segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

O Espírito Santo em "Coisas Notáveis do Brasil", de Francisco Soares.

O Espírito Santo em "Coisas Notáveis do Brasil", de Francisco Soares.


Para quem estuda a formação do Espírito Santo quinhentista, essa obra não é nenhuma novidade. Está elencada como fonte em diversos trabalhos sobre a história do Espírito Santo. Resolvi tratar dela apenas para transcrever aqui algumas partes atinentes ao nosso torrão que entendi ser interessantes. Francisco Soares de Sousa (n.c. 1560, m. 11/11/1597) foi um português jesuíta; escreveu sua obra entre os anos de 1590/96. Há dois manuscritos do trabalho, muito similares um ao outro: o de Coimbra e o de Madrid.

A primeira transcrição, do manuscrito de Coimbra, é essa abaixo:

"De alguãs Cousas mais notaueis do Brazil
(...)
Foi descuberto o brazil no anno de 1500 por Pº alz cabral.
(...)
O 1º que foi a pouoar o Brazil foi Martî afonço de Souza e seu Jr' Pº lopez em s. vte na Jlha de Guaipe e asi s. vte foi o 1º q' se pouou"

Essa primeira parte trata da "descoberta" do que viria a se tornar o Brasil e do estabelecimento da primeira povoação "oficial", que foi a fundação de São Vicente por Martim Afonso em 1532. Continuemos.

"Itamarqua foi a 2ª q' se pouou (...)

A 3ª Capta foi o sp'u sto por Vasco frz Coutinho e mta gente honrrada aqui morreo aq'le grãde Capitaõ das malucas e dom Simaõ de Castelo brãco degradados. he muj fertel Capta tê duas villas huã na barra e outra ê hua Jlha huã legoa p'lo Rjo [ ... ] temos ali da cõpª dez pes e Jr's e alguãs aldeas cõ noue mil Jndios.
Tem esta Capta hû rjo doce grande bota tres legoas ao mar e assi bota a agoa salgada dessi e a parta cõ q'lq'r t'po se bebe. E por elle assima ha mtas pedras [ ... ] de preço segundo hû estrologo disse he a mais rica Capta e por isso vco frz a pouoou a doaçaõ dos s'ores he ate emtestar cõ os castelhanos do sul esta ê 20 graos da banda do sul"

O autor continua a tratar das Capitanias e, interessantemente, ao invés de enumerá-las por ordem de doação, ou por ordem geográfica (geralmente de norte à sul), como fizeram outros cronistas contemporâneos ou pouco posteriores, ele resolveu pontuá-las de acordo com o tempo de seu povoamento. Essa informação, para além da sucinta descrição da Capitania do Spiritu Sancto em 1591, é de extrema relevância se considerarmos essa narrativa verossímil. Isso porque o autor entende que o Espírito Santo teria sido a terceira Capitania a ser povoada, depois de São Vicente (Martim Afonso) e Itamaracá (Igarassu, Duarte Coelho).

Continua o autor sua relação, em ordem de povoamento: Porto Seguro, onde informa que "A Baya, pernaobuco, sp'u sto se acolheraõ aqui quando se despouoaraõ cõ gerra", Bahia, Pernambuco, Ilhéus e Rio de Janeiro (" a prª cidade que pouou elRey dom Sebastiaõ"). Não cita a tentativa de povoamento em São Tomé, provavelmente por não ter sido repovoada após a expulsão do seu donatário.

Dando seguimento ao conteúdo do manuscrito, segue:

"das Guerras cõ os Jndios
A causa por q' os Jndios se aleuãtaraõ e aleuãtaõ he porq' por força lhe tomaõ seus fºs e suas molheres e escrauos e o fazê oje em dia têdo empedido infenidade de christãdade e cõ mto Roim exemplo e assi a bandeiras despregadas os uaõ buscar cõ guerra injusta e as vezes cõ emganos (...)

Um capítulo discorre sobre as guerras com os índios e o motivo mais comum para estourarem esses conflitos após a fundação/conquista das Capitanias: a escravidão dos indígenas. Sobre o Espírito Sando, informa que foi a segunda dessas guerras:

"A 2ª f oi no sp'u sto cõ mta perda nossa e de dom Jorge menezes capitao das malucas o q' meteo os Castelhanos no fogo e elRej sêtio mto ser este homê sentêçeado a morte p' se criar cõ elle e disse ouuereis de têtar q' seruiços me tem feito mas naõ morra aqui mandajo ao brazil q' la morra e morreo dom .Joaõ de Castelo branco e mtos e o porq' foi isto foi por a molher de hû principal q' hû portuges se amãcebou cã ella isto publicamte e naõ lha querêdo dar o portuges a seu marido o jndio apelidou gête e os matou aqui se perderaõ mtos emgenhos e os fizeraõ embarcar pª porto seguro ".



No outro manuscrito, o de Madrid, temos também algumas informações sobre o Espírito Santo. A que entendi interessante aqui compilar é a estimativa populacional que a obra trás das Capitanias e do Brasil em geral. Abaixo, os dados sobre nossa primeva Capitania:

"De alguãs Cousas mais notaueis do brasil e de alguñs costumes dos Indios.
(...)
spii sancto 2 villas. portuguezes 0400. êgenhos 6. escravos 0700. indios 9000"

Assim, em c. de 1591 o Espírito Santo tinha duas vilas (Vila Velha e Vitória atuais), 6 engenhos, 400 portugueses, 700 escravizados (nativos) e 9 mil indígenas (entre forros e livres, cristãos e pagãos). Modesto em população portuguesa, escravizados e em engenhos, se comparado com Pernambuco e Bahia, mas com a maior população indígena administrada do Brasil à época.

Gerson Moraes França



quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Reflexões sobre o Estudo dos Povos Indígenas no Espírito Santo.

Reflexões sobre o Estudo dos Povos Indígenas no Espírito Santo.

Nos últimos anos tem sido produzida boa quantidade de trabalhos sobre os povos originários que habitaram (cujos descendentes de alguns desses povos ainda habitam) o Espírito Santo, alguns deles com grande rigor técnico e científico. Esses trabalhos enriquecem nossa historiografia capixaba preenchendo lacunas, conferindo novos entendimentos sobre a dinâmica do contato e elucidando questões controversas.

Estudo e pesquiso o Espírito Santo há mais de trinta anos, em várias temáticas, e já formulei um arcabouço sobre a história dos povos indígenas no atual território do nosso Estado. Teço aqui alguns apontamentos que considero edificantes nesses estudos. Primeiramente, a questão dos epítetos dos grupamentos indígenas: é necessário uniformizar e conjecturar certos termos. Apresento aqui, abaixo, um exemplo que induz o pesquisador em erro:

Os goitacases (com suas diversas grafias) eram indígenas que habitavam o atual norte do Estado do Rio de Janeiro e, possivelmente, pequena porção do sul do atual Espírito Santo. Há hoje certa unanimidade que esses indígenas eram do trono macro-jê, isto é, eram "tapuias" na visão dos povos tupi. Mas encontramos alguns cronistas antigos informando que os goitacases habitavam todo o litoral sul do Espírito Santo. Há um, inclusive, que coloca os goitacases habitando até as proximidades do extremo norte do Estado, vizinhanças do rio Cricaré (São Mateus atual). Claramente há aí algum erro de interpretação ou, então, a atribuição extensiva do termo para povos do tronco tupi que, afirmo com toda certeza, habitavam o litoral sul do Espírito Santo e a região da atual baía de Vitória.

Para entender esses cronistas antigos, é preciso conhecer o seu lugar (tempo, local, formação, aliança, etc) na produção do trabalho, bem como fazer comparações com outras fontes contemporâneas. Não devemos tomar o estudo de um "povo" de forma isolada: é preciso correlacionar e comparar as narrativas com outros documentos de crédito.

Assim, coligindo todas as fontes, fazendo as necessárias críticas e comparações, resta clarividente, para mim, que a população indígena que habitava a baía de Vitória e o litoral sul do Espírito Santo até o Itapemirim (ou suas proximidades) eram povos do tronco étnico e linguístico tupi-guarani. Se, porventura, algum cronista antigo os cognominou de "goitacases" (que é um termo tupi, importante informar), estava conferindo esse epíteto de forma extensiva, talvez fundamentado em algum valor que a palavra representava (que, segundo os tupinólogos, era traduzida como "andantes", ou "errantes", ou ainda de modo mais específico, como "corredores" ou "nadadores").

Assim, teríamos os goitacases étnicos propriamente ditos (os que expulsaram a primeira tentativa europeia de se fixar no litoral do Itabapoana, e que depois mantiveram-se hostis ao contato no litoral entre o rio Paraíba do Sul e Macaé, no Rio de Janeiro e que foram mais tarde repelidos em campanhas militares e mortos em grande quantidade em virtude de epidemias no século XVII, cujos remanescentes acabaram aldeados ou migraram para o interior), e teríamos grupamentos de tronco tupi que, equivocadamente (pejorativamente, ou não), foram chamados de "goitacases" por alguns cronistas. É preciso conhecer o todo, tanto no tempo, quanto no espaço, para compreender essa lógica.

Praticamente todos os nomes dos acidentes geográficos do litoral espírito-santense são de origem tupi, e já eram conhecidos dessa forma desde o século XVI (por exemplo, Itapemirim, Guarapari, Meaípe, Agá, etc.). Os poucos nomes de chefias indígenas da época que ficaram registrados, ídem. Os documentos dos jesuítas, quando tratam de epítetos, também são bem elucidativos nesse sentido.

O mesmo podemos perceber, também, nas diversas denominações dos povos indígenas que pululam os registros. Há grupos, por exemplo, que recebem mais de um nome, dependendo do ponto de observação. Um exemplo claro está com os tamoios, que chamavam a si mesmos de "tupinambá"; e seus rivais, os temiminós, que eram chamados pelos seus adversários de "margaias" (do nome de um morubixaba importante, Maracajá). Todos eles eram, porém, do tronco étnico e linguístico tupi-guarani.

O tronco puri-coroado também "padece" desses "problema". Puri, Coroados, Coropó, Guarulhos, Guarus, Guaramomi, Maramomi, etc, eram todos epítetos dados em tempos e espaços diversos à grupamentos do tronco étnicos e linguístico puri-coroado. Eram, grosso modo, do mesmo povo, embora de tribos diferentes, muitas vezes inimigas umas das outras, e em estágios diferentes de contato e/ou aliança com os colonizadores europeus.

Paro, agora, por aqui.

Gerson Moraes França

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Sobre o nome dos indígenas coroado

 SOBRE O NOME DOS INDÍGENAS COROADO

Já há muito tempo que tenho uma "tese" para a origem do nome "coroado", que designa tanto grupamentos indígenas do tronco étnico e linguístico puri-coroado, quanto genericamente grupos de indígenas distintos em territórios diversos e tempos diferentes. Associava-se esse termo ao corte de cabelo, e essa tese é a mais difundida e encontrada em várias fontes.

Há um outro termo usado para designar os coroados: é o nome "croato" e suas diversas formas (coroato, coroata, croata, croá, etc). Há quem entenda que esses últimos termos derivaram de corruptelas do termo original "coroado". Mas eu entendo que foi o contrário: o termo "coroado" é que derivou de "croato". Embora seja verdade que as primeiras menções a esses indígenas os grafem como "coroados", depois que o contato se consolidou se firma o termo "croato" nas regiões onde primeiramente foram aldeados. Somente mais tarde é que o termo "coroado" retorna, já aí em nova conjuntura e designando genericamente também grupos indígenas de outras regiões.

Durante muito tempo acreditei que estava só nessa interpretação. Até que encontrei os relatos de Taunay, do final do século XIX, que teve contato com os coroados do Paraná (os caingang) e resolveu pesquisá-los e problematizar o epíteto. Ele, quase século e meio antes de mim, chegou a conclusão que o termo "coroado" é corruptela de "croá". Abaixo transcrevo o texto que traz essa interpretação:

"Desde principio, porém, me impressonára o appelido de coroados, pelo qual são esses índios quasi exclusivamente conhecidos em toda a província do Paraná.

Como e porque razão tivera esse nome de caracter meramente portuguez a força e valor de eliminar do conhecimento geral a denominação de etymologia indígena e especial, que essa grande tribu devia, sem constestação possível, possuir e conservar?

Bem sabia eu que provinha aquella especificação do modo porque esses primitivos filhos do Brasil costumam cortar o cabello, e nehuma relação immediata os prendia aos coroados de Matto Grosso.

Com effeito, ahi procede o nome idêntico de simples e facil corruptela, transformação da palavra croás, que designa, em sua língua os indios do sertão intermédio a Goyaz e Matto Grosso.

No Paraná, porém, apezar das minhas indagações, ninguém sabia de outro alcunha de feição autochtona, e fiquei muito admirado quando, na cidade de Guarapuava, onde cheguei a 7 de abril de 1886, pela primeira vez ouvir da boca de um índio mais ladino a palavra caingang, como denominação geral da tribu e, do interrogatório a que o submetti, deprehendi que tenham certo desgosto em ser chamados corôados.

Causou-se espécie esta novidade, e, insistindo então interessante ponto pude verificar, depois de me entender com outros homens e mulheres da partida que viera esperar-me,que esse sentimento de desprazer lhes era commum, ficando muito satisfeitos pelo vocábulo portuguez.

Communiquei esta observação ás pessoas que me rodeavam, e nas minhas conversações com os moradores mais antigos da localidade a ella de continuo alludi, mostrando-se ignorantes do verdadeiro nome da tribu, que mantém contudo, desde os primeiros annos deste século (1816), relações mais ou menos seguidas com aquelle centro de população.

Dahi me proveiu certa ufania – poder reintregrar na grande família tupy esse ramo dos coroados, dando lhes a legitima e verdadeira appellidação indígena (RIHGB, 1888, p. 255-256)"

Esse texto encontrei há uns cinco anos no trabalho de doutorado de Dantielli Assumpção Garcia. A citação acima está às páginas 234 e 235 do referido trabalho, cuja ficha segue abaixo:

Garcia, Dantielli Assumpção. A Revista do IHGB e o saber linguístico: um gesto de documentação / Dantielli Assumpção Garcia. - São José do Rio Preto: [s.n.], 2011. 300 f.; 30 cm. 

Por hoje, é só. Talvez um dia eu fundamente mais detalhadamente de que modo eu cheguei à mesma conclusão de Taunay.

Gerson Moraes França


quarta-feira, 26 de novembro de 2025

26 de Novembro: 95 Anos da Emancipação de Mimoso do Sul

26 de Novembro: 95 Anos da Emancipação de Mimoso do Sul

Hoje, dia 26 de novembro, completam-se 95 anos do Decreto estadual que sacramentou a emancipação política de Mimoso do Sul. Neste dia, no ano de 1930, o recém empossado Interventor Federal no Espírito Santo, capitão João Punaro Bley, assinou o diploma que criou o município de João Pessoa (antigo nome da cidade de Mimoso entre 1930 e 1943) e, pari passu, extinguiu o de São Pedro de Itabapoana.

E, para memorar essa importante efeméride da história local, que mereceu até ser comemorada com um feriado municipal, trarei no presente artigo algumas informações ainda inéditas sobre a construção desse fato histórico. Fruto de uma pesquisa iniciada há trinta anos atrás, acredito que meu trabalho já se encontra maduro - e seguro - o suficiente para ser trazido à luz.

Primeiramente, precisamos dar rápidas pinceladas sobre os acontecimentos que precederam esse ato. Desde meados da década de 1920 que o então distrito de Mimoso, parte integrante do município de São Pedro do Itabapoana, pleiteava autonomia política. Mas não só isso: desejava, também, ser a sede da Comarca judiciária. O núcleo urbano do povoado de Mimoso havia crescido muito nos anos 1920 e já se tornara maior e mais dinâmico que a sede municipal em São Pedro. Estima-se que, em 1930, a população da urbe mimosense já era cerca de três vezes maior do que a são-pedrense (abre-se, aqui, um importante parênteses: estamos a falar da população do núcleo urbano - "cidade" -, e não da população total dos distritos, que englobava a população urbana e também a população rural - majoritária nessa quadra).

Em outubro de 1930 estourou uma revolução no Brasil, que foi vitoriosa. Depuseram o presidente da República e, depois, empossaram Getúlio Vargas na chefia do Governo Provisório (1930-34). Durante o processo revolucionário, houve luta - uma "pequena guerra civil" - que durou três semanas. Houve movimentações de tropas militares, batalhas, cercos e, infelizmente, muitos feridos e algumas dezenas de mortes. O sul do Espírito Santo foi invadido e tomado por tropas vindas de Minas Gerais.

Então, tracemos a conjuntura daquele momento em nossa região nos idos de outubro e novembro de 1930, para melhor compreensão do fato que estamos analisando. Primeiramente, o município de São Pedro do Itabapoana foi tomado pelas tropas mineiras, suas autoridades foram destituídas e, pelo comando revolucionário, foram nomeadas novas autoridades locais. A sede da Interventoria Civil e da Junta Governativa ficou provisoriamente no distrito de Mimoso. Com a vitória do movimento revolucionário, as autoridades locais decretaram a mudança da sede (e do nome) do município e da Comarca, de São Pedro para Mimoso (agora, rebatizada de "João Pessoa"). Alguns dias depois, e após consultar a maior autoridade revolucionária no sul do Estado à ocasião, essa determinação foi executada: é o "famoso" 02 de novembro, dia de finados, quando os "13 caminhões e força policial" chegaram em São Pedro e retiraram de lá todos os arquivos das repartições públicas, levando para Mimoso.

Tal ato local, porém, precisaria mais tarde da anuência e da formalização de diploma legal, mesmo que discricionário. Era da competência do governo do Estado sacramentar aquela decisão local. Assim, tão logo Punaro Bley tomou posse do cargo de Interventor federal, começaram as démarches dos diversos grupos políticos para manter, ou anular, a transferência da sede do município e da Comarca.

No dia 24 de novembro de 1930, uma comissão são-pedrense composta por políticos do antigo e do novo regime vai até a capital Vitória para solicitar uma audiência com o interventor Bley. Essa comissão foi composta por Jamil Mileipe (do diretório da Aliança Liberal em São Pedro), Grinalson Medina (vereador do antigo governo deposto) e Mario Caroli (representando o comércio local, e que não era político). No dia seguinte foram recebidos pelo interventor e puderam expor todos os seus argumentos e documentos, pleiteando a o retorno da autonomia do município de São Pedro do Itabapoana, mesmo que fracionado. Foi quando, após escutar os membros da comissão, Bley pronunciou a frase de que "estava admirado como aquilo não entrou ainda nos eixos". O interventor ficou com os papéis e informou que iria "estudar o caso para o andamento necessário".

Após a audiência da referida comissão são-pedrense, no mesmo dia ou no posterior, a Interventoria estadual possivelmente se comunicou com as autoridades revolucionárias em Mimoso, informando o ocorrido e solicitando esclarecimentos. Isso porque, no dia 26 de novembro, o interventor civil e um dos membros da Junta Governativa de João Pessoa (Mimoso) foram até Vitória para explicar as medidas que haviam executado. Antes de viajarem, entraram em contato com a mais alta autoridade militar revolucionária do Setor Leste mineiro, responsável pelas operações no sul do Espírito Santo, para que este telegrafasse ao capitão Bley e intercedesse por eles. E assim foi feito.

Às 16:40 horas da tarde chega ao Palácio em Vitória o telegrama do Coronel Barcellos, in verbis:

"P/ Cap Bley - Victoria
(...)
Segue ate ahi Dr Octavio Gonçalves Ferreira, prefeito Mimoso. Pessoa nossa inteira confiança que em meu nome fallará amigo sobre medidas por elle executadas. Minhas determinações anteriores e providencias deverao ser tomadas conciliatorias interesses sul estado. Rogo atendel-o atenciosamente.

Sauds [saudações] - Tte Cel Barcellos"

O Interventor Bley recebeu as autoridades revolucionárias de Mimoso e, diante do pedido supra e dos esclarecimentos prestados, resolveu "jogar a pá de cal" na autonomia de São Pedro, como escreveria um anônimo articulista em um jornal dias depois. Os dois membros do governo de João Pessoa (Mimoso) se reuniram, então, com o Secretário do Interior para lavrar o decreto que legalizaria e sacramentaria a mudança da sede e comarca e criaria o novo município. O Decreto tomou o número 113, de 26 de novembro de 1930, cuja reprodução do original segue abaixo:


O decreto foi publicado no órgão oficial do Estado no dia 27 de novembro. Os dois membros do governo revolucionário de João Pessoa (Mimoso) ainda permaneceram em Vitória e se reuniram novamente com o interventor Bley, no dia 28 de novembro, para decidirem o nome do Prefeito que seria nomeado pela Interventoria para governar o novo município. Após os entendimentos, o ungido foi o terceiro membro da Junta Governativa municipal, que havia ficado em Mimoso enquanto seus companheiros estavam na capital: Pedro José Vieira. Mas, aí, já é uma outra história...

PARABÉNS, MIMOSO DO SUL, PELOS SEUS 95 ANOS DE EMANCIPAÇÃO POLÍTICA.

Gerson Moraes França 

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Desabafo metodológico

Saudações a quem me lê.

Esse escrito é apenas um pequeno desabafo para mim mesmo. Algo que, embora pessoal, eu gostaria de deixar registrado. Pensei dias atrás em quantas coisas "escrevemos com a cabeça" e que nunca vêm a luz em um texto publicado. Não é falácia: escrevo, em meus pensamentos, vários textos e matérias por dia. Chego a escrever, às vezes, capítulo de livro em minha cabeça. É claro que, antes de vir ao papel (ou à tela), um texto precisa ser pensado; mas é o ato de o escrever e o publicar é que o torna algo real.

Outra coisa que eu preciso deixar registrado é a seriedade e a responsabilidade nos meus escritos, que aprendi em minhas aulas, com professores maravilhosos, nas duas universidade e faculdade de História que cursei (UFES e São Camilo) e que desenvolvi com o passar do tempo. Quando encontro algo inédito, ou quando chego a conclusões que considero interessantes para a historiografia, eu nunca publico de imediato; às vezes, levo alguns anos comparando fontes, buscando fontes novas ou matutando em cima do achado, até que me creio seguro para publicar sobre o assunto.

Assim, cada publicação que faço no presente BLOG ou em minhas redes sociais é fruto de um longo processo de pesquisa e maturação. É claro que estamos todos sujeitos a errar, mas faço tudo o que é necessário para que tal possibilidade seja ínfima.

É isso.

Gerson Moraes França



terça-feira, 14 de outubro de 2025

Silvestre Coelho dos Santos - De Escravo a Fazendeiro.


Silvestre Coelho dos Santos
Imagem gerada por IA, com orientação do autor e
usando como base as fotos de seus descendentes.

SILVESTRE COELHO DOS SANTOS - DE ESCRAVO A FAZENDEIRO.

Há quase dez anos atrás escrevi aqui no BLOG um texto que tratou da figura de Mestre Silvestre, um homem nascido escravizado que, com seu labor, conquistou a alforria e depois se tornou um abastado fazendeiro. O texto seria complementado por outro que trataria do Doutor José Coelho dos Santos, filho de Silvestre e que se tornou importante médico e proeminente político no Estado do Espírito Santo; esse segundo texto, porém, até hoje não foi publicado - ficou em meus rascunhos, aguardando "não sei o que"...

Para quem quiser ler o primeiro texto, intitulado "Coelho dos Santos - Silvestre e José, Mestre e Doutor (Parte 1)", basta clicar nesse LINK.

O leitor pode pensar: "virá agora a segunda parte do texto?" E eu já respondo que não; nos anos subsequentes continuei pesquisando e encontrei tantas fontes interessantes sobre Silvestre Coelho dos Santos, que imperioso se faz retomar a primeira parte do texto com novas e até hoje inéditas informações sobre essa rica - e até então um tanto nebulosa - personagem de nossa história espírito-santense.

No primeiro texto, diante das limitações que nos deparávamos em acessar - à época - alguns arquivos e fontes, muitos fatos sobre sua vida ficaram vagos. Algumas ilações restavam sem comprovação: meras presunções ou hipóteses. Algumas informações, inclusive, estavam equivocadas e fizemos algumas pontuais retificações em EDIT's no post original. Enfim, agora passados esses quase dez anos, creio que possuo elementos o suficiente para retratar a vida de Silvestre Coelho dos Santos de forma um pouco mais clara. Foi possível lançar mais luz sobre a história de sua trajetória, embora tais "descobertas" tenham aberto novas portas para presunções, ilações e hipóteses.

Buscando inicialmente tratar do filho Doutor José (objeto de meus estudos sobre São Pedro do Itabapoana, torrão que pesquiso e estudo há quase trinta anos) acabei me envolvendo e me aprofundando sobre o pai Mestre Silvestre. Comecemos, então.

Importante informar, primeiramente, que no título da presente matéria resolvi manter o termo "escravo", ao invés de "escravizado", que seria a terminologia mais adequada aos tempos atuais. Isso porque Silvestre foi uma pessoa que nasceu escravizada, e recebeu o estigma de "escravo" desde que saiu do ventre materno. Mantive o termo para retratar como ele era visto pela sociedade, à sua época: um ex-escravo que se tornou fazendeiro.

NASCEU ESCRAVIZADO

Silvestre nasceu em uma fazenda no distrito de Bom Sucesso, então parte do termo da Vila de São José (atual Tiradentes/MG), e foi batizado no dia 02 de fevereiro de 1813. Filho natural de Silveria, então com 27 anos de idade e escrava de Francisco Coelho dos Santos; não foi feito o registro do pai, e foram padrinhos Venancio José Vivas (genro de Francisco Coelho) e dona Maria de Moraes. Assim como Silvestre, a crioula Silveria nascera cativa, em Minas Gerais. Tempos depois ela se casou. Creio que ela tenha se casado depois de ter dado a luz à Silvestre, porque em todos os registros que disponho o pai dele não é mencionado, ou é registrado como filho de pai incógnito.

Silvestre fora encaminhado para aprender o ofício de carpinteiro, no engenho de serra da propriedade, onde iniciou como aprendiz. Quando completou 18 anos já exercia a carpintaria, junto com outros dois escravos crioulos mais velhos. Nessa época, o tenente Francisco Coelho dos Santos e sua mulher dona Joana Angelica de Castro possuíam 47 escravos em sua fazenda, entre crianças e adultos: 17 pardos, 11 crioulos e 19 africanos pretos. 31 eram homens (16 africanos e 15 nascidos no Brasil) e 16 eram mulheres (3 africanas e 13 nascidas no Brasil). Dos homens, 25 laboravam na lavoura.

Dona Joanna Angelica faleceu em 1835 e seu marido, o tenente Francisco Coelho, morreu provavelmente antes de 1850. Nesse ínterim, encontramos registros interessantes: em 1837 Silveria era "criola forra", isto é, tinha recebido a liberdade, mas não sabemos em que condições a conquistou (se por compra ou concessão da alforria, se por testamento, etc). Em 1850 ela já havia adotado o sobrenome da família para a qual trabalhara na condição de escravizada: Silveria Coelha. Já Silvestre, seu filho carpinteiro, não sabemos se nessa ocasião ainda era escravizado, ou não.

MUDOU PARA O ITABAPOANA

Na década de 1850, tomou grande incremento um movimento migratório que levou várias pessoas da região de Oliveira e Bom Sucesso, em Minas Gerais, para o "as matas e sertão do Itabapoana", então coberto por densa floresta e com as primeiras fazendas cafeeiras sendo formadas. Vários parentes ou aparentados dos Coelho dos Santos adquiriram posses naquela região. Por exemplo, netos de Venancio Vivas (genro de Francisco Coelho e padrinho de Silvestre), como Constantino Gonçalves Vivas e Leopoldino Gonçalves Castanheira; um neto de Francisco Coelho, chamado Felisberto Ribeiro dos Santos, que era filho de outro Francisco Coelho e de dona Messias Carolina de Castro (irmã dos fundadores das fazendas União, Recreio e Harmonia), dentre outros.

Foi a sociedade de três irmãos de dona Messias Carolina (Felisberto Ribeiro da Silva Junior, Ignacio Ribeiro da Silva Castro e José Ribeiro da Silva Castro) que, certamente, foi responsável pela vinda de Silvestre para a região do Itabapoana. Em agosto de 1855 os irmãos compraram a posse então chamada de Fortuna, vendida pelo posseiro José Lopes Diniz e que daria origem às fazendas do Recreio e da Harmonia. Pouco tempo depois, em 12 de junho de 1856, um dos irmãos comprou a União junto à Dona Maria Angelica, viúva de José Carlos de Azevedo (primeiro posseiro da fazenda de São Pedro, perto da foz do ribeirão). Todas essas posses ficavam no ribeirão São Pedro, afluente do rio Itabapoana. Foi nessa época que Silvestre também mudou-se; veio, como presumimos, já forro e livre. Assim, teria chegado ao Itabapoana em algum momento da segunda metade da década de 1850.

Curiosidade: essa primeira compra feita em 1855, de "uma sorte de terras no ribeirão de São Pedro (...) divisa por baixo com Maria Angelica de Abreu Lima e por cima com Fernando Antonio Dutra Nicacio", foi assinada na "Fazenda do Mimozo, em 12 de agosto de 1855", pelo vendedor José Lopes e sua mulher (senhores e possuidores de uma fazenda denominada Fortuna, sita no ribeirão de São Pedro, Província do Espírito Santo) e por dois dos irmãos compradores (Felisberto e Ignacio), que portanto já estavam no sertão do Itabapoana. A primeira escritura dessa posse havia sido passada para José Lopes na Vila do Presídio, Minas Gerais, em 19 de agosto de 1851, por Manoel José Lopes, o primeiro posseiro (possivelmente trabalhando na formação de posses para José Lopes Diniz).

As primeiras fontes que fazem menção expressa à presença de Silvestre Coelho dos Santos na região sul do Espírito Santo são escrituras de compra e venda, e de troca, que os irmãos Felisberto, Ignacio e José fizeram entre si e com terceiros. Nelas é citado um contrato que os fazendeiros firmaram com Silvestre, de vender uma sorte de terras entre as propriedades em troca dos serviços de carpintaria. Abaixo, transcrevemos alguns trechos das escrituras atinentes ao referido contrato:

"(...) incluindo terra para cinquenta alqueires de planta, que tem contratado vender a Silvestre Coelho dos Santos (...)". [entre Harmonia/Recreio e União; escritura pública de 02 de dezembro de 1860]
 "(...) em cuja fazenda assim confrontada ficam incluídas terras para cinquenta alqueires de planta que tem contratado vender a Silvestre Coelho dos Santos (...)" [escritura pública de 09 de outubro de 1860; havia um engenho de serra na Harmonia]
"(...) e bem assim um contracto que elles tem com um official de carpinteiro por nome Silvestre de acabar as obras que o mesmo Silvestre contractou com elles outorgantes vendedores (...)" [escritura pública de 29 de agosto de 1862]

Assim, depreende-se que as histórias preservadas pela memória local sobre Silvestre estão pautadas em fatos que realmente ocorreram: um ex-escravizado carpinteiro que adquiriu (por compra ou por outro meio) sua liberdade. O porquê de Silvestre ter sido encaminhado para aprender um ofício, ao invés de ter sido alocado na lavoura, é resposta para a qual só podem restar meras ilações.

CONSTITUIU FAMÍLIA

Provavelmente Silvestre mudou-se para o Itabapoana quando ainda era solteiro. Não consta que tenha contraído um casamento anterior ao enlace pelo qual constituiu sua família e, caso tenha vivido maritalmente em Minas Gerais, não deixou filhos legítimos. Assim, ludo leva a crer que se casou quando já morava no sul do Espírito Santo.

Sua esposa, chamada Arminda Maria do Carmo (também Arminda Maria dos Santos, depois do casamento), nasceu em c. 1843 e era negra. Não conheço a condição pretérita de dona Arminda, mas não parece ter sido escravizada. À época que Silvestre chegou ao Itabapoana (entre 1855 e 1859), Arminda teria entre 12 e 16 anos; dessa forma, eles se casaram quando Silvestre tinha mais de 40 anos de idade e ela era adolescente. Antes de ter dado a luz à José (o futuro Dr. José Coelho dos Santos) em novembro de 1862, teve dois outros rebentos (Serapião e Agostinho) e pode ter tido ainda alguma(s) de sua(s) filha(s). O casamento de ambos, portanto, possivelmente se realizou entre c. 1857/60.

Silvestre e Arminda tiveram 13 filhos, 2 deles falecidos em tenra idade; dos 11 que chegaram a vida adulta, foram 5 homens (Serapião, Agostinho, Marcolino, José e João) e 6 mulheres (Etelvina, Maria Joanna, Adolphina, Vitalina, Leonor Maria e Silvia).

CONSTRUIU FORTUNA

O contrato que Silvestre firmou com os irmãos Silva Castro foi devidamente cumprido. Por escritura pública lavrada em 04 de julho de 1863, o carpinteiro comprou os 50 alqueires de planta no lugar denominado São Sebastião, no ribeirão de São Pedro, por dois contos de réis, e se tornou fazendeiro. E aí abre-se lacuna para aquela pergunta que fizemos na primeira matéria sobre Silvestre Coelho dos Santos: teria ele sido proprietário de escravizados? Naquela oportunidade, respondemos que sim, e que havíamos conseguido individualizar pelo menos um deles. Presumimos, naquela época, que ele teria tido um pequeno bocado de escravos.

De posse do inventário de Silvestre (processado em 1881) constatamos que, ao falecer, além de sua  fazenda, cafezais, casas*, moinho, móveis, ações e animais, ele tinha 12 pessoas escravizadas sob sua propriedade. Mais abaixo, ao final da presente matéria e para efeito de registro histórico, apresentamos a lista dos escravos arrolados no referido inventário.

Parece estranho, aos olhares da contemporaneidade, que um negro ex-escravizado pudesse possuir escravos; mas, à época, isso era algo comum. Ainda mais nos casos de negros donos de propriedades rurais: a mão-de-obra usada nas fazendas cafeeiras do vale do Itabapoana até a década de 1880 era praticamente toda escravizada.

* O fato de não ter sido arrolado bem imóvel urbano algum no inventário nos faz crer que as casas que ele "teve" em Campos e em São Pedro (ler a primeira matéria) fossem, na verdade, imóveis alugados.

NÃO SE ALFABETIZOU

Silvestre jamais se alfabetizou; não sabia ler, nem escrever. Morreu assim. Seus filhos, pelo menos os homens, foram alfabetizados; um deles, como bem sabemos, se formou em medicina. Tratei de seu analfabetismo na primeira matéria sobre ele, informando - por exemplo - que em 1877 quem assinava seus documentos, a rogo do mesmo, era seu filho José Coelho dos Santos. Depois disso, encontrei outras fontes que provam que Silvestre não era letrado. As principais, creio eu, são as listas de eleitores qualificados nas paróquias (documentos digitalizados que me foram cedidos, gentilmente, por meu primo Diogo França, genealogista). Fucei todas as listas e, na listagem de 1876/77 (poucos anos antes do óbito de Silvestre), resta clarividente o fato. Esta relação (qualificada em 1875) reza:

Eleitor nº 166 - Nome: Silvestre Coelho dos Santos - idade: 62 - Estado: casado - Profissão: fazendeiro - Sabe ler: NÃO [grifo meu] - Filiação: desconhecida - Domicílio: Nesta freguesia - Renda presumida: 2:000$000 [dois contos de réis] - Simples votante: X - Elegível: -

Creio, portanto, ser esse um assunto esgotado: o fazendeiro Silvestre Coelho dos Santos, escravo forro e carpinteiro, não se alfabetizou, mesmo depois de ter adquirido suas propriedades em bens e pessoas.

Silvestre Coelho dos Santos faleceu em 08 de março de 1881, em São Pedro do Itabapoana.

Pesquisa e texto: Gerson Moraes França


LISTAGEM DAS PESSOAS ESCRAVIZADAS QUE CONSTAM NO
INVENTÁRIO DE SILVESTRE COELHO DOS SANTOS

O escravo Domingos de cor preta com 49 anos de idade, carpinteiro, casado com Marianna, natural de Minas Gerais, matriculado sob os números 4209 da matrícula geral e um da relação, avaliado por 1:650$000.

A escrava Marianna de cor parda com 23 anos de idade, natural do Ceará, lavradora, casada com Domingos, matriculada sob o número 7360 da matrícula geral e 2 da relação, avaliada por 1:100$000.

O escravo Virgilio de cor preta com 19 anos de idade, lavrador, natural desta Província, cambeta, matriculado sob o número 4211 e três da relação, avaliado por 900$000.

O escravo Luis de cor preta com 37 anos de idade, casado com Irias, carpinteiro natural de Minas Gerais, matriculado sob os números 4914 da matrícula geral e 4 da relação, avaliado por 1:900$000.

A escrava Irias de cor preta, casada com Luis, cozinheira, natural de Minas Gerais, com 27 anos de idade, matriculada sob os números 4216 da matrícula geral e 5 da relação, avaliada em 900$000.

O escravo Geraldo de cor parda, solteiro, com 12 anos de idade, filho desta Província, lavrador matriculado sob os números 4217 da matrícula geral e 6 da relação, avaliado por 900$000.

O escravo Bartolomeu de cor preta com 34 anos de idade, lavrador, natural do Rio de Janeiro, matriculado sob os números 7358 da matrícula geral e 7 da relação apresentados neste termo, casado com Maria, avaliado em 800$000.

A escrava Maria de cor preta com 32 anos de idade, casada com Bartolomeu, natural do Rio de Janeiro, matriculada sob os números 7537 da matrícula geral e 8 da relação, avaliada em 1:100$000.

Os segundo, sétimo e oitavo escravos foram matriculados neste Município pelo inventariado em 08 de março de 1873. O primeiro, terceiro, quarto, quinto e sexto foram matriculados neste Município pelo inventariado em 30 de julho de 1872.

Haverá para seu pagamento o escravo José de cor preta, solteiro, natural de Minas Gerais, com 26 anos de idade, matriculado sob os números 4210 da matrícula geral e 1 da relação, avaliado por 1:500$000.

Haverá o escravo Saúl de cor preta com 47 anos de idade, lavrador, solteiro, natural de São Paulo, com feridas, matriculado sob os números 4215 da matrícula geral e 2 da relação, avaliado por 300$000.

Esse dois escravos foram matriculados neste Município, em 30 de julho de 1872, pelo inventariado.

Haverá a escrava Maria de cor preta natural do Brasil, lavradora com 51 anos de idade, matriculada sob os números 35.224 da matrícula geral e um da relação apresentada ao Município de Campos, em 31 de julho de 1875, averbada neste Município em 22 de dezembro de 1877, nota número 563, avaliada por 350$000.

Haverá para seu pagamento a escrava Deolinda, de cor preta com 16 anos de idade, lavradora, solteira, natural desta Província, matriculada sob os números 4213 da matrícula geral e 5 da relação apresentada neste termo, em 20 de julho de 1872 pelo inventariado, avaliada por 750$000.

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

Fontes sobre o Quilombo destruído em 1843 no Espírito Santo

Habitation de négres (Johann Moritz Rugendas, 1827)
Acervo Brasiliana Iconográfica

FONTES SOBRE O QUILOMBO DESTRUÍDO EM 1843 NO ESPÍRITO SANTO

Há pouco mais de dois anos e meio atrás recebi um documento, encaminhado pela Secretaria de Cultura do Município de Muqui, de autoria da CCRQ (Coordenadoria de Comunidades Remanescentes de Quilombos) e direcionado para a Fundação Cultural Palmares (Ministério da Cultura). Tal documento trata de uma solicitação de abertura de processo de identificação de comunidades remanescentes de quilombolas no rio Muqui, no município de Atílio Vivacqua (ES). À época, lendo o arrazoado que fundamenta o requerimento, fiquei um tanto reticente; parecia-me que havia ali um esforço em identificar um quilombo destruído em janeiro de 1843 por forças organizadas pelas autoridades, com comunidades rurais existentes atualmente no município supra aludido.

Iniciei uma pesquisa criteriosa, então, para entender se haveria alguma relação entre o quilombo desmantelado em 1843 e as comunidades atilienses dos tempos presentes. Pesquiso e estudo a história da região sul do Espírito Santo há muitos anos, e tal assunto muito me interessava; até porque eu o desconhecia e ele não se "encaixava" em meus estudos. E o resultado foi bem conclusivo. Certamente não há nenhum liame ou solução de continuidade do quilombo destruído em 1843 com os atuais moradores dessas regiões de Atílio Vivacqua. O que, é claro, não invalida qualquer iniciativa de se reconhecer como comunidades quilombolas as que estão pleiteando esse reconhecimento; as provas, porém, deverão ser outras, e a pesquisa precisará seguir por outro caminho.

Mais abaixo, transcrevo as fontes que encontrei sobre o acontecimento de janeiro de 1843. Lendo-as, vamos perceber alguns importantes pontos que trataremos doravante e, é claro, chegar a conclusão de que o referido quilombo estava situado em outro local que não o rio Muqui.

O primeiro ponto é que a autora Maria Stella de Novaes (citada no requerimento elaborado pelo CCRQ) interpretou de forma equivocada parte do documento que a serviu de fonte, bastando comparar o seu texto com o texto do ofício original, que foi compilado por Levy Rocha; idem, quando comparado com as outras fontes primárias contemporâneas que abaixo transcrevo. Não foram 70 quilombolas armados que resistiram à guerrilha, como Novaes interpretou: 70 eram os homens armados da guerrilha que atacou o quilombo.

Segundo ponto é que, mesmo que não tivéssemos conseguido localizar expressamente em uma das fontes pesquisadas onde existiu o quilombo destruído em 1843, não seria possível saber em que região do Itapemirim teria ocorrido; na verdade, não poderíamos sequer afirmar que o referido quilombo estivesse na região do Itapemirim. Há autores, por exemplo, que afirmam (também equivocadamente) que o quilombo de 18 casas destruído em 1843 ficava em Aracruz, como na obra "Negro e Resistência" de Assis & Saquetto (2017, pág. 26).

Acredito que o documento elaborado pela CCQR, datado de janeiro de 2002 e encaminhado para apreciação da Fundação Cultural Palmares, tenha sido o primeiro que aventou a hipótese de que o quilombo desbaratado em janeiro de 1843 teria existido na região de Itapemirim. Tal presunção do(s) autor(es), creio eu, teria advindo do fato de que o ofício que comunicou tal feito ter sido escrito por Joaquim Marcelino da Silva Lima, o futuro Barão de Itapemirim, que era residente nessa região.

O problema de tal hipótese, porém, é que não seria possível comprová-la. E, ao contrário, seria mais verossímil que o quilombo objeto de nosso estudo ficasse em alguma região mais próxima da atual "grande Vitória", do que em Itapemirim ou Aracruz; isso porque Joaquim Marcelino estava exercendo interinamente a presidência da Província e estava na capital Vitória quando escreveu o ofício que comunicou o feito ao Ministro do Império. A diligência da guerrilha, segundo o ofício, teve início no dia 12 de janeiro de 1843; e no dia 17 do mesmo mês a força estava na capital, quando deu a notícia do que havia obrado - a destruição do quilombo, com mortes e prisões - ao presidente interino.

Enfim, é certo que o aqui estudado "quilombo de 18 casas" não ficava em Itapemirim, e nem em Aracruz; e, mesmo caso estivesse localizado na região de Itapemirim, não seria possível afirmar com as fontes existentes se estaria ao norte ou ao sul do rio, mais para dentro do sertão ou próximo da costa. Assim, de forma alguma, nunca poderíamos afirmar que esse destroçado quilombo ficasse em terreno hoje pertencente ao município de Atílio Vivacqua, e nem que exista algum liame que o identifique como sendo o embrião das comunidades que pleiteiam o reconhecimento junto à Fundação Cultural Palmares.

Onde ficava o quilombo, então? Na última fonte que transcrevo mais abaixo (FONTE 7), está a resposta. Em tal fonte há os esclarecimentos que buscávamos, e alguns detalhes interessantes como o nome da pessoa que comandou a guerrilha que atacou e destruiu o quilombo. Este último estava localizado nas cabeceiras do rio Jucú, na região conhecida como Bahia Nova, antigamente parte do distrito de Viana e hoje parte do município de Guarapari.

Cesar Augusto Marques, em seu Diccionario  Historico, Geographico e Estatístico da província do Espírito Santo (1878), trata desse acontecimento em seu verbete sobre a localidade de Bahia Nova (pág. 12). E Eribaldo Balestrero, em artigo intitulado "Lugares e Povoações de Viana" publicado em sua obra "Subsídios para o Estudo da Geografia e da História de Município de Viana" (1951), trata do verbete e o localiza em lugar definido:

"Baía Nova - Povoação antiga do município. Era a princípio um quilombo que foi batido e conquistado, com 70 homens, em janeiro de 1843, por André de Siqueira Matos, residente na então povoação de Viana. Hoje é um importante núcleo de população habitado por colonos de origem italiana que se dedicam às culturas do café, de cereais e de frutas em grande escala.  Foi usurpada ao município e anexada ao de Guarapari em 1943, estando o assunto dependendo da realização de um plebiscito eleitoral. Possui uma escola primária e uma belíssima capela católica, dedicada a Cristo-Rei.
Nas suas vizinhanças, do lado norte, já à margem  do Jacarandá, está situada a povoação de Santa Rita, também habitada por colonos italianos, na sua maior parte, que se ocupam das culturas do café e cereais. Possui também uma escola pública."

Atualmente, a comunidade de Bahia Nova continua integrada ao município de Guarapari.

Abaixo seguem as fontes que compilei e transcrevi:


FONTES SOBRE O QUILOMBO DESTRUÍDO EM JANEIRO 1843 NO ESPÍRITO SANTO:
 

FONTE 1
História do Espírito Santo (1968)
Autora: Maria Stella de Novaes
Pág. 191:
 
“(...) 1843 - Aumentava o número de quilombos. A 17 de janeiro de 1843, êsse Vice-Presidente, em exercício, comunicava ao Ministro Araújo Lima ter batido e destroçado um quilombo de dezoito casas, constituído de setenta prêtos bem municiados. A luta foi dura. Alguns negros foram mortos, no campo da peleja; outros, presos, enquanto dois paisanos e um soldado ficaram feridos, sem gravidade.”
 
 
FONTE 2
Crônicas de Cachoeiro, 1966
Autor: Levy Rocha
Pág. 44:
 

“Os Barões de Itapemirim
Distinguiu-se na repressão aos índios que hostilizavam as fazendas e povoados e deu conta de sua atividade como "Capitão-do-Mato" quando, em 1843, ocupando interinamente a Presidência do Província, informou ao Ministro do Império: "... Possuído do maior prazer, vou participar a V. Exa. para que chegue a conhecimento de S. M. o Imperador, que hoje mesmo veio de bater e destroçar quilombos uma guerrilha que, em conseqüência das ordens existentes, a despeito de dificuldades, consegui aprontar e fiz marchar em tão interessante diligência no dia 12 do corrente mês, a qual arrasou completamente um quilombo de 18 casas, deixando mortos alguns negros, que resistiram, e conduzindo todos que puderam prender. Tenho notícia de que existem mais quilombos, que pretendo tenham a mesma sorte, e para isso não me pouparei aos maiores sacrifícios empregando todos os meios que existirem ao meu alcance por quanto é esse o mais considerável benefício que se pode fazer a esta Província".
 
 
FONTE 3
História do Estado do Espírito Santo, 3ª edição (2008)
Autor: José Teixeira de Oliveira
Pág. 352:
 
“39 - O presidente Joaquim Marcelino, a dezessete de janeiro de 1843, comunicava ao ministro Araújo Viana ter sido batido e destroçado um quilombo de dezoito casas. Aprisionaram os que puderam e deixaram alguns negros mortos no campo da luta. “Na resistência que fizeram”, foram feridos dois paisanos e um soldado, porém sem grande gravidade (Pres ES, VII).”
 
 
FONTE 4
Falla com que o exm. presidente da provincia do Espirito Santo, Wenceslau de Oliveira Bello, abriu a Assembléa Legislativa Provincial no dia 25 de maio de 1843.
Pág. 03:
 
“Tranquilidade Publica, Segurança Individual, e Força Publica.
(...) Um quilombo de negros e facinorosos foi há pouco batido e destroçado, por sabias medidas tomadas por um dos meus benemeritos Predecessores, e continuarão a sel-o os que demais aparecerem: (...)”
 
 
FONTE 5
Falla dirigida á Assembléa Legislativa da provincia do Espirito Santo na abertura da sessão ordinaria do anno de 1846 pelo exm. vice-presidente da mesma provincia, Joaquim Marcellino da Silva Lima. 
Pág. 07:
 
“Força Publica
(...) entretanto que o interesse particular dos Senhores dos escravos, a das Praças da Guerrilha contribue tambem efficazmente para que ellas sejão coroadas de feliz sucesso, como ha bem pouco tempo se observou, sendo arrazado um antigo quilombo, e presos quasi todos os escravos que o occupavão.”
 
 
FONTE 6
Relatório apresentado à Assembleia Geral Legislativa na segunda sessão ordinária da quinta legislatura, em 1843, pelo Ministro e Secretário de Estado Interino dos Negócios Estrangeiros Honório Hermeto Carneiro Leão, em 15 de maio de 1843.
Pág.
 
“Na província do Espírito Santo (...) a destruição de um quilombo composto de 18 casas habitadas por uma quadrilha tão numerosa, que animou-se a resistir a uma guerrilha de 70 homens bem armados e municiados que o presidente da província para ali mandára a destruir esse quilombo, o que conseguiu sem perda de um só homem, e com o ferimento leve de uns dous, ficando porêm mortos alguns dos escravos fugidos. Outros quilombos porém restavam, que o presidente se propunha a mandar destruir.”


FONTE 7
Falla com que o Exm. Vice-Presidente da Província do Espírito Santo, José Francisco de Andrade e Almeida Monjardim abrio a Assembléa Legislativa Provincial no dia 23 de maio de 1844.
Pág. 13:

"(...) Uma medida que considero vital ao augmento da lavoura e a segurança individual dos lavradores é sem dúvida a de serem batidos os muitos e fortes quilombos de escravos refugiados que existem nas vizinhanças do povoado, vivendo do roubo e do assassinato; autorisar o governo com meios pecuniarios a esse fim desse ser objecto de consideração da assembléa. Os escravos que se achão aquilombados no lugar chamado Bahia Nova, sobre as cabeceiras do rio Jucú, e que escaparão á batida que em janeiro do anno próximo passado lhes deu o cidadão André de Siqueira Mattos com uma guerrilha de 70 homens, não cessão de desafiar a este cidadão probo, chefe de família, ameaçando-o de lhe pôrem fogo á casa de sua residência no sertão de Santo Agostinho, e que se tornar a procura-los, não voltará como da primeira vez, porque estão bem providos de munições que lhes tem arranjado pessoas livres, que não são índios, pardos ou pretos. Esta declaração não deve ser desprezada pelos legisladores, porque infelizmente haverá quem trate com taes fugidos a troco de alguns interesses particulares." (GRIFO MEU)


Pesquisa e texto: Gerson Moraes França