sexta-feira, 1 de abril de 2011

A Imigração Cearense no Espírito Santo


Flagelados pela seca - Ceará, 1878

O ano foi 1878. No dia 06 de março, "cento e tantos" imigrantes cearenses chegaram à Província do Espírito Santo, fugindo da grande seca que assolava o Ceará e outras regiões do Nordeste. Foram os primeiros de muitos que iriam chegar nos meses e anos seguintes. Até o final do semestre, seriam cerca de dois mil. No final do ano, eram quase cinco mil. Quando a Monarquia chegou ao fim, já eram mais de oito mil os imigrantes cearenses chegados diretamente no Espírito Santo. No final do século XIX,  tinham passado dos onze mil.

Só naquele ano de 1878, cento de oitenta e oito mil cearenses emigraram para várias Províncias do Império, de uma população total de oitocentos mil; cento e vinte mil pessoas morreram naquele ano no Ceará, em virtude da seca. O rebanho de gado da Província foi dizimado em quase noventa por cento.

A imigração cearense em nosso Estado é tema pouco abordado pela historiografia local. Os retirantes não foram alocados em colônias reservadas, como aconteceu com muitos colonos estrangeiros que chegaram no Espírito Santo no século XIX; foram espalhados por todo o Estado, a maioria sendo encaminhada para trabalhar na lavoura. Relativamente, um bom número assentou praça na polícia ou no exército, e alguns foram trabalhar na construção de estradas de ferro. Assim, espalharam-se e integraram-se rapidamente no seio da população capixaba. Não mantiveram uma identidade cultural distinta, embora alguns elementos culturais tenham restado como resquício de sua cultura sertaneja. Apesar de haver sido aventada a hipótese de assentar os retirantes em colônias similares ao modelo adotado para os estrangeiros, tal projeto não foi adiante; foram eles remetidos para localidades já povoadas.

Talvez acima esteja a explicação do porquê que esse importante movimento migratório, que teve grande peso no povoamento do Estado do Espírito Santo, não é tão levantado atualmente. Sem uma identidade cultural diversa e distinta, como temos dentre alguns grupos de imigrantes estrangeiros, os retirantes foram absorvidos pela sociedade e pela cultura capixaba. Assim, não havendo comunidade própria, nunca surgiu um movimento de resgate ou de afirmação comunitário, tal como ocorreu com os descendentes de italianos, alemães e outros imigrantes estrangeiros que vieram para o Espírito Santo no século XIX.

O peso absoluto e relativo da imigração cearense no Espírito Santo foi muito significativo. Para efeitos de comparação, esse movimento migratório, aqui no Estado e em sua época, só foi menor do que a imigração de italianos. Colocando em números redondos aproximados, até o final do século XIX, e considerando os dados de migração direta, vieram cerca de vinte e oito mil italianos, quatro mil alemães e dois mil e quinhentos espanhóis; as outras nacionalidades não chegaram ao milhar, e todas essas somadas não chegaram a três mil, retirados desse cálculo os imigrantes portugueses. Os cearenses, como já dito mais acima, totalizaram um contingente de mais de onze mil imigrantes no período. A população do Espírito Santo em 1870 era de oitenta e dois mil habitantes.

A maioria dos imigrantes cearenses foi para São Mateus. Grande número foi para Itapemirim. Nesses dois Municípios, os retirantes passaram do milhar. Santa Cruz, Viana e Cariacica também receberam expressivo contingente, assim como Serra, Vitória e Guarapari, em escala pouco menor. Em sua esmagadora maioria, eram muito pobres; famílias inteiras chegaram apenas com as roupas do corpo. Mas vieram também algumas pessoas mais abastadas, fazendeiros também acossados pela seca. O flagelo da estiagem alcança ricos e pobres, proprietários e trabalhadores, em medidas diferentes, mas igualmente dolorosas e drásticas.


ELEMENTOS CULTURAIS
POESIA POPULAR - DESAFIO

Os que me acompanham sabem que pesquiso e estudo, de modo mais específico e profundo, a história da região sul do nosso Estado do Espírito Santo. Assim, para exemplificar as reminiscências da cultura sertaneja nordestina no Espírito Santo, reservar-me-ei a faculdade de ficar adstrito aos meus cantados Itabapoana e Muqui, do norte e do sul. Tal não desvirtua a matéria, considerando que essas regiões, então pertencentes ao Município de Cachoeiro do Itapemirim quando da chegada dos retirantes cearenses, foram das que receberam maior contingente desses imigrantes, que para lá se dirigiram após passarem por Itapemirim.

Em 1912, Arquimino Martins de Mattos exerceu o cargo de Interventor do recém criado Município de São João do Muquy. Folclorista, Arquimino observou que existiam elementos culturais nordestinos dentre as manifestações populares da região. Membro da Academia Espirito-santense de Letras, reuniu material e posteriormente proferiu uma palestra na Academia, em uma sessão que homenageava o também folclorista, Desembargador Afonso Cláudio. "Arquimino Mattos, dissertando sobre folclore capixaba, refere que no vale do Muqui e do Itabapoana encontrou a influência dos cantadores do nordeste brasileiro, exercida por esparças colônias de cearenses que ali se domiciliaram". Em sua palestra, mencionou até um "lance de desafio, de sabor acentuadamente nordestino", que segue abaixo:

É de devéra, meu mano,
Devéra vou lhe contá:
Eu já vi uma mambuca
No chifre dum marruá,
Deu sete pipa de azeite,
Três carro de saburá.

O desafio é uma modalidade de poesia popular sertaneja nordestina. Dois cantadores, com viola em punho, na maioria das vezes em tom jocoso ou satírico, improvisam as rimas durante a cantoria. Algumas raízes dessas estrofes tornam-se tradicionais, e passam a integrar os improvisos com certa frequência.

Quando pesquisou em campo, trinta anos depois da chegada dos primeiros imigrantes cearenses ao nosso Estado, Arquimino Mattos encontrou elementos culturais desses nordestinos cearenses que então viviam no Espírito Santo. Tal fato certamente foi marcante para o folclorista, considerando que o mesmo estudou e escreveu sobre o tema, e reservou sua palestra para ser proferida na Academia de Letras em uma ocasião bem especial. Tal como essa manifestação cultural, é muito provável - por que não? - que outras tenham perdurado, e mesmo tenham sido sedimentadas ou amalgamadas na comunidade. A gíria cabrunco, por exemplo, que inclusive foi tratada aqui no BLOG em post anterior, tem origem no vocabulário desses nordestinos. Se procurarmos, é possível - quem sabe? - que encontremos mais palavras ou manifestações que foram trazidas por esses retirantes.


ALGUMAS FAMÍLIAS CEARENSES
NO VALE DO ITABAPOANA

Número significativo dos retirantes cearenses que chegaram ao Município de Itapemirim passaram para Cachoeiro do Itapemirim. Foram direcionados em sua maioria para a lavoura cafeeira, e alguns para trabalhar nas estradas de ferro. E, das regiões de Cachoeiro, o Itabapoana e o Muqui foram das que receberam expressivo contigente. Para essas regiões emigraram, além dos retirantes pobres, alguns proprietários ou comerciantes que, atingidos pela seca, buscavam um novo começo. E assim como também ocorreu com algumas famílias de imigrantes estrangeiros, também houve "imigração indireta": primeiramente estabelecidos em outras localidades, mais tarde vieram assentar-se na região do Itabapoana. Não encontrei (ao menos, ainda) dados específicos sobre a quantidade de cearenses que se estabeleceram na região do vale do Itabapoana, mas, relativamente, foi um número significativo. Todo o vale do Itabapoana, retirando-se apenas a região de Veado (Guaçuí atual), pouco passava dos seis mil habitantes em 1878.

Alguns se tornaram importantes. Em São José do Calçado, por exemplo, radicou-se o cearense Carlos Mourão. Integrou-se à sociedade local, e casou-se com Amélia Teixeira Nunes, filha do coronel Juca Nunes e neta do coronel Antônio Teixeira Siqueira, ambos fazendeiros na região. Desse enlace, nasceu Abner Carlos Mourão, que foi importante jornalista e político capixaba.

Em São Pedro do Itabapoana, estabeleceram-se várias famílias. Ferreira da Costa, Cavalcanti, Aguiar, Feitosa, Gimenes, Sabino, dentre outras, são exemplos de famílias que chegaram em migração direta. A família Cysne, estabelecida mais tarde no distrito de Mimoso, é exemplo de cearenses que chegaram em migração indireta, vindos do Estado do Rio de Janeiro, onde primeiro se estabeleceram.  A maioria dos cearenses que se radicaram na região de São Pedro do Itabapoana era proveniente de Sobral e circunvizinhanças, no Ceará.


"MEUS" CEARENSES

E, como não poderia deixar de ser, reiterando com humor que "o BLOG é MEU", deixei para falar de ascendentes meus nessa parte final. Pois, sim, como "legítimo descendente" dos colonizadores do sul do Estado do Espírito Santo, além de fluminenses do vale do Paraíba e de mineiros da zona da mata, com pitadas de portugueses e uma cereja pury, também sou descendente de cearenses. Serve como exemplo para demonstrar que muita gente que tem família antiga no Itabapoana e nos dois Muqui's pode ter ascendentes cearenses; basta procurar, bem procurado...

De minha parte, minha descendência vem da avó paterna de meu pai, Gervizina Ferreira Cavalcanti (dona Gerviz), casada com meu bisavô Abdenago França (seu Bené). Filho deles foi o meu avô paterno, Gerson Cavalcanti França. Gervizina nasceu em Sobral, no Ceará, filha de Miguel Themístocles Ferreira Cavalcanti e de Amélia Olindina Ferreira da Costa, ambos naturais também de Sobral. Miguel, nascido em 06 de janeiro de 1850, foi proprietário de terras no interior do Ceará. Emigrou com sua família para São Pedro do Itabapoana em 1883, depois da grande seca que assolou sua terra. Faleceu em São Pedro em 16 de março de 1896. Junto vieram outros aparentados, como José Ferreira da Costa e Petronilho Gimenes.

Minha ex-companheira também é descendente de cearenses. O bisavô dela, de nome José Nicodemos Cysne, filho de Joaquim Guilhermino Maria da Costa Cysne e de Maria da Penha Vasconcellos e natural de Santana do Acaraú (próximo a Sobral), também emigrou do Ceará com alguns de seus irmãos. Seu pai Guilhermino foi deputado, jornalista e professor, e proprietário de uma fazenda chamada Jaburú. Migração "tardia", já no século XX. Primeiramente esteve radicado no Estado do Rio de Janeiro, fixando residência depois em Mimoso, então distrito de São Pedro do Itabapoana, na década de 1920. Foi médico e farmacêutico, e proprietário da grande fazenda Belmonte, comprada de José Ribeiro Monteiro da Silva.

Gerson Moraes França
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Fontes:

Província do Espírito Santo
1879 - Basílio Carvalho Daemon

Migração e mão-de-obra: retirantes cearenses na economia cafeeira do Centro-Sul (1877-1901)
2006 - Paulo Cesar Gonçalves
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Violeiros do Norte
1982 - Leonardo Mota

Relatórios dos Presidentes da Província do Espírito Santo - 1878

Projeto Imigrantes - Arquivo Público do Estado do Espírito Santo
Disponível em Estatísticas (informações do número de imigrantes estrangeiros)

Arquivo pessoal de pesquisas

domingo, 13 de fevereiro de 2011

A Trajetória de um Telegrama

O presente post não é uma continuação do anterior, mas serve como complementação. Pode ser lido separadamente, embora seja interessante ler, antes, o post intitulado de "A Proclamação da República em São Pedro do Itabapoana".

Não cabe aqui traçar todas as marchas e detalhes da Proclamação da República, acontecidos no Rio de Janeiro. A queda do Gabinete Ouro Preto, a adesão de Deodoro à causa republicana e a consequente queda da Monarquia, são assunto vastamente estudado e divulgado. Basta o leitor, se quiser, googlar para se enriquecer de informações mais pormenorizadas. Vamos ficar adstritos ao tema em questão, que é a chegada da notícia em São Pedro do Itabapoana, através daquele lacônico telegrama retratado no post supra aludido. Aqui acompanharemos a trajetória de alguns telegramas que, em ligação direta uns com os outros, vão terminar naquele telegrama que chegou em São Pedro.


TOMA-SE DE ASSALTO OS TELÉGRAFOS

No início da manhã do dia 15 de novembro de 1889, quando a real dimensão dos acontecimentos no Rio de Janeiro ainda era um tanto incerta, e durante a marcha das tropas do Campo de Santana ao Arsenal da Marinha, Quintino Bocaiuva sugeriu, e Deodoro ordenou, que o Tenente da Armada José Augusto Vinhaes, que os acompanhava, se dirigisse até a Repartição Geral dos Telégrafos e a tomasse para os republicanos.

O Tenente Vinhaes reuniu um pelotão e para lá se dirigiu. Ao chegar no edifício dos Telégrafos, Vinhaes intimou o Barão de Capanema, então Diretor da Repartição, que a entregasse. O Barão recusou, e disse que só deixaria o cargo pela força, ou mediante uma ordem escrita por parte do Governo. Informado da situação, Deodoro deu a ordem escrita, em nome do Governo Provisório, que foi entregue ao Barão de Capanema pelo próprio Tenente Vinhaes. Capanema, então, deixou a Repartição que havia dirigido por mais de trinta anos.

E às dez horas da manhã do dia 15 de novembro, o Tenente Vinhaes ocupou a Repartição Geral dos Telégrafos. Inicialmente, Vinhaes cortou as comunicações da Capital do Império com as Províncias; mais tarde, na medida que a Proclamação da República se sedimentava como fato consumado, começou à divulgar notas dos acontecimentos à todo o país. O Tenente Vinhaes, que depois seria nomeado efetivamente Diretor dos Telégrafos por Deodoro, telegrafou a todas as Províncias e principais localidades do país, dando a nova de que a República estava proclamada. Foi ele e o telégrafo que levaram, grosso modo, a República para fora do Rio de Janeiro. Em alguns lugares os republicanos, ao receberem a notícia, desalojavam sem maiores custos as autoridades locais; em outros, oficiais do Exército mantinham a ordem até que o novo Governo determinasse as providências à serem tomadas.

Este último foi o caso do Espírito Santo, onde pela tarde do dia 15 de novembro começaram a chegar as primeiras notícias do que se passava no Rio de Janeiro, e onde os militares da Guarnição da capital Vitória mantiveram a ordem até que Afonso Cláudio, designado Governador do Estado no dia 16 de novembro pelo Governo Provisório, tomasse posse do cargo no dia 20 do mesmo mês.


A REPÚBLICA CHEGA EM CAMPOS

Às seis e meia da tarde do dia 15 de novembro de 1889 chega na Estação Telegráfica da cidade de Campos, no norte da então Província do Rio de Janeiro, o telegrama procedente da Capital da agora República informando acerca dos acontecimentos. Assim estava redigida, precedida do intróito do chefe da estação:

"Circular que recebeu esta estação para dar publicidade:
Povo, Exército, Armada vão installar Governo Provisório, que consultará Nação convocação Constituinte. Acclamações gerais República. Vinhaes."

Deixemos, agora, a narração do que se passou em Campos à cargo de uma testemunha que presenciou os fatos e os eternizou em seus escritos, o Sr Julio Feydit:

"Às 9 1/2 da noite, grande massa de povo dirigio-se ao Paço, e ahi foi feita uma reunião sob a presidência do Dr. Antonio Francisco Ribeiro, servindo de Secretario o Dr. Candido de Lacerda . A reunião teve por fim destituir as auctoridades e formar um Concelho Administrativo, sendo acclamados os Drs. Antonio Francisco Ribeiro, Pedro Tavares e Nilo Peçanha, os quaes dirigiram ao povo as seguintes proclamações:
« Cidadãos! Perante a justiça eterna dos Povos, e condemnada pelos seus desatinos e pelos seus crimes durante tanto tempo commetidos contra o direito e a liberdade da Nação, acaba se ruir por terra a Monarchia, origem de nosso males, causa do nosso atraso e pobresa, opprobio da America livre!
Está proclamada a Republica no Brazil ! Uma nova éra de paz, de ordem, de justiça e de progresso começa para a nossa Patria, já agora segura de seus gloriosos destinos!
Cidadãos! Vós constituintes, na vossa soberania, o Governo Provisorio desta cidade e município, e elle conta com a vossa autoridade ea vossa força para a manutenção da paz e tranquilidade geral. Viva a Nação Brasileira! Viva a America livre! Viva o povo campista!
Campos, 15 de Novembro, de 1889.
Cidadãos! A manutenção da ordem pública é a primeira necessidade social e o primeiro dever de um governo regularmente constituído. O Governo Provisorio no intuito de tornar effectiva essa obrigação, que lhe assiste, e não querendo lançar mão dos dinheiros publicos sob a guarda dos empregados responsaveis, convida a todos os habitantes a concorrer com donativos pecuniarios para a organização de uma guarda civica destinada a manter inalteravel a paz e a tranquilidade nesta heroica cidade. A subscrição fica aberta na Colletoria Provincial.
Campos, 15 de Novembro de 1889".
O movimento republicano em Campos era bem atuante e articulado. Data de 1876 o início da propaganda republicana na cidade, mas o Clube Republicano local só foi fundado anos depois, em uma grande reunião realizada no dia 20 de setembro de 1885. Nilo Peçanha era o republicano campista responsável pela ligação entre o Clube Republicano local e os Clubes Republicanos de São Pedro do Itabapoana, Conceição do Muqui e São José do Calçado, estes últimos todos distritos do Município de Cachoeiro do Itapemirim.

Já como autoridade republicana constituída é que o Dr Nilo Peçanha, na manhã do dia seguinte à proclamação do Governo Provisório em Campos, vai até a estação telegráfica da cidade e despacha o comunicado da Proclamação da República aos Clubes Republicanos sediados nos povoados das vertentes espírito-santenses do Itabapoana.


DE SANTO EDUARDO ATÉ SÃO PEDRO

Foi às seis horas da manhã do dia 16 de novembro de 1889 que o telegrama despachado por Nilo Peçanha chegou na estação telegráfica de Santo Eduardo, povoado no extremo norte do Município de Campos, às beiras do rio Itabapoana. Santo Eduardo era a ponta dos trilhos da estrada de ferro Leopoldina, e também o final das linhas telegráficas que seguiam pelo interior. Dali em diante, só mesmo à cavalo. O povoado de São Pedro não possuía telégrafo, mas possuía agência do correio.

A agente do telégrafo, então, entregou o telegrama ao agente do correio, e este correu ao arraial de Ponte de Santo Eduardo, atualmente Ponte do Itabapoana, entregando o telegrama nas mãos do agente do correio local. Este, sem demora e considerando a urgência da informação, entregou o telegrama ao estafeta, que deixou seus malotes postais para trás e rumou, à galope, para São Pedro. Esse estafeta chamava-se Olympio Christiano da Silva.

Em duas horas, o estafeta Olympio chegou ao seu destino e entregou a correspondência ao agente local do Correio, Manoel Martins Coelho do Nascimento. Este, prontamente, dirigiu-se à residência do jovem médico José Coelho dos Santos, que ficava na parte baixa do povoado. Era sua residência que servia de sede ao Clube Republicano São Pedro de Alcântara, onde exercia a função de 2º Secretário. Assim, o primeiro sãopedrense a ler o teor do telegrama despachado pelo Dr. Nilo Peçanha foi o Dr. José Coelho dos Santos. E coube à ele comunicar o fato ao povo sãopedrense, bem como aos membros da direção do Clube Republicano local.

EDIT: Há muito tempo queria eu fazer esse edit. "Rolou" somente hoje, dia 14/04/2026. Desde o dia 09 de agosto de 1889 que o Clube Republicano de São Pedro do Itabapoana estava sob a presidência do Dr. Olegário Ribeiro da Silva, ocasião em que também foi eleito Vice-presidente o Dr, José Coelho dos Santos. Assim, tanto a recepção do telegrama, quando a organização dos primeiros festejos, estiveram a cargo da diretoria republicana devidamente eleita. Augusto Cesário não estava mais na diretoria, e Azevedo Lima contava como delegado.

O Presidente do Clube Republicano sãopedrense, Augusto Cesário de Figueiredo Côrtes, bem como seu 1º Secretário, José Carlos de Azevedo Lima, grandes fazendeiros, não estavam presentes no povoado naquele dia 16 de novembro. Estavam em suas propriedades, pois residiam nos grandes casarões que serviam de sede de suas fazendas. Assim, naquele dia, o Vice-presidente do Clube Republicano, Dr. Carlos Augusto May, assumiu a condição de Presidente, e o Dr. José Coelho dos Santos assumiu a 1ª Secretaria. Estes delegaram ao Dr. Olegário Ribeiro da Silva a presidência dos festejos que seriam realizados dias depois, quando todos os republicanos sãopedrenses estariam reunidos em traje de gala para uma reunião solene. Em ato cortês, Augusto Cesário e Jose Carlos não reassumiram as suas funções, deixando os discursos do dia 20 de novembro à cargo dos doutores Carlos Augusto e José Coelho.

Quanto ao estafeta Olympio: logo depois de entregar o telegrama, partiu novamente, agora rumo à Conceição do Muqui, onde chegou antes do meio dia. Lá entregou o telegrama direcionado ao Clube Republicano Saldanha Marinho, pousou e participou dos festejos locais. Quando o portador do recado da Proclamação da República chegou em Conceição pela tarde, vindo de Cachoeiro do Itapemirim e sob delegação da Câmara Municipal, a notícia já era conhecida naquela Paróquia. Restou ao mesmo aproveitar o baile de comemoração.


E NA SEDE MUNICIPAL, CACHOEIRO

Na sede do Município, em Cachoeiro do Itapemirim, a notícia chegou via telégrafo, vinda de Vitória, também na manhã do dia 16 de novembro. Houve festejo com a banda Euterpe cachoeirense e queima de fogos. A Câmara Municipal logo se apressou em aderir ao novo regime, prestando solidariedade e telegrafando ao novo Governador republicano Afonso Cláudio.

Por fim, mudando um pouco o foco, mas aproveitando a oportunidade, e a título de curiosidade: um dos integrantes da Câmara Municipal cachoeirense era o coronel Nominato Ferreira da Silva, parente de Antão Ferreira da Silva, este então proprietário da fazenda Mimoso. Também grande proprietário de terras, o coronel Nominato era o representante sãopedrense na Câmara cachoeirense. Em 08 de fevereiro de 1890, pouco mais de dois meses depois de proclamada a República, a Câmara Municipal de Cachoeiro foi fechada pelo Governo estadual, e substituída pelo Conselho de Intendência; o coronel Nominato foi afastado da vereança. Chegou a ser intimado pela Intendência, para prestar esclarecimentos acerca da nomeação de um funcionário que dera um desfalque na Câmara quando da realização dos serviços de iluminação pública na sede municipal, coisa ainda da época do Império. Nada ficou provado contra ele, embora o funcionário tenha sido culpabilizado.

Voltaria à exercer função equivalente meses depois, em 04 de agosto de 1890, quando a política local "virou" e o Governador exonerou os antigos membros e nomeou novos integrantes para o Conselho de Intendência cachoeirense. Em 20 de novembro do mesmo ano, o coronel Nominato estaria presente na instalação do Município de São Pedro do Itabapoana. Exerceria o cargo de Intendente do Conselho cachoeirense até o dia 18 de março de 1891, quando o novo Governador Antônio Aguirre destituiu e nomeou novos intendentes para Cachoeiro, em nova "virada" política no Estado.

Gerson Moraes França

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A Proclamação da República em São Pedro do Itabapoana

O 15 de novembro chegou no dia 16, e foi festejado no dia 20


Leitor, o título do presente post pode não ser muito apropriado. Não houve proclamação de república alguma em São Pedro do Itabapoana. Escrevo aqui sobre a Proclamação da República no Brasil, e como foi que esse fato se passou naquela povoação. Acredito que o leitor certamente entendeu o título mas, pelo sim, pelo não, entendi por bem iniciar com esse intróito elucidativo.

São Pedro do Itabapoana, em novembro de 1889, era ainda uma Freguesia do Município de Cachoeiro do Itapemirim. Apesar de haver uma Lei  datada de 1887, criando o Município  de São Pedro e separando as vertentes do Itabapoana das do Itapemirim, não havia ocorrido a instalação do nova municipalidade. Isso porque a legislação imperial e provincial exigiam que, para haver a instalação do Município, era necessário, antes, que o povo local levantasse o Paço da Câmara, em subscrição corrida na Paróquia. Assim, dois anos depois da Lei que criara o ente municipal e apesar da prosperidade local, por não haver ainda sido concluída a edificação que serviria de câmara, São Pedro do Itabapoana seguia como parte do Município de Cachoeiro do Itapemirim.


PROCLAMA-SE A REPÚBLICA NO BRASIL ...

Aristides Lobo, em carta escrita na tarde do dia 15 de novembro, publicada em forma de artigo no dia 18 no jornal carioca "Diário Popular", assim diz em certo trecho, quando faz referência ao golpe cívico-militar que derrubou a Monarquia:
"O povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava".

Em São Pedro do Itabapoana, também, não houve manifestação popular alguma. Manifestação popular maior aconteceu em setembro de 1888, por engano, quando o campista Nilo Peçanha esteve em São Pedro para fazer uma conferência sobre a forma republicana de governo; na ocasião, os negros supuseram que a reunião se tratasse do retorno da escravidão, e criaram um "ligeiro incidente" que fez a sessão "correr apreensiva", segundo as palavras de Grinalson Medina em sua obra. Desfeita a confusão, os negros voltaram à suas pacatas e suadas vidas de jornadas e serviços. Os mesmos negros que, pouco mais de um ano depois, iriam se refestelar com o banquete público - rega bofe, no coloquial da época - promovido pelo Clube Republicano sãopedrense em comemoração ao advento da República.

Houve, sim, e é claro, comemorações por parte da elite sãopedrense que havia aderido ao movimento republicano pouco mais de um ano antes de 1889. Os dois Clubes Republicanos da Freguesia de São Pedro do Alcântara foram fundados em agosto de 1888, um na Paróquia de São Pedro, então sede da Freguesia, e outro na Paróquia de Conceição do Muqui, que havia sido sede da mesma Freguesia até o ano de 1880. A maioria dos grandes proprietários que aderiram ao republicanismo o fizeram somente após a abolição da escravatura, em maio de 1888.

Mas, mesmo assim, o ideal republicano já estava penetrando, e bem penetrado, nas mentes de muitos dos locais, e isso antes mesmo da Lei Áurea. Em abril de 1888, por exemplo, e antes da abolição da escravatura - destaque-se -, houve eleição para deputado geral. Na Freguesia de São Pedro de Alcântara houve "perturbação da ordem pública", no jargão de então, e o Presidente da Província teve que nomear um Sub-delegado e remeter um destacamento de três praças para "auxiliar as autoridades policiais na manutenção da ordem pública, principalmente na sede do distrito, que de certo tempo em diante tem sido alterada". Mas, mesmo com a "pressão das autoridades", na Paróquia de Conceição de Muqui o republicano e cachoeirense Bernardo Horta venceu o seu rival monarquista do Partido Conservador, Costa Pereira, embora por pequena diferença. Em São Pedro, Costa Pereira foi vitorioso por ampla margem de votos - "livre e expontânea pressão das autoridades policiais na sede do distrito?".


... E A NOTÍCIA CHEGA EM SÃO PEDRO

Assim está no livro de Grinalson Medina, na página 26, acerca da chegada da notícia da Proclamação da República em São Pedro do Itabapoana:
"Em 16 de novembro de 1889, às 8 horas da manhã, chegou à freguesia, via S. Eduardo, o seguinte telegrama: Presidentes Clubes Republicanos, S. Pedro de Alcântara e Saldanha Marinho, S. Pedro do Itabapoana e Conceição do Muqui. Espírito Santo. REPÚBLICA PROCLAMADA. Abraços - Nilo Peçanha".

No mesmo dia, ainda pela manhã, a notícia chegou em Conceição do Muqui. O Clube Republicano local se reuniu e apressou-se em organizar diversos festejos, com grande baile improvisado na noite daquele dia 16 de novembro. Em São Pedro, o Clube Republicano também se reuniu, marcando e organizando uma reunião solene e um banquete público para o dia 20 de novembro. Nesse dia, os festejos foram realizados sob a presidência do médico Olegário Ribeiro da Silva, genro do fazendeiro Olimpio Ribeiro de Castro, discursando os médicos José Coelho dos Santos e Carlos Augusto May. Eram os médicos sãopedrenses "remediando, com a república, os males da monarquia" em seus discursos.

Exatamente um ano depois, em 20 de novembro de 1890, seria finalmente instalado o Município de São Pedro do Itabapoana, e o povoado seria elevado à condição de Vila. Prêmio recebido pelas mãos das novas autoridades republicanas estaduais, que mantiveram vigente a Lei provincial de 1887 que criou o Município, mas fizeram vista grossa ao dispositivo que obrigava a instalação à edificação do prédio da Câmara. Por sinal, o prédio da Câmara só seria inaugurado em 15 de dezembro de de 1896, seis anos após a instalação da municipalidade, e quando a Vila já até tinha foros de Cidade.

No ato da instalação, foram empossados os membros do Conselho de Intendência, nova denominação das Câmaras, cujo Presidente exercia também o poder executivo municipal. Eram cinco os Intendentes, sendo nomeados três republicanos de São Pedro do Itabapoana (Olegário Ribeiro da Silva, designado também Presidente, José Coelho dos Santos e Silvério Francisco Medina) e dois republicanos de Conceição do Muqui (Domingos José de Almeida e Antônio Batista Sobrinho).


Pronto. Foi aqui explanado um pouco sobre o Movimento Republicano e a Proclamação da República em São Pedro do Itabapoana, bem como um pouquinho mais em seu desdobramento. Para quem chegou até aqui e já está satisfeito, o assunto se encerra. Mas, caro leitor que ainda contua a ler essas linhas, que tal algo mais? Tão lacônico o telegrama que comunicou aos sãopedrenses a queda da Monarquia e o advento da República, não concordam? A República chegou em São Pedro, assim, por telegrama insosso. Não estou satisfeito; falta algo. Ocorre que o presente post já está longo. Então, esse "algo mais" virá no próximo post, cujo título é "A Trajetória de um Telegrama".


Gerson Moraes França

De treze em treze ?

Tentei; juro que tentei. A intenção era publicar ao menos alguma coisa, qualquer coisa, de dois em dois, ou de três em três dias. Mas, n'um BLOG assim, tão sem compromisso, tão inorgânico, aonde quero manter um certo nível de "simplicidade na complexidade" (ou, como queiram, "complexidade na simplicidade"), sem obrigações mais que as de minhas inspirações e vontades, permitindo-me ser prolixo e massante, não tem como.
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Coincidência ou não, o post anterior está datado do dia 13 de janeiro. E hoje, 13 dias depois, dia 26 de janeiro, cá estou eu dedilhando o teclado. Só notei esse fato quando comecei à escrever a matéria que publicarei ainda hoje; e fui impelido à interrompê-la, para escrever o presente post. Será que o máximo de regularidade que consigo para o BLOG é essa "trezenária"? E logo o número 13, tão carregado de preconceitos de ordem "superticional"?
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Curioso com o que reza a numerologia, resolvi apear-me de qualquer sentimento de receio, pesquisando no Google. E fiquei mais calmo. Afinal, o número 13, de acordo a numeróloga Norma Estrella, é um algarismo injustiçado. O 13 representa a transformação. A morte da matéria e o nascimento do espírito. A ressurreição. Representa um momento, e não um processo. É o ponto entre o antes e o depois. Não representa a morte ou o azar. E Zagallo já sabia disso, para a felicidade (sorte?) de nosso tetra-campeonato. Número primo, número de Fibonacci, número dos primeiros Estados norte-americanos que assinaram a independência dos Estados Unidos e a Declaração dos Direitos do Homem.
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Curioso é que a matéria histórica que estou escrevendo para o BLOG, a qual interrompi para escrever essas linhas, é sobre um momento de transformação. Transformação política, com a mudança de regime de Império para República, e como esse fato passou-se em São Pedro de Itabapoana. Matéria que também será publicada na seção de colunas do site www.mimosoonline.com.br pois, no intervalo desses últimos 13 dias, fui convidado para ser um dos colunistas do portal.
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Gerson Moraes França

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Feliz Ano de 2011 !

Dizem os entendedores do mundo dos blog's que o ideal é atualizar o mesmo quase todos os dias, com novas matérias, comentários, ou mesmo pequenas citações. O último post que aqui coloquei data do dia 26 de novembro do ano passado; lá se vai um mês e duas semanas.

Idéias, tenho todos os dias. Mas como colocá-las aqui, n'um blog com o formato de adotei? Afinal, para quem acompanha, fica bem claro que meus post's são quase sempre grandes; alguns até bem aprofundados. Como colocar aqui, todos os dias, ao menos uma pequena citação qualquer, sem desvirtuar o estilo que escolhi?

Bom, vamos tentar. Aqui vai, inclusive, o primeiro post do ano corrente, para inaugurar essa (possível, mas não provável) nova era:

FELIZ ANO NOVO !

Gerson Moraes França

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

26 de Novembro de 1930

26 de novembro. Faz oitenta anos que foi publicado o Decreto que sacramentou a "tomada da Comarca" (na visão mimosense), ou o "roubo da Comarca" (na visão sãopedrense).

Na verdade, esse Decreto sacramentou não apenas a mudança da Comarca. Ele sacramentou o fim do antigo Município de São Pedro de Itabapoana, e a "fundação oficial" do atual Município de Mimoso do Sul, à época elevado a essa condição sob o nome de "João Pessoa".

Pois havia Comarcas que abarcavam mais de um Município. Não necessariamente a mudança da sede da Comarca implicaria em perda da autonomia municipal. A própria Comarca do Itabapoana, por exemplo, até 1929, englobava dois Municípios: São Pedro e Ponte de Itabapoana.

O 02 de novembro, data da execução da "tomada" ou "roubo" da Comarca, ainda deixava margem para que subsistissem dois Municípios. Mas o 26 de novembro foi o "golpe mortal" - foi a ratificação estadual das decisões locais. E, como estávamos no início do Governo Provisório e de suas Interventorias estatuais, ou pura e simplesmente Ditadura, não havia mais o que se discutir. Estava feito, e pronto.

Mas o que me traz aqui hoje não é o Decreto estadual de número 113, de 26/11/1930. É outro. Vejam, até nos dados históricos do IBGE, e em um sem número de publicações, assim se menciona:

"Elevado a cidade com a denominação de João Pessoa, por decretos estaduais nº 113, de 26-11-1930 e nº 3468, de 17- 03-1933".

Num dos dias que eu estava pesquisando a história mimosense, dessa vez folheando os Diários Oficiais do Estado da década de 1930 que haviam disponíveis na Biblioteca Pública Estadual, resolvi procurar o segundo Decreto. O tal de número 3.468/1933. Queria eu transcrevê-lo - à mão, como sempre, pois era a regra na época; as coleções não estavam digitalizadas.

Para a minha surpresa, o referido Decreto não tratava de Mimoso do Sul, ou João Pessoa, nome oficial do Município nos anos trinta. Não tinha nada a ver com Mimoso. Procurei, então, em todos os Decretos daquele ano de 1933. Nada específico havia, à não ser o que tratava de toda a divisão administrativa do Estado do Espírito Santo para aquele ano de 1933. Avancei para 1934, retrocedi para 1932, reavancei para 1935 e 1936, voltei para 1930 e 1931. Não tinha nada.

(Continuo mais tarde, porque agora vou dormir)
--- Passam quatro dias ---
(Continuando, quatro dias depois...)
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É interessante: invariavelmente, eu não gosto do que escrevo, quando leio dias depois. Mas não mudo; deixo tal como escrevi, corrigindo às vezes apenas erros de concordância ou de ortografia. Não costumo revisar os textos, antes de postá-los. Gosto de escrever e publicar, de uma tacada só.
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E hoje, dia 30 de novembro, após a parada que dei quando escrevia o texto mais acima, reli o mesmo. Como sempre, não gostei. Mas vai ficar como está. Só que certamente não vai prosseguir como seria prosseguido, se eu conseguisse concluí-lo no mesmo dia que comecei a escrevê-lo.
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O fato é: o Decreto de n.º 3.468, de 17 de março de 1933, não trata de João Pessoa, nome oficial na época, ou de Mimoso do Sul, nome atual do Município. Esse Decreto trata do Município de Santa Teresa: foi quando a sede teresense foi elevada à categoria de Cidade; antes, era Vila.
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Procurei esse Decreto também, é claro, apenas para dirimir dúvidas e excluir possibilidades, dentre os Decretos federais. E não existe, também, Decreto federal, nem com esse número, nem com outro número qualquer, que trate de João Pessoa / Mimoso do Sul nesse ano de 1933, no tocante à alguma confirmação ou retificação do Decreto estadual de 1930.
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Enfim, é isso.
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IBGE, e outros órgãos, corrijam-se, por favor.
Ou então achem o decreto correto, porque eu não consegui encontrá-lo.
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Gerson Moraes França
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Fontes -
Uma "porrada" de Diários Oficiais:
Estadual (1930 a 1936) e federal (1930 a 1933)

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Cachoeira do Inferno - Phócion Serpa


Adquiri, recentemente, o livro Cachoeira do Inferno, de Phócion Serpa. Consegui a obra original, autografada pelo autor, junto a uma Livraria Antiquário, sediada em Juiz de Fora, Minas Gerais. Chegou-me pelo correio, e eu já li suas páginas por três vezes.

A obra é um romance histórico, ambientada na antiga povoação de Limeira de Itabapoana. Foi publicada em 1928, e seu autor é natural daquele povoado. Serpa nasceu em 1892 e passou a infância em Limeira, antes de seguir para o Rio de Janeiro, onde foi estudar medicina em 1912. Tornou-se competente médico e conhecido escritor, e radicou-se na então capital do país. Dedicou-se à cultura com a mesma paixão, talvez até com paixão ainda maior, com que dedicava-se à medicina.

O título do livro faz referência à cachoeira do Inferno, hoje também conhecida como cachoeira das Garças, no rio Itabapoana. A cachoeira fica bem perto do antigo povoado, rio acima. Aliás, ficava. Com a construção da hidrelétrica Pedra do Garrafão, em 2008/2009, onde antes corriam as tormentosas águas, hoje está exposto o leito granítico.

O romance conta, de modo triste e fatalista, a história da vida de alguns moradores do local. O pano de fundo é a Limeira de Itabapoana em decadência, que reforça as histórias das pessoas que viveram esses últimos dias de existência do povoado. Todos os "personagens" da obra são pessoas reais. A história começa quando o povoado ainda era próspero e movimentado, e desenrola-se pelos anos seguintes, retratando o ocaso do núcleo. Fala de pessoas que foram embora, e daqueles que insistiam em ficar, presos pelo apego ao torrão em que construíram suas casas. De si próprio, não fala o autor; deixa apenas estampado em palavras o que presenciou, nos primeiros anos de sua vida, quando testemunhou o abandono gradativo do núcleo aonde nasceu, já decadente quando de seu nascimento, segundo o próprio Serpa informa.

Deu bastante trabalho, mas eu consegui identificar os personagens do livro. Identifiquei o médico e sua filha, o tabelião, o professor, o boticário. O comerciante, ao que parece, Serpa usou um nome parecido, talvez para não expor a pessoa. O vigário, ao que tudo indica, também teve o nome modificado, e Serpa certamente usou de analogia para com a obra de Moreira Fraga (A Filha do Padre, romance, 1881).

A leitura da obra me tocou e emocionou. Isso porque estive ali, naquelas ruínas, hoje vazias e mortas. As histórias daquelas pessoas que lá nasceram, viveram e morreram, com seus sentimentos, esperanças, saudades e medos, me tocaram profundamente. Onde hoje não resta mais nada, à não ser ruínas, outrora moraram aquelas pessoas. Pisei no que um dia foram ruas, estive no que um dia foi um próspero porto, entrei no que um dia foi uma Capela que servia de ponto de encontro entre os locais e pessoas das vizinhanças. Capela esta, inclusive, retratada nas páginas do livro, que contam sobre sua construção e sobre sua reforma muitos anos depois.

O texto é escrito com linguagem rebuscada, com trechos um tanto poéticos, como era bem próprio para a época. Nada lacônico. Talvez isso saliente ainda mais a tristeza e o fatalismo da narrativa. Retratos das vidas de pessoas presas, pelo sentimento e/ou pela necessidade, à um povoado que se ia extinguindo.

Gerson Moraes França