Princípios do Espírito Santo em Fontes Espanholas (1)
Publicado, sem título, originalmente em minha página do Facebook, em 06 de junho de 2023.
Adoro garimpar fontes em arquivos. É um procedimento bem demorado quando não há indexação. Conhecer o que se pesquisa facilita encontrar, pois sabemos (mais ou menos) onde e como procurar. E nos tempos atuais, com a digitalização de acervos, as possibilidades só vão aumentando. Certamente ainda existem muitas fontes para serem reveladas por aí.
Esse documento, que aqui posto, encontrei há uns três anos atrás, em arquivo (hoje digitalizado) espanhol. Simancas. A "fecha" de sua indexação está equivocada: lá consta o ano de 1537, mas analisando o documento percebi que foi escrito na década de 1560. Ele é uma pequena relação sobre o Brasil de meados do século XVI, e não traz muitas informações diferentes das que já conhecemos; mas é sempre bacana encontrar essas fontes, mesmo que seja para corroborar o que se sabe.
No meio do texto, há uma passagem sobre o Espírito Santo. Penso ser interessante aqui publicar e reproduzir, pois há um breve relato sobre nosso torrão em seus primeiros tempos. Como informei, cheguei a conclusão que esse documento foi produzido nos anos 1560, pois nele já se cita a existência de São Paulo (Piratininga) e ainda fala da presença dos franceses no Rio de Janeiro, além de outras informações. Seu autor, um espanhol chamado Andrés Montalvo, ficou alguns anos retido em Santos (Capitania de São Vicente) aguardando abrir-se a "rota" de ligação com o Paraguai, para onde devia seguir, então "fechada" devido a uma guerra entre os índios. Foi nessa ocasião (cerca de 1564), com quase toda certeza, que Montalvo escreveu esse relato.
O trecho sobre o Espírito Santo, reproduzo abaixo, com pequenas lacunas que não consegui interpretar:
"(...) desta Capitania de Puerto Seguro hasta el Spiritu Santo que és otra población de portugueses la propria distancia de cinq ª leguas poco mas o menos, era de um cavallero que se chamava Vasco Fernandes Cutiño qui no avia mas de una población por aver los indios deszatalos e los ingenios de açucar que nella havia q então que se (?) estube alli se reformava e se tomava ha estes ingenios, desde el Espiritu Santo hasta el Rio Genero a outras cinquenta leguas poco mas o menos que hera las ... que teniam e estavase em pose duns francezes muy (...)"
No trecho que fala do Espírito Santo, o documento de Montalvo reza que a Capitania era de Vasco Fernandes Coutinho e que os índios haviam destruído os engenhos de açúcar ali construídos, e que agora estavam sendo reformados. Coloquei também a citação da presença dos franceses no Rio de Janeiro. Dá a entender que ele (ou alguém com quem ele se informou) havia estado no Espírito Santo quando os engenhos estavam sendo reformados.
Enfim, apesar de não trazer coisa nova, é um documento bem bacana para a nossa história regional capixaba. Principalmente pela antiguidade de sua produção. É anterior as descrições das relações elaboradas por Anchieta e Cardim, e também anterior aos trabalhos históricos de Gandavo e Gabriel Soares, que são algumas de nossas boas fontes do século XVI.
Gerson França

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