segunda-feira, 1 de julho de 2024

Joaquim Marcelino da Silva Lima, o Barão de Itapemirim: Registros para uma Biografia.

REGISTROS PARA UMA BIOGRAFIA
> BARÃO DE ITAPEMIRIM

O presente artigo é objetivo. Aqui colocamos dados sobre a vida de Joaquim Marcellino da Silva Lima, o Barão de Itapemirim. Em nossas pesquisas conseguimos clarear vários dados e fatos da vida do Barão de Itapemirim onde, na historiografia, havia lacunas ou inconsistências. Aproveitamos, também, para agregar em um só local alguns dos dados e fatos já conhecidos, de modo que o pesquisador os obtenha com objetividade. Dados genealógicos de casamentos e filhos não foram aqui elencados. Vamos lá.

BATISMO
12 de dezembro de 1781, na Sé de São Paulo, Capitania de São Paulo.
Joaquim, filho de Joaquim José da Silva e de Ana Fernandes Lima.
Fonte: São Paulo, Parochia da Sé, Livro 5 - Baptizados 1780-1784, volume 40, pag. 77 verso.

Batismo de Joaquim, filho de Joaquim José da Silva e de Ana Fernandes


CASAMENTO DOS PAIS:
27 de fevereiro de 1781, na Capela da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo, São Paulo.
Joaquim Joze da Sylva, natural de Campos dos Goitacazes, e Anna Fernandes Lima, natural de São Paulo.
Observação: nesse registro é possível conhecer os ascendentes de Joaquim Marcelino (avós e bisavós), com suas respectivas naturalidades.

Assento de matrimônio de Joaquim José da Silva e Ana Fernandes Lima


RESIDÊNCIA DO CASAL:
Residiram pouco tempo em São Paulo e mudaram-se para o Rio de Janeiro.
De 1790 em diante, residiram em Campos dos Goitacazes.

CHEGADA AO ESPÍRITO SANTO:
Janeiro de 1797. Compraram uma posse em Benevente (atual Anchieta), que seria a origem da Fazenda Três Barras, onde seria construído um engenho e haveria lavouras de cana. Possivelmente Joaquim mudou-se junto com seus pais.

PROPRIETÁRIO DA FAZENDA TRÊS BARRAS:
1807, por compra feita junto aos próprios pais.
Essa fazenda foi, posteriormente, vendida (em alguns momento antes dos anos 1850).

PROPRIETÁRIO DA FAZENDA SANTO ANTÔNIO DO MUQUI:
Janeiro de 1820, por compra feita junto a Gertrudes Maria do Espírito Santo, viúva de Miguel Antônio de Oliveira.


REGISTRO DA PATENTE DE TENENTE DE MILÍCIAS:
Conferida e confirmada a Joaquim Marcellino da Silva Lima. Foi confirmada por Dom João VI no Rio de Janeiro, em 22 de outubro de 1810, e registrada em Victoria no dia 13 de outubro de 1811.
Patente concedida por Fernando José de Portugal em 1799, quando Governador e Capitão General da Capitania da Bahia (1788/1801), a qual a Capitania do Espírito Santo estava subordinada no militar, à época.

Caput do registro da carta patente conferida a Joaquim Marcelino da Silva Lima


MUNDANÇA PARA ITAPEMIRIM:
Entre janeiro e outubro de 1820.


FICHA DO CAPITÃO JOAQUIM MARCELLINO:


Ficha do Capitão Joaquim Marcelino da Silva Lima, feita pelo Coronel José Francisco de Andrade e Almeida Monjardim e datada do dia 30 de junho de 1823. Este último era o comandante do Regimento de Infantaria de 2ª Linha; Silva Lima era o comandante da Oitava Companhia da referida tropa, sediada em Benevente (atual Anchieta).
Nessa época, o Espírito Santo tinha os seguintes corpos de tropa: Corpo de Tropa de Linha, Corpo de Pedestres, Batalhão de Artilharia de 2ª Linha e Regimento de Infantaria de 2ª Linha. Este último estava composto por várias Companhias, e Silva Lima era comandante de uma delas.
Assim está na "ficha": a patente (Capitão), o nome (Joaquim Marcelino da Silva Lima), a idade (41 anos), o tempo de serviço em tropa de linha (não havia ainda completado um ano), o tempo de serviço em milícias (24 anos; portanto, iniciou em milícias aos 17 anos de idade, em 1799), a data do decreto de sua nomeação para a tropa de 2ª linha (16/dez/1822), lugar de residência e distância da sede da companhia (residia em Itapemirim, a seis léguas de Benevente), e um interessante campo de "Nobreza, ocupação, disposição física e aptidão para o serviço, bom ou mau comportamento militar (Senhor de Engenho, rico, robusto para o serviço, inteligente, bom comportamento militar, e com adesão à causa do Império).
Uma "ficha" muito abonadora. E realmente o era; em outras "fichas", o comandante da tropa não poupou críticas à outros oficiais.


REGISTROS DOS TÍTULOS RECEBIDOS:

> Hábito de Cavaleiro da Imperial Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo
Decreto de 04 de abril de 1825 (Ordem de Cristo)

> Oficial da Imperial Ordem da Rosa
Decreto de 25 de março de 1845 (Ordem da Rosa)

> Barão de Itapemerim:
Decreto de 15 de dezembro de 1846

> Barão com Honras de Grandeza de Itapemirim:
Decreto de 31 de dezembro de 1849


Joaquim Marcellino da Silva Lima
Quadro do Barão de Itapemirim




















ÓBITO
18 de dezembro de 1860 (79 anos)
Causa da morte: Derrame (ataque de estupor, ataque apoplético).
Estava em Bananal (atual Pacotuba, distrito de Cachoeiro de Itapemirim) e foi conduzido para sua fazenda no Itapemirim.
Sepultado na Capela da Fazenda Santo Antônio do Moqui, Itapemirim, Província do Espírito Santo.




Palacete do Barão de Itapemirim, na Fazenda Santo Antônio do Muqui
Itapemirim, Espírito Santo


Pesquisa e texto:
Gerson Moraes França

quarta-feira, 22 de maio de 2024

As Peripécias do Jovem Vasco, o Filho.

Tela representando a chegada de Vasco Coutinho ao Espírito Santo.
Morgana de Sá, 1999. Acervo da Casa da Memória, Vila Velha/ES.
Fonte da imagem: site "Morro do Moreno".

23 de maio de 2024 está aí; dia de memorar a colonização do solo espírito-santense. Efeméride que nos lembra da chegada dos europeus portugueses capitaneados por Vasco Coutinho nas praias da atual baía de Vitória, em 1535, e que ali fundaram seu primeiro núcleo - a então Vila do Espírito Santo, atual Vila Velha - depois de canhonear os indígenas tupi guaianases que ali habitavam na ocasião.

De Vasco Fernandes Coutinho, filho de Jorge de Mello e Branca Coutinho, o fidalgo português que, ainda muito jovem, singrou os mares, combateu nas conquistas ultramarinas portuguesas, comandou cidadelas do império português e chegou até o Japão, muito se fala. Já não tão jovem, ainda não era um homem velho quando se aventurou novamente pelo mar afora e combateu e conquistou, para Portugal, terras na América que foram por ele batizadas com o nome de Capitania do Espírito Santo em 1535. Vasco, o Capitão Donatário, foi o homem que comandou a fundação do que hoje é o nosso Estado do Espírito Santo.

Após muitos anos governando sua donataria, e já bem idoso e doente, Vasco Fernandes Coutinho legou sua sucessão a um filho de seu relacionamento com Ana Vaz de Almada, mulher com quem teve uma relação extraconjugal e constituiu família, já no Brasil. Seus filhos legítimos, fruto de seu casamento com Maria do Campo, já estavam todos falecidos quando Vasco nomeou o seu primogênito com Anna Vaz para herdar sua Casa e Capitania. Essa nomeação foi aprovada por Alvará de Dom Sebastião, Rei de Portugal, em 1567.

E hoje resolvi falar um pouco sobre esse filho bastardo, posteriormente legitimado, do Vasco pai. Trata-se de Vasco Fernandes Coutinho, o filho: homônimo, portanto, de seu genitor. Não se conhece (ainda) o ano de seu nascimento, e nem se sabe ao certo se nasceu no Brasil ou em Portugal. O que podemos afirmar com certeza é que Vasco pai veio ao Brasil e aqui se relacionou com sua concubina Ana Vaz, onde viveram maritalmente. Podem ter vindo juntos em 1535, ou iniciado sua relação na América depois: o certo é que já estavam juntos em 1540. É o que se infere dos documentos que tratei nesse BLOG sobre a Sesmaria de Brás Telles. Então, Vasco Filho teria nascido em 1535 ou depois; e antes de 1545, quando nasceu o terceiro filho de Vasco pai e Ana Vaz, chamado Ignácio de Mello. Sou inclinado a entender que Vasco filho teria nascido em Portugal, como afirmam muitos autores; mas teria vindo a luz depois de 1540, quando Vasco viajou para Portugal, e antes de 1543, data máxima que creio para a gestação de seu primeiro irmão, que seria batizado com o nome Jácome Coutinho. Assim penso fundamentado na carta de Mem de Sá escrita em 1560, quando em passagem pelo Espírito Santo encontrou "três filhos de Vasco Fernandes Coutinho moços sem barbas". Se Vasco filho tivesse nascido em Portugal e antes de 1535, estaria com mais de 25 anos em 1560, e não seria mais um "moço sem barba". Acredito que esses três filhos muito jovens de Vasco pai seriam Vasco filho, Jácome e Ignácio (este, com 15 anos na ocasião), e não os filhos do primeiro casamento que já seriam todos "barbados" nesse quadrante.

Mas são somente ilações longe de serem comprovadas; talvez nunca sejam e, por isso, presumimos e tecemos nossas considerações com base em indícios. Seria até legal se "Vasquinho" tivesse nascido no nascente Espírito Santo: seria um dos primeiros europeus vindos a luz no  "novo mundo". Mas, nascido no Brasil ou em Portugal, o fato é que veio ao mundo possivelmente entre 1535 e 1544, e provavelmente entre 1540 e 1543 em solo lusitano. Tudo indica que a família retornou ao Espírito Santo posteriormente, juntos ou depois de Vasco pai, e não só porque estavam os três irmãos no Brasil em 1560: há documento que comprova que o irmão mais novo, Ignácio, falava "la lengua brasílica muy bien" - isto é, falava o idioma indígena tupi-guarani, língua corrente em terras espírito-santenses naqueles primevos tempos. Possivelmente Vasco filho também conhecia o tupi, e isso só seria crível se os filhos do Donatário tivessem vivido parte de sua infância e/ou adolescência no Brasil.

Em algum momento da primeira metade da década de 1560, Vasco filho retornou para Portugal. Por qual motivo? Estudos? Alguma querela? Não sabemos. Seu irmão mais novo foi residir em Lisboa, ingressando na Companhia de Jesus no final de 1562. Sem mais fontes, sou forçado a acreditar que Vasco filho teria ido para Portugal em data próxima à essa. "Vasquinho" volta a figurar nos registros históricos, dessa vez expressamente, em 1565: em 25 de março desse ano, presente em Lisboa, zarpou com a frota da carreira das Índias que partiu para o oriente com quatro embarcações na armada comandada por Francisco Sá de Meneses. Em princípio de setembro chegaram em Goa. No início de janeiro do ano seguinte, a frota iniciou viagem de retorno. Em setembro de 1566 uma das naus chegou em Lisboa; outras duas tiveram que invernar em Moçambique, chegando em Lisboa apenas em abril de 1567. Uma quarta embarcação se perdeu. Não sabemos se Vasco filho retornou na primeira ou nas últimas que chegaram em Lisboa. O que sabemos é que em novembro de 1567 ele estava em Portugal, quando iniciou-se o processo de reconhecimento de Vasco Fernandes Coutinho, o filho, nomeado que foi por seu pai Vasco Fernandes Coutinho para sucedê-lo na sua Casa e Donataria.

Abro aqui um rápido adendo: não entrarei em pormenores sobre a data da morte do primeiro Capitão Donatário e fundador do Espírito Santo. Há apenas uma documentação que informa que Vasco pai havia falecido em 1561, e que nos parece ter sido um grave erro do copista. Ao contrário, existem vários documentos que provam que Vasco pai estava vivo depois desse ano, e um documento expresso que atesta que o Donatário faleceu em fevereiro de 1571. Esse é o entendimento de sérios pesquisadores que se debruçaram sobre essa temática, tais como o ilibado Serafim Leite e a saudosa Nara Saletto. 

Sanada essa questão da data da morte do Donatário, até mesmo o processo de sucessão que envolve os dois Vascos, trazidos à luz na historiografia capixaba por João Eurípedes Leal, faz todo sentido. Não conhecemos a data do instrumento de legitimação lavrado por Vasco pai, mas creio ser verossímil ter sido confeccionada depois de 1566. Isso porque em março de 1564 ainda havia comprovadamente um filho legítimo vivo de Vasco pai. Esse herdeiro legal embarcou em uma frota da carreira das Índias, e provavelmente faleceu durante a viagem: das quatro naus, duas se perderam, e uma doença dizimou boa parte dos viajantes. As que tornaram viagem para Lisboa chegaram em abril e junho de 1566, quando possivelmente chegou a notícia do óbito. Faz sentido, portanto, que em algum momento depois dessas datas o Donatário Vasco Coutinho tenha tomado conhecimento do falecimento de seu último herdeiro legal, e nomeado seu primogênito do relacionamento extra conjugal para o suceder.

Em novembro de 1567, como dissemos, inicia-se o processo de legitimação de Vasco Fernandes Coutinho, o filho. O procedimento caminha morosamente; em dezembro de 1568 e janeiro de 1569 movimenta-se, mas ainda faltam sanar alguns impedimentos. Em janeiro de 1570 toma impulso: sanadas todas as questões pendentes, é lavrada a provisão real para que Vasco filho possa tomar posse da governança da Capitania do Espírito Santo. É possível que o sucessor do já bem idoso e doente Vasco tenha embarcado para o Brasil em 05 de julho de 1570, na armada de Luís Fernandes Vasconcelos, que foi nomeado governador do Brasil para suceder Mem de Sá. Mas essa viagem foi desastrosa. Ventos e correntes contrárias, bem como a presença de navios de piratas huguenotes franceses, acabam por impedir que a frota atingisse as terras brasileiras. Uma embarcação foi assaltada pelos piratas, que executaram dezenas de religiosos jesuítas. Os barcos foram parar nas Antilhas, retornando depois para as ilhas oceânicas portuguesas e espanholas e, por fim, à Lisboa para esperar nova oportunidade de seguir com a derrota.

Em 06 de setembro de 1571 Luís Vasconcelos zarpa em nova empreitada rumo ao Brasil. Caso não tenha embarcado naquela primeira frota e reiniciado a viagem, Vasco Coutinho filho embarcou nessa nova partida. Mas o destino também não foi benéfico nessa segunda feita: em 13 de setembro a nau capitânia, onde estavam o governador Luís Vasconcelos e Vasco filho, foi atacada novamente por piratas franceses. O governador foi morto na peleja, e "um fidalgo chamado Vasco Fernandes Coutinho" foi detido, "a quem ataram com vista a um futuro resgate". Ainda em setembro os franceses retornaram à La Rochelle, levando consigo "o fidalgo Coutinho que foi posto em resgate por 1.200 cruzados".

Assim, o nosso "Vasquinho" esteve retido em La Rochelle, na época dos intensos conflitos religiosos que ocorriam na França. Quando teria retornado à Portugal? Em que condições? Teria alguém pago o resgate, ou Vasco filho teria realizado alguma fuga? Questões ainda sem resposta. O mais provável é que algum (ou alguns) parente da família de seu pai tenha satisfeito esse resgate. Esses sucessos explicariam o porquê de Vasco filho ter feito um testamento antes de sua próxima viagem para assumir a Capitania do Espírito Santo, e porque de ter legado sua sucessão a um ramo colateral e legítimo da família de seu pai. Esse testamento foi lavrado em abril de 1573, e sua viagem não deve ter tardado muito pois em 14 de agosto do mesmo ano o fidalgo Vasco Fernandes Coutinho tomava posse, na Vila de Nossa Senhora da Vitória, do governo da Capitania do Espírito Santo.

Há muitos outros fatos e pormenores interessantes sobre o filho bastardo que foi legitimado e que assumiu como o segundo Capitão Donatário do Espírito Santo. Seu casamento com Luiza Grimaldi, a futura "capitoa", sua outra relação marital e seus parentes (irmãs e cunhados), sua boa administração em relação aos colonos, jesuítas e indígenas, sua relação familiar com espanhóis importantes, entre outras coisas mais, dariam mais um bom tanto de parágrafos. Mas o presente artigo não intenta ser uma biografia do primogênito de Vasco pai e Ana Vaz. Quis eu apenas registrar algumas interessantes peripécias vividas pela nossa personagem histórica.

Vasco Fernandes Coutinho, o filho, faleceu em Vitória no ano de 1589 e foi sepultado na Igreja dos padres da Companhia de Jesus. Estaria próximo aos 50 anos de idade. Sua mãe ainda vivia. De Vasco pai, podemos dizer que foi o conquistador e fundador do Espírito Santo. De Vasco filho, podemos dizer que foi o consolidador da Capitania que, desde então, nunca mais periclitou seriamente em relação a sua própria existência.

Gerson Moraes França

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

Monte Agá

O MONTE AGÁ: SIGNIFICADO E HISTORIOGRAFIA


"No monte Aghá
Eu te quero, eu te vejo, eu te encontro lá
Oh! Que lindo lugar de ver Deus
Oh! Que doce lugar pra se amar"
KAUÊ, Beto. Piúma.


No lugar onde passo parte do verão no sul do Espírito Santo, tenho uma bonita vista de toda a larga enseada que começa na Ponta de Castelhanos, em Anchieta, e termina em Marataízes. Da minha varandinha, diviso ao longe a bela Ilha dos Franceses e o imponente Monte Agá. Sentado, entre um gole e outro de café, contemplo essas belezas espírito-santenses e divago em formular histórias sobre esses nossos lindos monumentos naturais. Sempre me interessei muito pela nossa história, e pesquisar a "origem" dos nomes das nossas localidades me atrai. A pesquisa toponímia, especialmente a dos lugares do nosso Estado, me desafia e me diverte.

Já há bastante tempo que a "tradução" do que significaria "Agá", do monte, me intriga. Rezam alguns que o termo "Agá" significa "lugar de se ver Deus", e é essa definição a que mais se propaga por matérias e sites pela internet afora. Tal assertiva foi eternizada poeticamente, inclusive, na canção "Piúma" de Beto Kauê, a "música símbolo" do balneário. Quem era jovem na década de 1990 e passou carnaval em Piúma, certamente já andou atrás de um trio elétrico com o Beto Kauê cantando sua música mais famosa à época.

Basta uma pequena busca no Google para observar que o famoso copy/paste sobre o significado corrente do topônimo "Monte Agá" (aproveito para informar que atualmente o monte é grafado "Aghá", mas me servirei da forma mais simples e antiga de grafá-lo) reina soberanamente em revistas e jornais, sites e blogs, dentre outros. Divergem apenas na língua de origem do termo: alguns dizem que é puri, outros que é tupi, e uns poucos misturam no mesmo balaio puri, tupi e até botocudo.

O Monte Agá faz parte da área de proteção ambiental (APA) da Lagoa Guanandy
e foi tombado pelo Conselho Estadual de Cultura em 1985. (foto: site da Folha Vitória)

É fato bem conhecido dos estudiosos mais criteriosos de nossa história que a esmagadora maioria dos nomes dos acidentes geográficos e localidades do Espírito Santo, quando de origem indígena e já nominados até o século XVIII, é de língua tupi. Assim, termos atuais como Guarapari, Itapemirim, Iriri, Meaípe, Piúma, Itaipava, etc, lugares de nosso litoral espírito-santense e com suas mais diversas grafias no curso da história, são todas de origem tupi e, logo, possuem alguma "tradução" ou "significado". O Monte Agá já é assim grafado em mapas da primeira metade do século XVII. Assim, superada discricionariamente em nossa sentença essa que poderia ser a primeira "discussão" do presente artigo, asseveramos conclusivamente que o termo "Agá" é de origem tupi. Portanto, precisamos encontrar o seu significado com base na língua tupínica.

Seria estranho se o Monte Agá não fosse representado nos mapas antigos que retratam a costa do Brasil e do Espírito Santo. Esses mapas dos séculos XVI e XVII eram feitos principalmente para a navegação, e assim eram referenciados os acidentes geográficos do litoral tais como os nomes dos rios, cabos, enseadas, baixios e serras ou montanhas  próximas; essas últimas serviam como ponto de referência para balizar os navegantes. A visão dos contemporâneos para a localização era, portanto, de costas para o mar e virados para a faixa costeira. Na faixa do litoral sul espírito-santense a qual nós nos focamos presentemente, há alguns acidentes que, via de regra, estão elencados nesses mapas. A ponta dos castelhanos, a enseada do rio Benevente (antigo Ireritiba) e sua foz em Anchieta, a boca do Piúma, o rio Itapemirim, a Ilha dos Franceses, as falésias de Marataízes e, é claro, o nosso aqui estudado Monte Agá, costumam aparecer. E foi com base em alguns desses mapas e em uma escritura de acordo entre donatários, todas fontes primárias ou documentos contemporâneos, que consegui fazer a tradução.

Não é preciso ser um grande tupinólogo ou especialista na língua tupi para perceber que a expressão "lugar de se ver Deus" não é a tradução correta do significado do topônimo "Agá". Com um conhecimento rudimentar da língua tupi é possível afirmar isso com boa dose de certeza. Mas então, qual seria a tradução do termo? Para sabermos, precisamos primeiro conhecer as grafias e termos originais do nosso monte.

Logo nos primeiros anos da colonização europeia nas américas alguns nomes de localidades começaram a se firmar em topônimos que ainda hoje as nominam. Em meados do século XVI, por exemplo, no sul do Espírito Santo já estavam firmados os nomes Itapemirim e Guarapari (nomes indígenas de origem tupi, com grafias diversas) e Ilha dos Franceses (nome português para a ilha frequentada pelos franceses, também no singular). Alguns nomes de origem indígena, possivelmente, já nominavam acidentes geográficos antes mesmo da chegada dos europeus. Uns nomes, sejam da origem que for, "pegam"; outros, não. Assim, o nome Managé (atual Itabapoana), provavelmente de origem goitacá (não falante do tupi) não pegou, firmando-se depois o nome tupi Camapuã. Outros nomes se firmam, mas se transmutam em corruptelas que, por vezes, os descaracterizam a ponto de formar um termo bem diverso do original. Podemos citar para esse caso o mesmo Camapuã, que se transmutou em Cabapuan e depois em Tabapuan (atual Itabapoana) no século XIX.

Em princípio, acreditei que o termo "Agá" pudesse ser uma dessas transmutações de um nome maior, ou então parecido. E deitei-me em estudos e pesquisas nas fontes e dicionários, aproveitando o conhecimento que adquiri em um "curso rápido" de tupi que certa feita fiz. Vamos às fundamentações e conclusões.

Várias gravuras do Monte Agá em diversos mapas do século XVII, com recorte temporal entre 1640 e 1675.
Fonte: site "História Capixaba" (montagem de recortes de vários mapas, pelo autor).

A mais antiga referência que temos sobre a possível origem do nome do monte Agá é um documento firmado entre os donatários das Capitanias do Espírito Santo e de São Tomé, respectivamente Vasco Fernandes Coutinho e Pedro de Góes, que tratou dos limites das duas jurisdições em 1539. Convencionaram os dois donatários em estabelecer a divisão em um rio que os indígenas chamavam "Tapemiri" (atual Itapemirim), diante da imprecisão de se divisar como limite o Baixio dos Pargos, divisa original das duas Capitanias. Até batizaram o rio com o nome Santa Catarina, mas esse nome "não pegou"; o nome tupi prevaleceu no correr do tempo. Nesse documento citado, há menção a "uma terra do dito Vasco Fernandes que se chama Aguapé", "obra de duas léguas pouco mais ou menos" do rio Itapemirim. Obviamente, ao norte desse caudal.

Verificando os acidentes geográficos da região, observamos que ao norte do rio Itapemirim corre uma longa e funda praia de águas agitadas que começa a ser quebrada por algumas pontas pedregosas na altura das atuais Itaoca e Itaipava. Bem perto do pouco protegido abrigo de Itaipava, também ao norte, fica do monte Agá. Depois inicia-se uma calma praia em uma enseada muito rasa, que é novamente quebrada por uma formação de rocha que fecha a boca do rio Piúma. No lagamar do Piúma há melhor abrigo para as embarcações. Assim, considerando a precisão aproximada da medida de distância no mar em léguas à época, a Aguapé do documento de Vasco e Pedro só poderia ser dois acidentes: ou o nosso monte Agá, ou o estuário do Piúma. Ou até mesmo um nome comum ou aproximado para ambos.

Não é impossível que a boca do Piúma pudesse ter sido chamada de um nome parecido: Iguape. Em tupi, essa palavra designa o local de uma enseada ou um lagamar que recebe a influência da água do mar e das águas do(s) rio(s) próximo(s). A formação léxica desse termo tupi vem de Y(rio) + Kuá (redondo) + 'Pe (sufixo de local). Assim, Iguape seria algo como local de enseada, lagamar ou estuário de rio. Mas, em relação ao Piúma, isso não vem ao caso. Exemplifiquei apenas para destrinchar a raiz dessa palavra tupi que tem a chave para a nossa resposta. Não há nenhuma fonte ou tese que abra a possibilidade de que a foz do Piúma possa ter sido chamada de Iguape.

Já a palavra Aguapé tem outra formação. Vem, segundo o dicionário Houaiss e outras fontes de dicionários tupi que consultei, de Agwa (redondo) + Pé (flexão de "Peva" e suas variantes: achatado, plano). É como os indígenas tupi chamam algumas plantas de águas paradas, como a linda Vitória Régia (redonda e chata). Em princípio, então, teria a Aguapé de Vasco Coutinho relação com essa palavra que designa uma planta? Parece que não, a não ser quando extraímos dessa palavra, assim como da palavra Iguape, a sua raiz. E a raiz dessas duas palavras é o termo tupi para "redondo". Desenha-se a nossa tradução.

A palavra "redondo" é dita de duas formas em tupi: Puã (e suas variantes, como puá, poá, etc), e Awa (e suas variantes que veremos). E a palavra Awa é a chave para entendermos o nome do nosso Monte Agá. Essa raiz da palavra tupi para "redondo" é flexionada de diversas formas: Akuá, Kuá, Agwa, Goá e Guá, por exemplo. A pronúncia de Awa é gutural, com a consoante oclusa K ou G manifestando-se quando a palavra é dita, principalmente quando há vogal que a precede. Assim, voltando à palavra tupi Iguape, teríamos as raízes Y (água) + Awa (redondo) + 'Pe (sufixo de local): a aglutinação de Y com Awa oblitera o primeiro A átono e faz saltar o fonema K ou G: Iguá ou Igoá. Junto com o sufixo 'Pe, forma-se a palavra Iguape, com a sílaba tônica no "Gua". Em Aguapé, as raízes são, como vimos, Awa (redondo, pronunciando-se Aguá) + Peb(v)a (plano, chato; a sílaba tônica no "Pe" faz desaparecer a sílaba final): forma-se Aguapé, com sílaba tônica no "Pé".

Antes de prosseguir, abro aqui um adendo: sou historiador e não tenho formação em linguagens. Uso da linguística como ciência auxiliar da História, e provavelmente aqui cometo erros na denominação de algum fenômeno dessa área de estudos. De todo modo, tal fato não desvirtua o presente artigo. Sigo, pois.

Vimos acima que uma das possíveis denominações antigas do Monte Agá pode ter sido Aguapé. Acredito, porém, que houve erro de tonificação da sílaba quando a palavra foi grafada naquele documento firmado entre os dois donatários vizinhos. O mais provável, considerando as outras fontes que estão nos mapas antigos e fazendo comparações, é que a palavra fosse pronunciada com a sílaba tônica no "Gua": Aguape. Explico.

Nos mapas portugueses do litoral do atual Brasil e do Espírito Santo datados do século XVII, há menção expressa do nome "Monte Agá" já com essa grafia. Mas há alguns mapas pouco anteriores, ou então mapas de autoria de estrangeiros que usavam de informações antigas, que grafam o nosso monte com nomes similares e que identificam a sua provável raiz. A propósito, a pesquisa em mapas hoje é muito facilitada devido ao belo trabalho do historiador Fabio Paiva Reis, que pesquisou, catalogou, identificou e digitalizou dezenas de mapas que retratam o Espírito Santo, e os alocou no site "História Capixaba".

Há um mapa do cartógrafo Luis Teixeira, datado de cerca de 1590, que cita o nome "Goape" entre o Espírito Santo (região da baía de Vitória) e o rio Managé (atual Itabapoana), ao norte do "Baixo dos Porgudos" (antigo Baixios dos Pargos, defronte às falésias da atual Marataízes, entre o Itabapoana e o Itapemirim). Essa localidade - Goape - não é citada como sendo um rio. Começam a aparecer as similaridades: "Goá" (uma das flexões de "Agwa", redondo), e 'Pe (sufixo de lugar).

TEIXEIRA, Luis. Roteiro de todos os sinais, conhecimentos, fundos, baixos, alturas, e derrotas que há na costa do Brasil
desde o cabo de Santo Agostinho até ao estreito de Fernão de Magalhães.
 ca. 1590.
Disponível em: 
https://historiacapixaba.com (RECORTE DO MAPA)

Um outro mapa, elaborado por João Teixeira Albernaz e datado de 1631, muito mais detalhado, dirime quaisquer dúvidas. Nele está o rio "Itapemeri" (Itapemirim) e o rio Yrirituba (atual Benevente); entre eles, no oceano, está a ilha dos "Francezes" e, quase defronte à essa, a "Serra do Gua". Para quem conhece a geografia dessa região de nosso Estado, resta clarividente que a única elevação mais alta que existe entre esses dois rios é o Monte Agá. Portanto, podemos afirmar com certeza que essa serra do Gua (Guá, variação de A[g]wa, redondo) é certamente o Monte Agá. "Goá" ou "Guá", seguido do sufixo 'Pe (que situa localidade em tupi) ou então sem esse, com a designação portuguesa de "serra".

Capitania do Spirito Santo. In: Estado do Brasil coligido das mais sertas noticias q[ue] pode aivntar dõ Ieronimo de Ataide.
Por Ioão Teixeira Albernas, cosmographo de Sya Ma[gest]ade. Anno: 1631. – 1631. – Cart. 14. - João Teixeira Albernaz, o Velho.
Pert.: Ministério das Relações Exteriores, Rio de Janeiro. Disponível em: 
https://historiacapixaba.com (RECORTE DO MAPA)

Há também alguns mapas de estrangeiros que nos auxiliam nessa missão de pesquisa. Um deles é de autoria do cartógrafo Antonio Francesco Lucini, datado de 1646. Nele há a representação de uma elevação ao fundo, entre o rio "Itapemeri" (Itapemirim) e a "Boca del Fiume" (Piúma), chamada de "Monte Guaipel". Considerando os erros de grafia e os pontuais deslizes de portulanos estrangeiros calcados muitas vezes em parcas ou falhas informações, é possível afirmar que essa elevação é a mesma da serra do Gua e do Goape. As similaridades vão tomando forma de razão. Aguapé, Guá, Goape e Guaipel são formas diferentes de se grafar o mesmo acidente geográfico. Há ainda outros mapas que poderíamos tratar, mas se assim for a presente fundamentação ficará ainda mais extensa. Ficarei apenas com esses que citei.

Dudley, Sir Robert. Carta Particolare della Brasilia, che comincia dal Porto del'Spirito Sancto è finisce con il capo Bianco.
In: Dell Arcano del Mare. 1646. Disponível em: 
https://historiacapixaba.com (RECORTE DO MAPA)

Fica bem claro, portanto, que o "Monte Agá" tem esse nome porque é um morro redondo, um monte arredondado: em tupi, "Agwá", da qual "Agá" provém. Quando era referenciado como uma localidade, o Agwá era complementado com o sufixo 'Pe. Por isso a grafia "Aguapé" que vimos no documento de Vasco Coutinho e o donatário limítrofe que, porém, tonalizou equivocadamente a última sílaba. Se o nome fosse Aguapé (redondo e chato), não seria muito plausível que a "evolução" da palavra suprimisse o "Pé", tal como ocorreu (ficando somente o "Aguá"). Em Aguape, com sílaba tônica no "Gua", tal supressão é até comum em outras palavras tupi com mesma formação (com o sufixo 'Pe).

Morro, ou monte, "Redondo"; tal como Cesar Augusto Marques, sem saber que a forma da montanha era o significado de seu nome silvícola, escreveu em seu trabalho sobre a Província do Espírito Santo datado de 1878:
"Agá, ou Aghá - morro - tem a forma arredondada e está isolado perto de Itapemirim. Por ser muito alto, serve no mar o seu pico de guia aos navegantes, que fazem a sua derrota ao sul da costa da Província. Tem muito boa água potável. (...)"

Quase vinte anos antes da publicação do trabalho de Marques, o Imperador Dom Pedro II, em visita que fez ao Espírito Santo, em fevereiro de 1860 escreveu em seu diário de viagem, percebendo que o nosso monte não deveria ter seu nome inspirado na letra "H": "(...) vi o morro Agá que nada se parece com essa letra (...).

A poesia é linda. A "tradução", ou tradição, tombada e cantada por Beto Kauê na música "Piúma", é bela e grandiosa. "Lugar de se ver Deus" é poético. Mas aprendi, com o tempo, que os significados e/ou origens dos topônimos costumam ser mais singelas: a explicação é, quase sempre, a mais simples. No caso, o nosso Monte Agá é, simplesmente e lindamente,  um morro arredondado: o "Monte Redondo".

Pesquisa e texto:
Gerson Moraes França

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sexta-feira, 6 de outubro de 2023

O Ocaso das Minas do Castello

Recorte de mapa de 1846, com a localização das antigas minas do Castelo.

No dia 25 de maio de 1786, na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Amparo de Itapemirim, foram crismadas nove ou dez crianças pelo reverendo visitador Vicente José da Gama Leal, comissionado pelo Bispo do Rio de Janeiro e que ali estava em viagem pelas paróquias do norte do Bispado. Nessa época, as freguesias da Capitania do Espírito Santo integravam aquela circunscrição eclesiástica. Uma dessas crianças crismadas se chamava [Seba]stiana (assim presumiu quem registrou), de cinco anos de idade, filha de Sebastião e de Maria, escravos de um certo Domingos Ra[mos](sobrenome presumido pelo autor dessas linhas). Sebastiana era natural e batizada na Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Castelo.

Sempre me fascinou a história dessas célebres minas de ouro situadas nos contrafortes a oeste da serra que corre, mais ou menos, de sul a norte entre o rio Castelo (afluente do rio Itapemirim) e a costa do Espírito Santo. Apesar de não muito conhecidas, muito já se escreveu, e ainda se escreve, sobre as Minas do Castelo. É surpreendente conhecer seus primeiros tempos e notável estudar seu desenvolvimento; e é intrigante saber como foi o seu ocaso. Imaginar que essas minas foram povoadas e formaram (segundo a tradição) quatro arraiais e uma povoação que foi sede de uma Freguesia, e que depois tudo isso foi abandonado para ser enterrado pela vegetação e esboroado em ruínas.

Essas fascinantes minas nunca foram, porém, muito povoadas se comparadas com outras tantas minas de ouro que existiram na história do nosso Brasil. Segundo o grande pesquisador Alberto Lamego, que estudou esse assunto e teve acesso a então inéditas fontes primárias e documentos, no seu período de maior prospecção as Minas do Castelo chegaram a abrigar cerca de 400 mineradores; não é um número elevado de pessoas, mesmo para a época que a população do Espírito Santo e do Brasil era uma ínfima fração do que é nos dias de hoje. Sua existência, do início ao ocaso, se remete ao século XVIII; descobertas e inicialmente povoadas por paulistas e seus bandos que percorriam o interior do continente, incrementadas depois por povoadores campistas após estabelecidas as minas, e depois e abandonadas pelo esgotamento das jazidas e pela pressão dos indígenas. Tudo isso ocorreu no recorte temporal de menos de um século.

Apesar das teorias de que as Minas do Castelo já eram exploradas muito tempo antes da chegada dos paulistas  (as datas variam conforme as construções teóricas e os agentes envolvidos), qualquer historiador e pesquisador mais criterioso e fiel à metodologia da ciência histórica desconsidera essa remotíssima possibilidade. O próprio Lamego, sempre fiel à pesquisa histórica em fontes primárias e à análise crítica das fontes, considera que foram os paulistas seus incontestes descobridores. Outros estudiosos da história das Minas do Castelo endossam essa assertiva, como Tristão Araripe; e alguns poucos, como o memorialista Gomes Netto, entendem que as minas já eram exploradas por indígenas e jesuítas no século (ou séculos, dependendo do memorialista) anterior; meras teorias sem embasamento documental e simples conclusões eivadas de vício. De todo modo, esse imbróglio não é o foco do presente artigo e não interfere em nossas conclusões.

O ocaso das Minas do Castelo é assunto bastante tratado pela historiografia espírito-santense. Mas não há nenhum documento contemporâneo aos fatos que tenha sido até hoje encontrado e/ou publicado por algum pesquisador, seja memorialista ou historiador. O que temos são algumas presunções, e datas mais ou menos aproximadas fundadas em algum fato específico. No Espírito Santo, foram os memorialistas positivistas de finais do século XIX, como Basílio Daemon, que começaram a tentar encontrar uma data para o abandono das Minas do Castelo; Daemon chegou a entrevistar, "em 1865, uma velha moradora daquele lugar" que o relatou episódios da luta com os indígenas. Fatos narrados que não há motivos para serem postos em cheque, mas que acabaram criando a imagem de que o abandono dos arraiais e povoado das Minas do Castelo tenham ocorrido em um único, ou principal, evento de combate entre moradores e indígenas.

Em princípio, firmou-se o ano de 1771 como tendo sido o do abandono das minas. Essa data foi a do provimento de um vigário para a Paróquia de Nossa Senhora do Amparo de Itapemirim, recentemente criada. Como desde o século XIX já havia a tradição de que as imagens e paramentos da Igreja de Nossa Senhora da Conceição das Minas do Castelo haviam sido trasladados para a Igreja Matriz em Itapemirim, em uma espécie de transferência da Paróquia, imaginou-se que esse evento fosse uma prova da data do abandono. Hoje se sabe que a Freguesia de Nossa Senhora do Amparo de Itapemirim foi instituída em 1768, ano inclusive que há provas documentais que as Minas de Castelo ainda existiam; portanto, não houve naquele momento uma transferência da sede da Paróquia.

Depois, com a descoberta de um documento de inquérito (devassa) sobre um crime ocorrido contra a vida de um certo Manoel Monteiro, morador no Ribeirão do Meio (que fica no distrito das Minas do Castelo), em 1776, relativizou-se o abandono das minas: alguns passaram a entender que o abandono foi progressivo, e que ainda restavam alguns poucos moradores na região. O evento de 1771 não foi, porém, deixado de lado. As datas de 1771 e 1776 começam a conviver como sendo os possíveis anos do abandono das Minas do Castelo, embora alguns entendessem que o evento de 1771 ainda era o principal fato.

Alguns pesquisadores ainda de finais do século XIX, porém, começaram a rever essas datas. O pesquisador e memorialista Antônio Marins, escrevendo no início do século XX sobre o assunto, entende que as Minas do Castelo teriam sido abandonadas entre 1776 e 1780, e informa que um estudioso que publicou um artigo em 1883 já havia concluído que as minas haviam sido abandonadas entre 1779 e 1780, quando "teve lugar a trasladação da velha imagem de S. Benedito". Surgiam, cada vez mais, provas de que o ocaso das Minas do Castelo não teria sido em 1771, mas sim alguns anos depois.

Diante da ausência de fonte contemporânea que ateste um ocaso abrupto, nos parece cada vez mais claro que o abandono das Minas do Castelo foi progressivo, fazendo parte de um processo; processo este que abarcou episódios factuais de confrontos entre mineradores e indígenas, e de esgotamento das jazidas ao alcance das forças e técnicas da época. Desde o estabelecimento legal das minas, as décadas de 1750 e 1760 foram as de maior ocupação e exploração; na década de 1770 começa o processo de esvaziamento. É a partir dessa época que os documentos começam a atestar investidas dos indígenas em algumas regiões no entorno. O progressivo esvaziamento das minas do Castelo também contribuiu para a evasão e extravio do ouro que fugia do fisco: o último documento fiscal, até hoje conhecido, que trata da arrecadação do quinto na região data de 1768. E depois chega o dia que nas Minas do Castelo não resta mais habitante algum.

Interessante é que os indícios de que o ocaso das Minas do Castelo havia ocorrido em ano posterior ao de 1771 já estavam bem evidentes para os historiadores de meados do século XX. Enquanto as publicações sobre a matéria ainda fiavam algum ano da década de 1770 (1771, que ainda era o mais citado, 1776 e 1779), novas fontes trazidas a luz colidiam com essas datas sedimentadas pela historiografia local de então. Fontes documentais estas, importante salientar, primárias. Algumas contemporâneas, mas de região diversa; outras não contemporâneas aos fatos, mas que estavam muito mais próximas temporalmente dos acontecimentos do que os escritos dos pesquisadores memorialistas da segunda metade do século XIX. Essas fontes são várias, e citarei apenas algumas delas no presente artigo.

Primeiro, falaremos de uma fonte contemporânea: os manuscrito de Couto Reis, que escreveu sobre Campos e seu entorno, em 1785. Nessa obra, quando trata dos povos indígenas da região, Couto Reis fala dos índios puri que, nessa época, se estendiam desde o rio Muriaé até as Minas do Castelo, "aonde tem feito lastimosos estragos". Importante lembrar que os campistas tinham mantido por muitos anos uma relação bem próxima com as Minas do Castelo, e o fato dessas minas terem sido citadas no documento é revelador. Em 1785, quando foi concluído, o manuscrito atesta que as Minas do Castelo ainda eram existentes e que sofriam com as investidas dos índios puri; assim, apesar de sofrer estragos dos indígenas, ainda eram habitadas na primeira metade dos anos 1780. Devido as acuradas e bem atualizadas informações de Couto Reis sobre seus objetos de estudo em seu trabalho, não cremos que ele estivesse defasado em mais de dez anos no que toca as Minas do Castelo.

Segundo, falaremos de alguns dos viajantes estrangeiros que transitaram pela Capitania do Espírito Santo em princípios do século XIX. Maximilian Wied e Saint-Hilaire estiveram em Itapemirim nos anos de 1815 e 1818, e escreveram interessantes relatos que hoje são muito utilizados como fonte histórica primária em trabalhos acadêmicos sobre o Espírito Santo. Ambos colheram relatos e tradições locais em seus escritos, e ambos são unânimes em afirmar que as Minas do Castelo teriam sido abandonadas em meados da década de 1780. Saint-Hilaire, que desce a detalhes e informa até mesmo o número de colonos mortos em refregas e ataques indígenas nos últimos quinze anos, é bem categórico em afirmar que as minas foram abandonadas (de vez) trinta anos antes, ou seja, por volta de 1785.

Por fim, elenco um testemunho que deveria receber toda a credibilidade, por ser praticamente contemporâneo ao tempo e pelo cargo de relevo que exerceu: trata-se de Manoel Vieira da Silva Albuquerque Tovar, que governou a Capitania do Espírito Santo entre os anos de 1804 e 1812. Em uma memória que escreveu e citado pelo pesquisador e escritor Levy Rocha, o governador Tovar informou que as Minas do Castelo foram abandonadas mais pela pobreza das suas lavras do que pelo receio dos índios, e que tal ocaso teria se concluído entre 1783 e 1784.

Todas essa fontes por mim elencadas, não necessariamente descartadas pela historiografia, mas relegadas a um plano dosimétrico inferior aos trabalhos históricos escritos pelos memorialistas a partir de fins dos anos 1870 (cem anos depois de terem sido largadas as minas), são bem elucidativas. Convergem para um abandono definitivo ocorrido por volta de 1785; é praticamente certo que o governador Tovar tenha feito sua memória com base em fontes (documentais, ou não) bem confiáveis, e que as datas por ele levantadas sejam as reais do ocaso das Minas do Castelo: entre 1783 e 1784.

Nessa mesma época outras minas "clandestinas", pouco fiscalizadas ou pouco rentáveis estavam sendo proibidas e fechadas pela ação do governo geral. Muitas das lavras situadas entre as indefinidas divisas das Capitanias de Minas Gerais com o Rio de Janeiro e Paraíba do Sul (região campista) foram fechadas, como as de Cantagalo e as Novas Minas de Castelo, e bandos de garimpeiros como os chefiados pelo célebre "Mão de Luva" estavam sendo dispersados e presos. É importante conjunturar essa situação geral, pois o definitivo ocaso das Minas do Castelo é contemporâneo a esses fatos.

Quando Ignacio João Mongeardino tomou posse do cargo de Capitão-Mor da Capitania do Espírito Santo, em 1782, as Minas do Castelo ainda existiam. É o que extraímos de algumas de suas primeiras medidas administrativas. E em 1790, quando Mongeardino enviou longo e pormenorizado relatório sobre o Espírito Santo para o Governador da Bahia, as Minas do Castelo já tinham sido abandonadas. E essa fonte, combinada com outra que "garimpei" (uma correspondência do Vice-Rei para o nosso Capitão Mor, reprovando uma incursão de uma ordem religiosa nas abandonadas minas, no mesmo ano) denota que o governo da Capitania estava obedecendo alguma determinação de manter fechado o acesso à região das minas do Castelo. Mongeardino, em seu relatório, informa que as "Minas do Castello, se achão cheias de mattos, por eu impedir a limpa dellas, afim de evitar a sua communicação".

Assim, tudo nos leva a crer que as memórias escritas pelo Governador Tovar devem ser vistas com mais seriedade, pois são verossímeis. O ocaso das Minas do Castelo foi o culminar de um processo de esvaziamento, iniciado possivelmente na década de 1770 e que teve seu desfecho em 1783 ou 1784. As investidas dos indígenas puri e o esgotamento das lavras foram os fatores determinantes para a queda populacional, coroada depois por uma determinação do governo em fechar as minas e impedir a sua comunicação; e não apenas nas nossas Minas do Castelo, mas em várias minas nas zonas montanhosas entre Minas Gerais e as Capitanias da costa. As afamadas Minas do Castelo passariam para a memória, a despeito de algumas tentativas e pequenas empreitadas para se reexplorar as lavras anos mais tarde.

E voltando para o crisma da pequena Sebastiana em maio de 1786, tratado logo no começo do presente artigo: essa fonte só nos foi possível de ser legada por causa das anotações em diário do Bispo Pedro Lacerda, em sua visita ao Espírito Santo de 1886/87. Bispo da Diocese do Rio de Janeiro, Lacerda visitou as paróquias sob sua jurisdição e copiou várias passagens dos livros de registros das Igrejas, que entendia interessantes de tombar. Assim, estando em Guarapari, escreveu que "em um livro achei uma folha avulsa em parte mutilada sem os pedaços que faltam. Parece-me que pertence a livros de Itapemirim". E transcreveu o que conseguiu ler desse interessante registro.

Sebastiana, filha de Sebastião e de Maria, escravos de Domingos, tinha 5 anos na ocasião. Teria nascido, portanto, por volta de 1781. Era natural e foi batizada na Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Castelo, que foi instituída nas Minas de Castelo em 1754. Essa é mais uma fonte cabal: dez anos após a data que em princípio os memorialistas de finais do século XIX acharam que as minas haviam sido abandonadas, uma criança nasceu e foi batizada pelo vigário na Igreja Matriz da paróquia, denotando que o povoado ainda existia e a Igreja ainda funcionava. Cinco anos depois, porém, Sebastiana foi crismada não em Castelo, mas sim em Itapemirim. Sua família e, com grande chance, o seu senhor, haviam deixado as montanhas e estavam na costa. Muito possivelmente por causa do evento que estamos aqui tratando: o ocaso das Minas do Castelo, ocorrido provavelmente nos anos que o governador Tovar, citado por Levy Rocha, informou em seu escrito: 1783 ou 1784.

E para finalizar, embora não seja o escopo do presente trabalho, é preciso que tratemos um pouco sobre o famoso Livro Tombo de Itapemirim, hoje usado como fonte por alguns pesquisadores para fundamentar o início da exploração das minas do Castelo no primeiro quartel do século XVII. Tal livro informa que foram os jesuítas que iniciaram a exploração do ouro na região, e que foram ali fundadas várias missões que abrigaram milhares de indígenas em 1625. O próprio Bispo Lacerda que supra aludimos teve acesso aos escritos desse livro tombo, que estava sendo então confeccionado pelo vigário da freguesia à época da visita do referido Bispo; portanto, cerca de cem anos depois do abandono das Minas do Castelo, e duzentos e cinquenta anos depois da suposta fundação dessas fantasiosas Missões do Monte Castelo. E Lacerda aponta em seu diário que o vigário de Itapemirim estava inventando fantasias quando tratava desse passado mais longínquo...

O Livro Tombo de Itapemirim é uma obra importantíssima para a pesquisa da história regional do sul do Estado do Espírito Santo, principalmente quando começa a tratar da instituição da paróquia de Nossa Senhora do Amparo de Itapemirim em diante. Mas é preciso ao historiador ter muito critério em sua leitura, para não incorrer em erros e vícios que uma errônea interpretação das fontes pode levar. Sem usar de metodologia científica, sem fazer o devido processo das críticas interna e externa das fontes, sem fazer as necessárias comparações com os documentos primários contemporâneos, o pesquisador acaba por reproduzir os equívocos cometidos pelo vigário que confeccionou o livro. Assim, o citado Livro Tombo é uma fonte documental maravilhosa de informação, mas que precisa ser trabalhado com muito critério pelo historiador.

Em meados do século XIX, quando os posseiros começaram a abrir posses no vale do rio Castelo, para que depois os fazendeiros formassem as futuras ricas fazendas cafeeiras, encontraram as ruínas das edificações dos arraiais e do povoado que formaram as extintas Minas do Castelo. Encontraram várias obras de exploração, inclusive com desvio de ribeirões e córregos, bem como ferramentas e várias árvores frutíferas, restos de pomares então misturados com a vegetação que retomava seu espaço. Sim, a história das Minas do Castelo e de suas "cidades desaparecidas" me fascinam imensamente.

Pesquisa e texto: Gerson Moraes França

segunda-feira, 14 de agosto de 2023

O Dia que Bieca Derrubou a Ponte

Mimoso em 1908 (foto de Eutychio dÓliver).
No centro, pode-se ver a ponte sobre o rio Muqui, reformada e já com as cabeceiras de alvenaria.

Quando foi aberta a primeira clareira no que futuramente seria a fazenda do Mimoso, em meados dos anos 1840, pelo posseiro José Lopes Diniz e seus trabalhadores, não havia caminho algum até o local, a não ser uma estreita e tortuosa picada desde o porto do Prata, no rio Muqui do Sul. Na primeira metade dos anos 1850 a posse do Mimoso foi adquirida pelo capitão Pedro Ferreira da Silva e foi aberta a fazenda, com grandes derrubadas que, depois de preparadas, dariam origem aos extensos cafezais que fariam a riqueza de seus proprietários. No final nos anos 1850 era aberto o primeiro caminho mais regular, que ligava a fazenda ao porto da Limeira, no rio Itabapoana e, nos anos 1860, era concluída a estrada que ligava o Cachoeiro do Itapemirim aos cachoeiros do Itabapoana, na Limeira, passando pela fazenda do Mimoso, de onde se fazia a passagem pelas duas margens do rio Muqui do Sul. A travessia, nesses tempos, era feita a vau, em precárias pinguelas ou em canoas, mas seu trânsito era muito pequeno.

Essa realidade iria mudar nos anos 1880. Em 1879 foi inaugurada a estação da estrada de ferro em Santo Eduardo, defronte ao rio Itabapoana no norte do Estado do Rio de Janeiro, que ligava esse distrito à cidade de Campos (RJ) e, via reflexa, à capital do Império, de onde a rubiácea era levada aos países compradores. E a partir de então as exportações do café produzido em grande parte do vale do Itabapoana e também nas regiões mais vizinhas seriam escoadas por esse terminal ferroviário. O trânsito das tropas carregadas com os sacos de café deslocou-se para esse ponto escoador, gerando mais movimento na estrada e a necessidade de se construir uma ponte sobre o rio Muqui do Sul, bem na frente da sede da fazenda do Mimoso.

Assim, em 1884, ao custo de 320$000 (trezentos e vinte mil réis) pagos pelos cofres públicos do município de Cachoeiro do Itapemirim, foi construída a primeira ponte sobre o rio Muqui do Sul em frente da fazenda Mimoso. Juntamente com essa obra, foram reformadas as estradas de Cachoeiro ao Mimoso, e também a que da fazenda Mimoso ia ter a Santo Eduardo. Essas estradas foram melhoradas com dinheiro do município e da província, mas também tiveram muitos de seus melhoramentos financiados pelos proprietários dos terrenos por onde passavam, pouco antes de serem executadas as obras públicas. Quanto a ponte, era ela toda feita de madeira, com seus pilares de base e os assoalhos colocados por cima.

Nessa época, o capitão Pedro Ferreira da Silva havia partido a pouco. Faleceu em junho de 1882 e a fazenda Mimoso passou a ser administrada por um de seus filhos, Gabriel Ferreira da Silva, que lá fixou residência na mesma época dos melhoramentos das estradas e da construção da ponte sobre o rio Muqui do Sul. Filho de um rico fazendeiro, Gabriel, apelidado de "Bieca", também era dono ou coproprietário de outras grandes fazendas cafeeiras e já tinha sido até deputado da Assembleia Provincial do Espírito Santo. Segundo os seus detratores, era um homem de difícil trato. E a movimentação dos transeuntes na nova estrada que passavam pela nova ponte, em frente da grande casa sede da fazenda Mimoso, o incomodava bastante. Quando passava algum viandante, já ia o Bieca gritar palavras ofensivas.

Tal estado de coisas o irritou ao ponto dele decidir, depois de alguns anos de aborrecimentos, derribar a ponte e mudar o curso da estrada. Assim, no dia 21 de janeiro de 1890, Bieca desmanchou todo o assoalho da ponte e demoliu parte da estrutura, inutilizando também um trecho da estrada, que substituiu por um caminho contíguo ao seu engenho, em uma região pantanosa. Tal ato do mandão de aldeia, porém, não passou sem reclamações de outros fazendeiros que utilizavam a ponte e a estrada. Poucos anos após, a ponte foi reconstruída; depois, porém, que Bieca foi residir lá para as bandas da fazenda Santa Marta e Santa Rita.

Bieca se meteu em vários casos, antes e depois desse episódio. Portador de uma doença degenerativa que o prendeu a cadeira de rodas, teve certa vez a casa de sua fazenda invadida por trabalhadores da linha ferroviária que estava sendo construída, que custou a vida do seu feitor. Também sofreu, certa feita, um ataque de bombas que explodiram por baixo de sua casa, sem causar maiores danos além do susto e de ter que se arrastar pelo chão. Pior talvez tenha sido quando foi esfaqueado por um molecote, filho de um ex-escravo de sua fazenda, que não aceitou ser mal tratado pelo paxá.

Depois que Bieca deixou a fazenda Mimoso, inicia-se um lento processo que, sob a administração dos irmãos Monteiro da Silva, genros do irmão de Gabriel, daria início ao gérmen do futuro núcleo urbano conhecido hoje como Mimoso do Sul. Importante que se diga: para o capitão Pedro Ferreira da Silva, Mimoso nunca foi mais do que simplesmente a sua fazenda. E, se dependesse do Bieca, filho do finado capitão Pedro, nem gente passaria por ali. Mimoso veio a crescer não graças ao Gabriel Ferreira da Silva, mas APESAR do Bieca e de suas manias.

Gerson Moraes França

quarta-feira, 7 de junho de 2023

Arraial do(s) Lagarto(s) - São João do Muquy (Muqui)

 

São João do Muqui, c. 1908 (Foto: Eutychio d'Oliver)

Quem observa o grande trajeto da principal via de Muqui, via esta que tem vários nomes em seu curso, percebe algo interessante em relação às quadras de casas: na região central, onde iniciou-se o núcleo urbano, quase não as há. Considerando o trecho onde a urbe muquiense teve seu gérmen, nas atuais avenidas Vieira Machado e Getúlio Vargas (interessantemente, ambas integram essa grande via que corta a cidade, e em cujo eixo o núcleo cresceu: uma é a continuação da outra), só há duas partes com quadras urbanas bem delimitadas, que denotam um pequeno planejamento para a instalação das edificações. Uma delas é o pedaço onde estão as ruas Luís Afonso e do Quartel, junto com a rua que liga com a Coronel Mateus Paiva (retratada embaixo e à direita da foto acima). A outra é a porção da rua dos Operários e Bernardino Monteiro, cuja entrada está em frente à antiga estação ferroviária (e onde ainda hoje notamos os "restos" das antigas vias, na forma de uma viela onde não transitam automóveis). Outro fato que nos chama a atenção em relação a essas quadras, é que ambas formaram ruas que, hoje, não tem saída (embora em seu planejamento inicial, haviam de ter).

E essa conformação urbana tem uma explicação que nos ajuda a entender o processo de ocupação e expansão urbana de nossa cidade em sua zona central, com essas poucas quadras sem continuidade, e com as edificações estendidas sobre boa parte do eixo da via principal.

A formação das primeiras fazendas onde hoje a cidade de Muqui está edificada remonta à década de 1850. É nesse período que são abertas e fundadas as fazendas cafeeiras chamadas de Boa Esperança, Sabiá, Entre Morros e São Francisco, que hoje dão nome à bairros da cidade. É preciso salientar que, obviamente, a abertura dessas fazendas não significou a fundação de um núcleo urbano. Durante muito tempo a região onde hoje está assentada a cidade de Muqui foi apenas uma erma estrada de chão, que ligava Cachoeiro, Vila Nova e São Gabriel ao Itabapoana, passando pelas fazendas e indo dar no Entre Morros e no Mimoso, antes de chegar ao seu destino final no rio Itabapoana. Em 1863, quando foi feita a medição de várias fazendas no alto rio Muqui (do Norte), o terreno onde hoje está o centro da nossa cidade era apenas uma parte da fazenda Boa Esperança, e o morro atrás da atual Igreja era um pasto. Na boca do córrego Boa Esperança no rio Muqui havia plantações de milho e de feijão; ali próximo, aquém do córrego, haviam algumas árvores frutíferas (muitas goiabeiras) e capoeiras. Perto da atual pracinha da Boa Esperança havia um canavial e, é claro, bordeando as encostas dos morros adjacentes haviam as extensas lavouras de café.

Em meados da década de 1870 é que iria brotar a semente do que viria a se tornar a nossa cidade de Muqui. Reza a tradição que em 1876 foi levantada a primeira casinha no primitivo núcleo que tomaria o nome de arraial do Lagarto, ou dos Lagartos (ambas as formas eram usadas). Edificada em terras da fazenda Boa Esperança, com a permissão do proprietário João Jacintho da Silva, que demarcou uma pequena porção para formar um arraial. "Arraial" era um dos termos usados, nessa época, para nominar os nascentes núcleos urbanos; a palavra tem origem na incorporação de expressão árabe, que significava primitivamente rebanho ou ajuntamento, ao português em Portugal ainda na idade média. Esse primeiro núcleo ficava na saída da estrada que ligava a sede da Fazenda Boa Esperança à estrada de rodagem que ligava Cachoeiro ao Itabapoana, anteriormente aqui mencionada. E foi ali que surgiu o nosso arraial do Lagarto: naquelas quadras da atual junção das avenidas Vieira Machado com a Getúlio Vargas, no cruzamento desta com a rua Luís Afonso e pegando também as ruas do Quartel e ligação com a Mateus Paiva. Por volta de 1884, quando foi instalada a sua primeira casa comercial (pelo espanhol Florêncio Ribas), o arraial possuía "apenas, umas quatro casas".

Em meados da década de 1880 os estudos para a construção da estrada de ferro chegaram à região do alto Muqui. Ficou assentado que a futura estação ferroviária seria edificada no terreno aonde atualmente se encontra, e que ficava a pouco mais de trezentos metros do Arraial do(s) Lagarto(s). Era a quarta estação do trajeto (sentido Campos-Cachoeiro); segundo relatório da Estrada de Ferro de Santo Eduardo ao Caxoeiro de Itapemirim, de 1892, "a quarta [estação] (...) fica perto do arraial do Lagarto" e já estava construída nesse ano. Por volta de 1886 o dono da fazenda Boa Esperança resolveu instituir um patrimônio para o nascente arraial, juntamente com o dono da fazenda Entre Morros, e escolhem São João Baptista como orago da futura capela. Ato contínuo, são demarcadas novas quadras em frente ao terreno onde seria levantada a estação ferroviária. Essa é a origem das quadras que ficam do lado oposto da estação, nas atuais ruas dos Operários e Bernardino Monteiro, bem como da viela que ainda hoje resta. E também do patrimônio de São João, juntando a área da futura estação à área já edificada no primitivo arraial dos Lagartos. Daí nasceria o povoado de São João do Muqui, antigo arraial dos Lagartos.

Instituída mais tarde a administração do patrimônio, houve talvez um pequeno lapso ou descuido, agravado pela morte dos dois principais doadores do mesmo patrimônio: o núcleo urbano, ao invés de ser organizado em quadras regulares tanto quanto o terreno permitisse, foi se espalhando pelo eixo da ferrovia e da rodovia. E assim formou-se a atual conformação urbana na zona central da nossa cidade de Muqui.

Gerson Moraes França

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

Quando foi que o Barão chegou ao Espírito Santo?


Para quem conhece um pouco a vida do primeiro Barão de Itapemirim, é clarividente que o título do presente post estaria equivocado. Quando Joaquim Marcellino da Silva Lima (1781-1860), futuro Barão de Itapemirim, chegou à então Capitania do Espírito Santo, ele era ainda apenas um jovem rapaz. Receberia a honraria do baronato somente muitos anos depois. Elaborei esse título apenas porque acredito que assim ele fica mais chamativo... ando com essa mania! Rsrs!

Para a historiografia espírito-santense não é um grande mistério o período que o futuro Barão teria chegado ao nosso torrão. De acordo com os autores que trataram do tema, as datas variam entre 1798 e 1802; um lapso temporal relativamente curto. Sabe-se que Joaquim Marcellino, nascido em São Paulo, aqui chegou ainda bem jovem. Até a nossa descoberta, individualizando os pais do Barão e publicando o casamento de ambos, bem como a data de batismo do nosso futuro nobre, acreditava-se que Joaquim teria nascido em 1779; assim, aqui teria chegado quando tinha entre 19 e 23 anos. Já era possível perceber uma pequena discrepância em relação a alguma dessas datas (nascimento ou chegada aqui) porque era corriqueira a informação de que Joaquim Marcellino teria sido nomeado tenente de milícias no Espírito Santo aos 17 ou 18 anos (a idade varia com o autor), portanto, antes de sua presumível chegada.

De posse dos documentos por nós recentemente trazidos a luz, sabemos que os pais do futuro Barão, Joaquim José da Silva e Ana Fernandes Lima, se casaram em São Paulo no dia 27 de fevereiro de 1781. E que Joaquim Marcellino da Silva Lima, filho de ambos, foi batizado também em São Paulo, no dia 12 de dezembro de 1781. Assim, ao considerarmos as presumíveis datas de sua chegada ao Espírito Santo, podemos inferir que aqui fixou-se quando tinha entre 16 e 20 anos. Esses dados, retificados com o assento de seu batismo, batem com as informações de que teria recebido patente de milícia no Espírito Santo aos 17 ou 18 anos de idade.

Para o leitor que chegou até aqui, imagino que esteja se indagando: será que o escritor do presente post encontrou algum documento específico sobre a chegada do Barão de Itapemirim no Espírito Santo? Eu, desde já, lhe informo: não. Mas, sempre com base em documentos, pudemos estreitar um pouco mais as datas presumíveis de quando Joaquim Marcellino para cá veio, bem como a conjuntura em que chegou. Os autores das datas anteriores não costumavam citar as fontes que beberam, nem informavam algo além das simples datações.

Primeiramente, podemos informar a data máxima que para o Espírito Santo teria vindo. Encontramos, meses atrás, a confirmação régia e o registro da Carta Patente de Joaquim Marcellino entre os documentos do Arquivo Público do Estado do Espírito Santo. O Rei Dom João, após o Aviso de S.A.R. de 20 de setembro de 1809, confirmou sua patente de Tenente da 8ª Companhia do Regimento de Milícias em 22 de outubro de 1810, no Rio de Janeiro. Em 13 de outubro de 1811 essa patente foi registrada em Vitória. No texto dessa confirmação acha-se a informação que nos interessa pra fixar a data máxima de seu estabelecimento nas plagas espírito-santenses: "(...) Joaquim Marcellino da Silva Lima, se achar provido por Dom Fernando José Portugal, sendo Governador e Capitão General da Capitania da Bahia, no posto de Tenente da Oitava Companhia do Regimento de Milícias (...)". Fernando José de Portugal e Castro, que depois seria Vice Rei do Brasil e Conde e Marquês de Aguiar, foi governador da Bahia de 1788 até setembro de 1801. Nessa época, a Capitania do Espírito Santo estava subordinada ao governo na Bahia em matéria militar. Assim, considerando que Dom Fernando proveu Joaquim Marcellino com a patente de Tenente na milícia espírito-santense, esse provimento não poderia ter sido feito depois de setembro de 1801. Não encontrei ainda o provimento original, mas com essa informação da confirmação elimina-se o ano de 1802 para sua chegada. E também chancelamos o fato de ter o futuro Barão recebido sua provisão de tenente de milícia antes de ter completado os 20 anos de idade.

E, agora, vamos fixar a data mínima para a chegada do Barão. Como publiquei em minha rede social Facebook há pouco mais de um ano atrás, o pai do Barão, Joaquim José da Silva, era natural de Campos dos Goitacazes, filho de Francisco da Silva Correa e de Maria Luciana de Jesus. Os avós paternos do pai do futuro Barão eram naturais da Capitania do Espírito Santo. A mãe de Joaquim Marcellino, Ana Fernandes Lima, era paulista, filha de Domingos Fernandes Lima e de Cláudia Brígida de Jesus. Joaquim José casou-se com Ana Fernandes, em São Paulo, poucos meses após estabelecer-se naquela Capitania. E pouco tempo após o casamento e o nascimento do filho, o casal estabeleceu-se no Rio de Janeiro, onde Joaquim José foi comerciante; esteve depois em Lisboa por pouco tempo, não sei se só ou acompanhado da família, talvez em função de sua atividade de negociante. Depois que retornou de Portugal, estabeleceu-se em sua cidade natal, Campos dos Goitacazes, onde exerceu a função de Tabelião. E ali ficaria até a sua mudança para o Espírito Santo, na segunda metade da década de 1790.

E por que Joaquim José da Silva mudou-se para o Espírito Santo? Em 1791 estourou no atual Haiti, então colônia francesa de São Domingos, uma revolta de escravos que hoje é chamada de Revolução Haitiana. Essa revolta desorganizou a produção de açúcar do então maior produtor desse artigo; o preço do açúcar, nos anos seguintes, disparou. Muita gente aproveitou a oportunidade e até as autoridades públicas no Brasil incentivaram o aumento da produção e o estabelecimento de novos empreendimentos açucareiros. Houve uma enorme pressão para se explorar novas terras. Foi a partir dessa época que as plantações de cana de açúcar subiram o rio Itapemirim e que o número de Engenhos na região aumentou substancialmente em fins do século XVIII e comecinho do século XIX.

Em Benevente, atual Anchieta (ES), não havia nenhum Engenho até essa época. Formada a partir de uma Missão Jesuíta, a maioria de sua população era de indígenas étnicos, já bem aculturados e que eram, também, súditos do Rei. A Vila tinha sua Câmara e autoridades, e parte de suas terras eram repartidas pelos moradores em lavouras basicamente de subsistência. A pesca também era uma importante atividade, bem como a extração de madeira nas florestas ao redor. Mas, com a pressão para se abrirem novas plantações de cana de açúcar para alimentar novos Engenhos, as terras começaram a ser ocupadas por "brancos".  Alguns, no início, com licença da Câmara; outros, depois, comprando posses dos locais. Esse último foi o caso do pai do futuro Barão.

Em janeiro de 1797, já tendo perdido o cargo de Tabelião em Campos, Joaquim José comprou no lugar do Iriri, em Benevente, uma pequena porção de terras, com um pequeno sítio e umas tênues benfeitorias, de um mulato casado com uma índia, chamado Francisco Xavier. Isso sem licença da Câmara. E logo depois se introduziu na gleba, apossando-se das terras circundantes e inquietando os índios seus vizinhos, "trabalhando e cultivando as terras dos seus vizinhos e nacionais da terra que há tanto tempo estão ali estabelecidos" e "querendo apoderar-se das terras dos vizinhos índios (...) antigos possuidores". Os moradores locais peticionaram reclamando junto as mais altas autoridades mas, apesar de uma reprimenda do Ouvidor aos novos ocupantes, o processo foi irrefreável. Em poucos anos, grandes fazendas de cana de açúcar abasteceriam vários Engenhos na região. Em pouquíssimo tempo Joaquim José formou suas plantações e bem brevemente ergueu seu Engenho. Esse foi o gérmen da formação da Fazenda das Três Barras, que depois pertenceria ao nosso futuro Barão de Itapemirim a partir de 1807.

Assim, contada essa historinha supra, temos documentos que informam a data da chegada do pai de Joaquim Marcellino no Espírito Santo, mais propriamente em Benevente. Janeiro de 1797. Teria vindo o futuro Barão junto com seu pai? Teria permanecido um pouco mais em Campos, e chegado depois entre 1798 e 1801? Se aqui se estabeleceu em 1797, teria chegado com 16 anos de idade. Rezam as crônicas que recebeu a patente de Tenente com 17 ou 18 anos. Assim, dando crédito a essas fontes, sua chegada em nossas terras espírito-santenses parece que deu-se entre 1797 e 1799.

Dez anos depois de iniciar a formação de sua fazenda e engenho, Joaquim José da Silva e sua mulher venderam sua "fazenda com fábrica de açúcar no lugar denominado as Três Barras" para seu próprio filho Joaquim Marcellino da Silva Lima, pela quantia de nove contos e seiscentos mil réis, com pagamento à vista de um conto e quatrocentos mil réis e sendo o restante pago em prestações pelos próximos anos. Pagamento bem facilitado. Ainda não faço ideia do porquê que o pai do Barão vendeu a sua fazenda para o próprio filho. Antecipação da herança? Meio de legitimar as terras? Joaquim José da Silva voltou para Campos, onde faleceu em 1812. A referida fazenda se achava devidamente medida e demarcada, embora não tivesse confirmação. Junto com a fazenda também estavam incluídos na compra 12 escravos e 50 bois e 4 vacas, além de outras coisas mais e um sítio no lugar denominado Jagatiba. Em 1819, Joaquim Marcellino recebeu como Sesmaria as terras que estavam sob sua posse, e pouco mais tarde as confirmou.

E agora, ao terminar, o leitor pode se perguntar: "Tá bem, mas e daí? O que mudou em relação ao que se conhecia antes?" "Não muita coisa, prezado leitor", respondo eu. Antes, presumia-se que Joaquim Marcellino teria vindo para o Espírito Santo em 1798 ou 1802, ou entre esses anos. Com base nos que acima expus, eu não presumo, mas afirmo que teria chegado entre 1797 e 1801. Antes, ninguém citou a fonte onde bebeu: hoje, tenho as fontes comigo. Historiador não pode "chutar", mas se fosse para "chutar" uma data eu "chutaria" o ano de 1797. Feeling. E o que importa saber quando foi que o Barão de Itapemirim chegou ao nosso torrão? Qual a importância disso? Não muita. Mas, como pesquisador e historiador que sou, gosto e me atento muito a esses detalhes. Posso apenas dizer que, de importante para a nossa história, temos o fato de que a família de nosso futuro Barão residia em Campos antes de vir para o Espírito Santo, na esteira de vários campistas que fizeram o mesmo caminho para abrir lavouras de cana de açúcar e engenhos no sul do nosso atual Estado. Praticamente todo o know how e os capitais que foram investidos para fundar os engenhos de açúcar em Itapemirim e arredores, no século XVIII e início do XIX, foi campista. E, também, acabamos por aprender um pouco mais sobre a colonização de nosso solo, bem como sobre os problemas que os índios étnicos sofreram no Espírito Santo, quando foram sendo forçados a deixar ou vender de suas terras.

Pesquisa e texto:

Gerson Moraes França