quarta-feira, 23 de setembro de 2015

São José das Torres - Histórias [Parte 3]

Parte da Serra das Torres - São José das Torres - Mimoso do Sul
Fonte da foto: [www.mapio.cz/a/14476254]
Traçamos, no post anterior (Parte 2), um apanhado geral que explicou e demonstrou como foi a ocupação e exploração das terras das montanhas e encostas, mais altas, que ficam situadas na parte norte, noroeste e oeste do distrito de São José das Torres. Foi a colonização dessa área que nucleou a formação do que se tornaria o distrito e que daria origem ao arraial que hoje é a vila sede do mesmo distrito. Vimos que a ocupação dos terrenos baixos nas margens do Itabapoana foi mais antiga, mas que estancou por lá mesmo e não teve papel substancial na ocupação posterior das regiões cafeeiras do oeste e norte da região. Também vimos que a ocupação das terras de São José das Torres ocorreu em duas fases, com conjunturas próprias. A primeira fase, tímida, na década de 1890, quando houve a exploração e a abertura dos primeiros sítios, situações e posses. E a segunda fase, mais pujante, nas décadas de 1910 e 1920, quando foi ocupado ou demarcado praticamente toda a extensão do território.

Agora, seremos um pouco mais específicos, e discorreremos mais vivamente sobre a história dessa região nessas duas fases, e também no interstício entre elas. Começando, obviamente, pela primeira fase.

Por volta de 1885, quando a quase totalidade da região central do município de São Pedro do Itabapoana já estava ocupada e demarcada, quando enormes fazendas cafeeiras com suas grandes sedes pululavam pelos vales do ribeirão São Pedro e do médio e alto Muqui do Sul, quando já existiam os povoados de São Pedro de Alcântara (praticamente uma vila, seria elevada à essa condição em 1887) e de Nossa Senhora da Conceição do Muquy, bem como o recente arraial de Ponte de Santo Eduardo (atualmente, Ponte do Itabapoana) e o "proto-arraial" da Ponte do Mimoso (atual sede de Mimoso do Sul), além do antigo povoado de Limeira (que começava a decair), começou-se a olhar para aquelas terras que ficavam nas encostas orientais da cadeia de montanhas que se estendia no rumo nordeste-sudoeste, no extremo leste da Freguesia de São Pedro do Itabapoana. Até então, na prática, aquela cordilheira servia como limite entre São Pedro, então pertencente ao município de Cachoeiro de Itapemirim, e o município de Itapemirim. Em toda a sua extensão, matas virgens e floresta fechada desciam dos cumes, cobrindo as encostas e estendendo-se pelos suaves morretes até as pastagens nativas do rio Preto que, legalmente, formava a divisa entre São Pedro (município de Cachoeiro de Itapemirim) e Barra do Itabapoana (município de Itapemirim).

Nesse ano, as autoridades do município de Itapemirim propuseram a colonização dessa região de terras devolutas que, na época, se chamava de Torres do Rio Preto. Tal pretensão não se concretizou na ocasião, até porque havia dúvida no que toca às divisas entre os municípios nas cabeceiras do rio Preto, que servia como limite entre as comunas. Mas a ideia de se colonizar aquela região foi lançada e, poucos anos depois, teve início a primeira fase de ocupação efetiva da localidade. Já vimos que em 1892 foi feita a primeira venda de terras devolutas, uma área de quase 50 hectares no córrego Flores requerida pelo Dr. José Coelho dos Santos, então governador municipal (vereador) da Câmara de São Pedro do Itabapoana. Também já vimos que foi nessa época que a "fronteira agrícola" alcançou as vertentes do Rio Preto em sua porção norte e oeste, nas montanhas e encostas das terras mais altas. Muitos fazendeiros abastados de São Pedro do Itabapoana requereram a compra de terras nessa região, entre 1894 e 1895, como o comendador Leopoldino Gonçalves Castanheira (Torres), José Olympio de Abreu, Julio Cesar Monteiro da Gama e Pedro Ricardo de Sant'anna (os três no córrego Paraízo) e Manoel Teixeira de Oliveira (Degredo de Torres). E, também, muitas famílias não tão ricas, mas com dinheiro suficiente para comprar e medir as terras e formar suas lavouras. É nessa época que começa a tímida ocupação dos córregos Paraízo, Santa Rosa, Sabão e Flores, bem como de localidades como o Pharol, Paraizinho, Bandeira e Cajú, além do próprio alto Rio Preto. Em 1896, o Estado remeteu um engenheiro para mapear e levantar todos os lotes em Torres.

Muitas dessas propriedades requeridas ou compradas, porém, não seriam exploradas, como vimos no artigo anterior. A crise de preços do café que se iniciou em 1895 atravancou o investimento e a formação de lavouras cafeeiras nessa região. Nessa primeira fase, quem formou cafezais até 1895 é que permaneceu na localidade. Dos abastados fazendeiros sãopedrenses adquirentes de terras em Torres, nenhum deles chegou a formar lavouras de café nesse período, e a maior parte vendeu as terras compradas ou acabou não comprando as terras requeridas. Coube aos proprietários "novos", não tão ricos mas providos de recursos, ocupar e explorar as terras de São José das Torres. E, conforme já foi relatado, nenhuma nova plantação de café foi formada por cerca de 15 anos, entre 1895 e 1910.

Além da baixa do preço do café, da escassez de capitais e da falta de braços para o trabalho, havia um outro fator que atrasava o desenvolvimento dessa região: a ausência de estradas. As primeiras penetrações foram feitas através de picadas abertas no meio da mata, que subiam a serra pelos vales dos afluentes do rio Rio Muqui do Sul, atingiam as gargantas do divisor de águas entre os maiores cumes e desciam pelos afluentes do rio Preto. A primeira dessas picadas, que serviu como via de comunicação por muito tempo, foi aberta por volta de 1890. Importante salientar que as primeiras explorações da região das vertentes do rio Preto iniciaram-se por volta de 1885, embora o início da ocupação tenha sido pouco posterior. Antes de 1892, quando foi feita a primeira venda pelo Estado de terras devolutas em Torres, já havia quem iniciava as explorações do terreno e abria as primeiras picadas que serviriam aos primeiros posseiros e sitiantes.

Essa primeira picada saía da grande Fazenda Pratinha, no Muqui do Sul e próxima ao porto do Prata, subia pelo córrego Pratinha, passava pela Fazenda do Cedro nas cabeceiras do mesmo córrego e atingia o divisor de águas na garganta entre as serras da Prata e do Farol; daí entrava nas águas vertentes do rio Preto pelo ribeirão Paraízo, passando pelo que se tornaria as Fazendas Vale do Paraízo e Paraizinho e chegando aos alagados do rio Preto. Ao chegar aos alagados, fazia uma dobra para o norte no rumo do córrego do Pharol e do ribeirão das Flores. Anos mais tarde outras picadas seriam abertas, como a que saía do ribeirão Belmonte, subia pelo córrego Candura, atravessava o divisor de águas entre as serras do Palmital e da Estrela e atingia as cabeceiras do córrego do Pharol, bem como a picada que subia pelo córrego Santa Maria, cortava a serra de Santa Rosa a atingia as cabeceiras do córrego Santa Rosa, e a picada que fazia seu caminho passando ao sul da serra de Santa Rosa, subindo pelo córrego Cerejeira e atingindo as cabeceiras do mesmo córrego Santa Rosa acima citado.

Todas essas picadas, algumas das quais se transformaram mais tarde em caminhos, eram abertas rasgando a mata virgem, seguindo e obedecendo as limitações e as vicissitudes do terreno. Foi por elas que se iniciou o povoamento de São José das Torres, servindo de vias de comunicação, e era por elas que se escoava a produção de suas recentes lavouras, apesar de todas as dificuldades. Somente em 1909 é que foram iniciadas as obras da primeira estrada que ligaria o distrito de São José das Torres às estações dos povoados sitos na beira da linha férrea. Mas essa história narrarei mais para frente. Essas picadas e caminhos buscavam comunicar São José das Torres com as localidades por onde se fazia a exportação do café produzido na região. Inicialmente, com o porto do Prata; posteriormente, com as estações da linha férrea.


Gerson Moraes França


São José das Torres - Histórias [Parte 2]


Serra das Torres, divisora de águas das bacias dos rios Preto e Muqui do Sul
Fonte da foto: Geocosta [geocostan.webnode.com.br]

Vimos, no post anterior, que as terras que atualmente fazem parte do distrito de São José das Torres, parte integrante do município de Mimoso do Sul, tiveram timing's diferentes no que toca a sua ocupação e exploração, de acordo com as características geográficas de cada uma de suas regiões. A região baixa ao sul, nas margens do Itabapoana, começou a ser explorada na primeira metade da década de 1830, primeiramente com a atividade extrativista de madeiras. Na década de 1840, já havia algumas propriedades agrícolas nessa região, destacando-se a fazenda Santa Cruz, de propriedade do sanjoanense Antônio Gomes Guerra. Posteriormente, a atividade pecuária e a lavoura de mantimentos tomou alguma proporção, considerando que a lavoura cafeeira não rendia bons frutos nessa região.

Na década de 1860, Gomes Guerra ensaiou uma tentativa de explorar a região das encostas da serra das Torres que, porém, não foi a frente pois a morte o levou em 1869. A grande quantidade de terras virgens que ainda existiam na zona central de São Pedro do Itabapoana, já com vias de comunicação e consideradas mais próprias para a lavoura cafeeira, continuou atraindo os fazendeiros e seus capitais, em detrimento das zonas mais periféricas e de difícil acesso. Estagnava-se, assim, o esforço de penetração que, das margens do Itabapoana, tentara subir o rio Preto e ocupar as encostas da serra das Torres.

Por longos anos, a região montanhosa da serra que atualmente faz parte do distrito de São José das Torres permaneceria praticamente inexplorada, com suas densas e frondosas florestas dominando os cumes e os córregos das vertentes do rio Preto. Foi na década de 1890 que essa situação começou a mudar. Com a crescente valorização do café e a virtual ocupação de todos os terrenos da zona central de São Pedro do Itabapoana, a "marcha" da "fronteira agrícola" tomou o rumo do oeste, em busca das terras virgens que abundavam na serra das Torres e nas suas encostas orientais. É curioso, mas a ocupação das vertentes da margem norte do rio Itabapoana foram levadas a efeito do interior para o litoral. Assim, as terras altas mais orientais, que são as que se situam mais perto do mar, foram as últimas a serem colonizadas. Transpondo os vales entre as maiores elevações que servem como divisores de águas entre a bacia do rio Muqui do Sul e a do rio Preto, os primeiros posseiros tornaram-se sitiantes nessa zona.

Até o início da República, em 1889, todas as terras devolutas eram de "propriedade" do governo central, do Império (hoje, seria como se fossem da "União") e regulamentadas pela Lei de Terras de 1850 e seu regulamento de 1854. Era uma repartição imperial que legitimava, concedia, vendia e media as terras públicas. A partir da República, as terras devolutas passaram a ser de titularidade dos Estados, sucessores das antigas Províncias, e cada Estado passou a ser o gestor das terras públicas situadas em seus territórios. Adentrar na esfera das várias leis estaduais concernentes à concessão das terras públicas fugiria ao objeto do presente artigo, para além de estendê-lo demais. Ficaremos adstritos apenas aos fatos que interessam para contar o início da ocupação da região mais alta de São José das Torres.

Assim, como dissemos, foi na década de 1890 que iniciou-se o processo de ocupação e colonização das vertentes e cabeceiras do rio Preto e de seus afluentes. Importante fazer essa distinção, pois a serra da Torres não está situada somente em São José das Torres. Como foi relatado no artigo anterior, essa serra, em sua porção norte, serve de limite entre os atuais municípios de Mimoso do Sul, Muqui e Atílio Vivacqua. E, em toda a sua extensão no rumo norte-sul, essa cadeia de montanha serve como limite entre os distritos de São José das Torres e o distrito-sede de Mimoso do Sul. Suas bordas ocidentais foram exploradas antes, de acordo com a região. Na parte que bordeia o município de Atílio Vivacqua, a penetração começou nas décadas de 1860 e 1870. Nas encostas que estão no município de Muqui, sua exploração começou já no início da década de 1860. As encostas que ficam à leste, em terras do distrito-sede de Mimoso do Sul, foram exploradas nas décadas de 1860 e 1870. Foi a partir dessas zonas já ocupadas e exploradas, mesmo que escassamente povoadas e ainda com grandes porções de matas virgens, que abriram-se as primeiras picadas que, atravessando para o lado das encostas orientais, atingiriam as terras que atualmente fazem parte do distrito de São José das Torres.

Considerando a região que estamos historiando, e também considerando a geografia da serra das Torres e os padrões de penetração, exploração e ocupação da área, importa-nos focar nas áreas que serviram como "trampolim" para a colonização das vertentes do rio Preto. Pois foi esse processo que deu origem às primeiras situações e sítios das terras mais altas e mais ao norte que hoje pertencem à São José das Torres e que, por sua vez, deram origem à formação do primeiro arraial que, mais tarde, tornou-se o povoado e a vila que hoje é sede do distrito. A ocupação das regiões ao oeste da serra das Torres, portanto, é da época do Império; assim, explica-se o porquê da formação de grandes fazendas que tinham seus territórios subindo até as vertentes dos córregos que nascem na serra das Torres e que deságuam no rio Muqui do Sul, ou no rio Muqui do Norte. As fazendas Fortaleza e Taquasussú, em Muqui, e as fazendas do Belmonte, do Vinagre e da Pratinha, em Mimoso do Sul, são exemplos de grandes propriedades formadas ainda na época do Império, que tinham suas terras galgando as encostas ocidentais da serra das Torres.

A ocupação bem posterior da porção alta de São José das Torres, em relação às regiões ao oeste, também explica o porquê de não haver grandes fazendas com suas majestosas casas grandes, como há em Muqui e em Mimoso. Enquanto as fazendas do oeste da serra das Torres foram formadas na época do Império, com grandes extensões de terra e usando de mão-de-obra escrava, os sítios do leste da serra das Torres foram formados já na República, com limitações de tamanho e sem usar o trabalho servil. Sua exploração, conforme salientamos mais acima, iniciou-se timidamente no início da década de 1890. A valorização crescente do café, concorrendo com a expansão da "fronteira agrícola", bem como com a relativa liberalização do acesso às terras devolutas pertencentes ao Estado, foi responsável por dezenas de requerimentos de compras de terra em São José das Torres, bem como de medição e compra de posses estabelecidas antes mesmo de legitimadas.

A primeira medição de terras nas vertentes do Rio Preto das Torres deu-se em Flores, em terrenos anteriormente medidos para Antônio Gomes Guerra, à pedido do Dr. José Coelho dos Santos, adquiridas junto ao Estado em 1892 e com uma extensão de 20 alqueires, quase 50 hectares. Os requerimentos aumentaram desde então. Em 1894 e 1895 são dezenas de requerimentos, buscando comprar terras devolutas ou intentando adquirir as terras para legitimar posses já formadas. A legislação determinava os limites dessas aquisições: um mínimo de 20 hectares, e um máximo de 200 hectares. Mas da requisição para a exploração e ocupação eram "outros quinhentos". Em uma época aonde não mais existia o trabalho escravo, com pouquíssima mão-de-obra disponível, somente os que possuíam mais capitais é que conseguiam iniciar a exploração com mais rapidez. A propriedade comprada em 1892 pelo Dr. Coelho dos Santos, por exemplo, não chegou a ser explorada, e anos mais tarde seria vendida para Manoel Raymundo apenas com uma "aberta", que era uma pequena derrubada. Todavia, alguns sítios formaram-se usando da mão-de-obra da própria família, ou então usando um pequeno número de trabalhadores ou colonos.

Mas foi um fator externo que "freou" essas requisições e atravancou a exploração de muitas dessas propriedades. Em 1895, uma série crise de preços abateu-se sobre o café, exatamente quando formavam-se os primeiros sítios e fazendas na região de São José das Torres. Uma crise econômica nos Estados Unidos, então principal comprador do café brasileiro, justamente com a superprodução cafeeira, fez cair o preço do saco de café para níveis muito baixos. Desta data em diante as requisições e compras de terras devolutas diminuíram substancialmente, e por cerca de quinze anos nenhuma nova lavoura cafeeira foi formada em todo o município de São Pedro de Itabapoana. Até cerca de 1910, as propriedades e lavouras cafeeiras formadas em São José das Torres entre 1890 e 1895 foram as únicas que subsistiram. Muitos trabalhadores rurais, que trabalhavam principalmente "à meia", abandonaram as propriedades em que obravam. Muitos sítios passaram a produzir apenas mantimentos, e foi nessa ocasião que iniciou-se a cultura do arroz nas zonas irrigadas ou alagadas do sopé das serras.

Assim, essa primeira fase de ocupação e exploração foi bem tímida, se comparada ao "boom" que a região presenciaria a partir da década de 1910. Após a celebração do Convênio de Taubaté, os preços do café começaram a melhorar, tornando a lavoura cafeeira novamente atraente para se investir. Em 1909, as dezenas de requerimentos de compra de terras devolutas, ou de compra para legitimação de posses, recomeçam com vigor em São José das Torres. Atravessando a década de 1910, as compras ou concessões avolumam-se no início de década de 1920, no período de grande valorização do café. Em 1920, o distrito atingia dois mil e trezentos habitantes em toda a sua extensão. Ao final dessa última década, praticamente todo o território estava demarcado ou possuído, seja por propriedades que cultivavam o café, seja por propriedades que produziam arroz ou criavam gado.


Gerson Moraes França


terça-feira, 22 de setembro de 2015

São José das Torres - Histórias [Parte 1]

Um trecho do rio Preto. Ao fundo, parte da serra das Torres.
Fonte da foto: Portal Férias (www.ferias.tur.br)


"Unidas pela mão do Omnipotente,
 da mesma terra para os céos voltadas,
 vivem beijando a vastidão dormente
 e pela luz do sol sendo beijadas.
 E na ancia louca de subir, crescer,
 são mães de arroios e de cachoeiras,
 guardiãs da terra que me viu nascer! ..."

Assim cantou o poeta Lauro de Azevedo Rolim, em poesia escrita na década de 1920 e que mantive a grafia original, quando reverenciou a esplêndida Serra das Torres, cujos cumes e encostas situam-se, em grande porção, no distrito de São José das Torres, município de Mimoso do Sul. Lauro, nascido em Rio Preto das Torres em 15 de maio de 1898, é certamente o primeiro poeta nascido em terras que hoje fazem parte de São José das Torres. Cantou, em versos, a terra aonde nasceu, com a verve de todo poeta que canta a sua aldeia natal.

Essa cadeia de montanhas estende-se no sentido nordeste-sudoeste, e em sua parte mais ao norte serve atualmente como limite entre os municípios de Mimoso, Muqui e Atílio Vivacqua. É a última grande formação da região montanhosa que, desde as divisas com Minas Gerais, serve como divisor de águas entre as bacias dos rios Itabapoana e Itapemirim. Quando suas encostas encontram-se com a planície, há uma sucessão de terrenos baixos e de morros suaves, que se estendem até as falésias do litoral do município de Presidente Kennedy, na beira do mar.

Há pouco tempo foi criada uma Unidade de Conservação na Serra das Torres, com o objetivo de preservar sua biodiversidade; resta ali, ainda, grande quantidade de matas nativas, sobreviventes que foram de uma época de largo desmatamento para o plantio de café e abertura de pastagens. Os aclives íngremes e o fato de ter sido a última região ocupada do antigo município de São Pedro do Itabapoana talvez explique a presença dessas matas. Quem segue pela BR 101 no sentido norte-sul, entre os trevos e entradas para Atílio Vivacqua e Mimoso do Sul, contempla à sua direita a linda visão desse paredão de rocha e floresta, erguendo-se por centenas de metros bem pertinho da rodovia. Lindo também é apreciar a sua visão quando se vai pela estrada que liga Marataízes à mesma BR 101: no meio observa-se o vão formado pelo vale do Itapemirim, à direita a cadeia de montanhas aonde estão o Itabira e o Frade e a Freira, e à esquerda a belíssima silhueta da Serra das Torres. Quem demanda Mimoso, pela estrada que liga a referida BR à cidade, também se deslumbra com suas bonitas formações rochosas, à direita; essa rodovia, inclusive, corta as bordas do sul dessa cadeia de montanhas, vencendo as alturas que servem como divisor de águas entre as bacias dos rios Preto e Muqui do Sul.

E é no sopé de suas encostas orientais que está situada a pequena vila de São José das Torres, sede do distrito de mesmo nome, pertencente ao município de Mimoso do Sul. A população total do distrito, que é o maior em extensão territorial do município, é de pouco menos de dois mil e quinhentos habitantes. A vila tem cerca de setecentos e cinquenta moradores, que constituem sua população urbana. Suas principais atividades econômicas são a produção de banana e café nas regiões mais altas, arroz nas partes mais baixas e irrigadas, e criação de gado nas baixadas secas. Há também extração de granito, e até a pouco tempo ainda extraía-se muita madeira, que hoje é extraída em bases mais racionais. O artesanato feito com fibras da bananeira já é famoso.

Paradoxalmente, a história das terras que atualmente fazem parte do distrito de São José das Torres é, ao mesmo tempo, "antiga" e "recente", quando se compara com a história da ocupação do antigo município de São Pedro do Itabapoana. Isso porque a região do Rio Preto e de Torres possui características geográficas que a separam em "porções". Ao sul está o rio Itabapoana, aonde deságua o rio Preto; essa é uma região baixa e mais quente, com grandes áreas pantanosas ou sujeitas a alagamentos. O próprio rio Preto em suas margens, antigamente, também era pantanoso, e as áreas de alagamento embrenhavam-se até as proximidades da atual vila de São José das Torres. Esses rios eram navegáveis, inclusive; o Itabapoana até as primeiras cachoeiras na região da antiga Limeira, e o rio Preto até as proximidades da região de Nova Descoberta. Entre o rio Preto e as montanhas há uma região mediana, formada por morretes suaves e que ficou por muito tempo sem exploração. E nas bordas norte e noroeste do distrito estão as montanhas e as encostas, com clima mais ameno, que eram de difícil acesso, embora próprias para o plantio de café.

Assim, ao tratar da história de São José das Torres é necessário separá-la em fases e regiões. A região que margeia o Itabapoana foi posseada por pessoas que vinham, principalmente, da barra do Itabapoana e de São João da Barra. Sua exploração começou na primeira metade da década de 1830, primeiramente com extração de madeira. Mais tarde, formaram-se os primeiros currais de gado e algumas poucas plantações de cana-de-açúcar. O primeiro e maior fazendeiro dessa região chamava-se Antônio Gomes Guerra, procedente de São João da Barra, dono da fazenda Santa Cruz, que tinha légua e meia de testada com o rio Itabapoana e englobava em sua área a foz do rio Preto. Mais tarde, Gomes Guerra conseguiu legitimar uma enorme área que ia até o sopé da serra das Torres. Subindo o Itabapoana, entre Gomes Guerra e a foz do rio Muqui do Sul, estabeleceu-se anos depois Justino de Sá Vianna, natural de Campos dos Goytacazes, que tinha como testada a região que atualmente serve de divisa entre os distritos de Torres e Mimoso. Penetrando na região pelo interior, Justino tomou posse desses terrenos e chegou a ter lides com Gomes Guerra, por causa de limites entre suas fazendas.

Assim, se considerarmos que Antônio Gomes Guerra estabeleceu-se em terrenos que atualmente fazem parte do distrito de São José das Torres, o início da "colonização" dessa área remontaria aos começos da década de 1830. O "problema" é que essa penetração estancou-se por aí. Embora as terras de Gomes Guerra chegassem até as proximidades da serra das Torres, englobando grande parte do vale e baixadas do rio Preto, a exploração da área ficou restrita as margens do Itabapoana. Quando o plantio de café se estendeu para essa região do baixo Itabapoana, no início da década de 1850, Gomes Guerra abriu algumas lavouras da rubiácea. Mas os terrenos baixos e mais quentes, que antes eram vistos como próprios para cultivar o café na região, mostraram-se impróprios para seu cultivo ao longo do tempo. Quando faleceu, ao 1869, Antônio Gomes Guerra era um rico fazendeiro, proprietário de muitos imóveis, escravos e gado, dono de muitas lavouras de cana-de-açúcar, de mandioca, de feijão e de milho, mas sua lavoura cafeeira estava restrita a quatorze mil pés de café, de baixa produtividade, situados em São Luiz, próximo ao Itabapoana.

Antônio Gomes Guerra, porém, moveu-se no sentido de aproveitar as suas terras situadas próximas da Serra das Torres, intentando abrir lavouras cafeeiras. Em 1864 providenciou a medição das terras no atual rio Flores, na época chamado de Trindade e um dos formadores do rio Preto, situado nas encostas da cordilheira. Em 1868, tentou adquirir junto à Província as terras devolutas contíguas à suas propriedades sitas em Flores, mas teve o pedido negado por já possuir muitas léguas de terreno. Gomes Guerra, porém, não teve tempo de explorar essas terras, pois faleceu em 1869 conforme já relatado. Permaneceram ali, intocadas, as grandes extensões de florestas que somente muitos anos mais tarde começariam a ser derrubadas em pequenas porções para a abertura de lavouras de café. Como nenhum herdeiro ou sucessor deu prosseguimento à empreitada de Gomes Guerra, essas terras na Serra das Torres acabaram sendo reincorporadas ao Estado, como devolutas. Das porções mais baixas e próximas ao Itabapoana, grande parte do espólio do finado acabou sendo vendida para terceiros.

Como ainda havia, nessa época, grandes porções de terras incultas e de matas virgens nos terrenos mais centrais da Paróquia de São Pedro do Itabapoana, considerados muito mais próprios para a lavoura cafeeira e já com muitas vias de comunicação abertas, a região da Serra das Torres permaneceu "abandonada" por muitos anos. Os novos fazendeiros, que afluíam para a margem norte do Itabapoana em busca de terras para plantar café, preferiam essas regiões centrais para estabelecerem suas fazendas e propriedades, mesmo que adquirindo nacos de outrem. A "fronteira agrícola" só atingiria as encostas e montanhas de Torres, ainda timidamente, na década de 1890, e em grande escala nas décadas de 1910 e 1920. Mas sua penetração não se daria vinda das baixadas do Itabapoana; os primeiros a abrirem fazendas nessa região o fizeram vindo pelo interior, transpondo as serras que separam os pequenos afluentes que alimentam os rios Muqui do Sul e do Norte, dos ribeirões formadores do rio Preto.


Gerson Moraes França


segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A Intervenção na COLAMISUL

Dependências e instalações da Cooperativa de Laticínios de Mimoso do Sul - década de 1960
Fonte da foto: site mimosoinfoco.com.br - acervo de Renato Pires Mofati

No último dia 19 de agosto foi celebrado o Dia do Historiador. E, como sempre ocorre nos dias atuais, vários de meus amigos e colegas postaram, no Facebook, alguma coisa congratulando os historiadores pela data. Eu também fiz uma publicação nesse sentido. Em quase todos os post's havia uma frase de algum historiador renomado. E dois deles me chamaram atenção, fazendo-me lembrar dos primeiros períodos do curso universitário, quando aprendemos os grandes teóricos em Teoria e Metodologia da História. Um era uma frase de Peter Burke, que compartilhei: "A função do historiador é lembrar a sociedade daquilo que ela quer esquecer". Outro era uma assertiva de Marc Bloch: "Decerto, mesmo que a história fosse julgada incapaz de outros serviços, restaria dizer, a seu favor, que ela entretém. (...) Pessoalmente, do mais remoto que me lembre, ela sempre me pareceu divertida".

Quando li a primeira frase acima colocada, lembrei-me de um fato na história de Mimoso do Sul que, atualmente, está quase esquecido. E, juntando a frase de Burke com a de Bloch, resolvi escrever um pequeno artigo no BLOG, buscando resgatar essa história esquecida e entreter-me com a narrativa. Espero que também sirva para entreter os leitores...


O DESPERTAR DA PECUÁRIA E A FUNDAÇÃO DA COLAMISUL

Município cuja pujança devia-se a lavoura cafeeira, Mimoso do Sul, "herdeiro" de São Pedro de Itabapoana é, ainda hoje, grande produtor da rubiácea. Até a década de 1940, o café reinava quase que absoluto em toda a região. A partir dessa época, porém, algumas regiões do Município, aonde o café não era muito produtivo, começaram a se converter em pastagens para um nascente rebanho bovino. Não que antes não houvesse pecuária nas terras da atual Mimoso do Sul; havia, mas era uma atividade secundária se comparada com o café; é nessa época que começam a "nascer" as primeiras propriedades que tinham a pecuária como atividade tão importante quanto a lavoura cafeeira. Entre 1940 e 1950, a área das pastagens em Mimoso aumentou de cerca de 26,6 mil hectares para cerca de 36 mil hectares, e o rebanho bovino cresceu de cerca de 12,2 mil cabeças para cerca de 22,5 mil cabeças.

Até essa época esse gado era, principalmente, utilizado para corte. A pecuária leiteira ainda caminhava lentamente, abastecia basicamente o mercado local e eram poucas as propriedades que comercializavam o leite. Não havia mercado para toda a produção leiteira, afora os problemas logísticos de transporte e de conservação. Para a maior parte dos produtores, era mais rentável usar o leite na engorda de porcos do que em sua comercialização. Mas o potencial estava ali, presente, a espera de uma infra-estrutura que possibilitasse o aproveitamento industrial da produção leiteira. Na década de 1950 iniciaram-se estudos e movimentos no sentido de se instalar uma usina de laticínios em Mimoso do Sul. E, no início de 1954, foi fundada a Cooperativa de Laticínios de Mimoso do Sul Ltda, a COLAMISUL.

Nesse início, ainda em 1954, a Cooperativa doou ao governo do Estado uma área de terreno de 2 mil metros quadrados para que ali fosse construída uma usina de laticínios. Essas instalações começaram a ser construídas, mas suas obras foram paralisadas pouco depois. A Cooperativa, então, adquiriu o terreno aonde veio a se estabelecer e construiu suas instalações, e em 1956 já estava quase finalizada a instalação de sua usina de laticínios. Em 1959 já produzia leite e seus derivados, e nesse ano iniciou em maior escala a sua exportação para o norte do Estado do Rio de Janeiro. Em 1961, praticamente toda a produção de leite de Mimoso do Sul era comercializada pela COLAMISUL com a Fábrica Glória, sediada em Itaperuna, que produzia leite em pó. Mimoso do Sul já era considerado, nessa época, como Município da região da bacia leiteira do sul do Espírito Santo.

Assim, a importância da produção de leite e da COLAMISUL para a economia de Mimoso do Sul foi crescendo substancialmente. A pecuária leiteira foi tomando maior espaço, embora o café continuasse sendo o principal produto do Município. Mas a lavoura cafeeira começou a passar por uma crise. A broca do café havia feito alguns estragos na década de 1940, e a produtividade dos cafeeiros mimosenses era muito baixa; mas os preços do produto compensavam as eventuais perdas. A partir de 1955, porém, os preços do café começaram a cair. Em 1962 atingiram um momento crítico, com os preços no menor nível. Em outubro desse ano começou a ser executada, então, a política cafeeira que objetivada diminuir a superprodução e extirpar os cafeeiros considerados anti-econômicos. Em sua primeira fase, a erradicação dos cafeeiros foi lenta, porém constante. De julho de 1962 a julho de 1966 foram erradicados quase 68 milhões de pés no Espírito Santo. Para servir de comparação, em sua segunda fase, mais dura, entre agosto de 1966 e março de 1967, foram erradicados mais de 230 milhões de pés. Em 1967 havia sido erradicados quase 54% dos cafezais do Estado, que ocupavam 71% da área total plantada com café.

A POLÍTICA E A COLAMISUL

Assim, foi nessa conjuntura de baixos preços do café, concomitante com o início do processo de erradicação dos cafezais pouco produtivos, juntamente com o aumento da pecuária leiteira e sua colocação certa nos mercados do norte do Estado do Rio de Janeiro, que a COLAMISUL passou por sua primeira crise política.

Após a redemocratização do país, em 1945, e em um processo que iniciou-se ainda em 1944 e durou até o início dos anos 1950, sedimentaram-se os grupos políticos que, abrigados nos partidos políticos então recentemente formados, iriam disputar o poder no Município. Em Mimoso do Sul, grosso modo, tornaram-se rivais duas correntes principais, com as demais gravitando em torno delas. Um desses grupos políticos abrigou-se no PTB; o outro, na UDN. O PSD, outro grande partido dessa época, gravitou inicialmente entre esses dois grupos, terminando por fim apoiando a UDN.

Em 1954, quando foi criada a Cooperativa, a maior parte de seus fundadores pertenciam à UDN ou ao PSD. Clarindo Lino da Silveira, o primeiro presidente da COLAMISUL e maior pecuarista do Município nas décadas de 1950 e 1960, era membro e Presidente de Honra da UDN e foi vereador por esse partido na Câmara Municipal. Clarindo Lino possuía em suas propriedades, agregadas na sua empresa Agropecuária Itabapoana, mais de 10% de todo o rebanho bovino do Município. Também era um grande produtor de café. Foi Clarindo Lino quem praticamente financiou a instalação da primeira usina de leite da COLAMISUL. O primeiro secretário geral da Cooperativa, o advogado Dr. Olympio José de Abreu, que foi quem confeccionou os Estatutos da COLAMISUL, era membro destacado da UDN e chegou a ser Prefeito municipal de 1959 à 1961. O primeiro Gerente, Lauro Lemos, dono da maior fazenda produtora de café do Município e proprietário então de um rebanho de 500 cabeças de gado que abastecia Mimoso de leite antes da instalação da Cooperativa, era membro do PSD e chegou a ser candidato a Prefeito pela coligação PSD/UDN. Podemos elencar ainda outros fundadores, como Alberto Baptista da Cunha, segundo presidente da COLAMISUL, industrial fornecedor de madeiras para a Leopoldina, também grande produtor de café e proprietário de um rebanho de 400 cabeças de gado, membro da UDN e vereador por esse partido. Também José Carlos Terra Lima, grande fazendeiro de café e dono de um rebanho de 700 cabeças de gado, membro destacado da UDN.

Esse grupo, portanto, controlava a direção da COLAMISUL e elegia sempre um de seus membros para a presidência da Cooperativa. O grupo político rival, que conforme dissemos mais acima abrigava-se no PTB, tinha como grande expoente Rubens Rangel, "herdeiro" político de Joaquim de Paiva Gonçalves, o "Gambôa", grande liderança política mimosense e falecido em 1944. Rubens Rangel teve uma carreira política meteórica e muito bem sucedida; foi, seguidamente, Vereador, Prefeito Municipal, secretário de Agricultura do Estado, Deputado Federal e Vice-Governador do Estado. Seu principal aliado dentro da Cooperativa era Bayardo Cysne, um dos fundadores da COLAMISUL e também do PTB, vereador por vários mandatos consecutivos e presidente da Câmara por muitos anos.

A DISPUTA PELO PODER NA COLAMISUL E
A INTERVENÇÃO ESTADUAL

No início de 1964 seria eleita a nova direção da COLAMISUL para suceder Clarindo Lino da Silveira, então exercendo seu segundo mandato como presidente da Cooperativa. O grupo majoritário da Cooperativa articulou o nome do Dr. José Olympio de Abreu para a presidência. Nessa ocasião, José Olympio já havia sido Prefeito Municipal e era adversário político de Rubens Rangel que, nessa época, era Vice-Governador e controlava a Secretaria de Agricultura do Estado cujo secretário, Virgílio Antunes, havia sido nomeado por sua indicação. Um grupo minoritário de associados, então, apoiados por Rubens Rangel e pelo Senador Eurico Rezende (que era da UDN, mas de uma corrente aliada ao Governador e ao Vice-governador), insurgiu-se contra a direção e passou a tumultuar o processo de realização da assembléia anual e das eleições para a diretoria da Cooperativa.

No dia 18 de fevereiro de 1964, data marcada para a reunião da assembléia geral anual e para a eleição da nova diretoria, o grupo minoritário reuniu um grande número de pessoas, muitas delas armadas. Iniciaram tumultos e arruaças, intimidando o grupo majoritário. A direção da Cooperativa pediu auxílio ao delegado de polícia e ao destacamento policial local, para que fosse garantida a realização da assembléia. Mas, ante ao clima de animosidade e considerando que havia pessoas armadas, o Delegado afirmou que seria impossível garantir sua realização. Ante ao risco que se expunham mais de uma centena de associados, os dirigentes da Cooperativa adiaram a eleição, atendendo ao pedido feito pelo próprio delegado de polícia.

Nova data foi marcada para o dia 26 de fevereiro. O grupo minoritário, novamente, buscou impedir a realização da assembléia, usando dos mesmos expedientes usados no dia 18. Mas, dessa vez, a direção tinha um "plano B": considerando a falta de garantias policiais, dirigiram-se os associados do grupo majoritário para Muqui, aonde devidamente garantidos realizaram a assembléia e as eleições. O Dr. Olympio José de Abreu foi eleito presidente, e tomou posse no dia 28 de fevereiro. Inconformados, e alegando irregularidades na realização da assembléia geral, o grupo minoritário solicitou, junto à Secretaria de Agricultura do Estado, a intervenção na Cooperativa.

No início de março, o Secretário de Estado da Agricultura, Virgílio Antunes, atendendo ao pedido do grupo minoritário e alegando irregularidades no processo de eleição da diretoria, decretou a intervenção na COLAMISUL. Sob a chefia do Tenente Petronilo Barbosa, designado interventor, a sede da Cooperativa teve suas portas arrombadas e suas dependências foram tomadas pelo grupo minoritário. Articulou-se, por parte desse grupo, a realização de uma nova assembléia geral ainda no mês de março. Imediatamente, a direção "derrubada" impetrou junto ao Tribunal de Justiça do Estado um Mandado de Segurança, pedindo liminarmente a suspensão da realização de novas assembleias, a manutenção da diretoria que havia sido eleita e a garantia contra a intervenção do governo do Estado. Também notificaram a Leite Glória, que comprava quase toda a produção de leite da COLAMISUL, para que não fizesse nenhum pagamento a quem não representasse, legitimamente, a Cooperativa.

A intervenção da Secretaria da Agricultura do Estado na Cooperativa era considerada ilegal pela direção eleita em fevereiro, pois as intervenções em tais sociedades eram de competência privativa do Ministério da Agricultura. As autoridades federais, inclusive, evocando essa questão, recomendaram ao Secretário Virgílio Antunes que anulasse o ato de intervenção. Mas, antes que o Secretário apreciasse a recomendação do Ministério da Agricultura, o Tribunal de Justiça concedeu a liminar, e a diretoria eleita pelo grupo majoritário retomou a direção da Cooperativa. Mas o clima continuava sendo de animosidade e de enfrentamento latente. Os grupos rivais trataram de, cada qual, usar de suas influências para manter ou tomar o controle da direção. Ao mesmo tempo, começava uma "batalha jurídica".

Essa situação de instabilidade começou a prejudicar o andamento das atribuições ordinárias da COLAMISUL. Os produtores de leite continuaram entregando seu produto na Cooperativa, e a mesma continuou enviando a produção leiteira para a Leite Glória. Mas os pagamentos, tanto da Leite Glória para a Cooperativa, quando desta aos produtores, se "bagunçaram" um pouco.

Em agosto de 1964, o Tribunal de Justiça do Estado se julgou incompetente para decidir o mérito do Mandado de Segurança impetrado pela diretoria eleita, por se tratar de matéria de alçada da autoridade federal do Ministério da Agricultura. Ato contínuo, extinguiu o processo e cassou a vigência da liminar anteriormente concedida. Já prevendo essa decisão, a diretoria da Cooperativa havia obtido, no dia 12 de agosto, a interferência do Ministério da Agricultura junto à Secretaria de Agricultura, a fim de que esta se abstivesse da intervenção. Ficou acordado o envio de funcionários federais para normalizar a situação. Mas tal acordo não foi cumprido pois a decisão judicial saiu antes: assim que foi publicada a decisão do Tribunal, no dia 17 de agosto foi retomada a intervenção da Secretaria na Cooperativa. Pela segunda vez, as portas foram arrombadas e as dependências foram tomadas, sob a direção do interventor, Tenente Petronilo Barbosa.

A INTERVENÇÃO FEDERAL NA COLAMISUL

A direção novamente "deposta" protestou junto ao Presidente da República, ao Ministro da Guerra, ao Comando da Guarnição Federal no Estado e até ao Conselho de Segurança Nacional. Alegaram que a "nova" intervenção havia sido executada para se impedir a ação do governo federal, que havia sido acordada no dia 12 de agosto. No final de agosto, o Diretor da Divisão de Cooperativismo do Ministério da Agricultura, Walter Inácio Vimi, iniciou um procedimento de investigação e começou a "tomar providências para que tenham fim as arbitrariedades cometidas contra o patrimônio da Cooperativa". E no dia 25 de agosto, "considerando as irregularidades verificadas na Cooperativa de Laticínios de Mimoso do Sul" e "considerando que resultaram inócuas as medidas até esta data tomadas por esta Divisão e pela Secretaria da Agricultura" do Estado, Walter Vimi emitiu uma Portaria determinando a intervenção na Cooperativa, pelo período de 60 dias, e designando interventor o Dr. Geraldo José de Carvalho.

Cabia ao interventor praticar todos os atos de rotina relativos à administração, bem como resguardar o patrimônio da Cooperativa e receber seus créditos; cabia também ao interventor negociar com os credores. Quando foi executada a intervenção do Ministério da Agricultura, a situação administrativa e financeira da Cooperativa, devido aos meses de instabilidade, estava caótica. Muitos compradores deviam, e muitos credores não recebiam. Era de suma importância retomar o andamento normal da instituição. Cabia também ao interventor reunir os associados para decidir se manteriam, ou liquidariam, a Cooperativa. Em caso de manter-se, e após normalizar a sua situação administrativa e financeira, caberia ao interventor convocar uma assembléia geral para apreciar seu relatório e eleger uma nova diretoria. Os 60 dias não foram suficientes para o interventor terminar sua "missão". Nova portaria datada de 10 de novembro de 1964 prorrogou a intervenção por mais 60 dias. Outras prorrogações foram lavradas. Foi somente em setembro de 1965 que tomou posse uma nova diretoria eleita. E, deste ano até o início de 1973, as três presidências eleitas que se sucederam foram exercidas por um aliado de Rubens Rangel. Importante lembrar que Rubens Rangel assumiu o cargo de governador do Estado após a licença e posterior renúncia do Governador Francisco Lacerda de Aguiar, o "Chiquinho". Exerceu o mandato de abril de 1966 a janeiro de 1967, e seu Secretário da Agricultura foi o correligionário Bayardo Cysne.

NORMALIZAÇÃO E DESENVOLVIMENTO

Embora algumas eleições posteriores da Cooperativa de Laticínios Mimoso do Sul Ltda tenham sido muito disputadas, a história ensinou que é melhor uma boa disputa eleitoral do que uma boa "briga de braço". Por questões políticas, por uma "simples e complexa" (paradoxal, não?) disputa de poder, a Cooperativa e seus associados tiveram prejuízos nada desprezíveis naquele ano de 1964. A situação se normalizou e, desde então, o processo eleitoral vem sendo, via de regra, respeitado. É melhor garantir uma boa convivência, aonde todos cedem um pouco, mas todos ganham muito. E ganham, também, o Município e a comunidade local. Naquele ano de 1964, a própria existência da COLAMISUL, ainda com apenas 10 anos de "idade", foi posta em risco. E é por isso que não podemos esquecer os acontecimentos do passado, mesmo que queiramos. Afinal, "um povo que não conhece sua história corre o risco de cometer os mesmos erros do passado", já reza o jargão.

Após todos esses fatos, a pecuária continuou seu processo de crescimento em Mimoso do Sul. Depois da erradicação dos cafezais improdutivos, e até que o Município retomasse sua produção cafeeira em novas e modernas bases mais produtivas, a pecuária de corte e leiteira foram um grande sustentáculo para minimizar os efeitos devastadores da erradicação dos cafezais. Entre 1960 e 1970, período que foi executada a extirpação das lavouras cafeeiras pouco produtivas, a área da lavoura permanente do Município caiu de 13,1 mil hectares para 5,7 mil hectares. Houve grande êxodo populacional, e a população de Mimoso do Sul que, em 1960, era de cerca de 33 mil habitantes, caiu para cerca de 24 mil habitantes em 1970. A área das pastagens aumentou de 36,4 mil hectares em 1960 para 56,3 mil hectares em 1970, e o número de cabeças de gado aumentou de cerca de 26 mil em 1960 para cerca de 41 mil em 1970. A produção de leite aumentou de 3,36 milhões de litros anuais em 1960, para 6,14 milhões de litros anuais em 1970.

Atualmente, segundo dados de 2013, o rebanho bovino de Mimoso do Sul alcança a marca de cerca de 60,9 mil cabeças, com cerca de 35 mil delas destinadas à produção leiteira, e produzindo anualmente quase 13 milhões de litros. A pecuária é uma das mais importantes atividades econômicas do Município, e a COLAMISUL, que no ano passado completou 60 anos de existência, segue sendo uma sólida e produtiva cooperativa de laticínios.


Pesquisa e texto:
Gerson Moraes França

sexta-feira, 3 de julho de 2015

A Capela de São Pedro de Alcântara - Parte 2



Continuemos o artigo que iniciamos na Parte Primeira, no que toca a data de construção da Capela de São Pedro de Alcântara, situada na atual vila de São Pedro do Itabapoana, município de Mimoso do Sul.

Antes, lembremos as duas teses hoje existentes sobre sua construção:
Grinalson Francisco Medina atesta o ano de 1855, informando até a data exata de sua inauguração: 19 de outubro. José Olympio de Abreu assevera o ano de 1869. Quem estaria correto?

Como estamos corrigindo alguns equívocos cometidos por Grinalson Medina na confecção de seu trabalho sobre a história de São Pedro do Itabapoana, iniciaremos analisando sua publicação.

Informa Medina, in verbis:
"Inaugurada a 19-10-1855, sob a invocação do glorioso S. Pedro de Alcântara (...). Prestaram-lhe relevantes serviços: José Estácio da Silveira, que deu a imagem padroeira e custeou todas as despesas em dinheiro; - Manoel Joaquim Pereira, que doou à igreja três alqueires de terreno; - Manoel Pereira Pedrosa, que dirigiu todo o serviço de carpintaria (...). Benzeu a capela em apreço, o padre Francisco Alves de Carvalho, vigário da Freguesia de Limeira do Itabapoana."

Sobre Manoel Joaquim Pereira, já falamos um pouco na parte primeira do presente artigo. Figura nebulosa, que fez sua única aparição na história local quando da doação das terras para o patrimônio da futura Capela. Depois disso "desapareceu", e tudo indica que não residia em São Pedro já na década de 1860. Essa personagem, inclusive, foi deixada de lado pelos principais pesquisadores da história de São Pedro e de Mimoso, já no final da década de 1940. Em 1951, o nosso principal memorialista, o advogado e jornalista Dr. Olympio de Abreu (filho de José Olympio), que apesar de não ter formação acadêmica na área de História, foi o primeiro que tratou criticamente da história local como um verdadeiro historiador, já não citava mais a figura de Manoel Joaquim Pereira. Inclusive, dava a primazia da fundação da Capela e do arraial à José Estácio da Silveira, figura citada por Grinalson Medina como tendo sido o que financiou a construção da Capela de São Pedro de Alcântara.

O advogado Pedro O'Reilly de Souza foi dos primeiros que também abandonaram a figura de Manoel Joaquim Pereira quando trata da fundação da Capela e do arraial de São Pedro de Alcântara. Apesar de não ter publicado trabalho, advogava que o responsável pela construção e fundação havia sido José Estácio da Silveira, do qual, inclusive, era neto. Um outro descendente de José Estácio, em trabalho publicado no ano de 1968, asseverou: "Foi ali (...) que José Estácio da Silveira - tetravô de quem escreve (...) - assentou as estacadas da cidade que ia servir de berço a tantos filhos ilustres. E o arraial se converteu em povoado; o povoado em vila; a vila em cidade."

Todos os pesquisadores da história de São Pedro do Itabapoana eram unânimes quando citavam José Estácio da Silveira como o construtor da Capela e, via reflexa, fundador do arraial; inclusive Grinalson Medina, tacitamente. E aí surge o primeiro indicativo de que a Capela não teria sido construída em 1855, como reza Medina. Isso porque José Estácio da Silveira, nesse ano, ainda residia na Freguesia de Tinguá, em Vassouras, no vale do Paraíba fluminense, apesar de já ter comprado posses na região do Itabapoana. Não parece ser verossímil a informação de Medina, portanto, pois o financiador da construção da Capela ainda não estava presente em São Pedro de Itabapoana.

Outro fato que desabona o ano de 1855 é a informação de Medina de que o padre Francisco Alves de Carvalho, vigário da Freguesia de Limeira do Itabapoana, teria benzido a Capela quando foi concluída. Essa informação parece ser correta: de fato, tudo indica que o padre Francisco foi quem a benzeu. O "problema" aparece quando fazemos um apanhado sobre a vida do referido padre, e sobre a história da Freguesia de São Pedro de Itabapoana, cuja primeira sede foi a "porção" espírito-santense do povoado de Limeira de Itabapoana.

O Padre Francisco Alves de Carvalho era português, e nasceu no ano de 1828. Há registros de sua presença na região de Campos, norte do Rio de Janeiro, durante o final da década de 1850 e início da década de 1860. Estaria presente na região no ano de 1855? Não sabemos. Mas, mesmo que estivesse, estaria fora de sua alçada benzer uma Capela que se situava fora da jurisdição da Freguesia de São Sebastião dos Campos dos Goytacazes. Primeiro, porque não era Vigário em Campos; segundo, porque a jurisdição para benzer uma Capela no sertão do sul do Espírito Santo, nesse ano, era do vigário de Itapemirim.

A Freguesia de São Pedro de Itabapoana foi criada pela Lei Provincial n.º 04, de 26 de novembro de 1863. Sua sede era o povoado de São Pedro, nas margens do rio Itabapoana, que nada mais era do que a "porção espírito-santense" do povoado de Limeira, este um núcleo situado no lado fluminense do rio. Tanto que, vulgarmente, a população chamava esse núcleo, na margem norte, de Limeira ou de São Pedro da Limeira. É importante salientar isso, para que não se confunda essa São Pedro da Limeira, nas margens do Itabapoana, com o arraial de São Pedro de Alcântara, que atualmente é a vila chamada São Pedro do Itabapoana, distrito de Mimoso do Sul. Em São Pedro da Limeira havia uma Capela, construída em terreno desapropriado com recursos da Província e concluída com recursos públicos e privados em 1860, que foi erigida em Igreja matriz quando da criação da Freguesia de São Pedro de Itabapoana. Essa, inclusive, foi a primeira Capela construída no que futuramente seria a Freguesia. Como poderia, portanto, a Capela de São Pedro de Alcântara ter sido construída antes de 1860?

Há registro de uma viagem feita pelo padre Francisco Alves de Carvalho, que no início de janeiro de 1863 saiu do Rio de Janeiro e visitou a região que seria desmembrada da Freguesia de São Pedro de Cachoeiro de Itapemirim e se tornaria a Freguesia de São Pedro de Itabapoana. Tudo leva a crer que o padre Francisco tenha sido o que elaborou o "relatório" que fundamentou a criação da Freguesia. O padre ficaria na região do Itabapoana por um ano, até janeiro de 1864, quando retornou para o Rio de Janeiro, então Côrte e capital do Império. A Freguesia foi criada, como dissemos, no final de novembro de 1863. Em 12 de maio de 1864, o padre Francisco foi provisionado como vigário encomendado da recém criada Freguesia. Assim, é inverossímil que o padre Francisco Alves de Carvalho tenha benzido uma Capela no Espírito Santo, antes dessa data. E isso também se fundamenta com as próprias informações de Grinalson Medina, que registra que o padre Francisco já era vigário de São Pedro de Limeira quando benzeu a Capela de São Pedro de Alcântara. Mais uma vez, Medina acerta no fato, mas se equivoca na data.

Mas de onde, então, teria tirado Grinalson Medina a informação de que a Capela de São Pedro de Alcântara teria sido fundada no ano de 1855, e mais especificamente na data de 19 de outubro? Acredito que Medina tenha se fundado um uma Lei Provincial, datada de 1855, que determinava a desapropriação de uma área de terras, nas proximidades da barra do rio Muqui do Sul, para a construção de uma Capela que servisse à população das vertentes espírito-santenses do Rio Itabapoana. Medina, então, confundiu ou interpretou equivocadamente a informação, e asseverou o ano de 1855 para a construção da Capela. Quanto à data de 19 de outubro, a explicação é bem mais simples: o santo do dia é São Pedro de Alcântara... Inclusive, Medina usaria a mesma data para referenciar a inauguração da futura Igreja, quando foi reformada, em 1879.

Em virtude dos argumentos acima, é praticamente impossível que a Capela de São Pedro de Alcântara tenha sido construída em 1855, como escreveu Grinalson Medina. Quando, então, teria sido construída? Certamente, depois de 1864. José Olympio de Abreu, como já informamos, advoga o ano de 1869. E, interessantemente, há no próprio livro de Grinalson uma informação que parece corroborar a data que José Olympio adota. São uns versos, encontrados depois de 1879, após a conclusão da reforma da Capela, e que graças à Grinalson foram preservados para a posteridade.

Assim diz Medina, à página 18 de seu livro:
"Posteriormente à inauguração [da reforma] e na revisão de certos objetos, foram encontrados dentro de um livro bastante estragado os seguintes versos, datados de S. Pedro de Alcântara, 1869, com letras muito apagadas:

"Uma capela no alto da serra,
Toda pintada de cal,
Quanta saudade encerra,
Nos festejos de Natal.
Uma capela no alto da serra,
Que S. Pedro de Alcântara criou,
Traz-me saudade da terra,
Do povo que me adorou." "

Medina informa que esses versos foram escritos pelo vigário da Freguesia, sem citar o autor por não haver assinatura e por desconhecer quem era o vigário à época. Observem os leitores que a data, 1869, é a mesma data que José Olympio informa como a de conclusão da construção da Capela de São Pedro de Alcântara. E, nos versos, é possível retirar a informação de que a Capela havia sido recentemente pintada (toda pintada de cal), o que nos faz presumir, embora sem podermos concluir, que era de recente construção. Essa data é, também, a mais antiga referência documentada de que já estava construída a Capela.

Outro elemento importante, que também nos leva a crer que a Capela de São Pedro de Alcântara teria sido concluída em 1869, como assevera José Olympio de Abreu, é uma Lei Provincial datada de 12 de dezembro de 1868. Essa Lei transferiu a sede civil da Freguesia de São Pedro de Itabapoana, retirando-a do povoado de São Pedro da Limeira, e levando-a para o arraial de Nossa Senhora da Conceição do Muqui, cuja Capela foi oferecida pelos seus fundadores para servir de Igreja matriz. Nessa data, só havia três templos construídos em toda a Freguesia de São Pedro de Itabapoana: a Igreja matriz de São Pedro da Limeira, a Capela de São José do Calçado e a Capela de Nossa Senhora da Conceição do Muqui. Não é citada a existência de uma Capela no arraial de São Pedro de Alcântara, nos anos de 1867 e 1868. Assim, a data referenciada por José Olympio de Abreu, certamente, é a correta no que toca a construção da Capela de São Pedro de Alcântara, embora esse pesquisador não tenha citado a fonte que serviu de fundamento para a sua conclusão.

Por fim, e considerando que Grinalson Medina errou em algumas datas, mas normalmente acertou no que toca aos fatos, precisamos saber: estariam o padre Francisco Alves de Carvalho, que benzeu a Capela, e o fazendeiro José Estácio da Silveira, que financiou a construção, em São Pedro no ano de 1869? E a resposta é sim. O padre Francisco foi vigário encomendado da Freguesia até o ano de 1870, quando foi substituído e retornou ao Rio de Janeiro. E José Estácio da Silveira, já morador nas proximidades de São Pedro de Alcântara desde antes de 1865, faleceu entre 1873 e 1875.

É importante informar também que, embora tenha sido transferida a sede civil da Freguesia para Conceição do Muqui por uma Lei da Assembléia Provincial no ano de 1868, essa Lei não foi aprovada na parte eclesiástica pelo Bispado do Rio de Janeiro. Todos os vigários da Freguesia de São Pedro de Itabapoana continuaram residindo, oficialmente, no povoado de São Pedro da Limeira, até o ano de 1885. Desse modo, como assevera Grinalson Medina, o padre Francisco Alves de Carvalho residia em Limeira no ano de 1869, assim como todos os seus sucessores até a data acima citada. Mesmo quando a sede da Freguesia foi transferida de Conceição do Muqui para São Pedro de Alcântara, em 1880, e a Capela de São Pedro de Alcântara foi erigida em Igreja matriz, essa determinação eclesiástica continuou vigente. Somente quando foi provido como vigário o padre Horacio Vieira Teixeira, no ano de 1885 (e não em 1880, como cita Grinalson Medina), é que as sedes eclesiástica e a civil foram "reunidas" novamente.

Concluindo: a Capela de São Pedro de Alcântara, atualmente situada na vila de São Pedro do Itabapoana, distrito do município de Mimoso do Sul, ao contrário do que afirma Grinalson Francisco Medina, não foi construída em 1855. A data correta de sua construção é o ano de 1869, como atesta José Olympio de Abreu e como demonstramos com fatos, argumentos e fontes. Seu fundador e financiador foi o fazendeiro José Estácio da Silveira, e seu construtor foi Manoel Pereira Pedrosa, o primeiro comerciante e um dos primeiros habitantes do arraial de São Pedro. Quanto a Manoel Joaquim Pereira, tudo indica que tenha sido um simples "tirador de posse", chegado à região por volta de 1849/1852, e que tenha vendido essa posse pouco depois, provavelmente para José Estácio da Silveira ou para algum membro da família Pereira Pedrosa. Mas essa última informação é apenas presunção, e carece de fontes e de maior pesquisa.

À propósito, um adendo: os versos escritos no ano de 1869, que segundo Medina foram lavrados pelo vigário da Freguesia, provavelmente foram feitos pelo padre Francisco Alves de Carvalho, que era o vigário nessa ocasião e que benzeu a Capela neste mesmo ano.

Gerson Moraes França

A Capela de São Pedro de Alcântara - Parte 1



A história se constrói com documentos, primários ou não, com pesquisas arqueológicas, antropológicas, com prospecção de memórias e de história oral, dentre outros modos que se somam, observada sempre a crítica das fontes. Nos tempos atuais, com o compartilhamento mundial de informações na internet, o acesso a uma série de documentos que, antes, seriam difíceis de serem manuseados ou mesmo de serem encontrados pelo pesquisador, se tornaram cada vez mais palpáveis. Atualmente, o pesquisador e o historiador tem a chance de "corrigir" erros, equívocos ou omissões cometidos por pesquisadores do passado. Alguns desses historiadores ou memorialistas de outrora, talvez justamente por não terem acesso à bagagem documental que hoje podemos manusear, acabaram cometendo alguns desses erros.

Esses erros, importante salientar, na maior parte das vezes, não foram cometidos de má-fé. Muitos, buscando preencher lacunas, ou dar "ordem ao caos", acabaram "criando fatos". Por vezes, interpretações errôneas também contribuem para sedimentar alguns equívocos. Nesse sentido, busco nesse artigo corrigir alguns pequenos erros cometidos em relação à história do antigo município de São Pedro do Itabapoana. O foco do presente artigo é a correção das informações sobre a construção da primeira Capela do então arraial de São Pedro de Alcântara, atualmente vila e distrito de Mimoso do Sul com o nome de São Pedro do Itabapoana. Ato contínuo, acabo também discorrendo um pouco sobre os primórdios desse arraial e sobre algumas personalidades que fizeram parte desse "início".

Todos os pesquisadores, memorialistas e historiadores, ao escreverem, correm o risco de cometerem erros. Afinal, já reza o jargão que "errar é humano". A construção da história é um processo contínuo. Corrigir erros de um escritor anterior não é, de forma alguma, uma forma de desqualificar seu trabalho. Ao contrário. Acredito que a aspiração de todo historiador é, justamente, conseguir chegar o mais próximo possível dos fatos antigos tais como realmente ocorreram. Assim, ao "corrigir" alguns equívocos, estamos contribuindo para a soma dos esforços de desanuviar as brumas que cobrem partes da história. Nada impede, também, que no futuro algum outro escritor nos corrija, uma vez que tenha acesso a documentos primários inéditos. Na minha opinião, essa é uma das "belezas" da pesquisa histórica.


Atualmente, a principal fonte sobre a história de São Pedro do Itabapoana é o livro de Grinalson Francisco Medina, cujo título é "História do antigo município de São Pedro do Itabapoana, Estado do Espírito Santo - páginas de nossa terra.", publicado em 1961 pela editora Viper Artes Gráficas, do Rio de Janeiro. O livro foi montado e escrito durante a década de 1930. É um trabalho de compilação de dados e de fontes, reportagens de jornais e estatísticas, dentre outras informações garimpadas pelo seu autor. Não é um trabalho crítico; foi escrito como uma sucessão de fatos colhidos e selecionados por Medina. Mesmo assim, é um trabalho grandioso que cumpriu sua função e, graças a ele, temos um rico inventário de fontes sobre a antiga São Pedro do Itabapoana.

Quando Grinalson Medina escreve sobre os primórdios de São Pedro do Itabapoana, porém, comete uma série de equívocos. A principal fonte usada por Medina para escrever sobre os tempos mais recuados foi o Dicionário Histórico sobre o Espírito Santo, de autoria de Cezar Marques, publicado em 1879. Talvez tentando "encaixar" fatos históricos antigos que tenha ouvido de pessoas mais velhas, Medina acaba criando fatos inexistentes; e na busca de dar "ordem ao caos", acaba metodizando certas passagens antigas de modo precário e temerário, sem fontes que as fundamentam.

Assim, Medina "criou" uma aldeia indígena que nunca existiu, chamada de Aldeia de São Pedro Apóstolo, que ficaria nas proximidades do antigo povoado de Limeira, próximo da antiga cachoeira do Inferno (também chamada "das Garças"). Não há documento algum que comprova a existência dessa aldeia. Ao contrário: quando os primeiros exploradores de madeira (re)atingiram as primeiras cachoeiras do Itabapoana, na década de 1830, encontraram a região completamente desabitada, a não ser pela aparição pouco frequente de pequenos grupos de índios puris que viviam nos sertões do então chamado, oficialmente, Rio Camapuan. Medina, provavelmente, confundiu um aldeamento de índios puris fundado na década de 1820, que existiu sob o nome de São Pedro do Aldeamento e que ficava onde hoje está São Pedro Rattes, em Guaçuí, também na bacia do Itabapoana. Essa é a única explicação plausível que encontrei para a confusão de Grinalson Medina no que toca a essa matéria.

Medina, também, acabou criando confusão ao tentar "dar ordem ao caos" em relação aos grupos indígenas existentes em São Pedro do Itabapoana, quando de sua ocupação pelos primeiros posseiros. Citou, por exemplo, os goitacazes, que já não existiam e nem eram citados a mais de 150 anos. "Criou" três tribos, que tinham como "bases" as bacias dos principais rios da região (Muqui do Sul, São Pedro e Barra Alegre), elencando seus respectivos "chefes". Foi infeliz até da "tradução" dos nomes Itabapoana e Muqui, levantando hipóteses totalmente desprovidas de fundamento linguístico.

Mas, a despeito desses equívocos, o trabalho de Grinalson Medina é importantíssima fonte para a história de São Pedro de Itabapoana e de Mimoso do Sul, bem como de todo o médio Itabapoana. É admirável a capacidade do autor de coligir dados, inclusive relatos colhidos em pesquisas de história oral. Basta analisar o texto com a devida crítica histórica para se verificar que Medina, grosso modo, foi um grande pesquisador e que, graças a ele, muitos dados que hoje estariam totalmente perdidos foram preservados. Grande parte dos erros sobre os primeiros fatos ocorridos na época da entrada dos primeiros posseiros dizem respeito a datas. Mas os fatos, via de regra, são corretos. E essa contribuição de Medina é inestimável para nortear o pesquisador atual.

Por exemplo, a história do "primeiro posseiro da nossa zona". Essa história foi colhida por Grinalson junto aos seus parentes mais velhos, bem como junto à família desse primeiro posseiro. Os Medina, importante informar, foram das primeiras famílias que migraram de Minas Gerais e se estabeleceram naquelas matas do sul do Espírito Santo. Foi um seu tio-avô, chamado de Martinho Francisco Medina, por exemplo, que abriu uma das primeiras fazendas nas margens do Itabapoana acima das primeiras cachoeiras, e que foi o primeiro comerciante do que mais tarde se transformaria no povoado de Limeira do Itabapoana. Foi graças ao esforço dos Medina, e de mais dois outros fazendeiros, que se tornou franca a navegação desde a Barra do Itabapoana até Limeira. Até então, o "transbordo" das mercadorias na região era feito por precárias estradas, que mais se pareciam picadas e trilhas, que iam até Campos, no norte do Rio de Janeiro.

Encontrei, em minhas pesquisas, alguns documentos que corroboram a assertiva de que foi Francisco José Lopes da Rocha o primeiro posseiro das cabeceiras do ribeirão São Pedro e de partes médias do rio Muqui do Sul, tal como asseverou Grinalson Medina. Essa "situação" era chamada de "Posse do Lopes". Medina, porém, errou na data. Não foi em 1837 que Lopes da Rocha posseou na região. "Descobri" é que sua posse é posterior a 1843, e anterior a 1846. E, assim como tentei "decifrar" a confusão sobre a Aldeia de São Pedro, também tentei entender o porquê do equívoco em relação à data. Tenho a minha tese: foi em 1837 que foi organizada a primeira "expedição" de mineiros que desceram o Rio Preto (nome que os mineiros davam ao Itabapoana em suas cabeceiras) e que exploraram o rio até as suas últimas cachoeiras. Lopes da Rocha teria participado dessa expedição? Resposta que não podemos dar, ao menos com os documentos que dispomos atualmente. Mas a coincidência das datas é indício de que Medina usou a data dessa primeira expedição, equivocadamente, para temporalizar a chegada do primeiro posseiro.

Importante dizer, também, quanto aos primeiros posseiros: antes de Lopes da Rocha, já existiam alguns posseiros nas regiões que hoje fazem parte dos municípios de São José do Calçado, Bom Jesus do Norte e Apiacá. Assim, Lopes da Rocha teria sido o primeiro posseiro a "subir" a então chamada de "Serra dos Puris", divisor de águas entre os ribeirões São Pedro/Muqui do Sul e os de Boa Vista/Barra Alegre. Essa região foi a que nucleou a formação do que, posteriormente, se transformaria no município de São Pedro do Itabapoana. Também é importante dizer que já existiam posseiros em regiões que, hoje, fazem parte do município de Mimoso do Sul. Estavam situados em regiões que hoje pertencem ao distrito de São José das Torres, nas imediações da barra do Rio Preto e margens do Itabapoana, perto da divisa com o atual município de Presidente Kennedy.

Uma figura ainda nebulosa na história de São Pedro do Itabapoana é a de Manoel Joaquim Pereira, tido como o homem que doou três alqueires de terreno para o patrimônio de São Pedro de Alcântara, onde alguns anos mais tarde surgiria o primitivo arraial e atual vila de São Pedro do Itabapoana. Esse homem é citado por Grinalson Medina, bem como por outro importante pesquisador da história da região: José Olympio de Abreu (pai do futuro prefeito de Mimoso do Sul, Dr. Olympio de Abreu). Medina não informa data, nem da chegada de Manoel Joaquim (informando, contudo, que foi antes de 1850), nem da doação das terras para o patrimônio; informa, porém, a data da construção da Capela: 19 de outubro de 1855. José Olympio, em trabalho publicado em 1936, informa que Manoel Joaquim Pereira teria sido o primeiro a tomar posse na região da atual vila de São Pedro, e informa a data de 1852 como a da doação para o patrimônio, "marco" inicial do arraial; informa também a data de construção da Capela: 1869.

Trabalhos posteriores, de historiadores regionais, acabaram "mesclando" essas informações, e construindo a versão que atualmente é aceita. Na década de 1940, sedimentou-se a versão da data de doação do patrimônio por Manoel Joaquim Pereira, tese de José Olympio: 1852, embora Grinalson Medina não corroborasse essa data. Na década de 1960, somou-se essa informação da doação do patrimônio com a da construção da Capela, tese de Grinalson Medina: 1855.

Nem Grinalson Medina, nem José Olympio de Abreu, conseguiram mais informações sobre Manoel Joaquim Pereira. Não conseguiram dados sobre sua procedência, sua descendência, suas relações parentais, suas atividades, nada. Esse homem simplesmente "sumiu" da história, e sua única aparição se dá na doação desse patrimônio. Eu, assim como eles, nunca consegui encontrar documentos sobre este que teria sido um dos primeiros posseiros de São Pedro do Itabapoana. É como se nunca tivesse existido, a não ser para fazer essa doação. Teria sido apenas um "tirador de posse", figura comum na época, que abria a posse e a vendia logo depois? Fato concreto, e que posso afirmar com minhas pesquisas, é que quando o arraial foi surgindo, na década de 1860, Manoel Joaquim Pereira não se encontrava mais em São Pedro.

Mas, afinal, quem estaria correto? Quando teria sido construída a Capela de São Pedro de Alcântara? Teria sido em 1855, como atesta Grinalson? Ou em 1869, como informa Olympio? A minha resposta segue na PARTE 2.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

O Palacete do Barão de Itapemirim

Palacete do Barão de Itapemirim. Detalhe da foto de Victor Frond, 1860.
Acervo Brasiliana Fotográfica - Biblioteca Nacional / Recorte feito por Gerson França

Por esses dias atrás a Biblioteca Nacional, no acervo de fotos chamado de "Brasiliana Fotográfica", disponibilizou toda a sua coleção para visualização em alta definição. É claro que, assim que eu tomei conhecimento dessa notícia, corri ao site da BN para "fuçar" as fotos antigas das localidades do Espírito Santo que lá estão. É, sem dúvida, uma maravilha! Detalhes que, antes, não podiam ser vistos nas fotos, apareceram com uma beleza difícil de descrever.

Uma dessas fotos é a que retrata o palacete que pertenceu ao Barão de Itapemirim. Ao fazer a aproximação em alta definição, fiquei estasiado! Era, simplesmente, linda! Fiz, então, um print, recortei a parte que eu queria no paint, e a publiquei no grupo de facebook "Fotos Antigas do Espírito Santo". Logo vários estudiosos e pesquisadores teceram seus comentários, o que enriqueceu substancialmente a "conversa cibernética".

A "história" dessa foto é interessante. Era uma foto já conhecida, mas que ninguém sabia de onde era. Coube ao pesquisador Cilmar Franceschetto, do Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, identificar a fotografia, redescobrindo uma foto que a memória deixava para trás, esvaída com o passar dos tempos. Tal edificação, há muitos anos, já havia ruído. Ficava próxima à antiga foz do Rio Muqui, no Itapemirim, erguida sobre uma pequena colina que domina a região.

O pesquisador, jornalista e advogado Higner Mansur, também estudioso da história do palacete, fez então uma reportagem para a Revista SE7EDIAS, com a foto e a descrição que sete pessoas, através dos tempos, fizeram sobre aquela majestosa edificação. Quem quiser ler, pode fazê-lo clicando nesse LINK. Ato contínuo, encontrei um trabalho audiovisual, contando um pouco sobre a história do Palacete. Ali conheci o pesquisador e historiador Luciano Retore Moreno, profundo conhecedor da história da edificação e do Barão de Itapemirim. Moreno, inclusive, junto com Gustavo Mezher, fez várias escavações no local, e recuperou uma quantidade espantosa de objetos antigos que estavam enterrados sob as ruínas do que sobrou da antiga construção. Quem quiser assistir o documentário, é só clicar nesse LINK.

Quando vi a publicação de Mansur na revista SE7EDIAS, lembrei-me que havia encontrado, há alguns meses atrás, algumas descrições antigas que tratavam da fazenda e/ou do palacete do Barão de Itapemirim. Algumas delas estão na reportagem publicada por Mansur. Outras duas, que não estão na reportagem, aqui colocarei, buscando contribuir um pouco com as pesquisas históricas da edificação, e com o resgate de sua memória. Interessantemente, essas duas descrições foram feitas em períodos "extremos" da história do palacete. A primeira é datada de 1833, quando o palacete era de recente construção, embora não possamos afirmar se já existiam os torreões. A segunda é uma descrição detalhada, datada de 1887, quando o palacete ainda existia, mas envelhecia-se e quedava sem cuidados, começando a arruinar-se.

Abaixo seguem as duas descrições.


PRIMEIRA DESCRIÇÃO - 1833
Manoel José Pires da Silva Pontes

Manoel José Pires da Silva Pontes foi Presidente da Província do Espírito Santo entre 1833 e 1835. Quando nomeado, resolveu ir até Vitória em viagem por terra. Saiu de Ouro Preto/MG, passando pelo Rio Pomba, por Campos dos Goytacazes e depois, seguindo pelo litoral, sempre por terra, foi até Benevente (atual Anchieta/ES), de onde embarcou por mar para a capital da Província. Os apontamentos que fez durante sua viagem é um documento ainda pouco conhecido no Estado do Espírito Santo. Segue o trecho sobre o Barão de Itapemirim que, na época, ainda não era Barão. A propósito, o nome do futuro Nobre era Joaquim Marcellino da Silva Lima.

"(...) 1/2 leg. adiante tive a satisfação de encontrar-me com o Sr Joaquim Marcelino, que anda mal convalescido de um ataque rheumatico adquirido na estrada do Castello, (...) veio contudo esperar-me e conduzir-me para sua Fazenda do Moqui. Chegamos pouco depois a Villa, apeiando-nos em casa do Sr Vigário onde nos refrescamos; O Sr Joaquim Marcelino insistiu, que posto que, tivesse eu marchado mais de 6 leg, todavia podia avançar mais um pouco e pernoitar com elle em sua fazenda e habilitando-me para esse ofício com excelente cavalgadura, pude chegar com dia a dita fazenda da Boavista na Barra do Moqui. A bellesa do Sítio; a nobresa da casa; a extensão do terreno e das plantações: a perfeição da Fabrica; o numero de escravos e gados que se empregão nesta Fazenda assentão bem a magnamidade deste honrado Paulista. Esta casa é o centro da união de muitos Senhores de família, que estão também estabelecidos nas margens deste bello Rio (...)."

Dessa descrição, não podemos afirmar que o palacete já tinha sido totalmente construído. Mas, havendo ou não os torreões, o Presidente nomeado do Espírito Sando ficou maravilhado com a edificação. Importante lembrar que a Capela de Santo Antônio, colada ao palacete, foi edificada dois anos antes, em 1831. A citação do nome "Boavista" deve-se a fazenda que ficava em frente, do outro lado do rio, mais antiga que a Fazenda do Muqui, de propriedade de um dos senhores que receberam Silva Pontes na Vila de Itapemirim.


SEGUNDA DESCRIÇÃO - 1886 e 1887
Dom Pedro Maria de Lacerda

Dom Pedro Maria de Lacerda era Bispo do Rio de Janeiro. Fez algumas visitas ao Espírito Santo. Nos anos de 1886 e 1887 esteve no sul da Província do Espírito Santo, onde fez seus apontamentos. Esses documentos foram publicados em livro no ano de 2012, com o título de "Diário das Visitas Pastorais de 1880 e 1886 à Província do Espírito Santo", com organização de Maria Clara Medeiros Santos Neves. No caso, são duas descrições: uma de 1886, e outra do ano seguinte. Seguem abaixo.

1886 - "(...) Mais para cima desta está a Fazenda do Muqui com sua Capelinha ao lado; foi pertencente ao Barão de Itapemirim, e hoje está muito decadente na mesma parte material. Fica em um alto e se avista de muitos pontos ao longe. O ponto de vista tomado acima das Fazendas da Lancha e Cutia me pareceu esplêndido, encantador e belíssimo. Sobre um pequeno monte vê-se a casa que é grande e comprida e de muitas janelas, com dois lances que figuram dois torreões nas duas extremidades, e fazem lembrar o Palácio de S. Cristóvão. Quando o Imperador aqui veio não foi a esta Fazenda, unicamente por não se mostrar mais inclinado ao Barão do que a outro figurão da Política, apesar do Barão ser da Casa Imperial e ter certa intimidade com Sua Majestade Imperial, assim ouvi. A beleza porém da paisagem de que trato provém da situação e das combinações óticas. O palacete parece ainda perfeito, aparece no alto de um outeiro, que domina um vasto horizonte, e no fim deste se avista, como em semicírculo, de um lado os montes ou serras que correm para o lado do Rio Novo, e de outro as serras em que aparecem o pico de Itabira, os morros ou cumes chamados Frade e Freira. Para mim a paisagem pareceu-me encantadora. Ao passar perto vê-se que o edifício já começa a arruinar-se e está quase abandonado, e ali no sopé do monte ou outeiro deságua o rio Muqui que é pequeno (...)."

1887 - "(...) Tive ocasião de ver o Palacete, que tem 20 janelas de sacada de ferro, e dois torreões nas extremida[de]s com 4 janelas cada um, o que perfaz 28 janelas na frente: por causa destes torreões a casa dá vista de longe alguns ares com o Palácio Imperial de S. Cristóvão. A casa é comprida, mas de pouca largura. Sobe-se por uma alta escadaria para um terraço assoalhado de louça. Tudo está estragado e tudo virá abaixo se não acudirem; mas quem acudirá? Há bastantes herdeiros, e o caso é complicado. O dono é filho de Joaquim Marcelino que não há muito morreu de repente na Vitória, onde era Deputado Provincial; e é neto do tão falado Barão de Itapemirim: Sic transit gloria mundi. Vi a Capelinha ao lado do Palacete e dele separado: tem sua torre com sino, coro, tribunas, púlpito, Capela-mor. Não é feia, e tem seus frisos dourados em várias obras, mas tudo coberto de pó e completo abandono, e já começa a arruinar-se. No altar-mor estão 3 nichos, no do meio S. Antônio, no do lado do Evangelho São Francisco Xavier, e no oposto S. Benedito preto. Na Sacristia vi Missal, turíbulo e naveta, e cálice tudo de prata, e duas caixas de folha de Flandres enferrujadas, onde estão caveira e ossadas; mas de quem? Não me lembrei de perguntar, mas parece-me que são do Barão que aí foi sepultado, e talvez da Baronesa. Sic transit gloria mundi. (...) O dono da casa ou quem dela toma conta convidou-me a subir e a tomar café, o que aceitei. Dentro tudo indica decadência. (...) Do alto do terraço a vista se alonga por vasto horizonte, até as serras que se estendem ao longe. O dia estava claro, porém o céu um pouco anuviado... certo é que pela estrada não encontrei tanta beleza como quando subi o Itapemirim vindo para o Cachoeiro (...)."

Dessas descrições fica patente que o palacete estava em seu período decadente. Segundo o Bispo, tanto o palacete, quando a Capela, haviam começado a arruinar-se. Abaixo, segue uma foto de década de 1920, do acervo de Luciano Moreno, onde observa-se o palacete já arruinado, bem como o que ainda restava da Capela de Santo Antônio, então com somente uma torre de pé.
[EDIT: Pelo texto, fica parecendo que a Capela tinha mais de uma torre. Lendo novamente, fiquei com a mesma impressão que teve o leitor Rogério Piva. Fica aqui a afirmativa: a Capela tinha somente uma torre]

Ruínas do Palacete do Barão de Itapemirim e da Capela de Santo Antônio
Década de 1920 - Acervo de Luciano Retore Moreno


Hoje restam apenas poucas ruínas das edificações. Com esse artigo espero ter contribuído, um pouco, com o resgate da história e da memória dessa que foi a sede de uma importante fazenda de cana-de-açúcar da primeira metade do século XIX no Espírito Santo. A Fazenda Santo Antônio do Muqui, de Joaquim Marcellino da Silva Lima, Barão de Itapemirim, um dos homens mais opulentos, se não o mais rico de seu tempo, na então Província.

Gerson Moraes França