terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Teonilo de Souza - um herói mimosense

Neste ano que vai acabando, “comemorou-se” os setenta anos do início da Segunda Guerra Mundial. Esse conflito, que durou seis anos e no qual perderam a vida cerca de setenta milhões de pessoas em todo o mundo, acabou envolvendo diretamente o Brasil: em 1942, após ter mais de trinta embarcações torpedeadas, nosso país declarou guerra à Alemanha. O Brasil enviou tropas para lutar na Europa, mais especificamente na Itália, em 1944.

Pouco mais de 25 mil brasileiros (entre combatentes e não combatentes) foram remetidos à Itália, integrados à 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária, que depois ficou conhecida como FEB (Força Expedicionária Brasileira). Quase três mil homens da FEB foram feridos em combate, e perderam a vida cerca de 450 brasileiros.

Doze capixabas foram mortos na campanha da Itália, dentre eles um mimosense. Esse herói nascido em Mimoso do Sul foi enterrado no cemitério militar brasileiro em Pistoia/Itália, juntamente com as centenas de brasileiros mortos na guerra. Em 1960, seus restos mortais e os de seus companheiros foram trazidos de volta ao Brasil, transferidos para o Monumento aos Mortos da Segunda Guerra, no Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro, onde descansa até hoje.

Sim, caro leitor. Um mimosense verteu seu sangue na luta contra o nazi-fascismo. Esse mimosense, que lutou bravamente na Itália e deu sua vida pela nossa pátria, curiosamente, não recebeu nenhuma homenagem em seu torrão natal. Em São Paulo, esse mimosense foi homenageado dando seu nome a uma rua da capital paulista; mas, em Mimoso do Sul, não há nem um logradouro, praça, ou mesmo uma pequena plaquinha, homenageando-o.

Seu nome era TEONILO DE SOUZA.

O soldado Teonilo de Souza partiu para a Itália no 1º Escalão da FEB, composto por pouco mais de cinco mil homens, saindo do Rio de Janeiro em 02/07/1944 e chegando à Nápoles em 16/07. Pertencia ao III Batalhão do 6º Regimento de Infantaria (o Regimento Ipiranga, de Caçapava/SP). Esteve junto das primeiras tropas brasileiras que entraram na Linha de Frente em Vada-Ostedalettoe, no vale do rio Sercchio, em 15/09. Seu Batalhão entrou em posição inicialmente na reserva, passando para a primeira linha em 17/09.

O III Batalhão tomou parte em diversas batalhas no setor do Sercchio, conquistando várias vitórias, como Camaiore, Monte Prano e Barga. Após 45 dias na linha de frente, o seu Batalhão foi enviado para Porreta Terme, no setor do Rio Reno. Entre os dias 04 e 21/11 ficaram posicionados nessa cidade, em descanso, embora os bombardeios alemães fossem freqüentes. No dia 22/11 entraram novamente em linha, para participarem do que seria o primeiro ataque brasileiro às posições alemãs em Monte Castelo.

Teonilo participou desses primeiros combates, travados nos dias 24 e 25/11. A resistência alemã foi tenaz, e os brasileiros tiveram que recuar para a sua linha de partida. Nessa ocasião, o soldado Teonilo teve atuação destacada, recebendo elogios do comandante do Batalhão, Major Silvino Castor da Nóbrega. No dia 26, nova investida foi suspensa devido ao grande número de baixas que as defesas alemãs provocaram nas tropas brasileiras.

No dia 29/11 foi lançado novo ataque contra Monte Castelo. O seu Batalhão continuou em suas posições, na região de Bombiana, durante a investida levada a efeito neste dia por dois outros Batalhões. E foi nesse dia que o soldado Teonilo de Souza, nascido em Mimoso do Sul, perdeu a vida. Morto em ação, em Monte Castelo, no dia 29 de novembro de 1944. Após mais esse revés, o III Batalhão do 6º RI seria retirado da linha de frente por alguns dias. Seriam necessários mais dois ataques (12/12/44 - mal sucedido, e 21/02/45 - vitorioso) para que os brasileiros tomassem o Monte Castelo.

Esse herói mimosense, que morreu pela pátria, foi agraciado com as Medalhas de Campanha, a Sangue do Brasil e a Cruz de Combate de 2ª Classe. E, em Mimoso do Sul, o soldado Teonilo de Souza ainda permanece esquecido.


Gerson Moraes França


FONTES -
Informações sobre Teonilo de Souza:
http://www.anvfeb.com.br

Informações sobre o III Btl / 6º RI: http://www.2guerra.com.br

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Em 1955, Limeira do Itabapoana ainda estava lá

Abaixo segue um mapa de parte do Município de Campos, datado de 1955. Esse mapa foi publicado na "Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, vol. VI, IBGE, 1958, p. 148", e está disponível in totum no site Estações Ferroviárias do Brasil referente à Estação da referida cidade.
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Reparem bem em cima, um pouquinho para a direita, na margem do rio Itabapoana, pertinho da Pedra do Garrafão (que hoje dá nome à usina hidrelétrica recém construída): sim, lá está Limeira!
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Nessa época, o Povoado já estava em franca decadência, e receberia o golpe final poucos anos depois quando da implementação da política de erradicação do café, que acarretou uma grande emigração e fez decrescer a população da grande maioria dos distritos e pequenos povoados da bacia do Itabapoana. No lado do Espírito Santo, por exemplo, na época que o presente mapa foi confeccionado, só haviam ruínas da "Limeira capixaba", conforme atesta Olympio José de Abreu na "Ligeira Notícia Histórica sôbre Mimoso do Sul", publicada em 1951.
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Nos mapas em escala 1:50000 feitos pelo mesmo IBGE em 1968, Limeira não aparecia mais como núcleo existente. Só restavam as ruínas engolidas pelo mato e por sedimentos; as mesmas ruínas que, erroneamente, então sendo agora confundidas como sendo da quinhentista Vila da Rainha.
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Gerson Moraes França
Clique no mapa para ampliar a imagem

Ruínas da Vila da Rainha - Aires de Casal e Couto Reis estiveram lá

Lá vou eu, novamente, com esse assunto de Vila da Rainha... sei, já deve estar enfadonho, mas esse post é bem curtinho. São duas citações, feitas por duas pessoas que, entre o final do século XVIII e início do XIX, estiveram da região da Enseada do Retiro, onde encontraram as ruínas VERDADEIRAS da VERDADEIRA Vila da Rainha.
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A primeira é uma reprodução de pedaço do relatório escrito pelo Capitão Manoel Martins do Couto Reis em 1785, intitulado pomposamente de "Descrição Geográfica, Política e Cronográfica do Distrito dos Campos Goitacás que por Ordem do Ilmo e Exmo Senhor Luiz de Vasconcellos e Souza do Conselho de S. Majestade, Vice-Rei e Capitão General de Mar e Terra do Estado do Brasil, etc se Escreveu para Servir de Explicação ao Mapa Topográfico do mesmo Terreno, que debaixo de dita Ordem se Levantou. Rio de Janeiro":
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"(...) Eu refletindo bem nesta notícia, me propus a indagar os vestígios dela; com pouca diligência os achei, e principiam mesmo chegado as mós; e é um valado profundo entre o combro do mar e a terra firme, que vai fenecer na gamboa, que forma o Cabapuana: é natural que por ali encanassem as águas do rio. Subindo-se uma pequena eminência deste lugar, entre densos matos, se encontram resíduos de paredes e telhas, que mostram haver ali antigamente algum estabelecimento que o tempo consumiu." (1)
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A segunda é uma reprodução de uma pequeno trecho da obra "Corografia Brazilica ou Relação historico-geografica do Reino do Brazil", escrita pelo Padre Manuel Aires de Casal e publicada em 1817, e que foi o primeiro livro editado no Brasil:
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"(...) porque junto à extremidade duma baía no lado meridional do Cabapuana, mui perto da praia do mar, existem duas mós de pedra européia com alguns resquícios de povoação; e entre os moradores da visinhança há tradição, que fora ali a morada de Pedro Góis."
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Após as inúmeras matérias aqui colocadas anteriormente, e depois de ter mais dois "advogados de nossa causa" antigos, que estiveram nas verdadeiras ruínas da Vila da Rainha, na Enseada do Retiro, próximo ao mar, só me resta dizer mais uma vez:
- Pesquisadores do Museu Nacional / UFRJ, parem de teimar sem fundamento!
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Gerson Moraes França
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Citação retirada do brilhante trabalho escrito pelo historiador Arthur Soffiati,
tratando sobre a Vila da Rainha, disponível no seguinte site:
Em 15/12/2009

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Vamos Começar a Corrigir?

Em tópico anterior, intitulado de “Corrigindo a História”, disse eu que, em meus mais de dez anos de pesquisas, havia notado que havia incongruências, omissões e, mesmo, erros na tradicional historiografia escrita mimosense.

Na ocasião, assim me exprimi:
“Comecei a reparar que havia alguns equívocos na historiografia mimosense assim que iniciei minhas pesquisas em fontes primárias. Muitos erros e/ou omissões são apenas pontuais, não interferindo muito no desenvolvimento da nossa verdadeira história. Alguns outros são mais relevantes, transformando um equívoco ou uma construção fictícia em realidade que muda a essência dos fatos históricos.”
“Cito um exemplo do primeiro caso, um erro apenas pontual, mas que é, do ponto de vista do pesquisador, erro grosseiro. Nas primeiras eleições realizadas em Mimoso do Sul pós-1930, a historiografia local dizia que o candidato vencedor - Pedro José Vieira - era do PL (Partido da Lavoura). Verifiquei que Pedro Vieira era de outro Partido, e que o candidato do PL havia sido derrotado. Guardadas as devidas proporções, seria como se um historiador, quarenta anos no futuro, escrevesse que o vencedor das eleições presidenciais de 1994 havia sido Fernando Henrique Cardoso, do PT (Partido dos Trabalhadores)...”
“Desse modo, sempre pautado em documentos primários, comecei à desmistificar certas realidades históricas que eram tratadas como fatos incontestes.”


Logo iniciaremos as nossas “correções”. Não é minha intenção questionar a competência e/ou seriedade das pessoas que produziram, ou reproduziram, os “erros históricos”, sejam esses relevantes ou não. Se o fizeram, certamente foi com a melhor das intenções, pois estavam imbuídos com o nobre espírito da preservação e resgate de nossa memória e história. Apenas usaram os elementos que possuíam em mãos. Não intenciono ferir susceptibilidades e egos, mas fato é que não podemos nos omitir quando temos em nossa posse documentos comprobatórios que corrigem equívocos, desmistificam fatos e emergem omissões. Acredito que é dever do pesquisador corrigir quaisquer fatos ou acontecimentos, importantes ou irrelevantes, pois é importante que as corretas informações e fatos venham à tona, e sejam registradas para a posteridade.

Vamos começar a corrigir?

Gerson Moraes França

domingo, 13 de dezembro de 2009

Heróis que Preservam e Resgatam nossa Memória

Mimoso do Sul tem uma particularidade interessante: não temos nenhum livro, específico, que trata da história local. Nenhum autor ainda se aventurou a escrever uma obra especificamente sobre a história geral do Município. Temos, é certo, vários artigos e livros que trataram de pedaços de nossa história, e alguns pesquisadores que se esforçam por resguardar nossa memória. Este é um trabalho valioso e louvável, pois esses artigos, revistas, folhetins, monografias, biografias e livros de memória acabam se tornando o registro de nossa historiografia.

Sobre o atual Distrito de São Pedro do Itabapoana, outrora sede de Comarca e de Município que abarcava os territórios do atual Município de Mimoso, e que inclusive teve foros de Cidade, já se escreveram alguns trabalhos. O primeiro deles é o clássico "História do Antigo Município de São Pedro do Itabapoana, Estado do Espírito Santo - Páginas de Nossa Terra" escrito por Grinalson Medina e publicado em 1961. Posteriormente, Olympio de Abreu pesquisou e escreveu uma série de artigos históricos sobre São Pedro e Mimoso, mas que nunca foram reunidos em obra; seus escritos, porém, serviram de referência e foram amplamente utilizados em praticamente todas as publicações posteriores que trataram de nossa história local. O termo "Refluxo das Bandeiras", por exemplo, foi criado por Abreu para cognominar o movimento de mineiros e fluminenses que vieram, no século XIX, ocupar o vale do Itabapoana.

Ainda sobre São Pedro, algumas outras obras de relevância foram produzidas, principalmente a partir da década de oitenta, mas geralmente circunscritas aos meios acadêmicos em forma de monografias, teses e dissertações de curso. Foram confeccionadas na época do tombamento do Sítio Histórico, e mais tarde na época da criação do Festival de Sanfona e Viola. Dentre as mais importantes obras acadêmicas, temos a Monografia escrita por Jacqueline Monteiro de Barros Silva e Jaquelini Loureiro Del Puppo, intitulada "Tombar é Preservar? Caso de São Pedro do Itabapoana", publicada em 1987; a escrita por Maria Lúcia Teixeira Garcia em 1988 - "Século XIX: O Refluxo das Bandeiras e a Ocupação do Vale do Itabapoana"; e a mais recente "Patrimônio Construído, Cultura e Identidade - Projeto de Preservação e Requalificação do Sítio Histórico de São Pedro do Itabapoana-ES", escrita por Jean Carlo da Silva Pereira em 2006.

Outro importante autor que se dedicou à escrever sobre São Pedro foi Milton Teixeira Garcia, "herdeiro" dos arquivos de Grinalson Medina, tendo publicado juntamente com Maria Lúcia Teixeira Garcia a obra "O Vale do Itabapoana e a História de São Pedro do Itabapoana e São José do Calçado" em 1997. Embora tenha "herdado" os valiosos arquivos de Medina, Milton e Maria Lúcia se aprofundaram e pesquisaram em fontes primárias, trazendo importantes elementos novos para nossa historiografia.

Atualmente, as mais importantes referências sobre a historiografia mimosense são os pesquisadores Rosângela Marques Guarçoni (primeira Secretária de Cultura da história de Mimoso) e Pedro Antônio de Souza (principal responsável pelo tombamento do Sítio Histórico de São Pedro). Ambos possuem rico acervo de fotos e documentos, tendo produzido artigos publicados em livretos e folhetins locais, como o já considerado clássico "São Pedro do Itabapoana Revive", publicado por Pedro Antônio em 1987, e os vários prospectos publicados por Rosângela, como o da "Feira dos Distritos" em 1992.

Parte de nossa história também foi preservada em livros de memórias, como os de José Arrabal Fernandes (Mãos de Médico - Histórias de uma Vida, 1993) e de Leonor Pereira Cheibub (Ternuras do Passado, 1996), além de biografias como a de Stênio Garcia, escrita por Rosângela Guarçoni (Trilhas... Pegadas no Palco e Pegadas na Vida: Stênio Garcia, 2002). Sem falar no romance histórico "Gonçalo Pé de Mesa", escrito por José Arrabal Fernandes e publicado em 1983.

Há vários outros nomes que não podemos deixar de aqui citar, como o de Roberto Brochado Abreu, Renato Pires Mofati, Carlos Miranda de Castro, Gilberto Braga Machado, Alci Santos Vivas, todos mantenedores de nossa memória através de seus trabalhos e escritos históricos. Espero não estar esquecendo de ninguém. E - por que não? - este que vos escreve (eu mesmo!); também já contribuí um pouco com nossa historiografia escrevendo artigos históricos para o jornal local "Acontece", e agora tento contribuir com o presente Blog.
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O MAIS NOVO TRABALHO SOBRE SÃO PEDRO
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E, coroando a nossa coleção de obras escritas, foi publicado recentemente o livro "São Pedro do Itabapoana: Patrimônio, Memória e Identidade Sul Capixaba", escrito por Marcelo Pedrosa Pereira em 2009, cuja capa segue na foto ao lado. Confeccionado originalmente como Monografia em tese de Mestrado, foi agora transformado em livro, enriquecendo a historiografia que trata de São Pedro do Itabapoana.
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Em sua obra, valeu-se de boa parte de nossa bibliografia existente, coletando também uma série de depoimentos orais em entrevistas pessoais. Focou-se com muita propriedade nas questões acerca do resgate da memória e do renascimento das tradições locais.
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Embora cometendo os "vícios históricos" que estão de certo modo sedimentados na bibliografia e na historiografia mimosense e são-pedrense, advindas de pequenos equívocos passados através das últimas gerações e "gravados" na memória popular e nos poucos trabalhos escritos, tal fato de modo algum desvirtua o livro. A obra é muito elucidativa e bem formulada, e é excelente na matéria focada. Certamente a recomendamos ao leitor.
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E, a título de curiosidade, o autor Marcelo Pedrosa Pereira é neto de Hailton Oliveira Pedrosa, nascido e criado em São Pedro do Itabapoana, sendo também bisneto de Antônio Perciano de Oliveira e trineto de Manoel Pereira Pedrosa, este um dos primeiros moradores do então primitivo Arraial de São Pedro de Alcântara do Itabapoana, que foi fundado no ano de 1852 em terras de Manoel Joaquim Pereira.
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Gerson Moraes França

sábado, 12 de dezembro de 2009

Equívoco da Vila da Rainha chega ao Espírito Santo

E, mais uma vez, cá estou escrevendo sobre o erro que os pesquisadores do Museu Nacional / UFRJ estão cometendo acerca das ruínas "inéditas" "descobertas" na região de Limeira do Itabapoana.

Os fundamentos para a nossa posição estão pululados em vários posts, demonstrando de forma clarividente que as ruínas, além de não serem "inéditas" e serem de conhecimento de todos os que moram na região de Campos e Mimoso do Sul (e arredores), não são os restos da quinhentista Vila da Rainha; muito menos o que sobrou do Engenho de Pero de Góes. São, sim, as ruínas do Povoado de Limeira do Itabapoana, porto que escoava toda a produção cafeeira produzida na alta e média bacia do antigo Camapuan.
Vide:
Pesquisadores confundem Limeira com Vila da Rainha (1)
(Vila da Rainha e Limeira do Itabapoana - Mais um erro sendo construído - 19/11/2009 - com fotos)
Pesquisadores confundem Limeira com Vila da Rainha (2)
(Serpa, estão transformando Limeira do Itabapoana em Vila da Rainha! - 20/11/2009 - com fac-simile's)
Pesquisadores confundem Limeira com Vila da Rainha (3)
(Engenho, Sim - Vila da Rainha, Não - 03/12/2009)


A polêmica tese de que as ruínas seriam da quinhentista Vila da Rainha foi trazida a público após a reportagem do jornal O Globo na edição de 19/09/2009, quando os pesquisadores do Museu Nacional "atestaram categoricamente" que tinham "descoberto" a antiga Vila da Capitania de Pero de Góes. Após, a reportagem repercutiu em outros periódicos, que também publicaram matérias no mesmo teor.

Tal tese, porém, foi logo rebatida e/ou contestada por outros jornais, principalmente os de Campos, com pareceres de historiadores locais, demonstrando que aquelas ruínas não eram as da Vila da Rainha; no máximo, poderiam ser as ruínas do Engenho construído por Pero de Góes na região. A jornalista Jacqueline Deolindo, da "Folha da Manhã", foi a primeira à levantar o provável equívoco da tese, enquanto o pesquisador Arthur Soffiati tecia um elaborado Parecer demonstrando o erro dos pesquisadores do Museu Nacional, publicado em sites e no Jornal "O Rebate" (veja links abaixo).

Vide:
Matéria de Jacqueline Deolindo -
http://www.fmanha.com.br/blogs/oficioparalelo/?p=373&cpage=1
Parecer de Arthur Soffiati -
http://www.jornalorebate.com.br/site/index.php?option=com_content&task=view&id=4454&Itemid=95
http://www.portaldomeioambiente.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=2174:vila-da-rainha&catid=932:arthur-soffiati&Itemid=642

Sem querer insinuar nada, mas é fato que na época a repórter Jacqueline Deolindo não conseguiu entrevistar e questionar os pesquisadores do Museu Nacional/UFRJ sobre o possível equívoco, pois os mesmos não puderam dar entrevista à mesma.
A alguns dias, a tese da "descoberta inédita" das ruínas da Vila da Rainha chegou à imprensa capixaba, na edição de "A Tribuna" de 29/09/2009. Nossa imprensa, porém, foi louvadamente mais cautelosa, publicando a tese, mas abrindo espaço para o fato de que existem pesquisadores que se posicionam contra o equívoco dos pesquisadores do Museu Nacional. Todavia, o destaque maior foi dado à tese da "Vila da Rainha".



Não entendo os motivos da insistência dos arqueólogos e pesquisadores do Museu Nacional. Segundo os relatos dos que os entrevistaram, eles "têm certeza absoluta" que as ruínas são da antiga Vila da Rainha. Mas todos os estudiosos antigos, que se debruçaram sobre a matéria com documentos diversos, e muito mais fundamentados dos que as parcas referências primárias que o Museu Nacional usa para fundamentar a hipótese, são patentes ao afirmar que a Vila da Rainha ficava nas proximidades da foz do rio Itabapoana, chamado de Managé pelos silvícolas locais no século XVI. Os iminentes Augusto de Carvalho e Alberto Lamego, que escreveram talvez as melhores obras tratando da Capitania de São Thomé, são claros ao afirmar que a Vila da Rainha ficava para as bandas do mar, próxima a embocadura do Itabapoana, na região da Enseada do Retiro. Carvalho, cuja parte dos seus Apontamentos segue abaixo, esteve inclusive ele mesmo nas ruínas:
"Fundada no decurso do anno de 1538, no logar denominado — Barreiras do Retiro — nao muitas braças ao Sul da barra do rio de Manage (que depois tomou o nome de Camapuana ou Cabapuana e por ultimo o de — Itabapoana) que ainda hoje conserva, — foi a primeira povoaçao d'esta Capitania. Constava de uma capellinha consagrada a S. Catharina, de dois engenhos tocados a cavallos, moinho e alg'uns casebres em que se arranchava a comitiva de Pero de Goes. Para o centro, em logar até hoje ignorado, existiu um outro engenho tocado a agua." (Apontamentos para a historia da Capitania de S. Thomé, por Augusto de Carvalho, 1888)

As ruínas "inéditas descobertas", no máximo, poderiam ser as do Engenho d'água que ficava na região, que foi Povoação por cerca de apenas um ano, não sendo erigida em Vila. Nos Apontamentos de Carvalho, escritos em 1888, ele afirma que esse engenho d'água ficava em "logar até hoje ignorado"; isso porque, nessa data, o Povoado de Limeira do Itabapoana estava construído exatamente em cima de qualquer resto que poderia ter sobrado desse Engenho que, segundo vimos em outro post, não chegou a ser terminado e nunca moeu uma cana.

Por que a insistência? - pergunto eu. "Vergonha" de voltar atrás na tese que foi tão amplamente divulgada na imprensa como sendo descoberta inédita? Por que estão assim tão peremptórios em afirmar que as ruínas são da quinhentista Vila da Rainha, não abrindo sequer espaço para debate?

Sei que seria muito mais "chique" que as ruínas fossem da Vila da Rainha, e/ou também do Engenho quinhentista de Pero de Góes. Dá mais "glamour"; seriam do século XVI, dos primórdios de nossa colonização - "coisa bem antiga". Até porque estão transformando o sítio das ruínas em Parque Arqueológico e Histórico. Isso incrementará o turismo na região, onde os visitantes poderão acompanhar, in loco, os trabalhos dos arqueólogos. Mas, "infelizmente", essas ruínas são os restos do finado Povoado e porto de Limeira do Itabapoana. Por mais que queiram "fabricar" esse erro, cedo ou tarde a história verdadeira será devidamente recomposta. Não é possível "enganar" a história real por muito tempo.


Gerson Moraes França

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Respondendo ao Questionamento

Amigos, colegas, parentes, conhecidos e desconhecidos.

Obviamente, leio todos os comentários que são postados em cada um dos tópicos abertos aqui no Blog. Se não respondo algum dos comentários no próprio site, não fiquem desapontados; o importante é que eu leio os mesmos, com muita satisfação. E, mais importante ainda (ao menos para mim), vejo que o que escrevo foi lido por alguém. Para mim, é um enorme prazer compartilhar essas "notas históricas" com todos que se interessam pelos temas aqui colocados.

Um assíduo leitor do Blog, que é o meu pai, postou um comentário n'um dos posts que publiquei na terça-feira, 17 de novembro de 2009, post esse intitulado de Corrigindo a História. Abaixo segue o comentário e o questionamento elaborados pelo nosso estimado leitor:

Maerson disse...
Eu já andei e viajei muito a cavalo.Fiz vários percussos. O que mais fiz foi de Muqui à fazenda Aliança do Seu Jair de Carvalho. A fazenda ficava na divisa de Muqui c/ Jeronimo Monteiro.Saía por volta de 5 horas e chegava lá pelas 10:30. Será que de Cachoeiro a Mimoso se levava, em média, só 8 horas a cavalo?Fica a ressalva que eu andava devagar para não maltratar o animal.


Assim, no dia de hoje "inauguramos" a nova "seção" do Blog, chamada com grande "originalidade" de "Respondendo ao Leitor". Respondamos, pois, a esse primeiro comentário.

Primeiramente, antes de iniciar o escrito, é importante aqui colocar que eu, como pesquisador, embora possa levantar algumas teses fundamentadas apenas em indícios (embora sempre consistentes), procuro sempre me pautar em documentos para tecer afirmações.


Respondendo ao Leitor -
QUANTAS HORAS DE CAVALO DEMORAVA
UMA VIAGEM ENTRE CACHOEIRO E MIMOSO
NO FINAL DO SÉC. XIX?

Eu havia dito, no post questionado, que eram oito horas de viagem. Como fiz aquele tópico baseado em informações documentais que guardava eu em minha cabeça, acabei errando as horas. Tenho que, urgentemente, parar de confiar sempre na memória, como se esta infalível fosse. Quando for postar qualquer novo informe, irei antes compulsar meus documentos, para, somente após, aqui o colocá-lo com certeza absoluta.

Errei, mas errei por pouco. Errei por uma hora. Na verdade, uma viagem à cavalo entre Cachoeiro e Mimoso no final do século XIX demorava sete horas, e não oito como eu havia dito.

A informação foi coletada no jornal "O Cachoeirano", impresso em Cachoeiro de Itapemirim, em seu número 19, ano XVIII, datado de 26 de maio de 1895. Abaixo segue o texto da nota d'O Cachoeirano:

"ESTAÇÃO DO MIMOSO -
[Nota nossa: sim, Mimoso com "s", e não com "z"]
Sabemos que a estação do Mimoso, da Estrada de Ferro de Santo Eduardo à esta cidade, será innaugurada a 30 do corrente mez. Sendo assim, com uma viagem de 7 horas a cavalo, terá esta cidade promtas communicações com a Capital Federal."

A título de curiosidade, a inauguração foi adiada. E por duas vezes. Na edição de 09 de junho do mesmo ano, o jornal O Cachoeirano informava:

"ESTAÇÃO DO MIMOSO -
Por carta particular, sabemos que essa estação da E.F. Carangola será inaugurada a 15 do corrente."


Por fim, no dia 01º de julho de 1895, foi finalmente inaugurada a estação do Mimoso, com grande festejo local, com direito à banda de música e discursos diversos. A edificação que então servia de estação ainda era provisória, e em 22 de agosto de 1895 o Decreto n.º 2077 do Governo Federal "approva as plantas para modificação da estação do Mimoso". Em 13 de setembro do mesmo ano o jornal O Cachoeirano informava que as obras seriam iniciadas; a edificação ficou totalmente pronta somente em 1896.


MAIS CURIOSIDADES SOBRE VIAGENS
A CAVALO E COM TROPA E CARRO DE BOI


A distância que separava a cidade de Cachoeiro de Itapemirim da estação do Mimoso era, no final do século XIX, de menos de dez léguas terrestres, cerca de cinquenta quilômetros. A estrada que ligava os dois núcleos era carroçável e de rodagem, como se falava na época, e tinha sido inteiramente reformada e melhorada em 1885, com manutenções periódicas posteriores. O trecho fazia parte da estrada Itabapoana à Cachoeiro do Itapemirim, e era conhecida nesse "pedaço" como "estrada do Cachoeiro do Itapemirim à Ponte do Mimoso".

Se fizermos as contas, observaremos que um viajante à cavalo percorria pouco mais de sete quilômetros por hora para completar o percurso entre Cachoeiro e Mimoso, considerando as sete horas que O Cachoeirano informou que se demorava entre os dois núcleos.

Convenciona-se que, entre os séculos XVII e XIX, um cavalo podia andar até oito horas por dia, com pouca carga, mantendo o ritmo sem afetar o animal. Sem carga, um cavalo poderia alcançar a velocidade média máxima de nove e meio quilômetros por hora, em dez horas; com uma carga de 100 Kg, essa média máxima caía para cerca de sete quilômetros por hora, em oito horas.

Assim, o informe d'O Cachoeirano está conforme as médias auferidas para viagens a cavalo, em estradas carroçáveis, no século XIX, segundo os estudiosos da matéria.

Para terminar, apenas a título de curiosidade: as tropas de burros e mulas ou as juntas de carros de bois, que eram os principais meios de escoamento da produção cafeeira das fazendas até os portos e/ou estações, se deslocavam a uma velocidade média de dois à três quilômetros por hora quando carregadas de mercadorias (até 400 Kg nos carros de boi, 250 Kg nas mulas e 70 Kg nos burros). Quando estavam sem carga, esses animais nunca passavam de cinco quilômetros por hora; todavia, era possível viajar com eles até dez ou doze horas ao dia sem os afetar, dependendo da estrada e da natureza do terreno.


CONCLUINDO

Estimado e querido pai:

A distância entre a fazenda Aliança e o núcleo urbano de Muqui, atualmente, é de cerca de dez quilômetros. Demoravas tu cinco horas e meia para, a cavalo, sair da cidade e chegar à fazenda. É certo que o terreno é montanhoso, mas a média de velocidade que fazias era de menos de dois quilômetros por hora! Até as tropas de burros carregadas de carga eram mais rápidas que tu!

Quase todos os dias, quando o sol começa a baixar, eu faço uma caminhada rápida de três quilômetros, e os faço em pouco menos de uma hora. Até eu estou mais rápido que a tua antiga montaria! Realmente, é bem verdade quando diz que "andava devagar para não maltratar o animal"!


Gerson Moraes França



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