terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Princípios do Espírito Santo em Fontes Espanholas (1)


Princípios do Espírito Santo em Fontes Espanholas (1)

Publicado, sem título, originalmente em minha página do Facebook, em 06 de junho de 2023.

Adoro garimpar fontes em arquivos. É um procedimento bem demorado quando não há indexação. Conhecer o que se pesquisa facilita encontrar, pois sabemos (mais ou menos) onde e como procurar. E nos tempos atuais, com a digitalização de acervos, as possibilidades só vão aumentando. Certamente ainda existem muitas fontes para serem reveladas por aí.
Esse documento, que aqui posto, encontrei há uns três anos atrás, em arquivo (hoje digitalizado) espanhol. Simancas. A "fecha" de sua indexação está equivocada: lá consta o ano de 1537, mas analisando o documento percebi que foi escrito na década de 1560. Ele é uma pequena relação sobre o Brasil de meados do século XVI, e não traz muitas informações diferentes das que já conhecemos; mas é sempre bacana encontrar essas fontes, mesmo que seja para corroborar o que se sabe.
No meio do texto, há uma passagem sobre o Espírito Santo. Penso ser interessante aqui publicar e reproduzir, pois há um breve relato sobre nosso torrão em seus primeiros tempos. Como informei, cheguei a conclusão que esse documento foi produzido nos anos 1560, pois nele já se cita a existência de São Paulo (Piratininga) e ainda fala da presença dos franceses no Rio de Janeiro, além de outras informações. Seu autor, um espanhol chamado Andrés Montalvo, ficou alguns anos retido em Santos (Capitania de São Vicente) aguardando abrir-se a "rota" de ligação com o Paraguai, para onde devia seguir, então "fechada" devido a uma guerra entre os índios. Foi nessa ocasião (cerca de 1564), com quase toda certeza, que Montalvo escreveu esse relato.
O trecho sobre o Espírito Santo, reproduzo abaixo, com pequenas lacunas que não consegui interpretar:
"(...) desta Capitania de Puerto Seguro hasta el Spiritu Santo que és otra población de portugueses la propria distancia de cinq ª leguas poco mas o menos, era de um cavallero que se chamava Vasco Fernandes Cutiño qui no avia mas de una población por aver los indios deszatalos e los ingenios de açucar que nella havia q então que se (?) estube alli se reformava e se tomava ha estes ingenios, desde el Espiritu Santo hasta el Rio Genero a outras cinquenta leguas poco mas o menos que hera las ... que teniam e estavase em pose duns francezes muy (...)"
No trecho que fala do Espírito Santo, o documento de Montalvo reza que a Capitania era de Vasco Fernandes Coutinho e que os índios haviam destruído os engenhos de açúcar ali construídos, e que agora estavam sendo reformados. Coloquei também a citação da presença dos franceses no Rio de Janeiro. Dá a entender que ele (ou alguém com quem ele se informou) havia estado no Espírito Santo quando os engenhos estavam sendo reformados.
Enfim, apesar de não trazer coisa nova, é um documento bem bacana para a nossa história regional capixaba. Principalmente pela antiguidade de sua produção. É anterior as descrições das relações elaboradas por Anchieta e Cardim, e também anterior aos trabalhos históricos de Gandavo e Gabriel Soares, que são algumas de nossas boas fontes do século XVI.
Gerson França

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

ABANDONO DAS MINAS DO CASTELO

 FONTES PARA A HISTÓRIA DO ESPÍRITO SANTO

Mappa das Minas Novas do Castello (recorte do original)

ABANDONO DAS MINAS DO CASTELO

Sempre tive enorme interesse pelas antigas Minas do Castelo, no interior do Espírito Santo. O fato de terem aparecido no bojo nas explorações auríferas entabuladas pelos paulistas, e de terem sido formados arraiais e povoados que, décadas depois, foram abandonados e caíram em ruínas, me fascinam. Já até escrevi um pouco sobre elas, em especial sobre seu gradativo abandono. Quem quiser ler, basta clicar nesse > LINK <

Para quem leu o texto do link acima, fica claro que não houve um momento abrupto de abandono das antigas Minas do Castelo, e que seu esvaziamento concluiu-se alguns anos depois das datas tradicionalmente usadas pela historiografia espírito-santense. Nunca encontrei um documento contemporâneo, ou algum posterior que tratasse de forma segura sobre o tema. Algumas fontes não tão distantes, como a citação do Governador Tovar, é uma das mais válidas para mim. Assim tratei dela no meu escrito anterior:

"(...) Manoel Vieira da Silva Albuquerque Tovar, que governou a Capitania do Espírito Santo entre os anos de 1804 e 1812. Em uma memória que escreveu e citado pelo pesquisador e escritor Levy Rocha, o governador Tovar informou que as Minas do Castelo foram abandonadas mais pela pobreza das suas lavras do que pelo receio dos índios, e que tal ocaso teria se concluído entre 1783 e 1784."

Uso de outras fontes, naquele artigo, para corroborar as datas citadas na memória de Albuquerque Tovar. Há alguns outros documentos, porém, que eu gostaria de registrar, para que não se perdessem no "catatau" de papéis que acumulei em meus cerca de trinta anos de pesquisa. São documentos produzidos em outros locais, mas que tratam indiretamente das Minas do Castelo e que podem ser a chave para entender o porquê do abandono final das minas do sertão do Espírito Santo. As Minas do Castelo foram sendo progressivamente abandonadas e esvaziadas, mas a "pá de cal" que selou seu abandono definitivo parece ter sido uma determinação de se fecharem (ou impedirem) as referidas Minas.

Desde o final da década de 1770 que encontramos muitas correspondências das autoridades portuguesas e coloniais tratando de averiguações e combate ao extravio de ouro, bem como adotando medidas para impedir a exploração clandestina do referido metal precioso. Na década de 1780 foram executadas algumas dessas medidas e, ao que parece, foi quando a exploração das Minas do Castelo, mesmo já bem deficitárias, entraram na mira das autoridades. Foi no bojo do combate à exploração de minas abertas no sertão de Macacu e Cantagalo, no Rio de Janeiro, com ramificações em Minas Gerais e Espírito Santo, que foram exaradas as medidas que dificultavam a exploração auríferas em minas (estabelecidas ou clandestinas) próximas ao litoral; os vários portos da costa eram vistos como "furos" para o descaminho do ouro.

Há vários bons trabalhos que tratam da coibição do extravio e da exploração ilegal aurífera nesses sertões (tais como os de Hal Langfur e Vinicius Maia Cardoso, por exemplo). Neles constatamos todo o esforço das autoridades para impedir o contrabando de ouro, nessa quadra. No que toca às Minas do Castelo, que não ficam tão próximas das minas do sertão de Macacu e Cantagalo, observamos que havia uma teia que unia garimpeiros e contrabandistas, e que se serviam (ou poderiam se servir, segundo as autoridades) dessas regiões no interior do Espírito Santo, uma Capitania que fica na costa, para o descaminho do ouro pelo seu litoral. É nessa conjuntura que foram executadas as medidas visando esvaziar as Minas do Castelo e impedir a sua comunicação com  a costa.

Uma correspondência de Miguel Antunes Ferreira para o Vice-Rei, do Rio de Janeiro em 10 de agosto de 1779, informa que as Minas de Cantagalo e as Minas do Castelo eram os "dois polos de uma vasta região sujeita ao garimpo ilegal". Uma outra correspondência do Superintendente as Minas para a Secretaria de Governo, do Rio de Janeiro em 16 de julho de 1781, também com o escopo de fiscalizar e impedir o garimpo ilegal e o contrabando, informa a localização das Minas do Castelo. Pouco depois disso começam as execuções de medidas para impedir a exploração ilegal, como o envio de força e/ou o fechamento dessas minas. É nessa época que, segundo as informações do Governador Tovar, foram abandonadas de vez as Minas do Castelo (1783 ou 1784).

Como já dizemos, o abandono das Minas do Castelo foi gradual; embora a tradição tenha preservado um evento traumático e abrupto, que não deve ser afastado como fato histórico, parece que esse foi apenas um fato mais marcante de um processo que já havia começado antes e que terminaria somente depois. Talvez por isso que não tenha sido produzido nenhum conjunto documental à época sobre o abandono ou fechamento das minas do interior do Espírito Santo. Restaram somente citações sobre as medidas adotadas, sem especificá-las.

Duas das maiores autoridades no Espírito Santo, o Capitão-Mor e o Ouvidor, tomaram medidas para impedir o contrabando do ouro nessa época. Uma certidão datada de 12 de agosto de 1787, tratando do Ouvidor Barros Freire (de posse do cargo entre novembro de 1783 e junho de 1787), informa que ele, dentre muitas outras ações e realizações, "fora zeloso no serviço real e de evitar contrabandos", por exemplo. O Capitão-Mor Mongeardino, que governou a Capitania nessa época, também é referenciado em muitas correspondências e certidões por ter combatido o descaminho de ouro; há, inclusive, conhecido relatório de 1789, feito em seu governo, onde informa que havia deixado crescer mato nas estradas que vão para as Minas do Castelo, proibindo a sua limpa para impedir a comunicação.

(Parágrafo inserido em 29/01/2026 >) Um documento muito interessante é uma "Certidão de serviços passada pela Câmara de Vitória", datada de 03 de dezembro de 1787, em favor de Mongeardino que, dentre muitas outras realizações, informa que ele "formou uma companhia com capitão na povoação de Itapé-mirim, distante 12 léguas da capital, com vista ao controle eficaz das minas auríferas de Itapé-mirim e do Castelo". Inácio João Monjardino, nomeado Capitão-Mor da Capitania do Espírito Santo por Carta Patente de 16 de outubro de 1781, tomou posse do cargo na Bahia em 13 de abril de 1782, e em Vitória, sede da Capitania do Espírito Santo onde entrou em exercício, no dia 29 de maio do mesmo ano.

Concluindo: como asseveramos em outros escritos nossos, as Minas do Castelo foram um interessante capítulo de nossa História espírito-santense. Seu tempo foi o tempo do século XVIII, chamado por alguns historiadores da História brasileira de "Ciclo do Ouro"; embora periférico, o Espírito Santo esteve inserido nesse processo da História Colonial do Brasil. Descobertas indubitavelmente pelo paulista Pedro Bueno Cacunda nos princípios dos setecentos, teve seus momentos de altos e baixos até que foram definitivamente abandonadas em finais do mesmo século.

Gerson Moraes França

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

ANTIGA ALFÂNDEGA DO ESPÍRITO SANTO

FONTES PARA A HISTÓRIA DO ESPÍRITO SANTO

ANTIGA ALFÂNDEGA DO ESPÍRITO SANTO

A Capitania do Espírito Santo, pouco após seu estabelecimento em 1535, teve a sua Alfândega para a arrecadação dos direitos reais da Coroa, no caso os tributos de exportação e importação. Há notícia de que foi construída uma edificação para abrigá-la na antiga Vila do Espírito Santo (atual Vila Velha) quando esta ainda era a cabeça da Capitania. Mas sua presença ali foi efêmera: tão logo (ou pouco tempo após) foi transferida a cabeça da Capitania para a Vila de Nossa Senhora da Vitória (atual Vitória, capital do Espírito Santo), a Alfândega deixou de funcionar na Vila Velha. Durante muito tempo ficou, inclusive, sem utilizar uma sede física, enquanto a antiga construção caía em ruínas. A fiscalização e arrecadação acontecia nos Engenhos ou nas próprias embarcações, e até no ancoradouro da Vila, junto à chamada "pedra", no sopé da Ladeira da Matriz. Somente no início da década de 1640, depois da determinação que se seguiu a uma devassa sobre os descaminhos dos tributos reais, é que foi estabelecida uma edificação para abrigar a Alfândega em Vitória.

Até meados do século XVII a Alfândega do Espírito Santo cumpriu ordinariamente com a sua função. Além da arrecadação de alguns direitos no comércio de cabotagem (principalmente com o Rio de Janeiro e Salvador, mas que também se estendia esporadicamente até o Prata ao sul e Pernambuco ao  norte), havia comércio direto com Portugal, na Europa e com Angola, na África. Mas, na segunda metade dos seiscentos, a dinâmica econômica e comercial foi mudando. A guerra com a Holanda e, principalmente, o estabelecimento das Companhias de Comércio, bem como depois a regulação das frotas anuais, fez com que o comércio direto do Espírito Santo com a Europa e a África caísse em desuso. A Alfândega continuou arrecadando os tributos da Coroa, mas fortalecia-se o comércio de cabotagem com o aparecimento de comerciantes que levavam a produção espírito-santense para os portos exportadores (principalmente o Rio de Janeiro e Salvador) que centralizavam o comércio com a Europa. Lentamente, os direitos reais de exportação foram deixando de serem pagos em Vitória, para serem pagos nas Alfândegas dos portos acima citados.

A elite econômica  mudou: na primeira metade do século XVII eram os Senhores de Engenho, também, os principais comerciantes locais, em relação direta com os comerciantes europeus que aportavam no Espírito Santo. Mas a crise que atingiu o setor agro-exportador do açúcar, já bem aparente na década de 1660 e consolidada nos anos 1680, mudou a dinâmica: o controle local do comércio de cabotagem passou a ser a fonte principal de riqueza. Antes, os Senhores de Engenho eram a elite, associando-se à atividade comercial; depois, os comerciantes passaram a ser a elite, associando-se aos Engenhos seja diretamente como proprietários, ou indiretamente financiando-os.

No final do século, com a manutenção da crise no setor açucareiro e a descoberta e exploração das enormes jazidas auríferas no sertão da Colônia, a atividade canavieira e de produção de açúcar no Espírito Santo desceu ao seu mais baixo nível. A exportação caiu substancialmente. É nessa época que a Alfândega espírito-santense deixou de funcionar. Não houve um ato que a fechou: ela foi, paulatinamente, deixando de arrecadar e operar até deixar de ter função. Sua estrutura administrativa manteve-se, mas não houve mais função à cumprir. Todo o comércio espírito-santense era então realizado por cabotagem para os portos exportadores, como os já citados Rio de Janeiro e Salvador. Nesses portos é que eram pagos os direitos reais de exportação. Não havia mais trabalho para a Alfândega da Capitania do Espírito Santo.

No final do século XVIII, após cerca de um século sem operações da Alfândega local, a Coroa se interessou em entender o porquê de não existir mais esse órgão de arrecadação dos direitos reais de importação e exportação no Espírito Santo. Nessa quadra, houve o estímulo das autoridades em estabelecer novamente o comércio direto entre Vitória e Lisboa. São produzidos, então, alguns relatórios ou memórias que reproduziremos algumas partes por aqui. Fazem parte do meu "acervo" de fontes compiladas em meus calhamaços de papéis. Tais indagações das autoridades continuaram por alguns anos, até o início do século XIX quando é recriada a Alfândega espírito-santense. Mas tal relação regular, porém, ainda demoraria muitas décadas para se sedimentar. Espero que, para além de preservar on-line essas informações, elas possam servir de subsídio e fonte para trabalhos que se dedicam à matéria.

Gerson Moraes França



FONTE (inserida no dia 27/01/2026) - Ref. AHU ACL CU 005, Cx 244 \ Doc. 16855 9/13

Ofício do Conde da Ponte ao Visconde de Anadia. (12 de novembro de 1806)

Documento anexo:

"Consta do registro da secretª que quando se nomeou Antonio Pires da Sª Pontes para Govºr da Capª do Espírito Santo, que foi no tempo do Sr D. Rodrigo, se lhe dirigiram mtas ordens (...) como p exemplo (...) o engrandecimento do Commércio, a abertura do rio Doce, etc. E a respeito do commercio encontrão-se em huma Carta que se escreveo àquelle Gºr as seguintes palavras: Deve Vme também procurar estabelecer huma navegação directa com o Reino, sendo primeiro cuidado no estabelecimento de Alfândegas em que se segure o pagam.to e arrecadação dos direitos reais."


FONTE (inserida no dia 27/01/2026) - Ref. AHU ACL CU 005, Cx. 72 \ Doc. 13891 9/9

Portaria do capitão-mor Ignacio João Mongeardino pela qual determinou ao Escrivão da Provedoria da Fazenda da Villa de Nossa Senhora da Victoria que certificasse se houvera o não Alfândega na Villa da Victoria, e no caso affirmativo qual o número de seus officiais e se os despachos dos navios se fazião directamente para Lisboa. Victoria, 22 de junho de 1790.

Documento anexo (aqui só transcrevo o que é pertinente ao funcionamento da Alfândega; o documento elenca alguns nomes, cargos, salários, rendimentos, etc, que não transcrevi para esse registro on-line)

"(...) Certifico que revendo os papéis antigos do cartório desta Provedoria que achei perceptíveis a respeito do pedito na portaria supra achei por uma folha que serviu como Almoxarife Antonio Dias Cordeiro (...) que no ano de mil seiscentos e três se lhe carregavão em receita (...) provenientes do rendimento da Alfândega desta Capitania (...) em abril de mil quinhentos e noventa e seis (...) que no ano de mil seiscentos e quatro serviu na mesma Alfândega (...) Manoel Delgado por Provedor (...) sendo os sobreditos oficiais os que construíam o corpo da sobredita Alfândega (...) consta da sobredita folha (...) de direitos que pagou o navio de João Ferreira que despachou para Angola (...)"

"(...) e finalmente por outras muitas folhas da mesma Alfândega do ano de mil quinhentos e noventa e sete até mil seiscentos e noventa e sete consta haver continuação do comércio naval de navios, caravelas, patachos, que vinhão de Lisboa e Setubal comerciar neste porto e despachavam na mesma Alfândega em direitura para Lisboa e outras para o comércio de Angola (...).


FONTE (inserida no dia )


segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Fontes para a História do Espírito Santo

Fontes para a História do Espírito Santo

Há alguns anos que eu tenho o hábito de compilar manualmente (vulgo copiar, ou transcrever), com caneta ou lápis, no papel ou caderno que estiver a minha disposição, as fontes que encontro sobre a história do nosso Espírito Santo. Faço isso desde a época que eu passava os dias pesquisando os microfilmes e jornais no Arquivo Público ou na Biblioteca Pública do Estado; naquele tempo não podíamos fazer cópias xerox, e não havia ainda as câmeras digitais. A pesquisa era complementada pela atividade obrigatória de copiar e/ou fichar o material. Apesar da digitalização dos arquivos e da possibilidade de fazermos fotos digitais das fontes, mantive esse costume. Quando encontro algo que entendo relevante, mesmo nos arquivos digitais dos dias atuais, não apenas salvo no HD: lá vou eu copiar no papel. Assim, acumulei algumas pastas e outras tantas pilhas de papéis manuscritos.

Vez em quando eu pego algum calhamaço para procurar algo que estou pesquisando, ou apenas para rever o que compilei. Nessas férias de verão, peguei uma dessas pilhas de papéis e levei comigo para o litoral (atualmente moro no interior), deixando-a dentro de uma mochila. E hoje, quando fui vê-los, percebi que estavam úmidos; não sei como, mas entrou água dentro da mochila, molhando a parte inferior da pilha. O resultado é que algumas das fontes que compilei ficaram borradas e, por sorte, o estrago foi pequeno. Mas esse fato me alertou: preciso salvaguardá-las de todas as formas que eu puder. Assim, pensei em começar a transcrever aqui no BLOG essas fontes que disponho (as que eu conseguir ou entender serem interessantes de aqui serem colocadas). Coloco o tema no tópico ou título, e faço a transcrição; como podemos editar o BLOG, posso ir alimentando o tópico com o passar do tempo, inclusive com comentários meus.

Então, assim farei no próximo post, com o texto de uma das folhas que molhou bem e que trata da antiga Alfândega do Espírito Santo. Abração a todos e todas!

Gerson Moraes França


segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

O Espírito Santo em "Coisas Notáveis do Brasil", de Francisco Soares.

O Espírito Santo em "Coisas Notáveis do Brasil", de Francisco Soares.


Para quem estuda a formação do Espírito Santo quinhentista, essa obra não é nenhuma novidade. Está elencada como fonte em diversos trabalhos sobre a história do Espírito Santo. Resolvi tratar dela apenas para transcrever aqui algumas partes atinentes ao nosso torrão que entendi ser interessantes. Francisco Soares de Sousa (n.c. 1560, m. 11/11/1597) foi um português jesuíta; escreveu sua obra entre os anos de 1590/96. Há dois manuscritos do trabalho, muito similares um ao outro: o de Coimbra e o de Madrid.

A primeira transcrição, do manuscrito de Coimbra, é essa abaixo:

"De alguãs Cousas mais notaueis do Brazil
(...)
Foi descuberto o brazil no anno de 1500 por Pº alz cabral.
(...)
O 1º que foi a pouoar o Brazil foi Martî afonço de Souza e seu Jr' Pº lopez em s. vte na Jlha de Guaipe e asi s. vte foi o 1º q' se pouou"

Essa primeira parte trata da "descoberta" do que viria a se tornar o Brasil e do estabelecimento da primeira povoação "oficial", que foi a fundação de São Vicente por Martim Afonso em 1532. Continuemos.

"Itamarqua foi a 2ª q' se pouou (...)

A 3ª Capta foi o sp'u sto por Vasco frz Coutinho e mta gente honrrada aqui morreo aq'le grãde Capitaõ das malucas e dom Simaõ de Castelo brãco degradados. he muj fertel Capta tê duas villas huã na barra e outra ê hua Jlha huã legoa p'lo Rjo [ ... ] temos ali da cõpª dez pes e Jr's e alguãs aldeas cõ noue mil Jndios.
Tem esta Capta hû rjo doce grande bota tres legoas ao mar e assi bota a agoa salgada dessi e a parta cõ q'lq'r t'po se bebe. E por elle assima ha mtas pedras [ ... ] de preço segundo hû estrologo disse he a mais rica Capta e por isso vco frz a pouoou a doaçaõ dos s'ores he ate emtestar cõ os castelhanos do sul esta ê 20 graos da banda do sul"

O autor continua a tratar das Capitanias e, interessantemente, ao invés de enumerá-las por ordem de doação, ou por ordem geográfica (geralmente de norte à sul), como fizeram outros cronistas contemporâneos ou pouco posteriores, ele resolveu pontuá-las de acordo com o tempo de seu povoamento. Essa informação, para além da sucinta descrição da Capitania do Spiritu Sancto em 1591, é de extrema relevância se considerarmos essa narrativa verossímil. Isso porque o autor entende que o Espírito Santo teria sido a terceira Capitania a ser povoada, depois de São Vicente (Martim Afonso) e Itamaracá (Igarassu, Duarte Coelho).

Continua o autor sua relação, em ordem de povoamento: Porto Seguro, onde informa que "A Baya, pernaobuco, sp'u sto se acolheraõ aqui quando se despouoaraõ cõ gerra", Bahia, Pernambuco, Ilhéus e Rio de Janeiro (" a prª cidade que pouou elRey dom Sebastiaõ"). Não cita a tentativa de povoamento em São Tomé, provavelmente por não ter sido repovoada após a expulsão do seu donatário.

Dando seguimento ao conteúdo do manuscrito, segue:

"das Guerras cõ os Jndios
A causa por q' os Jndios se aleuãtaraõ e aleuãtaõ he porq' por força lhe tomaõ seus fºs e suas molheres e escrauos e o fazê oje em dia têdo empedido infenidade de christãdade e cõ mto Roim exemplo e assi a bandeiras despregadas os uaõ buscar cõ guerra injusta e as vezes cõ emganos (...)

Um capítulo discorre sobre as guerras com os índios e o motivo mais comum para estourarem esses conflitos após a fundação/conquista das Capitanias: a escravidão dos indígenas. Sobre o Espírito Sando, informa que foi a segunda dessas guerras:

"A 2ª f oi no sp'u sto cõ mta perda nossa e de dom Jorge menezes capitao das malucas o q' meteo os Castelhanos no fogo e elRej sêtio mto ser este homê sentêçeado a morte p' se criar cõ elle e disse ouuereis de têtar q' seruiços me tem feito mas naõ morra aqui mandajo ao brazil q' la morra e morreo dom .Joaõ de Castelo branco e mtos e o porq' foi isto foi por a molher de hû principal q' hû portuges se amãcebou cã ella isto publicamte e naõ lha querêdo dar o portuges a seu marido o jndio apelidou gête e os matou aqui se perderaõ mtos emgenhos e os fizeraõ embarcar pª porto seguro ".



No outro manuscrito, o de Madrid, temos também algumas informações sobre o Espírito Santo. A que entendi interessante aqui compilar é a estimativa populacional que a obra trás das Capitanias e do Brasil em geral. Abaixo, os dados sobre nossa primeva Capitania:

"De alguãs Cousas mais notaueis do brasil e de alguñs costumes dos Indios.
(...)
spii sancto 2 villas. portuguezes 0400. êgenhos 6. escravos 0700. indios 9000"

Assim, em c. de 1591 o Espírito Santo tinha duas vilas (Vila Velha e Vitória atuais), 6 engenhos, 400 portugueses, 700 escravizados (nativos) e 9 mil indígenas (entre forros e livres, cristãos e pagãos). Modesto em população portuguesa, escravizados e em engenhos, se comparado com Pernambuco e Bahia, mas com a maior população indígena administrada do Brasil à época.

Gerson Moraes França



quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Reflexões sobre o Estudo dos Povos Indígenas no Espírito Santo.

Reflexões sobre o Estudo dos Povos Indígenas no Espírito Santo.

Nos últimos anos tem sido produzida boa quantidade de trabalhos sobre os povos originários que habitaram (cujos descendentes de alguns desses povos ainda habitam) o Espírito Santo, alguns deles com grande rigor técnico e científico. Esses trabalhos enriquecem nossa historiografia capixaba preenchendo lacunas, conferindo novos entendimentos sobre a dinâmica do contato e elucidando questões controversas.

Estudo e pesquiso o Espírito Santo há mais de trinta anos, em várias temáticas, e já formulei um arcabouço sobre a história dos povos indígenas no atual território do nosso Estado. Teço aqui alguns apontamentos que considero edificantes nesses estudos. Primeiramente, a questão dos epítetos dos grupamentos indígenas: é necessário uniformizar e conjecturar certos termos. Apresento aqui, abaixo, um exemplo que induz o pesquisador em erro:

Os goitacases (com suas diversas grafias) eram indígenas que habitavam o atual norte do Estado do Rio de Janeiro e, possivelmente, pequena porção do sul do atual Espírito Santo. Há hoje certa unanimidade que esses indígenas eram do trono macro-jê, isto é, eram "tapuias" na visão dos povos tupi. Mas encontramos alguns cronistas antigos informando que os goitacases habitavam todo o litoral sul do Espírito Santo. Há um, inclusive, que coloca os goitacases habitando até as proximidades do extremo norte do Estado, vizinhanças do rio Cricaré (São Mateus atual). Claramente há aí algum erro de interpretação ou, então, a atribuição extensiva do termo para povos do tronco tupi que, afirmo com toda certeza, habitavam o litoral sul do Espírito Santo e a região da atual baía de Vitória.

Para entender esses cronistas antigos, é preciso conhecer o seu lugar (tempo, local, formação, aliança, etc) na produção do trabalho, bem como fazer comparações com outras fontes contemporâneas. Não devemos tomar o estudo de um "povo" de forma isolada: é preciso correlacionar e comparar as narrativas com outros documentos de crédito.

Assim, coligindo todas as fontes, fazendo as necessárias críticas e comparações, resta clarividente, para mim, que a população indígena que habitava a baía de Vitória e o litoral sul do Espírito Santo até o Itapemirim (ou suas proximidades) eram povos do tronco étnico e linguístico tupi-guarani. Se, porventura, algum cronista antigo os cognominou de "goitacases" (que é um termo tupi, importante informar), estava conferindo esse epíteto de forma extensiva, talvez fundamentado em algum valor que a palavra representava (que, segundo os tupinólogos, era traduzida como "andantes", ou "errantes", ou ainda de modo mais específico, como "corredores" ou "nadadores").

Assim, teríamos os goitacases étnicos propriamente ditos (os que expulsaram a primeira tentativa europeia de se fixar no litoral do Itabapoana, e que depois mantiveram-se hostis ao contato no litoral entre o rio Paraíba do Sul e Macaé, no Rio de Janeiro e que foram mais tarde repelidos em campanhas militares e mortos em grande quantidade em virtude de epidemias no século XVII, cujos remanescentes acabaram aldeados ou migraram para o interior), e teríamos grupamentos de tronco tupi que, equivocadamente (pejorativamente, ou não), foram chamados de "goitacases" por alguns cronistas. É preciso conhecer o todo, tanto no tempo, quanto no espaço, para compreender essa lógica.

Praticamente todos os nomes dos acidentes geográficos do litoral espírito-santense são de origem tupi, e já eram conhecidos dessa forma desde o século XVI (por exemplo, Itapemirim, Guarapari, Meaípe, Agá, etc.). Os poucos nomes de chefias indígenas da época que ficaram registrados, ídem. Os documentos dos jesuítas, quando tratam de epítetos, também são bem elucidativos nesse sentido.

O mesmo podemos perceber, também, nas diversas denominações dos povos indígenas que pululam os registros. Há grupos, por exemplo, que recebem mais de um nome, dependendo do ponto de observação. Um exemplo claro está com os tamoios, que chamavam a si mesmos de "tupinambá"; e seus rivais, os temiminós, que eram chamados pelos seus adversários de "margaias" (do nome de um morubixaba importante, Maracajá). Todos eles eram, porém, do tronco étnico e linguístico tupi-guarani.

O tronco puri-coroado também "padece" desses "problema". Puri, Coroados, Coropó, Guarulhos, Guarus, Guaramomi, Maramomi, etc, eram todos epítetos dados em tempos e espaços diversos à grupamentos do tronco étnicos e linguístico puri-coroado. Eram, grosso modo, do mesmo povo, embora de tribos diferentes, muitas vezes inimigas umas das outras, e em estágios diferentes de contato e/ou aliança com os colonizadores europeus.

Paro, agora, por aqui.

Gerson Moraes França

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Sobre o nome dos indígenas coroado

 SOBRE O NOME DOS INDÍGENAS COROADO

Já há muito tempo que tenho uma "tese" para a origem do nome "coroado", que designa tanto grupamentos indígenas do tronco étnico e linguístico puri-coroado, quanto genericamente grupos de indígenas distintos em territórios diversos e tempos diferentes. Associava-se esse termo ao corte de cabelo, e essa tese é a mais difundida e encontrada em várias fontes.

Há um outro termo usado para designar os coroados: é o nome "croato" e suas diversas formas (coroato, coroata, croata, croá, etc). Há quem entenda que esses últimos termos derivaram de corruptelas do termo original "coroado". Mas eu entendo que foi o contrário: o termo "coroado" é que derivou de "croato". Embora seja verdade que as primeiras menções a esses indígenas os grafem como "coroados", depois que o contato se consolidou se firma o termo "croato" nas regiões onde primeiramente foram aldeados. Somente mais tarde é que o termo "coroado" retorna, já aí em nova conjuntura e designando genericamente também grupos indígenas de outras regiões.

Durante muito tempo acreditei que estava só nessa interpretação. Até que encontrei os relatos de Taunay, do final do século XIX, que teve contato com os coroados do Paraná (os caingang) e resolveu pesquisá-los e problematizar o epíteto. Ele, quase século e meio antes de mim, chegou a conclusão que o termo "coroado" é corruptela de "croá". Abaixo transcrevo o texto que traz essa interpretação:

"Desde principio, porém, me impressonára o appelido de coroados, pelo qual são esses índios quasi exclusivamente conhecidos em toda a província do Paraná.

Como e porque razão tivera esse nome de caracter meramente portuguez a força e valor de eliminar do conhecimento geral a denominação de etymologia indígena e especial, que essa grande tribu devia, sem constestação possível, possuir e conservar?

Bem sabia eu que provinha aquella especificação do modo porque esses primitivos filhos do Brasil costumam cortar o cabello, e nehuma relação immediata os prendia aos coroados de Matto Grosso.

Com effeito, ahi procede o nome idêntico de simples e facil corruptela, transformação da palavra croás, que designa, em sua língua os indios do sertão intermédio a Goyaz e Matto Grosso.

No Paraná, porém, apezar das minhas indagações, ninguém sabia de outro alcunha de feição autochtona, e fiquei muito admirado quando, na cidade de Guarapuava, onde cheguei a 7 de abril de 1886, pela primeira vez ouvir da boca de um índio mais ladino a palavra caingang, como denominação geral da tribu e, do interrogatório a que o submetti, deprehendi que tenham certo desgosto em ser chamados corôados.

Causou-se espécie esta novidade, e, insistindo então interessante ponto pude verificar, depois de me entender com outros homens e mulheres da partida que viera esperar-me,que esse sentimento de desprazer lhes era commum, ficando muito satisfeitos pelo vocábulo portuguez.

Communiquei esta observação ás pessoas que me rodeavam, e nas minhas conversações com os moradores mais antigos da localidade a ella de continuo alludi, mostrando-se ignorantes do verdadeiro nome da tribu, que mantém contudo, desde os primeiros annos deste século (1816), relações mais ou menos seguidas com aquelle centro de população.

Dahi me proveiu certa ufania – poder reintregrar na grande família tupy esse ramo dos coroados, dando lhes a legitima e verdadeira appellidação indígena (RIHGB, 1888, p. 255-256)"

Esse texto encontrei há uns cinco anos no trabalho de doutorado de Dantielli Assumpção Garcia. A citação acima está às páginas 234 e 235 do referido trabalho, cuja ficha segue abaixo:

Garcia, Dantielli Assumpção. A Revista do IHGB e o saber linguístico: um gesto de documentação / Dantielli Assumpção Garcia. - São José do Rio Preto: [s.n.], 2011. 300 f.; 30 cm. 

Por hoje, é só. Talvez um dia eu fundamente mais detalhadamente de que modo eu cheguei à mesma conclusão de Taunay.

Gerson Moraes França