Princípios do Espírito Santo em Fontes Espanholas (2)
Documento muito interessante sobre os primeiros tempos da ocupação europeia no atual Estado do Espírito Santo é um relato sobre o Brasil produzido em 1545, atribuída provavelmente ao espanhol Juan Sanchez de Vizcaya, intitulado "Relación de la costa del Brasil". No princípio da colonização portuguesa na América, foi comum haver relatórios ou memórias produzidos para que a Espanha "acompanhasse" a conquista e os avanços de Portugal na colônia; espécie de "espionagem", mesmo.
Desta fonte, produzida pouco antes do primeiro colapso da Capitania do Espírito Santo entre 1546 e 1547, quando os indígenas locais destruíram todos os engenhos e a Vila do Espírito Santo, extraímos várias informações muito interessantes sobre aqueles primevos tempos. Abaixo, transcrevo algumas partes da referida fonte.
"y al nordeste [do rio Paraíba do Sul], 6 leguas esta otro rio q los cristianos llamã Manage - los yndios le dizen coamapuã - por razon do principal q alli esta a q esta una buena polaciõ - tiene 60 [ou 150] hôbres en altura 21 1/4 , 80 esclavos) en q se comieça agora a hazer yngenios q ay disposiciõ pq tiene muchos esclavos - tiene 30 cristns y otros... esclavos eb 20 g os... tienen cavallos puercos gallinas."
"en la capitania de Vasco Fernandez cutiño que es la que se sigue en un rio que se llama guarapari ay una poblacion el rio legua y media donde se hazen agora ingenios porque ay gran disposicion", "cada yngenio una poblaciõ esta en 20 (...)".
"(...) en la vaya de San Juº q llamã alli a del espiritu santo ay una grã poblaciõ y ay seys ingenios en ella los 4 de agua los dos de cavallo (...)" "(...) 800 esclavos."
"(...) desde el rio de Santa Catalina [atual rio Itapemirim] hasta el rio de ricare [Cricaré] que esta en altura se 20 grados que es el comieço de los baxos de abreojo [Abrolhos] de la parte del Sur, es la capitania de Vasco Fernandez cutiño (...)
COMENTÁRIOS SOBRE A FONTE
Essa fonte é tão interessante que ficamos até surpresos por não ter sido mais trabalhada pela historiografia espírito-santense. Dela extraímos muita informação que bate com as informações contemporâneas advindas das fontes portuguesas, e algumas informações inéditas.
Percebe-se que coloquei na transcrição não só os trechos sobre o Espírito Santo, mas também parte do trecho que trata da ainda existente Capitania de São Tomé, cujo donatário era Pero Góis e que foi destruída na mesma época das guerras de 1546/47 em terras capixabas. Segundo a fonte, os indígenas já chamavam o rio de "Camapoan" (de onde derivou-se o nome atual: Itabapoana); o nome Manage (pronúncia-se "manaxé"), ainda segundo a fonte, teria esse nome por causa de um chefe indígena que ali habitava.
Sobre o Espírito Santo as informações são bem bacanas. Primeiramente reparamos, em toda a fonte, que os espanhóis davam, às vezes, outros nomes para os rios ou baías da costa: a nossa atual baía de Vitória era chamada por eles de baía de "São João". A fonte informa que seu nome era Espírito Santo e que lá havia uma grande povoação (a atual Vila Velha); e que haviam seis engenhos (quatro movidos à água e dois à cavalos), exatamente conforme as outras fontes correlatas da época. Havia 800 escravos trabalhando; ressalte-se: praticamente todos, indígenas. Não transcrevi um trecho confuso, por cautela: mas parece que havia uma população de 150 portugueses.
O informante da Espanha também conhecia os limites da Capitania: o rio Santa Catarina, atual Itapemirim, ao sul (limite convencionado entre os donatários Pedro Góis e Vasco Fernandes), e o rio Cricaré, ao norte, fazendo divisa com a Capitania de Porto Seguro.
A informação inédita para mim é a de que Guarapari entrou na esfera de colonização europeia do território já nessa época primordial. Analisando o decorrer da história capixaba, até faz sentido. Esse documento é o primeiro da história a nominar o rio e baía de Guarapari, o que por si só é interessante. Mas ele também cita que lá havia uma povoação e que estavam em construção dois engenhos: cada um com 20 europeus e outro tanto de escravizados (indígenas, certamente).
Com a guerra iniciada em 1546/47, essas povoações e engenhos foram todos destruídos pelos povos originários locais. Na segunda metade da década de 1550, a região de Guarapari foi ocupada por indígenas aliados aos portugueses, que haviam vindo do Rio de Janeiro. Nos anos 1570 em diante seria estabelecida uma redução jesuíta e seriam reconstruídos os engenhos.
Texto e pesquisa: Gerson Moraes França
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