terça-feira, 13 de novembro de 2012

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Corrigindo um Artigo

Por esses dias, em um dos grupos do Facebook que têm como foco o Município de Mimoso do Sul, foi publicado um pequeno artigo sobre a história deste torrão. Logo percebi os erros e equívocos, e "pedi um aparte", que me foi gentilmente concedido. É complicado retificar informações errôneas, pois podemos ferir susceptibilidades e egos. Mas, penso, é meu dever como pesquisador e, principalmente, como futuro historiador, corrigir o que noto de equivocado. Não é minha intenção "ser melhor", ou "aparecer"; só desejo que a nossa história, a nossa verdadeira história, seja retratada o mais fielmente possível com o que realmente foi no passado.

Resolvi, então, registrar tal fato, bem como o artigo e minhas correções, aqui no BLOG. Não sei quem escreveu o artigo em questão, mas espero que a pessoa não se chateie comigo.

Abaixo, o
ARTIGO:

MIMOSO DO SUL
No dia 26 de Novembro de 2004 o município de Mimoso do Sul, localizado ao sul do Espírito santo, comemora o seu aniversário de emancipação política: 74 anos já que isto aconteceu em exatos 26 de novembro de 1930.
Porém, a história do Município origina-se de datas bastante remotas:
1776 – sesmaria que havia pertencido aos jesuítas é arrematada em hasta pública por Antonio Pereira da Silva. Dá-se o início ao núcleo de povoamento, sendo os povoadores procedentes de Minas Gerais e Rio de Janeiro.
Os desbravadores favoreceram-se da fertilidade do solo, dedicando-se ao cultivo de café, mas depararam-se com fortes obstáculos da malária que graçava aquela época. Fixaram-se à margem esquerda do rio Itabapoana,no atual distrito de Dona América.
1852 _ surgimento do povoado de São Pedro que mais tarde tornou-se sede do Município com o nome de São Pedro de Alcântara do Itabapoana; território que foi desmembrado de Cachoeiro de Itapemirim em 29 de Julho de 1887, tendo em vista a distância que o separava da Sede Administrativa, além do patrocínio de destacados elementos locais. De uma vila saltou para uma cidade, tornando-se a sede municipal, agora sendo chamada de Monjardim (05 de Junho de 1891). Em 1º de Março de 1892 o município voltou a chamar-se São Pedro do Itabapoana.
Atualmente, São Pedro que tornou-se um dos distritos que compõem o Município foi tombado como SÍTIO HISTÓRICO pelo Conselho Estadual de Cultura desde 1987. Os interessados poderão conferir casarios, calçamentos e fazendas, num conjunto de construções datadas do século XIX.
Lembramos que neste distrito vem ocorrendo o “Festival de Inverno de Sanfona e Viola” que apresenta-se como o maior evento turístico do município.Durante sua realização a região é visitada por turistas de várias partes do Brasil.Vale conferir.
Já a atual sede do Município, Mimoso do sul, teve o seu início histórico paralelo a São Pedro. Entre seus principais acontecimentos destacamos:
1852 _ Em 11 de outubro de 1852, o Capitão Pedro Ferreira da Silva compra em Campos_RJ a fazenda Vale Mimozo ; registrada no arquivo público em 1865, recebendo a Garantia de Posse pelo Presidente do Espírito Santo, Dr Muniz Freire, em 1896. Esta garantia de posse se faz necessária já que a sede da Fazenda havia se tornado distrito de São Pedro do Itabapoana em 1892.
1930 _ O Brasil está em pleno movimento revolucionário, com a queda da República Oligárquica, iniciando a Era Vargas. Esses movimentos fomentaram um grupo revolucionário local que chefiados pelo Dr Gonçalves Ferreira destituiu o Prefeito de São Pedro e fez dissolver a Câmara Municipal.
Em 02 de Novembro de 1930 uma caravana constituída de 13 caminhões, chefiada pela autoridade do Sr Waldemar Garcia de Freitas trazia de São Pedro os arquivos das repartições públicas da agora antiga sede do município. As várias tentativas junto ao governo Estadual para reverter a situação foram em vão.
É importante sabermos que entre 1865 a 1920, São Pedro vinha registrando decréscimo populacional contra o crescimento de Mimoso que foi favorecido pela estrada de ferro.
A povoação de Mimoso do Sul foi elevada à categoria de cidade em 26 de Novembro de 1930, com o nome de João Pessoa.
Em 13 de Dezembro do mesmo ano a Junta Governativa que era presidida pelo próprio chefe revolucionário é substituída pelo Prefeito nomeado, Sr Pedro José Vieira.
A partir de 31 de Dezembro de 1943, o município passou a chamar-se Mimoso do Sul.
Além da sede Mimoso, o município é composto pelos distritos de Conceição do Muqui, Dona América, Ponte do Itabapoana, Santo Antonio do Muqui, São José das Torres e São Pedro do Itabapoana (sede até 1930).
O nome Itabapoana que acompanha dois distritos mimosenses vem do rio de mesmo nome que é utilizado como limite dos Estados do Espírito Santo com o Rio de Janeiro. Palavra de origem indígena que significa “pedra empinada da aldeia do barulho das águas”. Além de Itabapoana, os índios lhe davam outros nomes, entre eles Managé.
Este nome (Managé) passou a ser utilizado no “Projeto Managé”, criado em 1997, coordenado pela Universidade Federal Fluminense. Participam os Estados do Espírito Santo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, num total de 18 municípios. Este projeto tem como finalidade a tomada de decisões que busquem melhorar a qualidade de vida de todos os moradores da região. Lembrando que os 18 municípios que fazem parte do projeto compõem a Bacia Hidrográfica do Rio Itabapoana.
De 1930 para cá, o município de Mimoso do sul, teve os seguintes prefeitos:Pedro José da Costa, Luiz de Lima Freitas, Jasson Martins (por 2 vezes), Aníbal Ataíde, David Fidalgo, José Fernandes Tâmara, Carlos Figueiredo Cortês, Joaquim Perciano de Oliveira, Rubens Rangel, João Maxmiliano Guarçoni (por 2 vezes), Darcy Francisco Pires, Domingos Guarçoni, Fernando José Coimbra de Resende (por 2 vezes), Pedro José da Costa, Benedito Silvestre Teixeira (por 2 vezes), Ronan Rangel, José Carlos Resende. A esta lista será acrescentado o nome de Flávia Roberta Cysne Novaes, eleita prefeita nas últimas eleições.
A população de Mimoso é formada por descendentes de sírios-libaneses, espanhóis, portugueses, italianos e outros.
O município de Mimoso do Sul escolheu o 2° Domingo de Julho para realizar a “Festa Magna da Cidade”. Inicialmente essa festividade possuía um cunho social-religioso comemorando o aniversário da Paróquia até os 60 anos. O crescimento das solenidades públicas foi tanto que a coordenação paroquial não conseguiu detê-las e a festa tornou-se tradicional e popular, representando atualmente no período onde mimosenses ausentes utilizam para matar saudades de sua terra e rever familiares e os amigos que aqui ficaram.


Agora, as minhas
RETIFICAÇÕES:

1 - A Fazenda Muribeca foi arrematada, em 1777, pelo padre José da Cruz e Silva, e não por Antônio Pereira da Silva; Antônio Pereira da Silva Vianna era cunhado do José da Cruz.
‎2 - A Fazenda Muribeca tinha como limites, embora não demarcados, as serras do contraforte das Torres, abarcando o vale do Rio Preto. Daí em diante, Itabapoana acima, os terrenos eram devolutos. A contribuição dos donos da Muribeca para o povoamento do Itabapoana foi nulo, e inclusive dificultaram o estabelecimento dos primeiros moradores da Barra do Itabapoana.
‎3 - O povoamento de nosso Município não começou no século XVIII, mas sim na metade do século XIX.
‎4 - A garantia de posse da Fazenda Mimoso, em 1892, não foi porque Mimoso havia se tornado sede de Distrito, mas sim porque todas as propriedades, sejam elas posses legítimas ou não, foram obrigadas à regularizar sua situação junto ao Governo do Estado. Isso porque todas as terras devolutas, com a Proclamação da República, tornaram-se patrimônio dos Estados (antes, era do Império - governo central).
‎5 - São Pedro do Itabapoana não perdeu população entre 1865 e 1920. Ao contrário. A cidade de São Pedro cresceu (guardadas as proporções e realidades daquela época) durante quase todo esse período, estagnando apenas na década de 1920. E Mimoso não cresceu logo que chegou a estrada de ferro, em 1895; Mimoso só tomaria grande impulso de crescimento no final da década de 1910, registrando um crescimento extraordinário (para a época) na década de 1920.
‎6 - A palavra "Itabapoana", infelizmente, não significa nada. Sua "tradução" foi levada a efeito por "tupinólogos" do final do século XIX, sem que estes conhecessem a origem do vocábulo. Simplesmente pegaram a palavra e traduziram para o tupi. O nome original, em tupi, do rio, era Camapuan. Os roceiros que se estabeleceram na barra, por corruptela, tornaram Camapuan em Cabapuan, depois em Tabapuan. Camapuan, sim, possui um significado na lingua tupi.
‎7 - Managé foi o primeiro nome do rio, quando o médio e baixo Itabapoana era ocupado pelos goitacases (waitaká). Sua etimologia deve ser procurada nos idiomas do grupo macro-gê, e não no grupo tupi-guarani. O texto não cita, mas a "tradução" que deram para o Projeto Managé" também cometeu o mesmo equívoco cometido acima.

Gerson Moraes França

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Farmácias em Mimoso

Esse post é bem curtinho. Na verdade, é apenas um apêndice de uma matéria publicada por Renato Pires Mofati, no último dia 23 de fevereiro, veiculada no site do portal Mimoso On Line. A referida matéria trata da história das farmácias em Mimoso, e pode ser lida clicando-se nesse LINK. Desejando contribuir com apenas uma informação, assim o faço.

E a informação é meramente referendatória, trazendo apenas a curiosidade das datas e dos nomes. Trata-se de um aviso público levado "À Praça", que era procedimento obrigatório para quem vendia uma empresa. Essa publicação é referente à venda da farmácia de Pedro Matta aos sócios Manoel Franco e Zeca Martins. Eu ia transcrever o aviso, mas fiquei com preguiça. Então, abaixo segue a foto que tirei da publicação:


Bom, é isso aí.

Gerson Moraes França
Fonte: Arquivo pessoal

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Indicadores de Mimoso do Sul

No dia 30 de outubro de 2011, publiquei no Blog um artigo que discorria e refletia sobre o conceito de avanço, traçando um paralelo com o cadastramento das famílias carentes de Mimoso do Sul no CadUnico do programa Bolsa Família. Ao final do post, deixei em aberto a publicação de um artigo que trataria dos indicadores sócio-econômicos do Município. O referido artigo foi intitulado de "Cadastrar a Pobreza é Avanço?", e pode ser lido clicando aqui.

Nesse "longo meio tempo", porém, fui absorvido completamente pelos meus estudos no curso de História da UFES e, após, por questões outras; dentre elas, a cirurgia de meu pai e as "férias de verão". Pois bem; passado esse tempo, resolvi escrever sobre o que havia me comprometido.

Interessantemente, o "gatilho" que me fez resolver concluir o assunto abordado no presente post foi similar ao que serviu-me para o post anterior. Pois, se foi o furto perpetrado na Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social no dia 28 de agosto de 2011 (vide matéria) que me fez refletir sobre o suposto "avanço" em se cadastrar as famílias carentes no PBF, foi um segundo furto na mesma secretaria (vide matéria) no dia 22 de janeiro de 2012 que me fez lembrar de voltar ao assunto da estagnação de Mimoso do Sul. Isso, concomitante com a matéria publicada por Renato Pires Mofati no dia 22 de dezembro de 2011, onde o mesmo discorre sobre tema similar ao que tratarei abaixo.

Na matéria supra aludida, Renato serviu-se de dados publicados em encarte do jornal A Gazeta; encarte esse que retratou a estagnação de Mimoso do Sul, entre os anos de 1999 e 2007, usando do indicador de renda per capita. In casu, informou o encarte que o PIB per capita mimosense era de R$ 8.409,00 em 1999, caindo para R$ 7.165.00 em 2007. Os valores foram corrigidos para traçar-se o paralelo.

Reiterando o que escrevi no post anterior, a pobreza está caindo no Brasil desde 1994, e desde 2003 é a desigualdade que está caindo em nosso país. Em Mimoso do Sul, porém, tal não ocorreu. A pobreza e a desigualdade não apresentaram melhoras; pior, pois tanto nos números relativos, quanto nos absolutos, observamos piora dos indicadores. E, nesse período, todas as principais correntes e grupos políticos de Mimoso do Sul estiveram no governo por pelo menos um mandato -  tal fato, pois, não é eminentemente político, e nem deve ser tratado como omissão ou descaso de nossos governantes, pelo menos os locais. Politizar essa temática é atrasar ainda mais uma possível solução, caso exista alguma, pois somente com a união de nossa classe política é que poderemos sair da letargia e esmagar o provincianismo, que ainda grassa na cabeça de algumas pessoas em nosso amado rincão.


POPULAÇÃO

A falta de atrativos para a instalação de empresas em Mimoso do Sul e a concorrência que os municípios do Itabapoana sofrem por parte de localidades mais desenvolvidas e/ou que possuem incentivos fiscais governamentais (como, por exemplo, a parte do Estado que faz parte da SUDENE) tem como reflexo um interessante dado populacional. Mimoso do Sul é o município com o menor índice de população não natural residente; em 2000, 15,6% da população de Mimoso não era nascida no município -  o menor índice do Estado. Não que isso seja ruim, mas reflete a pouca oferta de oportunidades em Mimoso. Não há imigração relevante em nossa cidade, e Mimoso não atrai as pessoas em busca de trabalho. E, além de não haver imigração substancial, há um dado pior: Mimoso do Sul não consegue "segurar" seus jovens, e "exporta" população em busca de oportunidades em outras localidades.

Há um fenômeno interessante dentre a percentagem dos residentes não nascidos em Mimoso do Sul, porém. Muitos são, na verdade, descendentes de mimosenses que emigraram da cidade, em décadas passadas, rumo aos maiores centros atrás de emprego e oportunidades. São filhos de mimosenses, embora nascidos fora da cidade, e que nos últimos anos estão "voltando".

A falta de oportunidades e a piora dos indicadores de desigualdade, pobreza e de renda per capita (tratados mais abaixo no presente artigo), na última década, pode ter se refletido no contingente populacional de Mimoso do Sul. Após pequeno aumento populacional verificado entre 1980 e 1991 e entre 1991 e 2000, a população residente no município de Mimoso do Sul caiu sensivelmente entre 2000 e 2010. A população urbana, porém, continua crescendo; igualou-se à população rural pouco antes do ano 2000, e em 2010 já era muito superior.


POBREZA E DESIGUALDADE

É sabido que a inflação é um dos fatores que agravam a pobreza e a desigualdade. Em 1991, quando vivíamos épocas de inflação descontrolada, o índice de proporção de pobres em Mimoso do Sul era alarmante: 64,6% da população mimosense vivia abaixo da linha de pobreza. Depois de 1994, com a estabilização da moeda, esse índice caiu substancialmente em Mimoso do Sul - em 2000, o nosso índice de proporção de pobres havia caído para 44% da população.

Se, por um lado, a pobreza havia caído a partir de 1994, a desigualdade teimava em crescer. Em 1991, os 60% mais pobres participavam com 20,5% da renda; em 2000, os 60% mais pobres viram sua fatia diminuída para 19,6%. Essa tendência de crescimento da desigualdade já era bem anterior. A desigualdade cresceu entre 1970 e 1976, caiu entre 1976 e 1980 (sem embora alcançar os níveis de 1970), manteve-se relativamente estável entre 1980 e 1986, e tornou a crescer entre 1986 e 1991. Manteve-se estável entre 1991 e 1996, crescendo sempre deste então - entre 1996 e 2000 a desigualdade teve sensível crescimento, e entre 2000 e 2006 batemos todos os recordes da série histórica, com o maior salto até então registrado. A título de informação, os 20% mais ricos eram donos de 62,7% da renda global dos mimosenses em 2000.

A desigualdade fica ainda mais patente e agravada quando constatamos que, mesmo com os poucos atrativos que nosso Município possui para a instalação de empresas, três empresas mimosenses (duas do setor de mármore e granito, e uma de exportação de café) faturaram, em 2010, mais de 5 milhões de reais cada uma.

Retornando à questão dos pobres, observamos que a estabilização da moeda foi responsável por emergir boa parcela da população que estava abaixo da linha de pobreza. Mas, durante a primeira década do século XXI, os índices se estabilizaram e depois se reverteram. Em 2003, a incidência de pobreza em Mimoso do Sul era 40,43% da população, seguindo a tendência de queda registrada desde 1994, embora com queda mais tímida em relação ao ano de 2000. Em 2010, porém, o índice de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza cresceu  para 42,2%, apenas pouco menor do verificado 10 anos antes.

A queda da renda per capita na última década, o histórico aumento da desigualdade e o crescimento da pobreza nos últimos anos podem nos trazer indicativos ainda piores nos futuro. Em 2010 ainda existiam 2.206 habitantes mimosenses que eram classificados como população de extrema pobreza, abaixo mesmo da linha de indigência; nossa população em 2010 era de 25.898 habitantes. A ação de cadastramento das famílias pobres de Mimoso do Sul no CadUnico, e a percepção dos recursos do programa Bolsa Família por parte das famílias cadastradas é, certamente, importante fator de distribuição de renda e de minimização da pobreza. É, porém, apenas um primeiro passo; é preciso sedimentar oportunidades e diminuir, com o tempo, os paliativos - esse remédio é necessário pois diminui a febre, mas infelizmente não cura a doença.


É por isso que é preciso que a nossa classe política se debruce sobre esse problema. Pois, como vimos, a piora dos indicadores ocorreu no decorrer de vários governos locais, independente de corrente ou grupo político. E, reiterando, na contramão do nosso país, que vem reduzindo a pobreza desde 1994 e a desigualdade desde 2003. É preciso que se tracem projetos e programas de desenvolvimento sustentável, considerando que dificilmente vamos mudar a realidade de que as empresas maiores vão continuar procurando as regiões maiores ou que possuam incetivos, ao menos em médio prazo. As querelas políticas devem dar lugar a uma "força-tarefa" supra-partidária no que toca ao nosso desenvolvimento sócio-econômico. Os embates eleitorais devem, é claro, ocorrer, pois tal é premissa democrática que dá ao povo a faculdade de ditar a manutenção ou a alternância de poder. Mas as querelas políticas não podem suplantar o bem comum - os adversários não precisam ser inimigos e, juntos, podem formar um forte grupo de pressão em defesa dos interesses de Mimoso do Sul.

Pois, resta claro, alguma coisa, de verdade, precisa ser feita.

Gerson Moraes França

domingo, 30 de outubro de 2011

Cadastrar a Pobreza é Avanço?


Há pouco tempo a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social de Mimoso do Sul foi furtada. Dentre os objetos surrupiados estava o CPU que funcionava como servidor do Programa Bolsa Família no Município, onde estavam armazenados os dados das famílias inventariadas no Cadastro Único, bem como, é claro, os dados das famílias beneficiadas pelo PBF em Mimoso do Sul. O site MimosoOnLine noticiou esse lamentável fato em matéria publicada no seu portal, que foi comentada por vários leitores. Foi ali que tomei conhecimento do fato de que existiam cadastradas no CadÚnico, em agosto de 2011, o montante de 4.169 famílias pobres em Mimoso do Sul. Um incremento de 313 famílias em relação ao mês anterior, quando havia 3.856 famílias inventariadas no CadÚnico em Mimoso. "Um grande avanço da Administração", como afirmou o Gestor do PBF no Município.

Não consegui deixar de refletir sobre essas palavras. Afinal, cadastrar a pobreza poderia ser chamado de avanço? Sim, ou não?

O Cadastro Único para Programas Sociais é um instrumento que identifica as famílias de baixa renda, caracterizadas como famílias pobres, objetivando enquadrá-las no perfil do Bolsa Família quando se encaixarem nos requisitos para o recebimento do benefício. Cabe ao Município implementar e executar esse inventário. Segundo o PNAD de 2006, a estimativa das famílias pobres em Mimoso do Sul, com requisitos para adentrarem como cadastradas no CadÚnico, era de 4.738 famílias. Assim, observamos que o Município está ouvidando esforços para identificar e cadastrar essas famílias; essa não é uma tarefa fácil, e certamente merece elogios.

Mas, ainda assim, permanece a pergunta: cadastrar a pobreza é um avanço?

Primeiro, vejamos o que significa a palavra "avanço", no sentido que foi empregada na expressão do Gestor do PBF em Mimoso do Sul. Consultando um dicionário, e de acordo com o sentido dado, "avanço" seria "caminhar para adiante", "progredir". E "progredir", seguindo a mesma linha, seria "desenvolver-se", "adiantar-se".

É obrigação social do Município cadastrar as famílias pobres no CadÚnico. Identificar essas famílias não é trabalho fácil, ainda mais quando muitas delas ainda são desinformadas e não conhecem os direitos que possuem. Mas, reiteremos: é uma obrigação social do Município, que a executa através de seus agentes públicos. Não fazer isso, ou fazer isso mal feito, seria, pura e simplesmente, omissão, ou negligência. Assim, cadastrar a pobreza é uma obrigação da Administração; não seria um avanço. As "tarefas" ordinárias de competência da esfera municipal têm que ser executadas e, se não o forem, teríamos, sim, um "desavanço". Coletar lixo, tratar da rede de água já estabelecida, cuidar das vias públicas e cadastrar a pobreza são obrigações do Município. A Administração TÊM que fazer isso.

Importante que se reconheça novamente, porém, que ao que parece temos pessoas competentes gerindo o CadÚnico em Mimoso do Sul. A tarefa está sendo feita, e isso tem que ser dito. Em Municípos onde carecem quadros técnicos, competentes ou compromissados em abundância, a execução bem feita de uma obrigação é motivo para elogios. Mas daí para reconhecermos isso como um "avanço" são "outros quinhentos", como reza o jargão popular.

Avanço acontecerá quando o número de cadastrados no CadÚnico, bem como o número de beneficiários do Programa Bolsa Família, começar à decrescer. Pois isso significará que teremos famílias saindo da "linha de pobreza", e isso sim seria progredir e desenvolver.

E o que as sucessivas Administrações Municipais podem fazer para que isso ocorra? Como reduzir a pobreza e a desigualdade em Mimoso do Sul? O Município é capaz de atuar nesse sentido? Ou isso está fora do alcance da municipalidade? Perguntas que não são fáceis de responder, até porque as respostas podem ser muitas e em várias vertentes. Mas alguma coisa precisa ser feita pois, ao contrário do que vem ocorrendo no país, nesses últimos anos Mimoso do Sul parece estar estagnada no tempo. E, mesmo, regrediu em alguns indicadores; a pobreza e a desigualdade vem caindo, sistematicamente e respectivamente, desde 1994 e 2003, no Brasil. Por que isso não está acontecendo em Mimoso?

Leia mais sobre os indicadores no próximo post, se quiser.

Gerson Moraes França

domingo, 2 de outubro de 2011

Pedro Ferreira da Silva

Tempos que não escrevo para o Blog. Início de nova Faculdade que, interessantemente, tem me exigido muito mais do que o primeiro curso universitário que eu fiz. Agora estou aprendendo a História e suas nuances mais basilares e elementares; sua cientificidade, métodos, correntes, "espíritos" e pensamentos filosóficos, dentre muitas outras coisas mais. E estou gostando, muito.

Agora está crescendo em mim uma forma, talvez, mais crítica e metódica de analisar, e não apenas escrever, a História. Não que antes não fosse assim; mas agora isso se torna cristalino e inteligível dentro de mim.

No mundo de hoje, na medida que a Internet vai nos facilitando ter acesso às mais diversas fontes, primárias ou fruto de pesquisa de algum historiador ou memorialista, a análise e estudo da História vai tomando, em minha opinião, uma nova dinâmica. Antes, ter acesso à certas fontes era dificultoso: como, por exemplo, ir pesquisar a família Ferreira da Silva lá em Oliveira, Minas Gerais? É certo que os descendentes do fundador da Fazenda Mimoso possuem muitos documentos que subsidiam o engendramento de nossa História local, mas muita coisa estava simplesmente fora de nosso alcance, ao menos em curto prazo.

Na medida que vamos tomando contato direto com fontes primárias, vamos observando que certas construções ou tradições históricas não são assim tão verdadeiras. Isso eu já tinha observado quando de minha pesquisa sobre a Revolução de 1930 e a mudança da sede da Comarca no mesmo ano. Tendo acesso às fontes primárias, notei que o que se dizia sobre essa "parte" de nossa História local não correspondia à realidade dos acontecimentos. E a uns poucos meses, notei uma nova discrepância, construída possivelmente sem má-fé e por simples analogia.

Sempre se afirmou que a colonização da alta e média bacia do Itabapoana recebeu grande incremento de fazendeiros mineiros que vieram para o Espírito Santo após a Revolta Liberal de 1842, em Minas Gerais. E isso é, realmente, verdade, e foi demonstrado no trabalho de Milton Teixeira Garcia (O Vale do Itabapoana e a história de São Pedro do Itabapoana e São José do Calçado). Muitos dos futuros grandes fazendeiros do Itabapoana espírito-santense eram mineiros do Partido Liberal, e alguns tomaram parte ativa naquele movimento armado; uns vieram para as matas do sul do nosso Estado para buscar novo refúgio e/ou construir nova vida, pois a anistia de 1844 não impedia as perseguições subsequentes. Assim, por simples analogia de historiadores e memorialistas locais, construiu-se a versão de que o Capitão Pedro Ferreira da Silva havia vindo para o Muqui do Sul por ter tomado parte no movimento de 1842, e por estar sofrendo perseguições em Minas Gerais. Escrevi até um pouco sobre isso, em escrito intitulado "O Início da História de Mimoso do Sul", caindo no mesmo erro.

E aí entra o "maravilhoso mundo da Internet" e suas novas possibilidades de compartilhamento de informações, pesquisas e fontes. Pois foi pela web que consegui ter acesso a uma rica pesquisa, ainda em construção, de compilamento e de concentração de fontes primárias, levada a efeito por pesquisadores mineiros. São inventários, certidões, pesquisas cartoriais, dentre outras, que estão sendo inventariadas e compartilhadas na rede mundial. O nome do site já diz tudo: http://www.projetocompartilhar.org/. E foi também graças ao "mundo internético" que pude acessar uma fonte importante, que desqualificou a hipótese de que Pedro Ferreira da Silva tenha sido um dos mineiros "liberais de 1842". É o acervo dos processos criminais do Forum de Oliveira/MG, que se encontra disponível para consulta em http://www.acervos.ufsj.edu.br/.

Compulsando essas fontes "digitais", todas elas primárias, pude perceber que o Capitão Pedro Ferreira realmente tomou parte na Revolta Liberal de 1842; só que não como "revoltoso", mas sim como "legalista". Ele e seu irmão Bartholomeu, que era então o "chefe político" da família, ajudaram à reprimir e, também, a perseguir os "revoltosos" em Oliveira. E, com isso, criaram uma série de inimizades que, talvez, tenham tido influência na decisão dos dois irmãos de deixarem Oliveira e procurarem novos rumos. É fato também que os dois irmãos brigaram, diz-se que por questões patrimoniais; cada qual tomou caminho diferente, e de acordo com testemunhos de descendentes de Bartholomeu, só muitos anos depois dessa briga é que os irmãos refizeram as pazes e se reencontraram. Fato interessante: os irmãos Ferreira da Silva eram casados com duas mulheres que eram irmãs.

Mais tarde conto mais.

Gerson Moraes França

sábado, 9 de julho de 2011

O Espírito Santo na Revolução Constitucionalista


Trincheira legalista em Silveiras/SP
Hoje, dia 09 de julho, é feriado em São Paulo. Esse ano, deram azar: o dia 09 caiu num sábado. O feriado é por causa da Revolução de 1932, que começou oficialmente nesse dia. São Paulo acabou sustentando, quase que só, uma guerra de cerca de 3 meses contra o Governo Provisório de Vargas e o resto do país. O movimento foi derrotado pelo Governo Central, e ficou conhecido, nos anaes da história, como Revolução Constitucionalista.

Quando estourou a revolução, o negócio ameaçou ficar feio. São Paulo aderiu em peso, inclusive com a maioria das guarnições federais. No sul do Mato Grosso, criaram até um novo Estado, que subsistiu por pouco tempo: Maracajú, mais ou menos o que se tornaria o Mato Grosso do Sul. Nomes importantes estavam implicados no movimento, nomes inclusive que ajudaram a fazer a Revolução de 1930. Houve luta armada no Rio Grande do Sul, onde Borges de Medeiros resistiu por um bom tempo. Também em Minas Gerais, liderada por Arthur Bernardes. Mas a adesão do Rio Grande do Sul não veio, porque Flores da Cunha acabou decidindo-se por apoiar o Governo Central. Nesse Estado e em Minas Gerais, logo os grupos revoltosos foram isolados. E Vargas pôde mandar tudo o que tinha contra São Paulo. No meio desse "tudo o que tinha", estavam os recursos humanos e materiais do Espírito Santo. São Paulo, isolado, conseguiu resistir por três meses, em uma guerra que ceifou centenas de vidas e destruiu mais um tanto enorme de propriedades.

No Espírito Santo, logo o Interventor Bley prestou solidariedade ao Governo Vargas, e se dispôs a auxiliar na luta contra os revoltosos. Foram presos alguns líderes ligados à Bernardes, e pessoas suspeitas de ligação com o movimento. Simpatizantes também foram detidos. Por exemplo, em Muqui foram presos Geraldo Vianna e Belizário Lima, proprietário e redator-chefe do jornal Muquyense, de grande circulação no sul do Estado. O jornal ficou fechado de 18 de agosto a 16 de outubro. Vianna, revolucionário de 1930 que fazia oposição ao Governo Bley, foi preso no dia 08 de agosto e só foi solto no dia 01º de setembro. Belizário ficou preso por 31 dias. Em outro exemplo, o Delegado de Polícia de João Pessoa (atual Mimoso do Sul), Florício Paulo dos Santos, teve que correr até o distrito de Conceição do Muqui, região muito ligada à Muqui e onde estava sendo organizada uma pequena "tropa" de simpatizantes; "tomou logo providência e vigia alguns implicados no trama", pois Conceição tinha "os seus revoltosos", como anunciava o Delegado.

E logo o nosso Estado tratou de enviar tropas para o front em São Paulo. Num primeiro momento, inúmeros voluntários se apresentaram, ou foram despachados para a capital pelas autoridades do interior. Os voluntários foram tantos, que no dia 14 de julho o Interventor Bley teve que começar a telegrafar aos Municípios pedindo para que não enviassem mais homens para Vitória. Muitos foram aproveitados, mas quase todos foram dispensados ou colocados em "reserva". O RPM criou mais dois Batalhões (um em 15 de julho e outro em setembro). Assim, o Regimento Policial Militar (atual Polícia Militar) e o 3º Batalhão de Caçadores (atual 38º Batalhão de Infantaria, guarnição do Exército) foram mobilizados para a luta, e enviaram seus efetivos para a guerra.

Afora isso, foram criados "batalhões patrióticos" em vários municípios, assim como muitos criaram suas Guardas Municipais para policiar e suprir o chamamento dos destacamentos policiais que foram recolhidos para a capital. Em São José do Calçado, por exemplo, o "batalhão patriótico calçadense" foi criado no dia 13 de julho reunindo um efetivo de 56 homens (26 deles, reservistas). Em Alegre, além da remessa de quase 50 voluntários para Vitória, foi criada uma Guarda Municipal com o efetivo de 20 homens. Pouco depois, os "batalhões patrióticos" foram dissolvidos, ou tiveram seu efetivo reduzido nas localidades que não criaram suas Guardas Municipais. Continuando com o exemplo de Calçado, seu "batalhão patriótico" foi dissolvido já no dia 14, e depois recriado com um efetivo de 10 homens para auxiliar o policiamento.


NOSSAS TROPAS NA GUERRA

O 3º Batalhão de Caçadores lutou no flanco esquerdo do setor do vale do Paraíba, e depois no setor do noroeste paulista. Esteve em Bananal, Sertãozinho, Barreiros, Silveiras, Queluz, Barra Mansa, Ouro Fino, Mogi-Mirim, Piteiras, Artur Nogueira e Limeira. O 1º e o 2º Batalhões do RPM lutaram no Setor da Serra do Mar e depois rumaram para o vale do Paraíba. Estiveram em Paraty, Cunha, Lagoinha, São Luiz de Paraitinga, Taubaté, Cataguá e Pindamonhangaba. O 3º Batalhão do RPM serviu de reserva no Vale do Paraíba, acantonado em Lorena. Nossas unidades militares estavam integradas em Comandos Superiores, que eram integrados por outras unidades, de vários lugares do país.

Focando nas operações de nosso Regimento Policial Militar, a missão foi árdua e importante, e de muito impacto no desenrolar da guerra. O setor de Cunha foi ferozmente defendido por São Paulo, pois seu rompimento ameaçava a linha principal do Vale do Paraíba, onde estavam concentrados os maiores esforços dos revolucionários e dos legalistas. O RPM atuou junto com os Fuzileiros Navais na operação principal do Destacamento Mixto, que era tomar Cunha, subindo a serra do mar a partir de Paraty. Atuaram principalmente no flanco esquerdo do avanço. A tropa chegou a entrar em Cunha e avançar para Lagoinha (em julho), mas depois uma contra-ofensiva paulista desalojou os legalistas de suas posições (em agosto). Após reorganizar a força (no início de setembro), nova e forte ofensiva legalista foi realizada, e a cidade de Cunha foi tomada novamente. Os Batalhões do RPM, após tomarem parte na conquista e ocupação de Cunha, ficaram com a missão de seguir para o oeste, para a tomada de Lagoinha e São Luiz de Paraitinga, enquanto os FN forçavam a ofensiva em direção ao vale do Paraíba.

Nossos soldados capixabas cumpriram a missão. Entraram em Lagoinha sem grande resistência, mas tiveram que lutar por 3 dias para tomar São Luiz de Paraitinga. Pouco depois a guerra terminou, com a rendição de São Paulo. Essas cidades, quando tomadas, estavam desertas, pois a população civil havia abandonado suas casas ante o avanço da força legalista. Interessantemente, por alguns dias estas duas cidades foram administradas por capixabas, umas vez que os Comandos nomearam os Prefeitos Militares das mesmas após suas respectivas ocupações. Em Lagoinha, no dia 25 de setembro, foi feita a nomeação e posse do Prefeito Militar interino, o 2º Tenente Rosental Machado Alves - apenas dois comerciantes paulistas, que não fugiram, estiveram presentes na posse. Em 01º de outubro foi feita a nomeação e posse do Prefeito Militar interino de São Luiz de Paraitinga, o 2º Tenente Plácido Azevedo, na presença de apenas um morador.

Pouco depois de terminada a guerra, nossos soldados voltaram para casa. Os três Batalhões do RPM chegaram em Vitória no dia 18 de outubro de 1932. Foram três meses em operação na guerra. O Regimento Policial Militar nesses dias de guerra esteve com um contingente de 1.328 homens, entre regulares e voluntários. Desses, 926 foram mandados para lutar em São Paulo. 727 homens estiveram em operação diretamente na linha de frente. Nossa tropa espírito-santense sofreu com 58 mortos, 78 feridos e 156 extraviados ou desaparecidos, num total de 292 baixas.

[mais tarde, colocarei aqui um mapinha que estou fazendo]

Gerson Moraes França


Fontes:

História da Polícia Militar do Espírito Santo
1985 - Sônia Maria Demoner

Diário Oficial da União
(julho a outubro de 1932)

Jornal Diário da Manhã
(julho a dezembro de 1932)

Interventoria (Governadoria)
APE - telegramas expedidos e recebidos (1932)