O Espírito Santo em "Coisas Notáveis do Brasil", de Francisco Soares.
Para quem estuda a formação do Espírito Santo quinhentista, essa obra não é nenhuma novidade. Está elencada como fonte em diversos trabalhos sobre a história do Espírito Santo. Resolvi tratar dela apenas para transcrever aqui algumas partes atinentes ao nosso torrão que entendi ser interessantes. Francisco Soares de Sousa (n.c. 1560, m. 11/11/1597) foi um português jesuíta; escreveu sua obra entre os anos de 1590/96. Há dois manuscritos do trabalho, muito similares um ao outro: o de Coimbra e o de Madrid.
A primeira transcrição, do manuscrito de Coimbra, é essa abaixo:
"De alguãs Cousas mais notaueis do Brazil
(...)
Foi descuberto o brazil no anno de 1500 por Pº alz cabral.
(...)
O 1º que foi a pouoar o Brazil foi Martî afonço de Souza e seu Jr' Pº lopez em s. vte na Jlha de Guaipe e asi s. vte foi o 1º q' se pouou"
Essa primeira parte trata da "descoberta" do que viria a se tornar o Brasil e do estabelecimento da primeira povoação "oficial", que foi a fundação de São Vicente por Martim Afonso em 1532. Continuemos.
"Itamarqua foi a 2ª q' se pouou (...)
A 3ª Capta foi o sp'u sto por Vasco frz Coutinho e mta gente honrrada aqui morreo aq'le grãde Capitaõ das malucas e dom Simaõ de Castelo brãco degradados. he muj fertel Capta tê duas villas huã na barra e outra ê hua Jlha huã legoa p'lo Rjo [ ... ] temos ali da cõpª dez pes e Jr's e alguãs aldeas cõ noue mil Jndios.
Tem esta Capta hû rjo doce grande bota tres legoas ao mar e assi bota a agoa salgada dessi e a parta cõ q'lq'r t'po se bebe. E por elle assima ha mtas pedras [ ... ] de preço segundo hû estrologo disse he a mais rica Capta e por isso vco frz a pouoou a doaçaõ dos s'ores he ate emtestar cõ os castelhanos do sul esta ê 20 graos da banda do sul"
O autor continua a tratar das Capitanias e, interessantemente, ao invés de enumerá-las por ordem de doação, ou por ordem geográfica (geralmente de norte à sul), como fizeram outros cronistas contemporâneos ou pouco posteriores, ele resolveu pontuá-las de acordo com o tempo de seu povoamento. Essa informação, para além da sucinta descrição da Capitania do Spiritu Sancto em 1591, é de extrema relevância se considerarmos essa narrativa verossímil. Isso porque o autor entende que o Espírito Santo teria sido a terceira Capitania a ser povoada, depois de São Vicente (Martim Afonso) e Itamaracá (Igarassu, Duarte Coelho).
Continua o autor sua relação, em ordem de povoamento: Porto Seguro, onde informa que "A Baya, pernaobuco, sp'u sto se acolheraõ aqui quando se despouoaraõ cõ gerra", Bahia, Pernambuco, Ilhéus e Rio de Janeiro (" a prª cidade que pouou elRey dom Sebastiaõ"). Não cita a tentativa de povoamento em São Tomé, provavelmente por não ter sido repovoada após a expulsão do seu donatário.
Dando seguimento ao conteúdo do manuscrito, segue:
"das Guerras cõ os Jndios
A causa por q' os Jndios se aleuãtaraõ e aleuãtaõ he porq' por força lhe tomaõ seus fºs e suas molheres e escrauos e o fazê oje em dia têdo empedido infenidade de christãdade e cõ mto Roim exemplo e assi a bandeiras despregadas os uaõ buscar cõ guerra injusta e as vezes cõ emganos (...)
Um capítulo discorre sobre as guerras com os índios e o motivo mais comum para estourarem esses conflitos após a fundação/conquista das Capitanias: a escravidão dos indígenas. Sobre o Espírito Sando, informa que foi a segunda dessas guerras:
"A 2ª f oi no sp'u sto cõ mta perda nossa e de dom Jorge menezes capitao das malucas o q' meteo os Castelhanos no fogo e elRej sêtio mto ser este homê sentêçeado a morte p' se criar cõ elle e disse ouuereis de têtar q' seruiços me tem feito mas naõ morra aqui mandajo ao brazil q' la morra e morreo dom .Joaõ de Castelo branco e mtos e o porq' foi isto foi por a molher de hû principal q' hû portuges se amãcebou cã ella isto publicamte e naõ lha querêdo dar o portuges a seu marido o jndio apelidou gête e os matou aqui se perderaõ mtos emgenhos e os fizeraõ embarcar pª porto seguro ".
No outro manuscrito, o de Madrid, temos também algumas informações sobre o Espírito Santo. A que entendi interessante aqui compilar é a estimativa populacional que a obra trás das Capitanias e do Brasil em geral. Abaixo, os dados sobre nossa primeva Capitania:
"De alguãs Cousas mais notaueis do brasil e de alguñs costumes dos Indios.
(...)
spii sancto 2 villas. portuguezes 0400. êgenhos 6. escravos 0700. indios 9000"
Assim, em c. de 1591 o Espírito Santo tinha duas vilas (Vila Velha e Vitória atuais), 6 engenhos, 400 portugueses, 700 escravizados (nativos) e 9 mil indígenas (entre forros e livres, cristãos e pagãos). Modesto em população portuguesa, escravizados e em engenhos, se comparado com Pernambuco e Bahia, mas com a maior população indígena administrada do Brasil à época.
Gerson Moraes França


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