação ao ataque holandês à Vitória, em 1625. É fato histórico, comprovado por diversas fontes, conforme demonstrado.

Quanto ao fato narrado por Britto Freire. Considerando a dedicação na produção de sua obra e as palavras de abono de especialistas na temática, acreditamos que o mesmo colheu essa informação através de algum cronista ou relato de quem esteve presente, ou ouviu de quem esteve presente. Não teria tido nenhum motivo para inventar esse fato. Assim, devido à quase contemporaneidade de sua obra, inclino-me a acreditar em sua veracidade. Tal fato provavelmente ocorreu, e foi fixado na memória dos contemporâneos. Trinta, ou quarenta anos depois, Britto Freire o colheu.

Nesse caso, em minha opinião, é verdadeira a história de uma mulher que despejou um tacho de água fervente sobre os soldados, ou sobre o comandante da tropa holandesa, quando estes investiam contra a Vila de Vitória. Não é nem um pouco inverossímil, apesar de podermos nos perguntar o porquê da mulher não ter se evadido da Vila, como fizeram as mulheres e crianças segundo uma das fontes primárias. Tal feito, obviamente, não seria o suficiente para bater os holandeses, como a crônica posterior acabou dizendo em sua elevação da heroína. Aquele seria apenas um, dentre tantos, dos atos isolados de abnegação e de coragem no curso daquela batalha; mas que, talvez, tenha sido fixado na memória contemporânea pelo fato inusitado e por tratar-se de uma mulher.

Quando à firmação de uma tradição que perpassou os tempos por mais de duzentos anos, até que foi depois registrada por José Marcelino Vasconcellos, não sou inclinado à acreditar. Afinal, como demonstramos, no início do século XIX os capixabas não conheciam os protagonistas e os heróis da batalha de 1625. Não temos a mais vaga ideia de como Vasconcellos encontrou o nome que grafou como Maria Urtiz. Ou o conseguiu com alguma família que guardava essa história, o que não creio ser muito provável, ou conseguiu folheando algum arquivo de Igreja em busca de algum nome que pudesse usar para personalizar e individualizar a mulher anônima que, em 1625, despejou a água fervente sobre os holandeses. Tal fato seria possível, caso reste comprovado que uma certa Maria Ortiz, nascida no Espírito Santo e filha de pais espanhóis, realmente tenha existido. Infelizmente, porém, diante da ausência de fundamentação por parte de Vasconcellos, e diante da ausência de documentos, não podemos afirmar que, caso exista Maria Ortiz, esta seja a mesma mulher que esteve na peleja de 1625.

Quanto à existência de uma mulher chamada de Maria Ortiz, nascida no Espírito Santo, e diante da riqueza de detalhes levantadas por Queiróz do Valle sobre seus pais e as datas de seu nascimento e óbito, bem como a referência de um Arquivo de Imigração, sou inclinado à acreditar na veracidade. Isso porque não seria tão difícil para alguém verificar se esses dados são verdadeiros, uma vez que foram provavelmente coletamos em um Arquivo que, imagino, ainda pode ser consultado. E nada impediria que essa Maria Ortiz fosse, sim, a mulher anônima de Britto Freire em 1625.

Quanto à Carta-Relatório, trazida a luz num momento de dúvida não só sobre a existência de Maria Ortiz, mas também, por associação, sobre a veracidade do feito narrado por Britto Freire, sou muito cético. Não creio que uma prova tão inconteste, em um momento que a história de Maria Ortiz começou a ser classificada como sendo uma lenda, ficasse relegada a mofar guardada em um baú. Quando o Barão de Guandu faleceu, em 1899, dois anos depois de ter entregado a suposta cópia autenticada da Carta-Relatório, a questão de Maria Ortiz ser real ou lendária já estava germinando no meio da intelectualidade capixaba. Bastaria apresentá-la para dirimir quaisquer dúvidas sobre a heroína. Mas essa carta, ao contrário, teria ficado na escuridão por mais de quarenta anos, até ser revelada por Queiróz do Valle. Sem falar que, após a criação do IHGES em 1916, houve enorme estímulo público para a produção de uma biografia da heroína. Assim, não acredito na veracidade dessa carta. Se, acaso existir, imagino que seja apenas um fragmento de alguma crônica fictícia que foi escrita por alguém; talvez feita pelo próprio Barão de Guandu.


Diante de tantas palavras, para mim resta claro que existiu um mulher, presente naquele dia de 1625, que juntamente com os outros defensores da Vila de Vitória praticou um ato de heroísmo; e que tal feito ficou guardado na memória dos contemporâneos, até que foi colhido por Britto Freire cerca de 30 ou 40 anos depois. Também acredito que naquela época havia uma mulher chamada Maria Ortiz que, porém, não sabemos se era a mulher que derramou a água fervente, ou se teria se evadido da Vila como fizeram as mulheres e crianças.

Mas não importa. Seja a mulher anônima "A" Maria Ortiz, ou seja outra, e considerando que o tempo já consagrou como sinônimo de heroína o nome citado, temos certamente "UMA" Maria Ortiz que, com denodo, ajudou os defensores da Vila de Vitória derramando um tacho de água fervente em cima dos inimigos holandeses.


Gerson Moraes França





PRIMEIRA FONTE:

Annua da Missão da Capitania do Espírito Santo, do anno de 1624, e 1625 mandada a Roma pelo padre Antonio Vieira (1626)

Tambem esta Capitania do Espírito Santo sentio o poder das armas Hollandezas, ainda que com melhor fortuna sahiram da Bahia oito náos inimigas para o reino de Angóla, com intento de entrarem a cidade de Loanda, como tão importante para o commercio do Brazil, cuja cabeça estava já rendida, mas não correspondeu o sucesso ao desejo, que ainda que um mez inteiro trabalharam na empreza, como o animo dos moradores Portugueses era grande, e a vigilancia igual nunca lhe foi possivel pôr pé em terra.
Voltando pois para a Bahia, antes de chegar a ella 100 legoas para o sul, entraram no porto do Espirito Santo a 12 de Meio de 1625 confiados que por bom concerto, ou ruim guerra a villa se lhes entregaria, ou elles a renderiam como bem mostravam na entrada, publicando por uma parte a altas vozes, e por outra com despairadas bombardas ameaçando guerra.
Não havia na povoação defensa de artilheria, pelo que com mosquetes e frexas se dividio a gente pelas trincheiras, que fechavam as bocas das ruas nos passos mais necessarios, esperando a determinação do inimigo, e foi esta que por entre o fumo, e perturbação dos tiros, aparelhou sete lanchas com o melhor dos soldados, e ainda marinheiros, os quaes sahindo das náos, e saltando livremente em terra começaram a marchar para a Estancia do capitão Francisco de Aguiar Coutinho, que tambem o era da villa e senhor della, ou seu donatario.
Estava aqui uma roqueira (que não havia outra na terra), e tanto que foi vista dos inimigos, para evitarem o perigo desfizeram as fileiras, e arrimando-se todos às paredes continuaram a entrada: vendo isto o animoso capitão, manda pôr fogo à roqueira, o que não foi debalde, e logo successivamente salta fóra das trincheiras com poucos que o seguiram: conjecturaram os Hollandezes que tanto animo vinha confiado em maior poder de gente, e sem fazer rostro deram as costas, e largaram as armas; os nosso lhe foram dando até à praia com tal valor e ventura, que além do grande numero de feridos morreram muitos, uns em terra à espada, outros no mar afogados.
Ficaram elles com a desgraça mui sentidos, e bem o mostravam os tristes e desconcertados gritos, que nas suas náos levantavam, e na nossa villa se ouviam; quiseram no dia seguinte recuperar o perdido, mas nas fazendas que estão pelo rio acima, mas dobraram perda, porque o capitão Salvador Corrêa de Sá, filho de Martim de Sá, governador do Rio de Janeiro, vinha este fidalgo de soccorro por ordem de seu pae ao cêrco da Bahia, com duas caravellas, e quatro canôas, não se tendo achado no dia d'antes no assalto por guardar a sua estancia os foi esperar, e tendo elles já tomado sua barcaça os acommetteu com as canôas, e os apertou de maneira às frechadas, que sendo mortos quarenta, langando uma lancha, e à força do remo escaparam.
Com estes ruins successos desesperados já de sua fortuna o generalissimo mandou ao outro dia (que era o terceiro da entrada) um recado ao capitão, em que lhe pedia um sobrinho seu, que ficára prezo entre nós, offerecendo resgate, e que os padres da Companhia lhe mandassem algum refresco pelo bom agazalho que lhe fizera aos outros padres, que na Bahia foram tomados.
Ao que respondeu o capitão, que quanto ao primeiro, seu sobrinho devia morrer na briga, que o não tinham prezo: ao segundo, que não havia na terra outro refresco senão o que nos dous dias prècedentes elles tinham experimentado, e com este estava aparelhado para os receber a qualquer hora, que viessem; ouvida a resposta levaram ferro no mesmo dia, e se foram de volta do norte.
Em um e outro encontro se acharam os nossos padres; no primeiro os que residiam na villa, no segundo dous que em companhia do capitão Salvador Corrêa vieram do Rio de Janeiro: e assim uns como outros não faltaram nem à guerra, nem aos soldados antes della. Tambem os que residiam nas aldêas no ponto que souberam o que passava se partiram com os Indios a toda a pressa, posto que já quando chegou o soccorro (como a jornada é comprida) não foi necessario. E em uma destas aldêas foi Deus servido levar para si o irmão Antonio Froio, estudante, com uma morte mui repentina, porque andando achacozo o acharam morto.
Sentio-se geralmente esta morte por ser assim apressada, mas muito mais sentido fôra se o imão não andára bem apparelhado, como andava, alem de que em toda a sua vida foi muito edificativo, e resignado na obediencia, e já póde ser que por obedecer viesse esta morte cauzada das chuvas, passagens de rios, e outros muitos trabalhos que fôra posto, padecia continuadamente. Falleceu no ano de 1625, de idade de 28 annos, com oito de Companhia.


SEGUNDA FONTE:

Relação Universal do que succedeo em Portugal, & mais Provincias do Occidente, & Oriente, desdo mes de Março de 625 até todo Setembro de 626, de Manuel Severim de Faria (1627)

Outra assinalada vitoria tiverão os nossos, dos Olandes, na Capitania do Espiritu Sãto, q se pode ter por milagrosa, vista a deshigualdade das armas, & gente; a que os nossos herão mui inferiores em numero.

Em dez de Março de 1625 aparecerão, à vista d'aquella costa, oito véllas de Olandeses, de q ouve tam grande sobresalto, na Villa, como se não teverão os inimigos por vezinhos avia menos d'hü anno: começarão logo, as molheres, & mininos, a despejar as casas, & a se acolherem ao mato, enchendo tudo de lastimoso pranto. Com tudo o Capitão Francisco d'Aguiar fez ajuntar a gente, a qual hera tam pouca, & mal armada, q na estancia do Governador, q hera a melhor, se acharão doze Espingardas, & os mais não tinham outras armas que Espadas, & Rodelas. Esse abominavel descuido cõ que os nossos Portugueses vivem, fora da barra, com tanta segurança como se estiverão no sertão de Portugal, os tem muitas vezes trazidos ás maiores miserias do mundo, pois peleijando sem armas, cõ inimigos armados, de força hão de ser vencidos, ou escapar por milagre do Ceo, & alli perdem as fazendas, & liberdade, não por falta de valor, mas de instrumentos de sua defenção, no qual se empregarão hua pequena parte do q empregão c outras mercadorias não vierão, por poupar pouco, a perder tudo, & o que peor he a honra, & reputação do mesmo Reyno. Quiz Deos que nessa occasião estivesse, no Espiritu Santo, Salvador Correa de Sá filho do Governador do Rio de Janeiro, com quarenta Portugueses bem armados, & setenta Indios de Frechas, que levava de socorro para a Bahia, cõ essa gente, & com a da terra, fez o Capitão tres estancias, que poôs nas bocas das ruas que sahião para a praya. Entretando entrou o inimigo, com todas as vêllas, polo Rio acima, onde podera, facilmente, ser destruido, se quatro peças q avia na Villa as poserão nos lugares q ficão sobre o Rio, & estão fortificados para este effeito, porem, como isto faltou, surgirão os Olandeses no Porto, cõ grande estrõdo d'Artelharia, & lançarão fora trezentos homens mosqueteiros, que tomãdo terra, sem cõtradição, se vierão para a Villa aberta por tod'aparte, sem mais Muros, nem Trincheiras que os peitos dos que a defendião. Cometerão primeiro os nossos valerosamente, & entre todos se travou a peleja, que durou mais de hum quarto d'hora, atê que vendo o Padre Guardião de Sam Francisco, Frey Manoel do Espiritu Santo, q andava na estancia de nossa Senhora da Vitoria, animando os nossos, como os inimigos cometidos por hum lado mostrarão fraqueza, gritou vitoria, vitoria, a cuja voz rendidos elles deixarão logo as Armas, & começarão a fugir: vendo isto, os das outras instancias apertarão os cõtrarios, de maneira, que em breve espaço, huns, & outros, virarão todos as costas, fugindo para as Lanchas: seguirão os nossos o alcance, porem, sendo tam pouca a gente, fez o Capitão sinal a recolher, por não acontecer algum desastre, contentandose cõ ver o campo coberto de inimigos nossos, & dos despojos de suas armas, sem faltar, da nossa parte mais de hum soldado. Tornarão os Olandeses, ao outro dia, a tentar de novo a fortuna, mas não lhes sahiu melhor sorte, por q tomando terra em maior numero, vendo morto hum cõpanheiro, de hua seta q lhe tirarão da Villa, se tornarão a embarcar, sem quererem, segunda vez, experimentar o valor dos nossos. A a fama desses bõs succesos acudia muita gente do mato á Villa, querendose, até os cobardes, gloriarse da vitoria; o q sentindo os inimigos determinarão hir polo Rio acima a asaltar o mato, q não tinha mais que molheres, para isto partirão c quatro embarcações guiadas por hum estrangeiro, q fôra morador na dita Villa. Esta inesperada resolução causou tam grande sobresalto nos nossos (por q todos tinhão suas familias, & fazendas fora, a q se acodissem desempararão hua, & outra parte) polo q ordenou o Capitão môr a João d'Azevedo, q cõ alguma gente fosse a vista do inimigo, com tudo, elles, que hião diante, tomarão varias Canoas, & hum Caravelão de Salvador de Sá, que estava quasi despejado, & passando a noite, cõtentes cõ esta preza, os nossos se ajuntarão intertanto com Salvador de Sá, & sahindo ao outro dia de huma emboscada, cõ tres Canoas, derão nos inimigos cõ tanta furia, q lhe abalroarão a Lancha principal, sem deixar nella mais de dous com vida; as outras se recolherão com tanto dano, que em huma sós quatro escaparam da morte, & assi ficarão os nossos senhores do campo, custanto a vida dous homens, & alguns feridos. Desesperados os Olandeses de melhor successo, derão á vêlla a dezoito de Março, deixando mortos mais de cem homens, em q entrou o seu Almirante, & o trahidor Rodrigo Pedro, q hera casado no lugar, & ainda q os dias que estiverão no Porto meterão mais de oitocentos, & cincoeta Pelouros na Villa, não fizerão dano de cõsideração.


TERCEIRA FONTE:

História do Brasil, 1500 - 1627, Capítulo Trigésimo Sétimo, De como Salvador Correia do Rio de Janeiro e Jerônimo Cavalcanti de Pernambuco vieram em socorro à Bahia e o que lhes aconteceu com os Holandeses no caminho, de Frei Vicente do Salvador

Em o Capítulo Vigésimo Oitavo deste livro dissemos como, depois da Bahia tomada pelos holandeses, foi o seu almeirante Pedro Peres com cinco naus de força e dois patachos pera Angola. O fim e intento que os levou foi pera a tomarem e dela poderem trazer negros pera os engenhos, pera o qual diziam que se haviam contratado com el-rei de Congo, e na barra de Loanda andavam já outras naus suas e tinham queimados alguns navios portugueses e feitas outras presas em tempo que o bispo governava pela fugida do governador João Correia de Sousa. Porém, como lhe sucedeu no governo Fernão de Sousa e teve disso notícia, se aprestou e fortificou de modo que quando os holandeses chegaram não puderam conseguir o seu intento, nem fazer mais dano que tomar uma nau de Sevilha que ia entrando e dois navios pequenos.
E assim se tornaram à costa do Brasil e entraram no rio do Espírito Santo a 10 de março de 1625, onde havia poucos dias era chegado Salvador Correia de Sá e Benevides com duzentos e cinquenta homens brancos e índios em quatro canoas e uma caravela que seu pai Martim de Sá, governador do Rio de Janeiro, mandava em socorro da Bahia, o qual ajudou a Francisco de Aguiar Coutinho, governador e senhor daquela terra do Espírito Santo, a trincheirar a vila, pondo nas trincheiras quatro roqueiras que na terra havia, e desembarcando os holandeses lhes tiraram com uma delas e lhes mataram um homem. E depois de entrados na vila lhe saíram os nossos por todas as partes, com grande urro do gentio, e lhes mataram trinta e cinco e cativaram dois, sendo o primeiro que remeteu à espada com um capitão, que ia diante, Francisco de Aguiar Coutinho, dizendo-lhe: "Se vós sois capitão, conhecei-me, que também o sou", e com isto lhe deu uma grande cutilada, com o que derribou em terra.
Também o guardião da casa do nosso padre São Francisco, frei Manuel do Espírito Santo, que andava com os seus religiosos animando os nossos portugueses, vendo já os inimigos junto às trincheiras, se assomou por cima delas com um crucifixo dizendo: "Sabei, luteranos, que este senhor vos há de vencer". E com isto, vendo-se livre de um chuveiro de pelouros, se foi ao sino da igreja matriz que ali estava perto, e o começou a repicar publicando vitória, com que a gente se animou mais a alcançá-la, de sorte que o general dos holandeses se retirou pera as naus com perto de cem feridos de trezentos que haviam desembarcado, e alguns mortos, entre os quais foi um o seu almeirante Guilherme Ians, e outro o traidor Rodrigo Pedro, que na mesma vila havia sido morador e casado com mulher portuguesa e, sendo trazido por culpas a esta Bahia, fugiu do cárcere pera Holanda, e vinha por capitão de uma nau nesta jornada. E com esta raiva mandou o general uma nau e quatro lanchas a queimar a caravela de Salvador Correia, que havia mandado meter pelo rio acima em um esteiro, mas ele acudiu nas duas canoas e lhes matou quarenta homens, e tomou uma das lanchas.
O dia seguinte escreveu o general a Francisco de Aguiar em este modo: "Vossa Senhoria estará tão contente do sucesso passado, quanto eu estou sentido, mas são sucessos da guerra; se me quiser mandar os meus, que lá têm cativos, resgatá-los-ei; quando não, caber-nos-á mais mantimento aos que cá estamos".
Isto lhe escreveu o general cuidando que ficaram na terra menos mortos e mais cativos, mas nem esses poucos lhe quis mandar o governador, e assim fez o holandês à vela em 18 de março, e se partiu com muita pouca gente, donde em saindo topou com o navio dos padres da Companhia, em que nos haviam tomado, e os mesmos holandeses haviam dado a Antônio Maio, mestre do navio de D. Francisco Sarmiento, em troco do seu, e vinha já outra vez do Rio de Janeiro carregado de açúcar pera a Ilha Terceira, o qual trouxeram até a barra da Bahia. (...)


QUARTA FONTE:

Historia ou Annaes dos feitos da Companhia Privilegiada das Indias Occidentaes desde o seu começo até ao fim do anno de 1636, de Johannes de Laet (1644)

O almirante Pieter Pietersz. Heyn (Pieter Hein), que deixamos o anno passado no rio de Congo, partio com todos os navios aos 2 dias do mez de Janeiro deste anno, e depois de andar divagando por algum tempo por respeito das correntes e ventos, quando veio ao dia 7 do mesmo mez, amanheceu obra de quatro léguas ao norte do porto de Loango, que esta situado em altura de 4º37’. Sao fáceis as conhecenças deste lugar: há ao sul delle moutas, que de longe semelham pequenos castellos, e quatro leguas ao norte veem-se duas colinas, que chamam Mamas ou Tetas de Mulher. Ao outro dia juntaram-se com elle as chalupas, que anteriormente haviam sido mandadas sahir do rio em procura de refrescos; poucos trouxeram para tanta gente, pelo que ordenou o almirante que os navios andassem espalhados por essas costas até ao dia 18 do corrente mez, com fundamento que topariam navios portuguezes. O Meermin seguira adiante, e surgira em altura de 1º40’, na qual altura a pouco e pouco se juntariam todos os navios para de conserva irem tomar a ilha de Anno Bom, onde se procurariam refrescos. Mas, reconsiderando a sua ordem, o almirante comunicou aos navios por cartas datadas do dia 14 que não convinha avançassem para o norte além dos 2 gr., para o efeito de irem buscar com mais segurança a ilha de Anno Bom. Com quase todos os navios tomou o almirante esta ilha aos 19 dias, e o navio Hollandia a 29, , e nella encontraram muitos refrescos. Esta ilha, segundo observou Willem Jansz., demora em altura de 1º30’; tem muitos porcos, laranjas, limões, e muito boa agua. O governador tratou os nossos com amizade, ainda que com medo, depois que soube que aquelles navios haviam tomado parte na rendição da Bahia. Tendo bem refrescada a sua gente, se determinou o almoirange a fazer a travessia da costa do Brazil, assim para andar ás pressas pelas capitanias do Rio de Janeiro e Espírito Santo, donde lhe constava partirem na primavera alguns navios, com carga de assucar e outros fruetos da terra, como também e principalmente para voltar à Bahia a ver se lá tinham necessidade dos seus serviços. Partio da ilha de Anno Bom a 2 de Fevereiro. Pelas muitas calmarias e ventos variáveis, que o molestaram, andou muito tempo retido pelos 2 gr. De latitude meridional. A 17 foi servido pela primeira vez de um vento fresco do sudeste; era em algura de 0º8’, e no último do mez de 15 ½ gr. A 3 de Março, sendo chegado quase em altura de 19º, assentou de seguir para o Espirito Santo, onde faria um salto. A 9 houve vista da costa do Brazil, da qual estava apartado obra de quatro léguas; tomou sonda em dezoito braças; ao sudoeste terra mui grossa, ao noroeste baixa e assentada; ao meio-dia altura de 19º48’ de lat. Mer. Ao outro dia avistou a Serra do mestre Alvaro, mas, vendo que não podia entrar no rio com dia, fez-se algum tanto ao largo, por não ser visto dos de terra. Ao romper do dia 11 estava apartado légua e meia do rio, e, como os navios estavam algum tanto espalhados, esperou-os até ao meio-dia, quando levantou-se o vento sudoeste; foi navegando de longo da costa até que abrio-se o rio, e endireitou então para elle. Não encontrou o almirante fundo menor de dezenove pés entre as ilhotas, que é onde há mais agua, e ainda se pode aproveitar da maré de aguas vivas, que aqui as ocasiona a lua ao rumo do sudoeste. Sobre a noite foi empecido pela maré vazante, e teve de surgir em seis braças. Ao outro dia juntou o conselho, e nelle assentou-se a ordem, que teriam na facção contra a cidadezinha do Espirito Santo. O mais das forças consistia em marinheiros, pouco feitos a jornadas, e não costumados a guardar ordenança militar; tendo conta com este inconveniente, resolveu-se que os marinheiros fossem divididos em três companhias, e como desembarcassem, assim se ordenassem as fileiras, que caminhassem dous marinheiros ladeados de dous soltados. Ao meio-dia melhorou o almirante para dentro do rio com vento do mar, navegou tanto avanta como a praça, e surgiu um tiro de fronda da praia, ficando os navios dispostos um atraz do outro, de maneira que podessem jogar contra a praça toda a artilheria de uma banda. Mettida a gente nos bateis, largaram estes para a náo almirante, donde seguiram todos os nossos juntos para terra, e aqui se puzeram em ordem de batalha. Mas, como havia pouco espaço para arrumar toda a gente, o almirante avançou um pouco com oito ou dez fileiras. Os habitantes desta praça, informados da chegada dos nossos, se haviam apercebido para resistir, e assestaram um morteiro de bronze contra o caminho, que os nossos tinham de enfiar, e deram-lhe fogo, tanto que nos poderam alcançar. Vendo isso, salta o almirante para o lado, amparando-se atraz de uma casa, e apenas soa o tiro, apresenta-se de novamente, animando a sua gente a dar bravamente sobre o inimigo; mas, pois os officiaes e particularmente os capitães ainda não estavam na frente, nem as fileiras se achavam dispostas, segundo a ordem determinada, estando quase todos os marinheiros adiante, já estes não atendiam ás vozes, e entraram a cuidar de si, receiosos da artilheria. O almirante trabalhou com eles que avançassem, mas embalde, que o medo lhes ia lavrando pelos peitos. Voltaram costas em grande confusão, e recolheram-se aos navios com perda de oito homens, e outros tantos feridos. Na fugida alguns lançaram de si as armas. Não obstante o malogro do accommettimento, ao outro dia o almirante mandou os dous hyates, duas chalupas e dous bateis subirem o rio, a ver si topavam nelle navios ou barcos, e ao mesmo tempo entrou a atirar sem parar com suas peças grossas contra a cidadezinha, cujos moradores lhe responderam bravamente com tiros de moesquetes. A 15 voltaram os hyates com perda de um batel, em que havia vinte e cinco homens e quatro pedreiros. O caso foi este: tendo subido o rio obra de duas léguas e meia, acharam um barco que esbulharam e queimaram; as chalupas e os bateis continuaram a navegar para diante, mas, acalmando o tempo, não poderam aquellas prosseguir; seguiram pois somente os bateis, e ao montar de uma ponta foi um deles assaltado por três canoas, cuja gente o tomou e matou os nossos marinheiros, pelo que retrocedeu o outro batel. O almirante conjecturando que alguns dos seus estivessem presos, mandou recado ao governador que os soltasse, mas este respondeu-lhe que os indígenas haviam morto toda a nossa gente, e espedaçado o batel. A 18 os navios deseeram para um monte que, pela sua forma, chamam Pão de Assucar, e às pressas os limpram um pouco. A 21 as chalupas e pequenos bateis foram mandados procurar as maiores profundidades do rio, e balizal-as; acharam que o maior fundo, que tem o canal, é treze pés. Sahiram os navios, navegando perto da margem meridional e em distancia de obra de um tiro de fronda do parcel, que está pegado com a dita margem septentrional. Este rio corre geralmente leste oeste, encolhendo-se e bojando até ao Pão de Assicar; aqui alarga-se arrumando-se ao lesnordeste, para o lado da cidadezinha, que demora apartada da barra obra de légua e meia. Na margem septentrional, cousa de uma légua da barra, há um castelinho de pouca força.

A 31 era em altura de 20º, e a 5 de abril na de 19º. A 6 avistou uma vela estrangeira, que foi perseguida e tomada por volta de meio dia; vinha do Rio de Janeiro com carga de cento e trinta e cinco caixas de assucar. Sabendo pelos prisioneiros que no Rio de Janeiro havia mais dous navios, que estavam de verga d’alto, um com quatrocentas caixas, e o outro com quatrocentas e cincoenta, o almirante determinou estanciar por aqui mais algum tempo. A 8 houve vista de um daqueles navios, a que os nossos deram caça até sobre a noite, que foi quando elle conseguio se escapar. Juntaram-se outra vez os navios, menos o do almirante e sua chalupa, mas, quando veio ao outro dia, reapareceu a almirantada. Estando todos juntos, menos a chalupa do almirante, a 12 foram em altura de 17º38’, e em distancia da costa, segundo calcularam, cinve e seus léguas; e nada obstante deram em fundo pedregoso; mas na manhã de 14 o leito do mar aprofundou-se rapidamente; altura tomada ao meio dia 17º45’. Ao seguinte dia houve vista outra vez da costa do Brazil em altura de 15 gr. E um terço. Ao outro dia estava em frente de Camamú, e porfiou por entrar na Bahia, mas não lhe terçou bem o vento.


QUINTA FONTE:

Nova Lusitânia - História da Guerra Brasílica, de Britto Freire (1675)

176 - O Almirante Perez passa a Angola
Partio tambem Pedro Perez com oito náos, a cõmeter a Cidade de Loanda, cabela principal dos Reynos de Angola. Ou tomar posto, para introduzir o comercio dos Negros; sem os quaes não podem concervarse os engenhos de assucar. Intento que lhe frustrou a cudadosa diligencia do Governador Fernão de Dousa, conseguindo só a presa de coatro vellas desprevinidas, & limitadas, de Outubro até Dezembro, que o detiverão mayores esperanças, em aquela parajem.
177 - Tenta a Capitanìa do Espiritu-Santo
Voltando ao Brasil, o levou a fortuna, onde fez delle huma ridicula zombaria, para lhe faser brevemente os mais assignalados favores. Rodrigo Petry, Capitão de hum dos seus navios, que com temor da justiça, por delinquente facinoroso, depois de larga assistencia, se ausentou da Capitanìa do Espiritu Santo, persuadio o Perez, que assaltasse nella, a Villa da Victoria, em altura de vinte gráos, ao Sul da Bahia.
(...)
185 - Desembarcão os Olandeses
(...) constava agora de coatro-centos vizinhos a Villa chamada da Victoria, que conservou sempre da primeira, o titulo do Espiritu-Santo mais geralmente. Quando entre a repentina confusão dos Moradores, foi mal defendido aos Olandeses, o desembarcar, & subir pela barra, estreita, & igualmente dificultosa. Rebateos Francisco de Aguiar Coutinho, Donatario desta Capitanìa, em este tempo, pelo esforço, & socorro de Salvador Correa de Sá, & Benavides. Que trazido da providencia da fortuna, para remedio daquela Praça, entrou no porto casualmente, mandando-o seu pay Martim Correa de Sá, Governador do Rio de Janeiro com 200 soldados, & custoso luzimento, a se achar (como achou) no sitio da Bahia.
186 - Retirãose carregados dos Nossos - Tormão a encestir, & a se recolher - Ridiculo successo do Almirante Perez
Mortos quarenta & coatro dos Inimigos, & retirados os mais; tornando em o dia seguinte, a experimentar no segundo combate, o primeiro successo, huma molher Portuguesa, escolheu ao Perez por singularidade na differença do trajo, & lugar da pessoa, para lançarlhe do alto da casa, hum tacho de agoa fervendo sobre a cabeça. Não o pode molestar braço algum varonil, & molestou-o aquela mão feminina.
187 - Dano que fez Salvador Correa ao Inimigo
Ultimamente, por tentar, tudo o que era possivel cometer, subio com duas náos, & coatro lanchas, assima da povoação, a dar noutra de huns engenhos, que como menos principal, & mais afastada, estava sem defensa. Mas Salvador Correa, que animando os Companheiros, buscava aos Contrarios, lhes tomou huma lancha; morrerão trinta & oito, embarcárãose os mais; & seguirão em direitura a derrota de Olanda: descobrindo com espantosa vista, cercada já do nosso exercito, & da nossa Armada, a Cidade, & Porto da Bahia.



(1) Buscando revisitar e desmistificar essa questão, A Gazeta de 05/07/2015 publicou o artigo "Cafetina ou heroína? Conheça a verdadeira história de Maria Ortiz".


EDIT (20/12/2024) >
Em 2019 encontrei uma sexta fonte primária que trata do ataque holandês à Vila de Vitória. Essa fonte (que está escrita em espanhol), embora publicada nos Anais da Biblioteca Nacional em 1950, passou despercebida na hitoriografia capixaba. Publiquei, há poucos dias no presente Blog, sua transcrição. Está no link que segue abaixo:


terça-feira, 21 de junho de 2016

Os Pontões de Conceição do Muqui

Pico dos Pontões - Fonte da foto: www.folhavitoria.com.br

No último dia 05 de junho, o atleta de wingsuit Fernando Brito faleceu após saltar da pedra da Gávea, no Rio de Janeiro. O lamentável fato causou comoção no meio esportivo e, também, foi lamentado em Mimoso do Sul, Espírito Santo. Isso porque, pouco tempo antes da tragédia, o atleta fez um salto e conseguiu passar pela fenda que separa os picos dos Pontões, ponto culminante do referido município. Sua façanha foi registrada em matéria que foi ao ar na televisão, permitindo-nos admirar os Pontões de ângulos nunca antes vistos. A reportagem, para quem quiser ver, pode ser acessada clicando-se no link que segue:
Fernando Brito e o pico dos Pontões

Os Pontões estão localizados no distrito de Conceição do Muqui, pertencente ao município de Mimoso do Sul. Chamada de "terra fria" pelas suas altas altitudes, Conceição é grande produtor de café. Sua sede, uma pequena vila de mesmo nome, é um dos mais antigos núcleos da região. Os Pontões receberam esse nome por causa de seus enormes picos pontiagudos, que projetam-se verticalmente formando grandes pontas. Sua altitude é, segundo as mais recentes medições, cerca de 1.400 metros acima do nível do mar.

Sua imponência foi notada já na década de 1840, ainda quando a região estava sendo explorada e povoada; um mapa de 1847, confeccionado entre os anos de 1843 e 1844, já sinalizava a presença dos Pontões, e já com esse nome. Em 1885, um presidente da então Província do Espírito Santo esteve em visita à localidade, chamando os picos de "Línguas de Pedra"; mas sua designação ilustrada não eclipsou o já tradicional e antigo nome, que perdura até os dias atuais: Pontões do Muqui ou, simplesmente, Pontões. A importância dada pelo município de Mimoso do Sul ao seu ponto culminante é retratada em seu brasão e em sua bandeira, que adotaram os Pontões como figura central.

As primeiras tentativas documentadas de se conquistar os picos dos Pontões, escalando-os, foram realizada em 1957, após explorações técnicas realizadas em 1955. O primeiro dos pontões foi conquistado em 14 de julho de 1957. Mas as conquistas do segundo e terceiro dos pontões não foram levadas adiante. Uma tentativa de se conquistar os pontões restantes foi realizada em julho de 1958; sem sucesso, após nove dias interruptos de chuva. Foi somente em 18 de julho de 2005, quase cinquenta anos depois, que uma equipe conseguiu, pela primeira vez, escalar e conquistar os três pontões.


A conquista dos Pontões, em 2005, com sua rota.
Fonte da foto: "A Conquista - Uma estória de aventura", disponível em www.facebook.com

Por: Gerson Moraes França

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Coelho dos Santos - Silvestre e José, Mestre e Doutor. (Parte 1)

Doutor José, filho de Mestre Silvestre

Construir uma narrativa histórica sobre uma personagem pouco documentada não é tarefa fácil. Longe dos holofotes dos jornais, mestre Silvestre, nascido escravo e falecido fazendeiro, deixou poucos documentos conhecidos que pudessem nos nortear em uma construção mais detalhada de sua história. Restou sedimentada de sua passagem pelo mundo, porém, a sua memória: um negro escravo que, laborador nos oficios de carpinteiro e pedreiro, e com o fruto de seu trabalho, conseguiu comprar a própria alforria e, mais tarde, conseguiu formar o filho na Faculdade de Medicina da Côrte, no Rio de Janeiro. Isso foi o que a memória guardou.

Assim, foi com essa parca - porém elucidativa - documentação que consegui dispor, que iniciei esse escrito sobre mestre Silvestre. Certamente, um biógrafo que se debruce com mais afinco ainda descortinará muitos mais documentos. Não fiz detalhadas pesquisas cartorárias ou paroquiais, que demandam tempo e recursos. Mas acredito que com o que pudemos reunir, podemos dar um ponta-pé inicial bem fundamentado sobre a sua vida. Deixemos que um pesquisador, no futuro, traga mais luz à essa interessante história. E, também, que possa corrigir algum equívoco que, porventura, eu possa ter cometido.

Primeiramente, a sua origem. Como descobrir de onde teria vindo mestre Silvestre? O mais antigo documento que consegui "garimpar" que cita a presença de mestre Silvestre na região do médio Itabapoana é datado de 1863. Exatamente o mesmo ano que nasceu um de seus filhos, José. Assim, mestre Silvestre teria sido um dos primeiros povoadores da região de São Pedro de Itabapoana. De posse dessa informação, somando com alguns fatos que averiguei depois, logo levantei a presunção de que ele poderia ter vindo de Minas Gerais. Houve um intenso movimento de migração, nessa época, de uma região mineira para o médio Itabapoana. A região de Oliveira, Bonsucesso e entornos, de onde saíram muitos dos primeiros fazendeiros de São Pedro do Itabapoana.

Como, conforme disse eu, não tinha tempo e nem recursos para pesquisar nos registros cartorários e paroquiais contemporâneos (teria que pesquisar nos cartórios de São Pedro e Mimoso, em arquivos paroquiais em Apiacá e nos arquivos da antiga Freguesia de São Luiz Gonzaga - Limeira - que estão guardados em Campos), resolvi compulsar antigos censos demográficos de Minas Gerais, na esperança de encontrar alguma luz. E, interessantemente, acredito que encontrei o que procurava. Fiz uma intensa busca nos registros dos censos mineiros de 1831/32 e 1838/40, disponibilizados pelo NPHED/Cedeplar da UFMG. Minha "missão" foi ler os registros de todos os censos, de todas as freguesias, de todos esses anos, em busca da seguinte informação: haveria algum escravo de nome "Silvestre" trabalhando para alguma família com o sobrenome "Coelho dos Santos"?

E por que isso? O nome completo de Silvestre, quando já livre e morador na freguesia de São Pedro do Itabapoana, era Silvestre Coelho dos Santos. Considerando verídica a informação que a memória guardou - de que era ex-escravo - , imaginei que com essa cansativa busca eu poderia encontrar quem eu procurava. Isso porque, na época, os escravos não possuíam, via de regra, sobrenome. No máximo uma alcunha, geralmente relacionada com a "raça" ou com a região africana de onde vieram. Quando alforriado, era de praxe que o ex-escravo tomasse para si o sobrenome da família de seu antigo senhor. Assim, explica-se porque procurei, em todos aqueles censos, algum escravo de nome "Silvestre" que trabalhasse para alguém de alguma família "Coelho dos Santos".

E, conforme disse mais acima, encontrei. Numa busca muito trabalhosa, encontrei apenas um único caso que combinou um escravo de nome "Silvestre" com uma família de sobrenome "Coelho dos Santos". Era um indício forte. E, daí em diante, ao analisar melhor esse caso único, as "coincidências" foram aumentando. Esse jovem escravo Silvestre era um dos poucos, das dezenas de escravos daquela família Coelho dos Santos, que tinha um ofício: era carpinteiro. E mais; a região aonde viviam era a mesma região de onde partiu significativa porção dos primeiros povoadores de São Pedro do Itabapoana: Bonsucesso e Oliveira. Os dados batiam. Tudo indicava que minha busca foi bem sucedida.

É importante que se diga, porém, que esses elementos são enorme indício, mas não são fulcrada prova. Destarte, considerando que servem como boa fundamentação, trabalharei doravante com essa tese. Conforme disse, no futuro, um pesquisador que esteja biografando a personagem aqui estudada pode levantar maiores e melhores elementos, corrigindo distorções e/ou alumiando omissões.

De posse dessa informação, foi possível estabelecer o ano de nascimento de Silvestre: 1813. Era classificado como "crioulo", ou seja, um escravo negro nascido no Brasil. Aos 18 anos já exercia o ofício de carpinteiro. De todas as dezenas de escravos homens da família Coelho dos Santos, apenas quatro exerciam ofício, e todos eles eram nascidos no Brasil, fossem crioulos ou pardos. Todos os demais, dentre eles todos os escravos "africanos pretos", trabalhavam na cultura da fazenda.

Essa informação sobre o ano do nascimento de Silvestre é importante. Isso porque, por documentos contemporâneos, sabe-se que o seu filho que mais tarde se tornou médico, José, tinha irmãos mais velhos e era o caçula. Assim, Silvestre teria 50 anos de idade quando se tornou pai de José. Um dos irmãos mais velhos de José, Serapião, já era lavrador em um sítio próprio em São Pedro do Itabapoana no ano de 1877, o que nos faz presumir que teria nascido, no máximo, por volta de 1857; possivelmente antes, pois dificilmente teria menos de 20 anos de idade, embora ainda fosse jovem nessa quadra. Assim, considerando o fato de que Silvestre nasceu escravo, acumulou o pecúlio com o qual comprou sua alforria, e que isso certamente demandaria certo tempo, não seria inverossímil que tivesse constituído uma família livre já na casa dos quarenta anos. Pois esse fato também é importante citar: todos os filhos legítimos de Silvestre Coelhos dos Santos nasceram livres, de pai e mãe livres, embora Silvestre seja alforriado e não conheçamos a condição pretérita da mãe.

Outro fato importante é que Silvestre, segundo tudo indica, constituiu família já quando estava em São Pedro do Itabapoana. Não sabemos se teria se casado em Minas Gerais, ou no Espírito Santo. Nem se teve seu(s) primeiro(s) filho(s) por lá, ou por cá. Conforme disse, isso demandaria uma bem feita pesquisa cartorária e em arquivos paroquiais. Mas pelo menos dois de seus rebentos foram gerados em São Pedro do Itabapoana, um em fins da década de 1850 ou inícios da década de 1860, e o caçula José em 1863. Essas informações "batem" com o relativamente bem documentado movimento migratório que trouxe muitos mineiros da região de Oliveira e Bonsucesso para o médio Itabapoana.

Um outro fato relevante é a relação que a família Coelho dos Santos, que aqui tratamos, possuía com várias famílias dos primeiros povoadores de São Pedro do Itabapoana, entrelaçadas por laços familiares e/ou de compadrio com os Gonçalves Vivas, Castanheira, Ribeiro de Castro e Ribeiro da Silva Castro. Embora nenhum Coelho dos Santos tenha migrado para o médio Itabapoana, vários de seus parentes vieram, inclusive netos do primeiro "proprietário" do escravo Silvestre.

Assim, os indícios são mais do que grandes: são enormes.

Com fundamento nesses indícios, podemos tratar agora um pouco mais da vida de Silvestre em Minas Gerais e nos seus primeiros anos no Espírito Santo.

Conforme salientamos acima, Silvestre nasceu no ano de 1813, no distrito de Bonsucesso, Minas Gerais. Crioulo, filho de escravos, nasceu cativo. Seu proprietário era o tenente Francisco Coelho dos Santos, nascido em 1771. Silvestre era filho do "preto africano" Manoel, nascido em algum lugar do continente africano em 1781, e da escrava "preta africana" Roza, também nascida na África no ano de 1791 (VER EDIT ABAIXO). Não sabemos quando, e em que condições, Manoel e Roza chegaram ao Brasil. Possivelmente entraram pelo Rio de Janeiro, provavelmente em tempos diversos, entre o final do século XVIII e início do XIX, e dali encaminhados para Minas Gerais. Manoel era escravo de cultura, e trabalhava nas lavouras da Fazenda do tenente Francisco. Roza era fiadeira, atividade exercida por quase todas as escravas mulheres da propriedade. Ainda adolescente, Silvestre foi "encaminhado" para exercer o ofício de carpinteiro no "engenho de serra" da Fazenda. Aos 18 anos, conforme narramos, era carpinteiro, juntamente com mais dois outros escravos crioulos mais velhos que ele. Nessa época, o tenente Francisco Coelho dos Santos possuía 47 escravos, uma quantidade grande se comparada com outros fazendeiros escravagistas da região e do tempo.
EDIT: Já há alguns anos, pesquisando em fontes primárias (disponíveis cada vez mais em função do enriquecimento das documentações on line), encontrei o batismo de Silvestre Coelho dos Santos. Em um próximo artigo, espero corrigir esse erro acima: Silvestre não era filho do casal de escravos Manoel e Roza. Mantive, porém, o texto original no presente artigo, pois entendo que a construção dos tijolinhos das biografias e suas histórias também se fazem com esses erros.

Quando foi que Silvestre teria comprado sua alforria? E aonde? Informações que também não dispomos, e que temos que apenas presumir. Certamente, adquiriu sua liberdade ainda em Minas Gerais. Acreditamos nisso pelo fato de nenhum membro nuclear da família Coelho dos Santos ter migrado para o Espírito Santo. Assim, considerando que Silvestre tomou esse sobrenome por alcunha, é de se acreditar que o fez quando deixou de ser "propriedade" de um membro dessa família. Tivesse vindo para o Espírito Santo na condição de escravo, e aqui comprado sua alforria, é credível que teria tomado outro sobrenome. É provável que tenha comprado sua alforria em algum momento no final da década de 1840 e início da década de 1850, quando tinha entre 35 e 40 anos de idade. Como exercia o ofício de carpinteiro, pôde juntar dinheiro em trabalhos que, possivelmente, executava para outrem, certamente com a permissão de seus senhores. Esse fato não era incomum para a época.

O tenente Francisco Coelho dos Santos e sua mulher Joana Angélica de Castro já estavam mortos em 1851. Suas propriedades e posses, engenhos e escravos, tinham sido inventariados e repartidos por todos os sete filhos do casal, cabendo aos três filhos homens (Francisco, José e Antônio) a maior parte das terras na partilha, por compra feita junto às irmãs. Assim, considerando a data das mortes desses três filhos homens (1851, 1856 e 1862), bem como o fato de alguns de seus parentes terem começado a migrar para o Itabapoana entre 1855 e 1860 (e em maior volume na década de 1860), acredito que Silvestre tenha comprado a sua alforria entre 1851 e 1856, e emigrado com algum dos aparentados dos Coelhos dos Santos entre 1856 e 1862. Mas são só hipóteses. Em 1863 já estava estabelecido na região de São Pedro do Itabapoana, pois nesse ano nasceu seu filho caçula, José, natural do Espírito Santo.

Voltando aos laços de parentesco que uniam a família Coelho dos Santos com alguns dos primeiros fazendeiros da região de São Pedro do Itabapoana, salientamos que Felisberto Ribeiro da Silva, fundador da Fazenda União entre 1855 e 1860, era cunhado de um dos filhos do tenente Francisco. Venâncio José Vivas, sogro de Bento Gonçalves Castanheira, ambos progenitores de importantes famílias de São Pedro do Itabapoana, era casado com uma filha do tenente Francisco. E as famílias Ribeiro de Castro e Silva Castro eram a da mulher do tenente Francisco, Dona Joana Angélica. Naqueles primeiros tempos de ocupação das extensas matas virgens que cobriam toda a região do médio Itabapoana, um carpinteiro certamente era importantíssimo para os trabalhos de construção das primeiras habitações (feitas de madeira, até que começaram a ser substituídas por sólidas construções de alvenaria), bem como de senzalas, currais, e até do mobiliário. Fato é que o carpinteiro Silvestre Coelho dos Santos, ex-escravo que comprou sua alforria, emigrou para a região de São Pedro do Itabapoana em algum momento entre o final da década de 1850 e o início da década de 1860.

Ocorre então um lapso temporal de alguns anos, quando provavelmente o agora chamado mestre Silvestre esteve trabalhando em seu ofício de carpintaria e, segundo reza a tradição, também na função de pedreiro. Em 1868, com pelo menos três filhos crianças (Serapião, Agostinho e José), Silvestre Coelho dos Santos já possuía uma conta com o fazendeiro Antônio Gomes Guerra, fornecedor de madeiras serradas, carne e mantimentos para os primeiros fazendeiros do médio Itabapoana. É quase certo que nessa época já tinha formado a sua fazenda de café, chamada de São Sebastião, encravada nas terras entre a Fazenda União (de Felisberto Ribeiro da Silva) e as terras da família Ribeiro de Castro. Em 1873 já tinha acumulado bom dinheiro, quase oito contos de réis, que investiu em uma casa bancária com sede na Côrte (Rio de Janeiro); não era um fazendeiro tão rico como alguns dos que o circundavam, mas era um homem abastado nessa época. Em 1877/78, o fazendeiro Silvestre Coelho dos Santos possuía, além da Fazenda São Sebastião, uma casa no arraial de São Pedro de Alcântara (atualmente sede do distrito de São Pedro do Itabapoana, Mimoso do Sul/ES) e uma casa na cidade de Campos dos Goytacazes, norte da província do Rio de Janeiro. Caridoso, em 1878 foi um dos quotistas que fizeram uma avultada doação, em Campos, para auxiliar os flagelados pela seca no Ceará.

Uma curiosidade: em 1877, quando já era um abastado fazendeiro, mestre Silvestre não sabia ler e escrever. Quem assinava seus documentos nessa época, e à seu rogo, era o filho caçula José, então com 14 anos de idade. Tudo indica que tenha falecido sem nunca ter se alfabetizado. Nesses tempos, porém, isso não era incomum. Quase 85% da população da Freguesia de São Pedro do Itabapoana era analfabeta. Dentre os homens livres, o índice de analfabetismo chegava a quase 65%. Mas mestre Silvestre não descuidou da educação de seus filhos. Sebastião e Agostinho sabiam ler e escrever. O caçula José estudou as primeiras letras em uma boa escola no povoado de Limeira do Itabapoana, sede da Freguesia e não longe da sua fazenda. Posteriormente, seu pai mandou-o para o Rio de Janeiro, aonde complementaria os estudos e, mais tarde, ingressaria na Faculdade de Medicina.

Falamos tanto de mestre Silvestre que quase eclipsamos a história de sua esposa. Ela se chamava Arminda Maria dos Santos. Não sabemos pormenores de seu passado; quando e aonde nasceu, se foi escrava, se nasceu livre, nem como e quando chegou ao Itabapoana. Quando ambos se casaram eram, com quase toda certeza, pessoas livres. Todos os seus filhos nasceram livres. Segundo reza a tradição, conforme se infere do trabalho do grande cronista mimosense Gilberto Braga Machado, Arminda Maria certa vez salvou a vida do seu marido Silvestre, em ocasião que este adoeceu seriamente. Após passar por intensas febres e ficar bom tempo acamado, Arminda Maria tratou-o com plantas medicinais que ela mesmo coletou e preparou. Silvestre restabeleceu-se completamente poucas semanas depois. Essa história também é narrada por um descendente de mestre Silvestre, bisneto do caçula José, o professor Helio de Freitas Coelho, a quem tive o prazer de conhecer e conversar em Campos, em agosto de 2014.

Como, conforme narrei mais acima, não tive tempo e nem recursos para fazer pesquisas em registros cartoriais ou paroquiais, não sei o ano exato da morte de mestre Silvestre. Contudo, através dos documentos e informações que dispomos, conhecemos a época que faleceu: entre 1881 e 1883. Em 1881 foi quando o seu filho caçula, José, iniciou os estudos na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, e reza a tradição que Silvestre estava vivo quando isso ocorreu. E em 1884 já estava falecido, sendo o seu espólio administrado pelos seus herdeiros. Silvestre Coelho dos Santos deixou a vida com quase 70 anos e, infelizmente, não teve tempo de ver o seu filho caçula, José, formar-se médico. Sua esposa, Arminda Maria dos Santos, residindo no povoado de São Pedro de Alcântara, ainda estava viva em 1886, e tudo indica que faleceu no final da década de 1880, ou inícios da década de 1890.

Por fim, adentraremos num assunto polêmico aos olhares de hoje. Mestre Silvestre era negro e ex-escravo. Mas também foi proprietário de uma fazenda cafeeira, em um tempo aonde era usada a mão-de-obra cativa nas lavouras de café do sul do Espírito Santo. Havia escravos trabalhando em todas as fazendas circunvizinhas da Fazenda São Sebastião, como na União, na Harmonia, no Recreio e em São Carlos. Assim, considerando o fato de ser negro e ex-escravo que comprou a própria alforria, Silvestre Coelho dos Santos teria sido proprietários de escravos? Aos olhos de hoje, isso soaria estranho. Mas não podemos cair em anacronismo: na época, não era incomum que negros livres, nascidos nessa condição ou alforriados, possuíssem escravos se o pudessem.

E a resposta para a pergunta é: sim, o fazendeiro Silvestre teve escravos. Não sabemos quantos escravos ele possuiu; os maiores fazendeiros de São Pedro do Itabapoana, nessa época, não tinham muito mais que 40 ou 50 escravos. Propriedades médias podiam ter entre 15 e 20 escravos, e havia boas fazendas cujos proprietários possuíam 4 ou 5 escravos. Acredito que a Fazenda São Sebastião tenha tido, mais ou menos, essa última quantidade de cativos. Os registros que pude manusear só legaram para a posteridade um deles: um escravo de nome José, "preto" nascido em 1854, e com 32 anos quando fugiu no ano de 1886. Nessa época, mestre Silvestre já havia falecido, e o escravo pertencia à sua esposa Arminda Maria, embora parecesse trabalhar para seu filho Serapião que, ao que parece, passou a administrar a Fazenda São Sebastião quando seu pai morreu.

Interessantemente, o filho José, quando estudante no Rio de Janeiro, passou a conviver com uma causa que tomava cada vez mais vulto e caía definitivamente no gosto e bom grado da opinião pública: a causa abolicionista. José Coelho dos Santos, estudante de medicina na Côrte, tornou-se "oficialmente" um militante abolicionista em junho de 1883, embora seu movimento fosse bem moderado e alinhasse-se mais para um emancipacionismo gradual. Anos mais tarde, também passaria a militar na causa republicana. Mas isso é uma outra história, que contaremos na segunda parte do presente artigo.


Gerson Moraes França


terça-feira, 29 de setembro de 2015

São José das Torres - Histórias [Parte 10]

Capela de São José das Torres, reformada em 1937, nos dias atuais
Fonte da foto: Google Street View

Chegamos à parte décima dessa série de artigos sobre as Histórias de São José das Torres. Não imaginei que contar parte da história de um distrito do município de Mimoso do Sul tomaria tantas linhas. E, acreditem, ainda há muitas e muitas informações, fatos e histórias que podem ser narradas. Assim, é claro que estou selecionando o que entendo ser mais importante, ou mais interessante, para construir e dar sentido a um naco da história dessa localidade, que cresceu em torno da Capela de São José e que fica no sopé da majestosa serra das Torres.

Já narramos em pormenores como foi o povoamento e a exploração da região, a construção da Capela de São José e a formação do povoado da Capelinha, a criação do distrito, as primeiras obras de infra-estrutura, sobre os seus primeiros povoadores e autoridades, as lides políticas, e até um caso de assassinato e assombração. Isso tudo se passou naqueles cerca de vinte anos iniciais, aproximadamente entre 1892 e 1912. Agora vamos embarcar em uma nova fase da história do distrito. Uma fase  de boom que viu sua população quadruplicar, que teve suas terras todas demarcadas e que observou o surgimento de novas lideranças políticas. Vamos discorrer um pouco sobre o período que iniciou-se em 1909, com a nova política do Estado para facilitar a aquisição de terras e o povoamento de São José das Torres e que deu origem ao surgimento de centenas de novos sítios e novas lavouras de café durante as décadas de 1910 e 1920, e que terminou por volta de 1930, logo após crise econômica que assolou o mundo todo. São vinte anos de história, aproximadamente.

A partir de 1909, como já dissemos, o número de requisições para adquirir terrenos ou legitimar posses na região cafeeira de São José das Torres cresceu substancialmente. Nas décadas de 1910 e 1920, na medida que o café ficava cada vez mais "valioso" e, consequentemente, atraente para se investir, novas lavouras e novos sítios foram se formando no distrito. Na metade desse última década, alguns proprietários já tinham formado grandes fazendas, algumas com mais de 500 hectares. Essa exploração "tardia", se comparada com a exploração da zona central do município de São Pedro do Itabapoana, seria responsável pela preservação de uma grande porção de matas remanescentes que, no final da década de 1960, deixariam de ser desbastadas após a execução da política de erradicação dos cafeeiros pouco produtivos. E, hoje, a Unidade de Conservação da Serra das Torres agradece esse "capricho" do processo histórico de povoamento e exploração das terras do distrito de São José das Torres.

Já vimos que, desde 1912, o distrito de São José das Torres integrou-se comercialmente com a estação férrea de Muqui. Desde então, praticamente toda a produção cafeeira torrense era exportada por aquela localidade. Eram os compradores de café estabelecidos em Muqui que retiravam os lucros que o capital comercial proporcionava, e eram os comerciantes deste mesmo núcleo que abasteciam Torres com os mais diversos gêneros. Era um agrimensor estabelecido em Muqui quem coordenava a distribuição e a medição de várias porções das terras ainda devolutas e virgens em Torres. Nessa mesma época, porém, o povoado de Mimoso iniciou o processo de crescimento de seu núcleo urbano. Tanto as terras ainda virgens de Mimoso, quanto as de Torres, passaram a ser procuradas cada vez mais por novos fazendeiros.

E um dos que chegou em Mimoso, nessa época, por volta de 1920, foi Joaquim de Paiva Gonçalves, conhecido como "Gamboa". Aliado inicialmente de alguns políticos de Muqui, que lhe facilitaram o acesso à terras e lhe concederam capital, Gamboa foi adquirindo vários pedaços de terra, tanto de privados quanto do Estado que, a partir da Fazenda da Paulicea, tomaram o rumo das vertentes ao oeste da serra das Torres, tornando-se um dos maiores fazendeiros de Mimoso. Mais tarde, seu cunhado Rubens Rangel adquiriu terras em São José das Torres, na região de Santa Rosa. Um outro fazendeiro, chamado de Alfredo Gomes de Almeida, presente na região desde 1917, tornou-se na década de 1920 o maior proprietário da região das Torres, dono de quase 400 alqueires de terras. Ambos se aliaram e, aproveitando a conjuntura política surgida após o rompimento dos irmãos Jerônimo e Bernardino Monteiro, em 1920, bem como a política apaziguadora do Presidente do Estado, Nestor Gomes (1920-1924), conseguiram ser eleitos para a Câmara de São Pedro do Itabapoana em 1924, como os dois únicos membros da oposição ao coronel Clarindo Lino da Silveira, então maior liderança política do município de São Pedro.

Já nesse ano de 1924, conseguia que fossem concluídas as obras de algumas estradas carroçáveis em Mimoso, como a que ligava a Paulicea ao Vinagre, e a que ligava Mimoso à Torres e Santa Rosa, financiadas pelo Governo do Estado. Nessa época, o café estava em um período "áureo" de preços, com a produção aumentando ano a ano, gerando muita riqueza e, também, tributos. Com essas estradas foi novamente atraído para o povoado de Mimoso, depois de quase quinze anos, a maior parte da produção cafeeira e do comércio do distrito de São José das Torres. Grandes firmas de compradores de café instalaram-se, nesses tempos, em Mimoso. A década de 1920 foi uma época de "ouro" para a região.

Em 1930 o povoado da Capelinha, sede do distrito de São José das Torres, tinha cerca de 20 boas edificações, com 5 casas comerciais e quase uma centena de moradores. A população total do distrito passava dos três mil e quinhentos habitantes. Na segunda metade da década de 1920, os primeiros automóveis, caminhões pequenos, começaram a transitar pelas estradas do distrito, ajudando a escoar o café produzido na região. O primeiro proprietário de um caminhão em Torres, em 1928, foi o fazendeiro e vereador Alfredo Gomes de Almeida. Nesse mesmo ano, o distrito possuía quatro máquinas de beneficiar café, vários moinhos e olarias, e muitos lotes de tropas de burros. 

Em 1928, o coronel Joaquim de Paiva Gonçalves, que já era o "chefe político" de Mimoso, tornava-se a principal liderança política do município de São Pedro do Itabapoana, consolidando a posição de Alfredo Gomes de Almeida e de Rubens Rangel em São José das Torres. Neste mesmo ano, Paiva Gonçalves, juntamente com Alfredo Gomes, davam início às obras de melhoramentos da estrada entre Mimoso e Torres, transformando-a em uma estrada para automóveis. Mas a crise de 1929 e a Revolução de 1930 iriam mudar toda a conjuntura econômica e política do Município. Só que aí entramos em uma outra história...


Gerson Moraes França