segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Helcio Paiva e o Futebol Mimosense

Helcio Paiva
Foto publicada em 30/05/1930, n'O Jornal
Pesquisa e recorte: arquivo Gerson França

Quando o neto do coronel Natinho visitou o povoado de Mimoso, em janeiro de 1926, vindo da capital federal (então no Rio de Janeiro), ele não era mais apenas o neto do coronel Natinho. Era agora o famoso footballer internacional da seleção nacional brasileira, campeão carioca pelo Flamengo e bi-campeão brasileiro pela seleção carioca. Full-back (zagueiro) insubstituível, considerado o melhor de sua posição, na época. Agora ele era o famoso sportsman Helcio Paiva.

Helcio Paiva nasceu em Mimoso, então distrito do município de São Pedro do Itabapoana, no dia 02 de outubro de 1902. Filho de Lincoln Ribeiro Paiva e de Maria da Conceição Rezende de Paiva. Neto materno de Nominato Ferreira de Paiva, o coronel Natinho. Bisneto, por parte de sua avó Amyntha, de Antão Ferreira da Silva e, por conseguinte, trineto do fundador da Fazenda Mimoso, o capitão Pedro Ferreira da Silva. Passou a infância na Fazenda da Serra, propriedade de seus avós, e na estação Mimoso, onde estudou as primeiras letras. Não é possível afirmar ainda, mas é bem provável que tenha aprendido e tomado gosto pelo futebol quando, na época da primeira guerra mundial (1914/18), alguns holandeses que estavam estudando a viabilidade econômica de se extrair turfa na região do Rio Preto, em São José das Torres, divertiam-se em Mimoso, nas horas de folga, praticando aquele esporte "novo" que era o foot-ball.

Em algum momento do início da década de 1920, Helcio Paiva mudou-se para o Rio de Janeiro, então Distrito Federal. Empregou-se no comércio. Talvez tenha presenciado a fundação do primeiro clube de futebol de Mimoso, o Mimosense Foot-ball Club. Não se sabe, ao certo, a data de sua fundação. Os primeiros registros da existência do Mimosense são de 1921. Em dezembro deste mesmo ano, o Mimosense fez sua primeira partida fora do povoado: foi à Cachoeiro e derrotou o Estrela do Norte pelo score de 3 x 2. Em abril do ano seguinte, foi a vez da revanche clamada pelo Estrela. No jogo preliminar, disputado pelos segundos-quadros das equipes, o Mimosense venceu por 4 x 2. Iniciado o jogo principal, "representativo" como se falava à época, ás 15 horas do dia 02 de abril de 1922, "numerosa e seleta era a assistência no vasto ground do Mimosense, onde a pugna transcorreu renhida, sob excelente atmosfera de entusiasmo e alegria". O resultado, porém, foi adverso ao clube de Mimoso: o Estrela venceu por 4 x 1.

Não sabemos se Helcio presenciou, ou mesmo se jogou, essas partidas. Estaria com seus dezenove anos, nessa época. Mas, decerto, tomou conhecimento, como entusiasta que era do futebol. Mas, retornando: em algum momento do início da década de 1920, Helcio Paiva mudou-se para o Rio de Janeiro e empregou-se no comércio. Mas o futebol já estava em sua vida. Em 1923, foi jogar em um pequeno clube local: o Sport Club Mangueira (hoje, extinto), que tinha campo na Tijuca. E, na posição de full-back, destacou-se. O Mangueira terminou o campeonato carioca da série B em segundo lugar. Em 1924, uma cisão no futebol carioca fez com que houvesse dois campeonatos: um, organizado pela LMDT (Liga Metropolitana de Desportos Terrestres), que teve a participação do Mangueira (que terminou na sexta colocação) e foi vencido pelo Vasco, e outro organizado pela AMEA (Associação Metropolitana de Esportes Atléticos), que tinha os grandes clubes do Rio (à exceção do Vasco) e que foi vencido pelo Fluminense. Helcio também destacou-se, e foi convidado a jogar pelo Flamengo. Sua primeira partida pelo clube rubro-negro foi no dia 07 de setembro de 1924, em um jogo contra o Vila Nova, de Minas Gerais, que terminou com a vitória flamenguista pelo placar de 4 x 0.

Iniciava aí sua bela trajetória pelo Flamengo. Já em novembro de 1924 era "convocado" para integrar a seleção carioca. E, no ano seguinte, consagrava-se de vez tornando-se titular da seleção brasileira. A história de Helcio Paiva no Flamengo e nos selecionados carioca e brasileiro é por demais conhecida. Uma pequena pesquisa na internet suprirá a curiosidade do leitor. Nosso objetivo, na presente matéria, é relatar fatos menos conhecidos, especialmente no que toca à relação de Helcio com Mimoso. De todo modo, vamos lá à algumas informações. Helcio Paiva jogou no Flamengo, como titular absoluto de sua posição, entre os anos de 1924 e 1931. Jogou 141 partidas pelo clube rubro-negro, e marcou 6 gols. Foi campeão carioca nos anos de 1925 e 1927. Pela seleção carioca, foi duas vezes bi-campeão brasileiro, em 1924/25, e em 1927/28, no antigo e "badalado" campeonato que era organizado pela CBD (Confederação Brasileira de Desportos, atual CBF). Pela seleção brasileira, foi vice-campeão sul-americano em 1925.

Para se ter ideia da "fama" que Helcio Paiva passou a desfrutar no Espírito Santo, basta citar que em 1927 a LSES (Liga Sportiva Espírito Santente) organizou um pequeno torneio com seus clubes filiados, em benefício do Cachoeiro FC (para auxiliar na construção de seu estádio), torneio este que tomou o nome de "Taça Helcio Paiva"...

Em 1930, Helcio era não só titular absoluto do Flamengo: era também o capitão do escrete rubro-negro. Mas, já chegando aos trinta anos de idade, o veterano começava a sentir a ação do tempo. Não foi convocado para disputar a primeira Copa do Mundo, realizada no Uruguai, em 1930, apesar dos protestos de muitos críticos futebolisticos, que entendiam que Helcio continuava insubstituível. De todo modo, fez questão de se fazer presente e de abraçar todos os jogadores brasileiros quando de seu embarque para Montevideo. O capitão do Flamengo, em dezembro de 1930, quase no final de sua carreira no futebol carioca, mudou de posição: de full-back (zagueiro) tornou-se center-half (meio-campo). Mas essa mudança durou pouco e, em 1931, quando começaram a circular boatos de que Helcio deixaria o Flamengo, retornou à posição que o havia consagrado. Disputou, ainda, o campeonato carioca de 1931 pelo clube da Gávea. Neste mesmo ano, perde a condição de titular da seleção carioca. E resolve deixar o Flamengo e o Rio de Janeiro.

No final de julho de 1931, o afamado footballer Helcio Paiva reaparece em Mimoso. Mas, desta vez, não seria apenas uma rápida visita. Resolveu fixar residência na agora chamada cidade de João Pessoa. O povoado de Mimoso, após a revolução de 1930, havia tornado-se a sede do antigo município de São Pedro do Itabapoana; de povoado e estação de Mimoso, agora era cidade de João Pessoa. E, como não poderia deixar se ser, Helcio envolveu-se ativamente com o futebol em seu torrão natal.

Quando retornou, Mimoso possuía dois clubes de futebol: o Mimosense Foot-ball Club, fundado provavelmente por volta de 1920, e o Sport Club Ypiranga, clube mais recente fundado em 05 de março de 1929. Além desses, havia também dois clubes em distritos do município: o Ita Sport Club, de Ponte de Itabapoana, e o Boa Vista Foot-ball Club, da atual Apiacá. Fora o então "inativo" São Pedrense Foot-ball Club (hoje, extinto) da antiga sede municipal, São Pedro do Itabapoana. Enfim, a "vida futebolística" local estava em um bom momento; e a chegada de Helcio incrementaria, ainda mais, esse bom momento.

Helcio passou a integrar o team do Mimosense FC. A "temporada" de 1931 estava boa para o clube quando o grande zagueiro veio reforçar o escrete. O Mimosense havia disputado seis partidas, nesse ano, sem que houvesse sofrido uma só derrota. Venceu o Ita SC por 3 x 1, venceu o quadro da Estrada de Ferro por 2 x 0, empatou com o SC Comercial, de Muqui, pelo score de 3 x 3, mesmo resultado da partida contra o Nacional FC, também de Muqui. E, em Cachoeiro, alcançou duas belíssimas vitórias contra o Cachoeiro FC, seguidamente, pelos placares de 6 x 3 e de 3 x 1. Vale ressaltar que o Cachoeiro FC era o atual campeão do Sul do Estado de 1930, e vice-campeão espírito-santense do mesmo ano.

Com tão bons resultados, e contando com um ótimo time, agora reforçado por um jogador de renome internacional, o Mimosense foi convidado, pelo Vitória FC, para participar de duas partidas na capital do Estado. Helcio Paiva foi um dos grandes responsáveis pela realização dessas partidas. E em agosto de 1931, pela primeira vez, um clube de futebol de Mimoso esteve em Vitória. Interessantemente, a LSES (Liga Sportiva Espírito Santense), a qual nenhum clube de Mimoso estava filiado, considerava a fundação do Mimosense FC como tendo ocorrido em 1926, exatamente na época que Helcio Paiva esteve "organizando os papéis" do clube, quando de sua visita ao então povoado.

Foram dois jogos em Vitória, com duas derrotas. Em 15 de agosto de 1931, no campo de Jucutuquara, teve início a primeira das partidas, entre o Santo Antônio FC e Mimosense FC. O Santo Antônio venceu o Mimosense pelo score de 4 x 2. Importante dizer que o Santo Antônio sagrar-se-ia, pouco depois, campeão capixaba de 1931. O escrete mimosense formou com a seguinte equipe: Lilico; Marins e Helcio; Paiva, Valfredo e Moura; Geraldo, Abelardo, Fragoso, Arribe e Mitre. Helcio Paiva começou a peleja na zaga, mas no meio do jogo trocou de posição com Valfredo, passando a atuar no meio campo. No dia seguinte, 16 de agosto, também no campo de Jucutuquara, foi realizada a pugna entre o Vitória e o Mimosense, com nova derrota destes, também pelo placar de 4 x 2. O time de Mimoso formou com: Lilico; Marins e Helcio; Paiva, Umberto e Moura; Abelardo, Geraldo, Ibrahim, Arribe e Mitre.

Apesar das duas derrotas, o fato de ter se apresentado em Vitória foi considerado muito positivo para o futebol mimosense. Nenhum dos clubes locais era afiliado à LSES, e as partidas deram maior visibilidade aos clubes de Mimoso. Em junho de 1931, o SC Ypiranga já ha havia protocolizado junto a Liga um pedido de filiação, mas o Conselho de Julgamento da LSES não apreciou a solicitação por carência de informações na documentação.

Somente em 20 de abril de 1932 é que o Sport Club Ypiranga teria seu pedido apreciado e deferido pelo CJ/LSES. Nesse mesmo mês, o Mimosense Foot-ball Club fez sua solicitação de filiação à Liga, que foi aprovada em maio de 1932. Em junho de 1932, oficialmente, a LSES formalizava a afiliação dos dois clubes de Mimoso. Finalmente, e Helcio Paiva tomou parte verdadeiramente ativa para isso, o futebol de Mimoso, então João Pessoa, estava "organizado".

Helcio Paiva continuou atuando pelo Mimosense até 1932. Em novembro do ano anterior, inclusive, iniciou com uma nova atividade: passou a atuar como árbitro de partidas, e chegou a ser designado pela LSES para apitar a "final" do campeonato capixaba de 1931, decidido em uma partida entre o Santo Antônio e o Vitória. Só não arbitrou essa partida porque o Santo Antônio não aceitou, temendo alguma parcialidade do famoso zagueiro. Interessante, porém, foi a alegação do Santo Antônio para recusar o nome de Helcio; talvez não querendo ser descortês, assim arrazoou a diretoria: "(...) reconhecer no grande crack capixaba bastante critério e muita competência técnica". O Santo Antônio recusava o nome de Helcio por este ser... bom demais para aquela partida! A propósito: o Santo Antônio venceu o Vitória por 3 x 1.

Helcio Paiva no SC Ypiranga. Foto de outubro de 1932.
Pesquisa e recorte: arquivo Gerson França

Pouco após a filiação dos dois clubes de Mimoso à LSES, Helcio Paiva mudou de agremiação. Deixou o Mimosense e passou para o Ypiranga. Em setembro de 1932, inclusive, Helcio Paiva foi eleito e tomou posse como novo presidente do SC Ypiranga. Mas a estada de Helcio em Mimoso não seria longa, apesar de ter sido consideravelmente profícua. Em 1933, dois anos após ter aportado ao seu torrão natal, o afamado footballer muda-se para Lavras, em Minas Gerais, onde passa a jogar no clube local. Em 1935, Helcio Paiva, atuando então pelo SC Juiz de Fora, foi convocado para atuar como titular da seleção mineira que disputaria o campeonato brasileiro de seleções estaduais. Em 1936 voltou à jogar pelo Lavras SC. Na década de 1940 mudou-se para a capital mineira, Belo Horizonte, onde chegou à treinar pelo América. E, em 1942, atuou como técnico do próprio América.

Helcio Paiva, em 1944, de chapéu. Fonte: O Jornal.
Pesquisa e recorte: arquivo Gerson França.
Um fato curioso na vida de Helcio Paiva foi sua nomeação, pelo governador de Minas Gerais, Benedito Valadares, para o cargo de Prefeito da pequena cidade mineira de Itumirim, próxima à Lavras. Isso deu-se em 1944, quando o grande craque já havia passado dos quarenta anos. Certa feita, nesse mesmo ano, Helcio visitou o Rio de Janeiro. Como sempre ocorria, era logo cercado de fãs e de fotógrafos assim que era reconhecido. Ao observar que seria fotografado, Helcio colocou seu chapéu na cabeça; não queria que as objetivas flagrassem sua cada vez mais calva cabeça. Desejava ser lembrado pelos fãs tal como era quando jogava. Persuadido que foi, após, pelo fotógrafo e pelo repórter, que o disseram que "Helcio Paiva sempre seria o famoso full-back internacional", independente da calvície que se avizinhava, o agora Prefeito baixou a guarda e aceitou ser fotografado sem o chapéu.

Helcio Paiva, sem chapéu. Fonte: O Jornal, 1944.
Pesquisa e recorte: arquivo Gerson França.
Após a passagem "meteórica", porém "iluminada", de Helcio Paiva pelos dois clubes de futebol de Mimoso do Sul entre 1931 e 1933, o futebol local continuou seu caminho. O Mimosense, após uma derrota em casa no dia 07 de fevereiro de 1933 para o Viminas, pelo placar de 3 x 0, entrou em um período de maus resultados. Em 1936, o Ypiranga, premido por uma crise política interna, rachou: um segmento saiu do clube e uniu-se ao que "restava" do Mimosense, para em 16 de abril do mesmo ano fundarem o Independente Atlético Clube. Extinguia-se o Mimosense FC, absorvido pelo Independente. Ainda em 1936, Ypiranga e Independente participaram do campeonato de futebol do sul do Estado (espécie de precursor do campeonato sulino); participaram desse campeonato, além dos clubes mimosenses, o Estrela, o Cachoeiro, o Comercial de Castelo, o Comercial de Alegre, o Castelo e o Rio Branco de Alegre. O Independente foi muito bem; o Ypiranga, foi mal. Foi nesse campeonato que seria realizada a primeira partida oficial entre os dois hoje tradicionais clubes de futebol de Mimoso do Sul. No dia 25 de outubro de 1936, um domingo, em João Pessoa (Mimoso), o Independente bateria o Ypiranga pelo largo resultado de 5 x 0. Nesse mesmo ano, em novembro, o Independente bateria, em Vitória, o Rio Branco, então tri-campeão capixaba. Mas aí entramos em "novos tempos" do futebol mimosense, que retrataremos em uma outra oportunidade.

Por fim:
O sucesso do Independente em seu primeiro ano de fundação, combinado com influências políticas locais, foi responsável pela aprovação de uma Lei, datada de 31 de dezembro de 1936, pela qual o Estado doou vinte contos de réis para auxiliar na construção de um stadium para o Independente, que serviria também como "praça esportiva" para outras atividades.
E o nosso eterno crack Helcio Paiva, o neto do coronel Natinho, o full-back mais importante e respeitado do Flamengo na década de 1920 e comecinhos da década de 1930, o footballer internacional da seleção brasileira, abnegado incentivador do futebol mimosense, teve, infelizmente, uma trágica morte. Radicado há anos em Belo Horizonte, faleceu no dia 31 de agosto de 1970 quando, indo da capital mineira para o Rio de Janeiro (para assistir a uma partida do Flamengo, segundo alguns), sofreu um acidente automobilístico. Seu fusca capotou nas proximidades de Barbacena. Foi sepultado no dia seguinte, no cemitério do Bonfim, em Belo Horizonte.

Por:
Gerson Moraes França

Um comentário:

  1. alguns fontes atribeu que Helcio Paiva jogou no Luminarias SC apos de Flamengo ? correto exact ?

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