quarta-feira, 26 de março de 2014

Páginas de Nossa Terra - Grinalson Medina

Pois é... final de março. Desde novembro do ano passado, quando postei meu último "artigo", muita coisa aconteceu em minha vida. Enfim, aproxima-se o final das "férias" (ou recesso, como a UFES denomina essas "férias extemporâneas"), e eis que reapareço por aqui.

O assunto de hoje é daqueles que são insignificantes para os "leigos". Para os leitores de história que não são envolvidos com a "Academia", via de regra, tanto faz o que abaixo colocarei. Mas para aqueles que se envolvem mais diretamente com a historiografia do Município de Mimoso do Sul e do antigo Município de São Pedro de Itabapoana, o assunto é relevante, em minha opinião. Ao menos para mim, um (pretenso) historiador de nossas plagas, a matéria é interessante.

Trata-se da data real de publicação da obra "História do antigo município de São Pedro do Itabapoana, Estado do Espírito Santo: páginas de nossa terra, 1534-1931", de autoria do escritor e jornalista são-pedrense Grinalson Francisco Medina. Confesso que, quando eu ainda não estava na "Academia", para mim esse era um assunto pouco importante e até de fácil resolução: afinal, a data 1961 encontra-se impressa logo na capa na obra. Mas...

Mas eu topei com as obras de escritores e historiadores, todos sérios, competentes e reconhecidos no meio, que traziam dúvida no que toca à data de publicação da obra objeto do presente "artigo".

A primeira obra que me deixou confuso foi "O Vale do Itabapoana e a História de São Pedro do Itabapoana e São José do Calçado" (EDUFES, 1997), de autoria conjunta do jurista e historiador Milton Teixeira Garcia e da historiadora Maria Lúcia Teixeira Garcia. Nas referências bibliográficas do livro, aparece apenas um
 (s.n.), deixando transparecer que a obra de Medina não trazia elementos para sentenciar referência de editora e de data, embora no texto do livro fosse feita a referência de 1941. Tive contato com essa obra no final de 1998.

Pouco mais de dez anos depois, em 2009, foi lançada a obra 
"São Pedro do Itabapoana: Patrimônio, Memória e Identidade Sul Capixaba", do escritor Marcelo Pedrosa Pereira. Nesta, a referência é específica e conclusiva: editora Viper, Rio de Janeiro, 1961. Tal como eu havia visto na obra original que, por sinal, possuo uma cópia. Até citei-o em um artigo que publiquei em dezembro de 2009, adotando a data de 1961 para a publicação da obra de Medina. Mas (sempre o "mas")...

Mas em 2010 foi publicado o livro "O Espírito Santo na Era Vargas (1930-1937) - Elites políticas e reformismo autoritário" (FGV Editora), do historiador Fernando Achiamé. E lá, nas referências bibliográficas, estavam um [s.l.] e um [s.n], afora um [1932?], demonstrando através de um sine nomine e de um sine loco que tanto a editora, quanto o local, eram desconhecidos; idem em relação ao ano de publicação, com uma interrogação e o ano de 1932.

Ora, os mestres Teixeira Garcia e Achiamé, para mim, são referências que devem ser muito respeitadas. Se ambos levantaram dúvida acerca da data de publicação, é porque algo precisava ser elucidado ou apurado. Teixeira Garcia, que publicou a primeira obra trazendo essa dúvida, tinha ainda um
 plus no que toca à questão: foi ele quem recebeu os "arquivos" de Grinalson Medina pouco antes desse último falecer, na década de 1980. Esses documentos estão hoje, salvo engano, guardados na sede do IHGES, conforme o próprio narrou-me em conversa por telefone, anos atrás.

Por fim, até o
 Google alimentava a confusão. Há duas referências no "catálogo" de livros do Google, em relação à data da publicação da obra de Medina. Uma está [196?] e a outra está [193?], embora nessa última traga a informação da editora: Viper Artes Gráficas.

Pois é, leitor. Essa "bobeira" me incomodava. Afinal, quando foi publicada a obra de Medina, trabalho pioneiro e referência obrigatória para quem pesquisa e estuda a história de São Pedro do Itabapoana? 1932? 1941? 1961?

E nessa semana eu consegui, finalmente, e ao menos em tese, chegar a um veredito. Veredito temerário, mas que parece verossímil. E esta sentença está fundada em um discurso feito pelo então deputado federal muquiense Dr. Dirceu Cardoso, da tribuna da Câmara dos Deputados, que abaixo reproduzo na íntegra:

Anais da Câmara dos Deputados - 1961 - Volume 35 - Página 697
296ª sessão, em 14 de dezembro de 1961(...)
O SR. DIRCEU CARDOSO (para uma comunicação)*
Sr. Presidente, Srs. Deputados, enriqueceram-se as letras de meu Estado, com a vinda a lume, na semana passada, da monografia "A História do antigo Município de São Pedro do Itabapoana", de autoria do publicista, jornalista e poeta Grinalson Francisco Medina. São Pedro do Itabapoana era um velho município de  meu Estado, que perdeu sua sede municipal e a cabeça da comarca, com a transferência desses serviços para o próspero e grande Município de Mimoso do Sul, de que ele se tornou distrito.
Assim, Sr. Presidente, foi com indizível satisfação que relemos as páginas de São Pedro de Itabapoana, página de nossa terra, de autoria de Grinalson Medina. E daqui quero enviar minhas saudações ao povo de São Pedro de Itabapoana, que perdeu as regalias da sede municipal e de sua comarca e hoje se transformou no Município de Mimoso do Sul. Mas hoje a cêpa das famílias é a mesma, o heroísmo da gente que rasgou a civilização no Sul do meu Estado é o mesmo daquela população progressista, que tem os olhos voltados para a grandeza de nossa terra e de nosso Estado.
Assim, as minhas congratulações ao povo de São Pedro pela revivência, pela relembrança, pela homenagem que seu ilustre filho Grinalson Medina prestou àquele povo, lançando a lume páginas de nossa história, através de São Pedro de Itabapoana.
Mas, Sr. Presidente, quero narrar um episódio que nas páginas históricas de outros povos seria, de fato, registrado. No dia em que as forças da Revolução de 30 foram buscar os papeis para a transferência da sede do município e da comarca,  o sino da igreja deveria chamar os fieis para a última missa do Município e Comarca de São Pedro. E parece que foi a voz de Deus que quis falar pela voz do sino. No primeiro repique o sino da Igreja de São Pedro rachou e não transmitiu sua voz ao povo chamando-o para assistir à última missa da sede do Município e da velha Comarca que se transferia. Aqui ficam, pois, Sr. Presidente, as minhas saudações a Grinalson Medina, pela homenagem que prestou ao glorioso, ao progressista povo de São Pedro de Itabapoana, no Estado do Espírito Santo. (Muito bem).

Resta clarividente, ao menos para mim, diante do discurso acima e da data da sessão, que o livro "História do antigo município de São Pedro do Itabapoana, Estado do Espírito Santo: páginas de nossa terra, 1534-1931", de 134 páginas, foi publicado no ano de 1961, conforme referenciou o autor Marcelo Pedrosa em seu trabalho. A editora também não seria mais mistério: Viper Artes Gráficas, Rio de Janeiro. Assim, caro escritor ou acadêmico, ao referenciar a obra de Grinalson Medina em alguma bibliografia, o faça do seguinte modo:

  • MEDINA, Grinalson Francisco. Historia do antigo município de São Pedro do Itabapoana, Estado do Espirito Santo - páginas de nossa terra. Viper Artes Gráficas: Rio de Janeiro, 1961.


Gerson Moraes França



quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Ossos do Ofício

Procurei um "título" melhor para esse post, mas foi esse aí que me veio à cabeça. Desculpe-me pela falta de criatividade, leitor. Mas eu sou daqueles que privilegia o corpo, e não liga muito para a a forma. Agrada-me mais o que há na leitura, do que um título bem formulado.

Após esse irrelevante e dispensável intróito, vamos lá.

É interessante como pesquisar a história, às vezes, é incômodo. Ao contrário daqueles que formulam hipóteses e buscam as fontes para confirmá-las (e, às vezes, até moldá-las para que se "encaixem" em suas teorias), eu prefiro fazer o caminho inverso: primeiro eu vou até as fontes, e depois, com base nas mesmas, eu formulo minhas hipóteses e teorias. E, nesse caminho, por vezes encontramos fatos e acontecimentos que desconstroem teorias já formuladas e arraigadas no espírito de uma pessoa, ou comunidade.

E é isso que, por vezes, gera incômodo em alguns. Ora, eu sempre primei por descobrir a "verdade histórica" das coisas. Hoje, estando já na metade do curso de História pela UFES, entendo que, de certo modo, não existe "uma" verdade, mas sim várias, dependendo do ponto de vista. De todo modo, esse relativismo não pode ser levado ao infinito. Há fatos que, por si só, encerram explicações lógicas que ficam à frente de qualquer "verdade" individual ou ideológica.

Quando tratamos de assuntos gerais, o incômodo bate naqueles que detém o "monopólio da verdade" na comunidade. Tendo construído, ou recebido por "osmose", uma explicação, os detentores da verdade ficam incomodados com qualquer desconstrução de suas verdades. Claro que isso não pode ser generalizado: há aqueles que enxergam essas inovações, ou reconstruções, com bons olhos. São os que querem saber a história tal como ocorreu (ou o mais próximo do que ocorreu), e são os apaixonados pela história. Às vezes, geram ricos debates. Não importa para eles se alguma verdade será desconstruída, ou algum ego será cutucado; querem saber, por simples questão de paixão pela história ou pelo conhecimento. Não cultuam verdades imutáveis, nem egos inflados. Já os teimosos detentores da verdade sentem-se ameaçados, ou algo do gênero; eu não sei ainda explicar o porquê dessas posturas, à não ser pelo caminho do culto do ego.

Quando tratamos de personalidades, aí a coisa pode se tornar até passional. Temos, em geral, o costume de elevar nossos antepassados em um pedestal imaculado, e cultuar uma memória sempre ilibada e progressista. Quando alguém mostra que uma personalidade é uma pessoa comum, como eu e você, e que às vezes essa personalidade tinha "defeitos", como todos têm, logo vem um "beiço de lado". E quando mostramos as "safadezas", ou as práticas não louváveis... sai de baixo. Já tive essa experiência algumas vezes, ao tratar de algumas personalidades. Seus "defensores" saem de qualquer sombra para preservar a memória do mesmo, como se ao mostrarmos o lado humano do suposto "titã" estivéssemos cometendo um sacrilégio, ou como se fôssemos macular a honra do "herói". Esquecem-se de que todo ser humano (e esses "titãs-heróis" o são, pasmem!) está imerso em uma realidade tida como "comum" para determinadas época, e que julgá-los com os olhos do presente é um simples anacronismo.

E dessa última parte, posso citar-me como exemplo. Vou cortar na própria carne, até para ilibar-me de futuras considerações sobre personalidades quaisquer - ninguém poderá me acusar de ferir a memória de alguém e não olhar para o meu "próprio rabo". Minha memória foi construída de modo a crer que o meu trisavô era um desses "heróis-titãs", rico coronel autoritário desbravador (isso parece que pode... dá certo glamour ter um "mandão" na família, em nossa cultura autoritária brasileira) que levou o progresso em uma localidade. Quando, ao pesquisar nas fontes primárias, eu notei que meu trisavô era uma pessoa "normal", com qualidades e defeitos, e que estava imerso em um sistema vigente de uma época (rico coronel autoritário, sim, mas que fraudava eleições, explorava trabalhadores, tomava terras de pequenos sitiantes, dentre outras práticas típicas da época que eram levadas a efeito por quase todos que estavam na mesma posição que ele), ao invés de ficar "chateado" e esconder essas informações, eu fiquei estasiado e divulguei no seio de minha família. Um, ou outro, "dobrou os beiços"...

Por fim, olha que coisa interessante. Eu, pelo menos, achei interessante. Certa vez, pesquisando sobre uma personalidade X, "descobri" que ele havia matado um colega de pensão (hoje, seria um colega de república) quando estava em uma capital cursando sua faculdade. O fato causou repercussão, e ele foi julgado e absolvido. Ao que parece, e tudo leva a crer que essa foi a verdade (até pela reação da família do estudante morto), a morte ocorreu por acidente, quando os dois estudantes manuseavam uma arma que um deles tinha em sua posse. Ambos eram amigos, e haviam convivido na mesma localidade, em outro Estado, na infância.

Ao "descobrir" esse fato, ao que parece nunca falado (ou esquecido) no seio da família da personalidade, relatei-o para um seu descendente. Este, que não conhecia o fato, encarecidamente me pediu para não contar isso para ninguém, pois os filhos da personalidade estavam muito velhinhos e, caso não soubessem do fato, poderiam entender mal. Segui a orientação, e calei-me. O mais interessante é que, depois dessa morte acidental, o estudante pesquisado mudou de cidade e, consequentemente, de faculdade; nesse novo ambiente, ele mudou até sua preferência religiosa. E a nova opção me pareceu uma consequência do fato, embora isso eu não possa afirmar com certeza. Até hoje, parte de sua família acredita em dogmas dessa religião, num sincretismo com o catolicismo.

Retirar as camadas de areia que encobrem fatos esquecidos não é tarefa fácil, ainda mais quando contrariam verdades e/ou cutucam suscetibilidades. Alguém perde com isso? Se sim, quem perde? Perde o passado? Para mim, perde o presente e o entendimento de nossas realidades.

Termino por aqui.

Gerson Moraes França

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Projetos Pessoais

Reiniciando projetos pessoais. Assim está meu espírito no dia de hoje.

Ao iniciar a faculdade de História pela UFES, meu tempo para pesquisa diminuiu; sem falar no meu tempo para escrever. Os reflexos foram sentidos diretamente no meu BLOG. Afinal, tenho que pesquisar e escrever sobre as matérias que estou cursando na universidade.

Nesse meio tempo, envolvi-me com outros três projetos. Usava meu "tempo livre" para "dar conta". O primeiro, que durou apenas alguns poucos meses, foi com historiador Fernando Achiamé. O segundo, que durou até o dia de hoje (e que, por isso, aqui venho escrever e registrar), foi com a memorialista e escritora Sandra Cirillo. O terceiro, que ainda está em andamento, é o projeto de minha iniciação científica, com o professor Luiz Claudio Ribeiro. Este último, porém, é parte de minha vida acadêmica e, como tal, encaro como parte de minha formação profissional.

Pesquiso a história do Espírito Santo e, em especial, a do sul do Estado, há quase quinze anos. Reuni muito material que, agora, preciso transformar em obras. Afinal, de nada adiantará tanta pesquisa se eu não confeccionar algo sobre elas.

O BLOG ajuda a colocar parte dos resultados das pesquisas, em forma de pequenos e médios artigos. Mas, na verdade, preciso escrever livros. Obras mais extensas, com sentenças e conclusões.

Tenho vários projetos pessoais, alguns em estágio bem avançado. Uns já iniciei os escritos; outros já terminei as pesquisas. Infelizmente (coisa de geminiano, talvez), tenho a mania de me envolver em mais de um projeto ao mesmo tempo. Mas, como disse mais acima, meu envolvimento com a faculdade e com projetos outros fez com que eu brecasse a confecção de meus trabalhos.

Abaixo falo um pouco sobre cada um deles.

O meu primeiro projeto pessoal de pesquisa foi sobre a Revolução de 1930 e a mudança da Comarca e sede municipal de São Pedro do Itabapoana para o então distrito de Mimoso. Esse projeto já está com a pesquisa terminada, e já iniciei a confecção dos escritos. Há muita informação nova, inédita, e que irá mudar a concepção até hoje arraigada pelos trabalhos historiográficos que abordam o tema.

Outro projeto, que se desenvolveu a partir do primeiro, é sobre a Revolução de 1930 no Estado do Espírito Santo. Esse projeto ainda está em andamento no que toca as pesquisas, principalmente depois que a internet abriu novas possibilidades de "garimpar" fontes. Mas as conclusões e sentenças já estão terminadas, faltando agora escrever sobre elas. Em minha opinião, a obra, se concluída, contribuirá bastante sobre os acontecimentos específicos da época no Estado.

Um outro projeto é sobre a ocupação do sul do Estado, em especial a ocupação do vale do médio Itabapoana, pelos "colonizadores", ou "pioneiros", conforme queiram. Acaba sendo uma obra de resgate, considerando que muitos dos fatos do processo de ocupação foram esquecidos. Serve também para desfazer mitos e reconstruir sentenças. Será uma obra interessante, se também for concluída um dia.

É claro que, me dedicando ao processo de ocupação do médio Itabapoana, bem como à mudança da Comarca para a atual Mimoso do Sul, enveredei-me por pesquisar a história geral desse torrão. E daí nasceu outro projeto, que é a da confecção de uma "história geral" de Mimoso do Sul. A intenção é fazer uma obra leve, até porque o tema é muito amplo. Quiçá, fazer algo que possa ser utilizado pelas escolas, seja como obra didática, seja como fonte de pesquisa.

Esses são meus principais projetos pessoais. É claro que, como pesquisador apaixonado e inveterado, pesquiso temas muito mais diversos sobre o Espírito Santo. O início da colonização do Espírito Santo, o seu "desenvolvimento" com o passar dos séculos, etc. Mas esses temas não seriam suficientes, no meu entender, para produzir uma obra maior; artigos seriam suficientes.

Bom, é isso aí. Mais uma vez, escrevi sem corrigir. Erros de concordância, de português ou de digitação certamente passarão.

Gerson Moraes França

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Dona Lygia

Acabei de saber do falecimento de Lygia Bicalho Martins, a Dona Lygia.

Avó de meus meio-irmãos, que não são de sangue, mais são de coração. Apesar do distanciamento que vivemos após a separação de nossos pais, é enorme o carinho e o afeto que possuo em relação à eles. Tenho saudades. Assim, e por ter convivido com Dona Lygia em alguns momentos de minha vida, sinto-me triste pela sua partida.

Os rumos da vida nos distanciam de pessoas que foram marcantes em algum tempo de nossa existência. Mas é interessante como, pelo menos no meu caso, parece que o tempo nem passou quando reencontramos essas pessoas. Infelizmente, não poderei mais reencontrar Dona Lygia nesse mundo; somente quando eu, também, passar para a eternidade.

Conheci Dona Lygia quando eu tinha uns 15 anos de idade. Nessa época, eu passava as férias de verão em Marataíses, na casa do Orlando, filho de Dona Lygia e pai de meus meio-irmãos. Tempos muito bons, naquela casinha em frente da praia, que a areia tocava a varanda e o mar servia de primeira vista do dia.

Vez por outra, em Mimoso, eu a visitava. Sempre, é claro, acompanhado de algum de meus meio-irmãos. Dona Lygia foi muito receptiva para comigo, e me tratava com atenção e, mesmo, com carinho. Ela não era minha avó, mas naqueles tempos eu a considerava como se fosse algo do gênero; com meus pais recentemente separados, e indo eu viver com meu pai, que por sua vez estava vivendo com sua nova companheira, acabei por me afastar um pouco da minha família materna. Talvez por isso eu fizesse refletir esse "sentimento de neto" nos avós de meus meio-irmãos, com os quais passei a conviver mais estreitamente.

Para além da convivência aleatória de verão na casa de praia em Marataíses, e das visitas que fazia à sua residência, cheguei a me hospedar por umas duas semanas na sua bela casa em Mimoso. Foi na época que nossos pais estavam reformando a casa onde viviam. Meu meio-irmão mais novo tinha um certo medo da casa de Dona Lygia, quando anoitecia. A casa era vizinha do pequeno cemitério, coberto de mato, da Capelinha. Nesses dias da reforma, dormíamos lá; e morríamos de medo! Foi durante essas semanas que eu pude conhecer melhor a Dona Lygia, com sua bondade e atenção. Foram nesses dias que meu avô materno, Octacílio, faleceu; e foi Dona Lygia quem me deu a notícia. Afastado que eu estava de minha família materna, não fui ao sepultamento de meu avô, em Muqui. Até hoje me culpo por isso.

Quando meu "espírito de historiador" mimosense aflorou, com uns 19 anos de idade, Dona Lygia foi a minha primeira "fonte oral" para os assuntos mais antigos da cidade. Fiz três entrevistas com ela, em anos distintos, já usando, sem saber, de metodologias que aprendemos na faculdade, para fazê-la situar no tempo e facilitar suas memórias. O primeiro "mapinha" que fiz de como seria Mimoso em 1930 foi usando os seus apontamentos. Prova de sua boa memória foi que, posteriormente, quando aprofundei minhas pesquisas, nenhuma das informações que Dona Lygia me narrou foi contraditada.

Lembro-me bem dela esclarecendo os pontos que eu indagava, e também das histórias que ela se lembrava aleatoriamente. Uma dessas histórias, que a marcou, foi quando foi mordida por um macaquinho, daqueles de realejo, na época que Mimoso ainda era distrito de São Pedro. A impressão de povoado enlameado, que eu já tinha lido nas memórias de Dona Leonor, foi por Dona Lygia bem colorida e clarificada em minha cabeça, com narrações tão vívidas que me senti como se estivesse vivendo aqueles tempos da década de vinte. Os sapatinhos, sempre sujos de lama quando chovia, embora tudo fizessem as mocinhas para evitar esse contratempo.

Em uma dessas entrevistas, Dona Lygia leu, para mim, vários pedaços de uma obra que estava escrevendo. Acompanhei tudo com uma atenção que poucas vezes eu havia manifestado, até então. Imagino que esses escritos estejam guardados, prontos para publicação; quiçá já se tornaram livro. As memórias que possuo de Dona Lygia são muitas. Meu caderno anotado com as entrevistas que fiz com ela estão guardados, esperando o dia que eu consiga publicar algo sobre a História de Mimoso.

Dona Lygia conheceu o meu avô Gerson, quando este morava em Mimoso. Ela me disse que frequentava a casa onde o Seu Bené e a Dona Gerviz, meus bisavós, moravam. Ela era amiga de uma das irmãs de meu avô. Essa casa é a residência onde, atualmente, mora o Fernando Resende. Tinham todos que tirar os sapatos quando entravam. Ela me disse que ficava maravilhada com os vidros coloridos das janelas, e como a luminosidade do ambiente interno era modificado de acordo com a posição que as janelas eram colocadas. Disse-me que meu avô era muito alegre, espontâneo e extrovertido, e que cantava muito bem. Disse-me que a casa era muito bonita e arrumada, e que eram todos "gente muito chique". Rsrs!

Enfim, aqui foi minha humilde homenagem à Dona Lygia, e o impacto que ela teve em minha vida. Escrevi sem revisar o texto, e sem corrigir os erros de português ou de concordância. Deixei meus pensamentos fluírem, e os fui colocando no "papel virtual", sem maiores preocupações semânticas.

Ao Orlando, à tia Ponka e ao tio Kiko; aos meio-irmãos Deco, Gugu e Daniel; aos primos Ricardinho, Digo e Luma, ao Arturo e outros netos; ficam aqui meus sinceros sentimentos.

Gerson Moraes França

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Parei com o Blog?

Alguns amigos me procuraram, perguntando-me se havia parado com o Blog. Sempre respondo que não. Continuo com o Blog, embora ele esteja estagnado já há uns bons meses.

O que ocorre é que, atualmente, estou em processo de formação no curso de História da UFES. E, acreditem, o curso me toma muito, muito tempo. Para poder me dedicar totalmente ao curso, com as cargas gigantescas de leituras, trabalhos e provas, não tem me sobrado tempo para publicar algo que eu considere bacana.

Para quem acha que o curso de História é mole, aproveito pra dizer, com toda certeza: não, não é mole! Inclusive, está exigindo muito mais de mim do que o curso de Direito me exigiu. Sorte é que amo a História, e me dedico com prazer aos estudos.

Estou ainda no terceiro período do curso, mas já comecei a minha iniciação científica. Um projeto que já estava em andamento, mas que me apaixonei, pois se trata de um estudo dentro da História do Espírito Santo. Gosto de todas as áreas da História; algumas, gosto menos, outras, gosto mais. E Espírito Santo é algo que sou apaixonado.

Então é isso. O Blog continua, mas provavelmente será "alimentado" assim, bem de vez em quando, sem compromissos. Afinal, isso aqui é, antes de tudo, apenas uma diversão para mim.

Um grande abraço,
Gerson Moraes França

terça-feira, 13 de novembro de 2012

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Corrigindo um Artigo

Por esses dias, em um dos grupos do Facebook que têm como foco o Município de Mimoso do Sul, foi publicado um pequeno artigo sobre a história deste torrão. Logo percebi os erros e equívocos, e "pedi um aparte", que me foi gentilmente concedido. É complicado retificar informações errôneas, pois podemos ferir susceptibilidades e egos. Mas, penso, é meu dever como pesquisador e, principalmente, como futuro historiador, corrigir o que noto de equivocado. Não é minha intenção "ser melhor", ou "aparecer"; só desejo que a nossa história, a nossa verdadeira história, seja retratada o mais fielmente possível com o que realmente foi no passado.

Resolvi, então, registrar tal fato, bem como o artigo e minhas correções, aqui no BLOG. Não sei quem escreveu o artigo em questão, mas espero que a pessoa não se chateie comigo.

Abaixo, o
ARTIGO:

MIMOSO DO SUL
No dia 26 de Novembro de 2004 o município de Mimoso do Sul, localizado ao sul do Espírito santo, comemora o seu aniversário de emancipação política: 74 anos já que isto aconteceu em exatos 26 de novembro de 1930.
Porém, a história do Município origina-se de datas bastante remotas:
1776 – sesmaria que havia pertencido aos jesuítas é arrematada em hasta pública por Antonio Pereira da Silva. Dá-se o início ao núcleo de povoamento, sendo os povoadores procedentes de Minas Gerais e Rio de Janeiro.
Os desbravadores favoreceram-se da fertilidade do solo, dedicando-se ao cultivo de café, mas depararam-se com fortes obstáculos da malária que graçava aquela época. Fixaram-se à margem esquerda do rio Itabapoana,no atual distrito de Dona América.
1852 _ surgimento do povoado de São Pedro que mais tarde tornou-se sede do Município com o nome de São Pedro de Alcântara do Itabapoana; território que foi desmembrado de Cachoeiro de Itapemirim em 29 de Julho de 1887, tendo em vista a distância que o separava da Sede Administrativa, além do patrocínio de destacados elementos locais. De uma vila saltou para uma cidade, tornando-se a sede municipal, agora sendo chamada de Monjardim (05 de Junho de 1891). Em 1º de Março de 1892 o município voltou a chamar-se São Pedro do Itabapoana.
Atualmente, São Pedro que tornou-se um dos distritos que compõem o Município foi tombado como SÍTIO HISTÓRICO pelo Conselho Estadual de Cultura desde 1987. Os interessados poderão conferir casarios, calçamentos e fazendas, num conjunto de construções datadas do século XIX.
Lembramos que neste distrito vem ocorrendo o “Festival de Inverno de Sanfona e Viola” que apresenta-se como o maior evento turístico do município.Durante sua realização a região é visitada por turistas de várias partes do Brasil.Vale conferir.
Já a atual sede do Município, Mimoso do sul, teve o seu início histórico paralelo a São Pedro. Entre seus principais acontecimentos destacamos:
1852 _ Em 11 de outubro de 1852, o Capitão Pedro Ferreira da Silva compra em Campos_RJ a fazenda Vale Mimozo ; registrada no arquivo público em 1865, recebendo a Garantia de Posse pelo Presidente do Espírito Santo, Dr Muniz Freire, em 1896. Esta garantia de posse se faz necessária já que a sede da Fazenda havia se tornado distrito de São Pedro do Itabapoana em 1892.
1930 _ O Brasil está em pleno movimento revolucionário, com a queda da República Oligárquica, iniciando a Era Vargas. Esses movimentos fomentaram um grupo revolucionário local que chefiados pelo Dr Gonçalves Ferreira destituiu o Prefeito de São Pedro e fez dissolver a Câmara Municipal.
Em 02 de Novembro de 1930 uma caravana constituída de 13 caminhões, chefiada pela autoridade do Sr Waldemar Garcia de Freitas trazia de São Pedro os arquivos das repartições públicas da agora antiga sede do município. As várias tentativas junto ao governo Estadual para reverter a situação foram em vão.
É importante sabermos que entre 1865 a 1920, São Pedro vinha registrando decréscimo populacional contra o crescimento de Mimoso que foi favorecido pela estrada de ferro.
A povoação de Mimoso do Sul foi elevada à categoria de cidade em 26 de Novembro de 1930, com o nome de João Pessoa.
Em 13 de Dezembro do mesmo ano a Junta Governativa que era presidida pelo próprio chefe revolucionário é substituída pelo Prefeito nomeado, Sr Pedro José Vieira.
A partir de 31 de Dezembro de 1943, o município passou a chamar-se Mimoso do Sul.
Além da sede Mimoso, o município é composto pelos distritos de Conceição do Muqui, Dona América, Ponte do Itabapoana, Santo Antonio do Muqui, São José das Torres e São Pedro do Itabapoana (sede até 1930).
O nome Itabapoana que acompanha dois distritos mimosenses vem do rio de mesmo nome que é utilizado como limite dos Estados do Espírito Santo com o Rio de Janeiro. Palavra de origem indígena que significa “pedra empinada da aldeia do barulho das águas”. Além de Itabapoana, os índios lhe davam outros nomes, entre eles Managé.
Este nome (Managé) passou a ser utilizado no “Projeto Managé”, criado em 1997, coordenado pela Universidade Federal Fluminense. Participam os Estados do Espírito Santo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, num total de 18 municípios. Este projeto tem como finalidade a tomada de decisões que busquem melhorar a qualidade de vida de todos os moradores da região. Lembrando que os 18 municípios que fazem parte do projeto compõem a Bacia Hidrográfica do Rio Itabapoana.
De 1930 para cá, o município de Mimoso do sul, teve os seguintes prefeitos:Pedro José da Costa, Luiz de Lima Freitas, Jasson Martins (por 2 vezes), Aníbal Ataíde, David Fidalgo, José Fernandes Tâmara, Carlos Figueiredo Cortês, Joaquim Perciano de Oliveira, Rubens Rangel, João Maxmiliano Guarçoni (por 2 vezes), Darcy Francisco Pires, Domingos Guarçoni, Fernando José Coimbra de Resende (por 2 vezes), Pedro José da Costa, Benedito Silvestre Teixeira (por 2 vezes), Ronan Rangel, José Carlos Resende. A esta lista será acrescentado o nome de Flávia Roberta Cysne Novaes, eleita prefeita nas últimas eleições.
A população de Mimoso é formada por descendentes de sírios-libaneses, espanhóis, portugueses, italianos e outros.
O município de Mimoso do Sul escolheu o 2° Domingo de Julho para realizar a “Festa Magna da Cidade”. Inicialmente essa festividade possuía um cunho social-religioso comemorando o aniversário da Paróquia até os 60 anos. O crescimento das solenidades públicas foi tanto que a coordenação paroquial não conseguiu detê-las e a festa tornou-se tradicional e popular, representando atualmente no período onde mimosenses ausentes utilizam para matar saudades de sua terra e rever familiares e os amigos que aqui ficaram.


Agora, as minhas
RETIFICAÇÕES:

1 - A Fazenda Muribeca foi arrematada, em 1777, pelo padre José da Cruz e Silva, e não por Antônio Pereira da Silva; Antônio Pereira da Silva Vianna era cunhado do José da Cruz.
‎2 - A Fazenda Muribeca tinha como limites, embora não demarcados, as serras do contraforte das Torres, abarcando o vale do Rio Preto. Daí em diante, Itabapoana acima, os terrenos eram devolutos. A contribuição dos donos da Muribeca para o povoamento do Itabapoana foi nulo, e inclusive dificultaram o estabelecimento dos primeiros moradores da Barra do Itabapoana.
‎3 - O povoamento de nosso Município não começou no século XVIII, mas sim na metade do século XIX.
‎4 - A garantia de posse da Fazenda Mimoso, em 1892, não foi porque Mimoso havia se tornado sede de Distrito, mas sim porque todas as propriedades, sejam elas posses legítimas ou não, foram obrigadas à regularizar sua situação junto ao Governo do Estado. Isso porque todas as terras devolutas, com a Proclamação da República, tornaram-se patrimônio dos Estados (antes, era do Império - governo central).
‎5 - São Pedro do Itabapoana não perdeu população entre 1865 e 1920. Ao contrário. A cidade de São Pedro cresceu (guardadas as proporções e realidades daquela época) durante quase todo esse período, estagnando apenas na década de 1920. E Mimoso não cresceu logo que chegou a estrada de ferro, em 1895; Mimoso só tomaria grande impulso de crescimento no final da década de 1910, registrando um crescimento extraordinário (para a época) na década de 1920.
‎6 - A palavra "Itabapoana", infelizmente, não significa nada. Sua "tradução" foi levada a efeito por "tupinólogos" do final do século XIX, sem que estes conhecessem a origem do vocábulo. Simplesmente pegaram a palavra e traduziram para o tupi. O nome original, em tupi, do rio, era Camapuan. Os roceiros que se estabeleceram na barra, por corruptela, tornaram Camapuan em Cabapuan, depois em Tabapuan. Camapuan, sim, possui um significado na lingua tupi.
‎7 - Managé foi o primeiro nome do rio, quando o médio e baixo Itabapoana era ocupado pelos goitacases (waitaká). Sua etimologia deve ser procurada nos idiomas do grupo macro-gê, e não no grupo tupi-guarani. O texto não cita, mas a "tradução" que deram para o Projeto Managé" também cometeu o mesmo equívoco cometido acima.

Gerson Moraes França