APONTAMENTOS E REFLEXÕES SOBRE OS POVOS INDÍGENAS DO ITAPEMIRIM
O presente escrito é despretensioso, mas não menos relevante do que outros textos que trabalho aqui no BLOG. Despretensioso porque não se pretende acadêmico, nem conclusivo; fazemos aqui, com os dados que dispomos, reflexões sobre os povos indígenas que habitaram a região da bacia rio Itapemirim, situada no sul do Estado do Espírito Santo.
Há certa lacuna nas fontes históricas disponíveis sobre qual era o povo originário que habitava a costa espírito-santense no entorno da foz do rio Itapemirim. Há, também, discrepância entre os autores antigos quando o assunto é a população indígena que vivia na costa do atual Espírito Santo. Alguns autores que estudos posteriores se mostraram mais ajustados, como Simão de Vasconcellos (que bebeu de fontes jesuíticas originais, como por exemplo os escritos hoje perdidos de José de Anchieta), informam que no tempo da conquista europeia da América portuguesa a região costeira ao sul do rio Reritiba (atual Benevente, com foz em Anchieta) era povoada pelos goitacases. Isso coloca a região litorânea de Itapemirim sob a ocupação goitacá.
Mas as informações dos cronistas antigos é um tanto insegura para a nossa região foco. Embora haja certo consenso historiográfico de que os europeus tenham sido expulsos de sua primeira tentativa de colonização da foz do rio Itabapoana (pouco ao sul do Itapemirim) por ações belicosas advindas dos povos goitacá, que são indígenas do tronco macro-gê (não tupi-guarani) também segundo os estudiosos mais recentes, resta ainda certa dúvida sobre a presença tupi na região nessa época.
Alguns elementos fazem-nos presumir que havia indígenas do tronco tupi-guarani pela região ora estudada ou que, pelo menos, habitavam localidades bem próximas ou já haviam vivido (ou transitado) pela costa itapemirinense. Os donatários das Capitanias de São Tomé e do Espírito Santo, quando assinaram um acordo sobre os limites de suas jurisdições nos primeiros anos da ocupação, são claros em afirmar que os indígenas chamavam o rio Itapemirim já por seu nome atual (com variadas grafias), de origem tupi. Esse rio, inclusive, foi a referência geográfica usada para estabelecer a divisa entre as duas Capitanias. Os indígenas tupi chamavam o rio Itabapoana de Camapuana (também com diversidade de grafias); o termo Managé, nome contemporâneo do Itabapoana durante essa primeira fase da conquista europeia, é de origem um tanto incerta, ainda: há quem creia goitacá, há quem pense ser tupi. Fonte da época informa, todavia, que o "Managé" do rio era devido oo nome de um principal (indígena liderança) da tribo que ali estava.
Fontes arqueológicas trazem mais luz, mas também mais peças nesse embaralhado "quebra-cabeças". Uma subdivisão da tradição ceramista ligada aos povos tupi-guarani, chamada pelos estudiosos de "Fase Itabapoana", foi encontrada na região ao sul desse citado rio. Foram, até hoje, encontrados três sítios principais nesse recorte (um médio e dois menores) com características de assentamentos temporários de acampamento, e cuja datação é contemporânea e pouco posterior à conquista europeia.
Percebe-se, claramente, que há ainda algumas lacunas e muitas hipóteses sobre as populações indígenas que habitavam essa região do sul do atual Espírito Santo na época inicial da conquista europeia. As fontes escritas e arqueológicas trazem-nos elementos que, ainda, precisam ser metodicamente organizados e/ou melhor compreendidos. O que podemos dizer, com certa dose de certeza, é que a região costeira sul espírito-santense teve presença de indígenas goitacá e tupi, alternada ou não. E, talvez, essas aparentes incongruências sejam, na verdade, apenas fortes elementos de indício de que essa região (na primeira metade do século XVI) era um terreno de transição, de trânsito e de disputa. Ao invés de a pensarmos com uma base sólida de povoamento de um grupamento de determinada etnia indígena, devemos pensá-la como uma zona de contato.
Acredita-se que a região mais densamente povoada pelos goitacá, e que seria sua "base territorial", ficava no entorno do rio Paraíba do Sul, em terreno que depois ficou conhecido como os Campos dos Goitacazes. Sua presença em regiões costeiras mais ao sul, ou mais ao norte (como o Itabapoana) seria consequência de um espalhamento de suas populações, seja por migrações, seja por expedições, tanto por fuga quanto por contato intencional. Tal hipótese faz sentido: poucos anos após a expulsão dos europeus que haviam se estabelecido na Capitania de São Tomé, viajantes franceses que transitaram pela região deixaram registrado que os indígenas goitacá haviam retraído para o entorno do rio Paraíba.
No início da segunda metade do século XVI, a região costeira do Itapemirim se transformou em uma zona de disputa entre indígenas do tronco tupi e entre europeus franceses e portugueses. Fontes contemporâneas deixam claro que os franceses estavam, nesse momento, aliados aos indígenas que estavam habitando a foz do rio Itapemirim; e que esses indígenas não eram goitacá, nos fazendo presumir que seriam da etnia tupi. Reproduzia-se na grande e espaçosa enseada entre a ponta dos Castelhanos e a lagoa do Siri os conflitos que desenhavam-se no Rio de Janeiro, opondo franceses e portugueses, bem como os grupamento indígenas tupi adversários, uns aliados aos primeiros e outros aliados aos segundos. É nessa época, inclusive, que a ilha que fica no meio dessa enseada recebeu o nome de "Ilha do Francês", ou "Ilha dos Franceses", como é mais comumente citada nos dias de hoje.
Não tardou para que os conflitos se transformassem, ali também, em confronto. No final da década de 1550, uma expedição composta por indígenas aliados aos portugueses, cuja origem era a baía de Guanabara (de onde se retiraram em meados da referida década para o Espírito Santo, com apoio de navios portugueses, diante da ofensiva de indígenas seus inimigos aliados aos franceses), bateu e capturou vários franceses que ali estavam em contato com os indígenas locais. Somente após a expulsão dos franceses que estavam estabelecidos na baía de Guanabara e com a posterior fundação da Cidade do Rio de Janeiro e ofensiva sobre os indígenas locais é que a região do Itapemirim se "estabilizou".
Dos indígenas da etnia tupi aliados aos franceses e que estavam no Itapemirim não temos muitos elementos nas fontes. Eram da região, ou haviam vindo de outras terras, como os que bateram os franceses que ali estavam? Nesse último caso, voltaram para suas terras? No caso de serem da região ou das proximidades, retraíram? Introjetaram-se pelo hinterland, ou espraiaram-se pela costa em algum rumo? Renderam-se, ou aderiram aos portugueses? Os assentamentos arqueológicos da Fase Itabapoana acima tratados, contemporâneos aos fatos aqui narrados, teriam alguma relação com esse grupamento tupi? Não sabemos. O que sabemos é que irão desaparecer dali e, no final do século XVI, as fontes nos indicam que alguns magotes de goitacá podem ter reaparecido na região, ou nas duas proximidades.
Nos anos 1550 e 1560, de acordo com as fontes, a região do Itapemirim era percorrida pelos indígenas tupi. Um chefe dos tupi temiminós da Guanabara que estava então na região de Guarapari, por exemplo, aventou a possibilidade de se instalar por ali; a peste de 1558 entrou no Espírito Santo, também, por ali, pouco após da ação dos tupi maracajás contra os franceses (e seus aliados indígenas) que lá estavam. E foram as doenças que, certamente, ceifaram muitas vidas dos povos originários pela costa e diminuíram substancialmente a sua população. Com o assentamento da Missão jesuíta em Reririgtiba (atual Anchieta), e a política de descimento e de concentração dos indígenas no entorno da missão, parece que a população indígena remanescente foi deslocada; criou-se um hiato, um vazio, que foi depois preenchido por outros grupamentos indígenas.
No final do século XVI e inícios do XVII, como dito, parece que a região foi uma terra de trânsito e/ou disputa. As fontes, fragmentárias, tanto documentais, quanto arqueológicas, levam-nos a crer que os indígenas goitacases podem ter por ali feito algumas de suas "correrias", como se falava à época. Mas é apenas hipótese.
A situação dos povos indígenas na costa da região do Itapemirim muda em meados do século XVII. Os tupi não mais aparecem nas fontes, e grupos de guarulhos (com suas diversas grafias, como guarumirins, gamamomis, garutos, etc), do trono puri-coroado, passam a ocupar o litoral. Na década de 1640 já são assinalados nas proximidades da região e, na década de 1680, esses grupos indígenas puri-coroado já estão estabelecidos na foz do Itapemirim e do Itabapoana. Inclusive, é nessa época que inicia-se a ocupação europeia da região, ainda bem rarefeita. Esses indígenas prestaram serviços para os primeiros colonos lá estabelecidos, e boa parte deles será depois deslocada para um Aldeamento organizado nas proximidades da futura cidade de Campos. O interior, porém, continuou sendo dominado pelos povos puri-coroado, e essa situação de manteve inalterada (a exceção da região das Minas do Castelo ocupadas pelos garimpeiros durante o século XVIII) até meados do século XIX.
Gerson Moraes França



