sexta-feira, 3 de julho de 2015

A Capela de São Pedro de Alcântara - Parte 1



A história se constrói com documentos, primários ou não, com pesquisas arqueológicas, antropológicas, com prospecção de memórias e de história oral, dentre outros modos que se somam, observada sempre a crítica das fontes. Nos tempos atuais, com o compartilhamento mundial de informações na internet, o acesso a uma série de documentos que, antes, seriam difíceis de serem manuseados ou mesmo de serem encontrados pelo pesquisador, se tornaram cada vez mais palpáveis. Atualmente, o pesquisador e o historiador tem a chance de "corrigir" erros, equívocos ou omissões cometidos por pesquisadores do passado. Alguns desses historiadores ou memorialistas de outrora, talvez justamente por não terem acesso à bagagem documental que hoje podemos manusear, acabaram cometendo alguns desses erros.

Esses erros, importante salientar, na maior parte das vezes, não foram cometidos de má-fé. Muitos, buscando preencher lacunas, ou dar "ordem ao caos", acabaram "criando fatos". Por vezes, interpretações errôneas também contribuem para sedimentar alguns equívocos. Nesse sentido, busco nesse artigo corrigir alguns pequenos erros cometidos em relação à história do antigo município de São Pedro do Itabapoana. O foco do presente artigo é a correção das informações sobre a construção da primeira Capela do então arraial de São Pedro de Alcântara, atualmente vila e distrito de Mimoso do Sul com o nome de São Pedro do Itabapoana. Ato contínuo, acabo também discorrendo um pouco sobre os primórdios desse arraial e sobre algumas personalidades que fizeram parte desse "início".

Todos os pesquisadores, memorialistas e historiadores, ao escreverem, correm o risco de cometerem erros. Afinal, já reza o jargão que "errar é humano". A construção da história é um processo contínuo. Corrigir erros de um escritor anterior não é, de forma alguma, uma forma de desqualificar seu trabalho. Ao contrário. Acredito que a aspiração de todo historiador é, justamente, conseguir chegar o mais próximo possível dos fatos antigos tais como realmente ocorreram. Assim, ao "corrigir" alguns equívocos, estamos contribuindo para a soma dos esforços de desanuviar as brumas que cobrem partes da história. Nada impede, também, que no futuro algum outro escritor nos corrija, uma vez que tenha acesso a documentos primários inéditos. Na minha opinião, essa é uma das "belezas" da pesquisa histórica.


Atualmente, a principal fonte sobre a história de São Pedro do Itabapoana é o livro de Grinalson Francisco Medina, cujo título é "História do antigo município de São Pedro do Itabapoana, Estado do Espírito Santo - páginas de nossa terra.", publicado em 1961 pela editora Viper Artes Gráficas, do Rio de Janeiro. O livro foi montado e escrito durante a década de 1930. É um trabalho de compilação de dados e de fontes, reportagens de jornais e estatísticas, dentre outras informações garimpadas pelo seu autor. Não é um trabalho crítico; foi escrito como uma sucessão de fatos colhidos e selecionados por Medina. Mesmo assim, é um trabalho grandioso que cumpriu sua função e, graças a ele, temos um rico inventário de fontes sobre a antiga São Pedro do Itabapoana.

Quando Grinalson Medina escreve sobre os primórdios de São Pedro do Itabapoana, porém, comete uma série de equívocos. A principal fonte usada por Medina para escrever sobre os tempos mais recuados foi o Dicionário Histórico sobre o Espírito Santo, de autoria de Cezar Marques, publicado em 1879. Talvez tentando "encaixar" fatos históricos antigos que tenha ouvido de pessoas mais velhas, Medina acaba criando fatos inexistentes; e na busca de dar "ordem ao caos", acaba metodizando certas passagens antigas de modo precário e temerário, sem fontes que as fundamentam.

Assim, Medina "criou" uma aldeia indígena que nunca existiu, chamada de Aldeia de São Pedro Apóstolo, que ficaria nas proximidades do antigo povoado de Limeira, próximo da antiga cachoeira do Inferno (também chamada "das Garças"). Não há documento algum que comprova a existência dessa aldeia. Ao contrário: quando os primeiros exploradores de madeira (re)atingiram as primeiras cachoeiras do Itabapoana, na década de 1830, encontraram a região completamente desabitada, a não ser pela aparição pouco frequente de pequenos grupos de índios puris que viviam nos sertões do então chamado, oficialmente, Rio Camapuan. Medina, provavelmente, confundiu um aldeamento de índios puris fundado na década de 1820, que existiu sob o nome de São Pedro do Aldeamento e que ficava onde hoje está São Pedro Rattes, em Guaçuí, também na bacia do Itabapoana. Essa é a única explicação plausível que encontrei para a confusão de Grinalson Medina no que toca a essa matéria.

Medina, também, acabou criando confusão ao tentar "dar ordem ao caos" em relação aos grupos indígenas existentes em São Pedro do Itabapoana, quando de sua ocupação pelos primeiros posseiros. Citou, por exemplo, os goitacazes, que já não existiam e nem eram citados a mais de 150 anos. "Criou" três tribos, que tinham como "bases" as bacias dos principais rios da região (Muqui do Sul, São Pedro e Barra Alegre), elencando seus respectivos "chefes". Foi infeliz até da "tradução" dos nomes Itabapoana e Muqui, levantando hipóteses totalmente desprovidas de fundamento linguístico.

Mas, a despeito desses equívocos, o trabalho de Grinalson Medina é importantíssima fonte para a história de São Pedro de Itabapoana e de Mimoso do Sul, bem como de todo o médio Itabapoana. É admirável a capacidade do autor de coligir dados, inclusive relatos colhidos em pesquisas de história oral. Basta analisar o texto com a devida crítica histórica para se verificar que Medina, grosso modo, foi um grande pesquisador e que, graças a ele, muitos dados que hoje estariam totalmente perdidos foram preservados. Grande parte dos erros sobre os primeiros fatos ocorridos na época da entrada dos primeiros posseiros dizem respeito a datas. Mas os fatos, via de regra, são corretos. E essa contribuição de Medina é inestimável para nortear o pesquisador atual.

Por exemplo, a história do "primeiro posseiro da nossa zona". Essa história foi colhida por Grinalson junto aos seus parentes mais velhos, bem como junto à família desse primeiro posseiro. Os Medina, importante informar, foram das primeiras famílias que migraram de Minas Gerais e se estabeleceram naquelas matas do sul do Espírito Santo. Foi um seu tio-avô, chamado de Martinho Francisco Medina, por exemplo, que abriu uma das primeiras fazendas nas margens do Itabapoana acima das primeiras cachoeiras, e que foi o primeiro comerciante do que mais tarde se transformaria no povoado de Limeira do Itabapoana. Foi graças ao esforço dos Medina, e de mais dois outros fazendeiros, que se tornou franca a navegação desde a Barra do Itabapoana até Limeira. Até então, o "transbordo" das mercadorias na região era feito por precárias estradas, que mais se pareciam picadas e trilhas, que iam até Campos, no norte do Rio de Janeiro.

Encontrei, em minhas pesquisas, alguns documentos que corroboram a assertiva de que foi Francisco José Lopes da Rocha o primeiro posseiro das cabeceiras do ribeirão São Pedro e de partes médias do rio Muqui do Sul, tal como asseverou Grinalson Medina. Essa "situação" era chamada de "Posse do Lopes". Medina, porém, errou na data. Não foi em 1837 que Lopes da Rocha posseou na região. "Descobri" é que sua posse é posterior a 1843, e anterior a 1846. E, assim como tentei "decifrar" a confusão sobre a Aldeia de São Pedro, também tentei entender o porquê do equívoco em relação à data. Tenho a minha tese: foi em 1837 que foi organizada a primeira "expedição" de mineiros que desceram o Rio Preto (nome que os mineiros davam ao Itabapoana em suas cabeceiras) e que exploraram o rio até as suas últimas cachoeiras. Lopes da Rocha teria participado dessa expedição? Resposta que não podemos dar, ao menos com os documentos que dispomos atualmente. Mas a coincidência das datas é indício de que Medina usou a data dessa primeira expedição, equivocadamente, para temporalizar a chegada do primeiro posseiro.

Importante dizer, também, quanto aos primeiros posseiros: antes de Lopes da Rocha, já existiam alguns posseiros nas regiões que hoje fazem parte dos municípios de São José do Calçado, Bom Jesus do Norte e Apiacá. Assim, Lopes da Rocha teria sido o primeiro posseiro a "subir" a então chamada de "Serra dos Puris", divisor de águas entre os ribeirões São Pedro/Muqui do Sul e os de Boa Vista/Barra Alegre. Essa região foi a que nucleou a formação do que, posteriormente, se transformaria no município de São Pedro do Itabapoana. Também é importante dizer que já existiam posseiros em regiões que, hoje, fazem parte do município de Mimoso do Sul. Estavam situados em regiões que hoje pertencem ao distrito de São José das Torres, nas imediações da barra do Rio Preto e margens do Itabapoana, perto da divisa com o atual município de Presidente Kennedy.

Uma figura ainda nebulosa na história de São Pedro do Itabapoana é a de Manoel Joaquim Pereira, tido como o homem que doou três alqueires de terreno para o patrimônio de São Pedro de Alcântara, onde alguns anos mais tarde surgiria o primitivo arraial e atual vila de São Pedro do Itabapoana. Esse homem é citado por Grinalson Medina, bem como por outro importante pesquisador da história da região: José Olympio de Abreu (pai do futuro prefeito de Mimoso do Sul, Dr. Olympio de Abreu). Medina não informa data, nem da chegada de Manoel Joaquim (informando, contudo, que foi antes de 1850), nem da doação das terras para o patrimônio; informa, porém, a data da construção da Capela: 19 de outubro de 1855. José Olympio, em trabalho publicado em 1936, informa que Manoel Joaquim Pereira teria sido o primeiro a tomar posse na região da atual vila de São Pedro, e informa a data de 1852 como a da doação para o patrimônio, "marco" inicial do arraial; informa também a data de construção da Capela: 1869.

Trabalhos posteriores, de historiadores regionais, acabaram "mesclando" essas informações, e construindo a versão que atualmente é aceita. Na década de 1940, sedimentou-se a versão da data de doação do patrimônio por Manoel Joaquim Pereira, tese de José Olympio: 1852, embora Grinalson Medina não corroborasse essa data. Na década de 1960, somou-se essa informação da doação do patrimônio com a da construção da Capela, tese de Grinalson Medina: 1855.

Nem Grinalson Medina, nem José Olympio de Abreu, conseguiram mais informações sobre Manoel Joaquim Pereira. Não conseguiram dados sobre sua procedência, sua descendência, suas relações parentais, suas atividades, nada. Esse homem simplesmente "sumiu" da história, e sua única aparição se dá na doação desse patrimônio. Eu, assim como eles, nunca consegui encontrar documentos sobre este que teria sido um dos primeiros posseiros de São Pedro do Itabapoana. É como se nunca tivesse existido, a não ser para fazer essa doação. Teria sido apenas um "tirador de posse", figura comum na época, que abria a posse e a vendia logo depois? Fato concreto, e que posso afirmar com minhas pesquisas, é que quando o arraial foi surgindo, na década de 1860, Manoel Joaquim Pereira não se encontrava mais em São Pedro.

Mas, afinal, quem estaria correto? Quando teria sido construída a Capela de São Pedro de Alcântara? Teria sido em 1855, como atesta Grinalson? Ou em 1869, como informa Olympio? A minha resposta segue na PARTE 2.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

O Palacete do Barão de Itapemirim

Palacete do Barão de Itapemirim. Detalhe da foto de Victor Frond, 1860.
Acervo Brasiliana Fotográfica - Biblioteca Nacional / Recorte feito por Gerson França

Por esses dias atrás a Biblioteca Nacional, no acervo de fotos chamado de "Brasiliana Fotográfica", disponibilizou toda a sua coleção para visualização em alta definição. É claro que, assim que eu tomei conhecimento dessa notícia, corri ao site da BN para "fuçar" as fotos antigas das localidades do Espírito Santo que lá estão. É, sem dúvida, uma maravilha! Detalhes que, antes, não podiam ser vistos nas fotos, apareceram com uma beleza difícil de descrever.

Uma dessas fotos é a que retrata o palacete que pertenceu ao Barão de Itapemirim. Ao fazer a aproximação em alta definição, fiquei estasiado! Era, simplesmente, linda! Fiz, então, um print, recortei a parte que eu queria no paint, e a publiquei no grupo de facebook "Fotos Antigas do Espírito Santo". Logo vários estudiosos e pesquisadores teceram seus comentários, o que enriqueceu substancialmente a "conversa cibernética".

A "história" dessa foto é interessante. Era uma foto já conhecida, mas que ninguém sabia de onde era. Coube ao pesquisador Cilmar Franceschetto, do Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, identificar a fotografia, redescobrindo uma foto que a memória deixava para trás, esvaída com o passar dos tempos. Tal edificação, há muitos anos, já havia ruído. Ficava próxima à antiga foz do Rio Muqui, no Itapemirim, erguida sobre uma pequena colina que domina a região.

O pesquisador, jornalista e advogado Higner Mansur, também estudioso da história do palacete, fez então uma reportagem para a Revista SE7EDIAS, com a foto e a descrição que sete pessoas, através dos tempos, fizeram sobre aquela majestosa edificação. Quem quiser ler, pode fazê-lo clicando nesse LINK. Ato contínuo, encontrei um trabalho audiovisual, contando um pouco sobre a história do Palacete. Ali conheci o pesquisador e historiador Luciano Retore Moreno, profundo conhecedor da história da edificação e do Barão de Itapemirim. Moreno, inclusive, junto com Gustavo Mezher, fez várias escavações no local, e recuperou uma quantidade espantosa de objetos antigos que estavam enterrados sob as ruínas do que sobrou da antiga construção. Quem quiser assistir o documentário, é só clicar nesse LINK.

Quando vi a publicação de Mansur na revista SE7EDIAS, lembrei-me que havia encontrado, há alguns meses atrás, algumas descrições antigas que tratavam da fazenda e/ou do palacete do Barão de Itapemirim. Algumas delas estão na reportagem publicada por Mansur. Outras duas, que não estão na reportagem, aqui colocarei, buscando contribuir um pouco com as pesquisas históricas da edificação, e com o resgate de sua memória. Interessantemente, essas duas descrições foram feitas em períodos "extremos" da história do palacete. A primeira é datada de 1833, quando o palacete era de recente construção, embora não possamos afirmar se já existiam os torreões. A segunda é uma descrição detalhada, datada de 1887, quando o palacete ainda existia, mas envelhecia-se e quedava sem cuidados, começando a arruinar-se.

Abaixo seguem as duas descrições.


PRIMEIRA DESCRIÇÃO - 1833
Manoel José Pires da Silva Pontes

Manoel José Pires da Silva Pontes foi Presidente da Província do Espírito Santo entre 1833 e 1835. Quando nomeado, resolveu ir até Vitória em viagem por terra. Saiu de Ouro Preto/MG, passando pelo Rio Pomba, por Campos dos Goytacazes e depois, seguindo pelo litoral, sempre por terra, foi até Benevente (atual Anchieta/ES), de onde embarcou por mar para a capital da Província. Os apontamentos que fez durante sua viagem é um documento ainda pouco conhecido no Estado do Espírito Santo. Segue o trecho sobre o Barão de Itapemirim que, na época, ainda não era Barão. A propósito, o nome do futuro Nobre era Joaquim Marcellino da Silva Lima.

"(...) 1/2 leg. adiante tive a satisfação de encontrar-me com o Sr Joaquim Marcelino, que anda mal convalescido de um ataque rheumatico adquirido na estrada do Castello, (...) veio contudo esperar-me e conduzir-me para sua Fazenda do Moqui. Chegamos pouco depois a Villa, apeiando-nos em casa do Sr Vigário onde nos refrescamos; O Sr Joaquim Marcelino insistiu, que posto que, tivesse eu marchado mais de 6 leg, todavia podia avançar mais um pouco e pernoitar com elle em sua fazenda e habilitando-me para esse ofício com excelente cavalgadura, pude chegar com dia a dita fazenda da Boavista na Barra do Moqui. A bellesa do Sítio; a nobresa da casa; a extensão do terreno e das plantações: a perfeição da Fabrica; o numero de escravos e gados que se empregão nesta Fazenda assentão bem a magnamidade deste honrado Paulista. Esta casa é o centro da união de muitos Senhores de família, que estão também estabelecidos nas margens deste bello Rio (...)."

Dessa descrição, não podemos afirmar que o palacete já tinha sido totalmente construído. Mas, havendo ou não os torreões, o Presidente nomeado do Espírito Sando ficou maravilhado com a edificação. Importante lembrar que a Capela de Santo Antônio, colada ao palacete, foi edificada dois anos antes, em 1831. A citação do nome "Boavista" deve-se a fazenda que ficava em frente, do outro lado do rio, mais antiga que a Fazenda do Muqui, de propriedade de um dos senhores que receberam Silva Pontes na Vila de Itapemirim.


SEGUNDA DESCRIÇÃO - 1886 e 1887
Dom Pedro Maria de Lacerda

Dom Pedro Maria de Lacerda era Bispo do Rio de Janeiro. Fez algumas visitas ao Espírito Santo. Nos anos de 1886 e 1887 esteve no sul da Província do Espírito Santo, onde fez seus apontamentos. Esses documentos foram publicados em livro no ano de 2012, com o título de "Diário das Visitas Pastorais de 1880 e 1886 à Província do Espírito Santo", com organização de Maria Clara Medeiros Santos Neves. No caso, são duas descrições: uma de 1886, e outra do ano seguinte. Seguem abaixo.

1886 - "(...) Mais para cima desta está a Fazenda do Muqui com sua Capelinha ao lado; foi pertencente ao Barão de Itapemirim, e hoje está muito decadente na mesma parte material. Fica em um alto e se avista de muitos pontos ao longe. O ponto de vista tomado acima das Fazendas da Lancha e Cutia me pareceu esplêndido, encantador e belíssimo. Sobre um pequeno monte vê-se a casa que é grande e comprida e de muitas janelas, com dois lances que figuram dois torreões nas duas extremidades, e fazem lembrar o Palácio de S. Cristóvão. Quando o Imperador aqui veio não foi a esta Fazenda, unicamente por não se mostrar mais inclinado ao Barão do que a outro figurão da Política, apesar do Barão ser da Casa Imperial e ter certa intimidade com Sua Majestade Imperial, assim ouvi. A beleza porém da paisagem de que trato provém da situação e das combinações óticas. O palacete parece ainda perfeito, aparece no alto de um outeiro, que domina um vasto horizonte, e no fim deste se avista, como em semicírculo, de um lado os montes ou serras que correm para o lado do Rio Novo, e de outro as serras em que aparecem o pico de Itabira, os morros ou cumes chamados Frade e Freira. Para mim a paisagem pareceu-me encantadora. Ao passar perto vê-se que o edifício já começa a arruinar-se e está quase abandonado, e ali no sopé do monte ou outeiro deságua o rio Muqui que é pequeno (...)."

1887 - "(...) Tive ocasião de ver o Palacete, que tem 20 janelas de sacada de ferro, e dois torreões nas extremida[de]s com 4 janelas cada um, o que perfaz 28 janelas na frente: por causa destes torreões a casa dá vista de longe alguns ares com o Palácio Imperial de S. Cristóvão. A casa é comprida, mas de pouca largura. Sobe-se por uma alta escadaria para um terraço assoalhado de louça. Tudo está estragado e tudo virá abaixo se não acudirem; mas quem acudirá? Há bastantes herdeiros, e o caso é complicado. O dono é filho de Joaquim Marcelino que não há muito morreu de repente na Vitória, onde era Deputado Provincial; e é neto do tão falado Barão de Itapemirim: Sic transit gloria mundi. Vi a Capelinha ao lado do Palacete e dele separado: tem sua torre com sino, coro, tribunas, púlpito, Capela-mor. Não é feia, e tem seus frisos dourados em várias obras, mas tudo coberto de pó e completo abandono, e já começa a arruinar-se. No altar-mor estão 3 nichos, no do meio S. Antônio, no do lado do Evangelho São Francisco Xavier, e no oposto S. Benedito preto. Na Sacristia vi Missal, turíbulo e naveta, e cálice tudo de prata, e duas caixas de folha de Flandres enferrujadas, onde estão caveira e ossadas; mas de quem? Não me lembrei de perguntar, mas parece-me que são do Barão que aí foi sepultado, e talvez da Baronesa. Sic transit gloria mundi. (...) O dono da casa ou quem dela toma conta convidou-me a subir e a tomar café, o que aceitei. Dentro tudo indica decadência. (...) Do alto do terraço a vista se alonga por vasto horizonte, até as serras que se estendem ao longe. O dia estava claro, porém o céu um pouco anuviado... certo é que pela estrada não encontrei tanta beleza como quando subi o Itapemirim vindo para o Cachoeiro (...)."

Dessas descrições fica patente que o palacete estava em seu período decadente. Segundo o Bispo, tanto o palacete, quando a Capela, haviam começado a arruinar-se. Abaixo, segue uma foto de década de 1920, do acervo de Luciano Moreno, onde observa-se o palacete já arruinado, bem como o que ainda restava da Capela de Santo Antônio, então com somente uma torre de pé.
[EDIT: Pelo texto, fica parecendo que a Capela tinha mais de uma torre. Lendo novamente, fiquei com a mesma impressão que teve o leitor Rogério Piva. Fica aqui a afirmativa: a Capela tinha somente uma torre]

Ruínas do Palacete do Barão de Itapemirim e da Capela de Santo Antônio
Década de 1920 - Acervo de Luciano Retore Moreno


Hoje restam apenas poucas ruínas das edificações. Com esse artigo espero ter contribuído, um pouco, com o resgate da história e da memória dessa que foi a sede de uma importante fazenda de cana-de-açúcar da primeira metade do século XIX no Espírito Santo. A Fazenda Santo Antônio do Muqui, de Joaquim Marcellino da Silva Lima, Barão de Itapemirim, um dos homens mais opulentos, se não o mais rico de seu tempo, na então Província.

Gerson Moraes França

quinta-feira, 12 de março de 2015

A Casa da Câmara e Cadeia de Santa Cruz

A Casa da Câmara e Cadeia de Santa Cruz, antes da restauração.
Fonte: Secult

Amanhã, dia 13 de março, será entregue à comunidade do distrito de Santa Cruz, município de Aracruz/ES, a Casa da Câmara e Cadeia. A edificação do século XIX, que é tombada pelo Conselho Estadual de Cultura, ficou muitos anos degradada e agora foi restaurada com financiamento do Instituto Sincades, em parceria com a Secretaria de Estado de Cultura. O prédio irá abrigar o Museu Histórico de Santa Cruz, que foi criado por Lei em dezembro do ano passado.

Recebi, em junho de 2014, com entusiasmo, a notícia do início das obras de reparos e de restauro da edificação em tela. Assim como todos que prezam pela nossa história local e pela preservação do nosso patrimônio histórico, fui um dos que festejou animadamente. Durante o curso das obras, a Secult disponibilizava informações sobre o andamento das mesmas. Eu, é claro, acompanhava com interesse.

No final de agosto, ou início de setembro do ano passado (2014), eu li em uma das publicações que a antiga Casa da Câmara e Cadeia de Santa Cruz (ora restaurada) havia recebido o Imperador Dom Pedro II, em sua visita que fez à então Província do Espírito Santo, entre janeiro e fevereiro de 1860. E, na mesma hora, lembrei-me do famoso trabalho de Levy Rocha (Viagem de Pedro II ao Espírito Santo, 1960), o qual possuo a segunda edição do livro (1980). Li esse livro, pela primeira vez, quando tinha 13 anos de idade; estava novinho! Desde então, e como sou um apaixonado pela história espírito-santense, li o livro algumas dezenas de vezes; às vezes para fazer uma consulta, às vezes por diversão ou para relembrar. Hoje, de tanto manuseá-lo, ele está um "bagaço"; tive que colar fitas adesivas na capa para preservá-lo e segurar suas folhas.

Ao ler a publicação da Secult, conforme disse, lembrei do que li, muitas vezes, no livro de Levy Rocha. Eu me recordava bem que, em Santa Cruz, na época da visita de Dom Pedro, havia duas edificações distintas: a que abrigava a Câmara e o Júri, e a que abrigava a Cadeia. Lembrava-me também que o imóvel que abrigava a Câmara era particular, tendo sido construído por um abastado morador local. Fiquei curioso e fui às páginas do livro. Constatei o que recordava: a Câmara funcionava em uma casa, particular e alugada, e a Cadeia funcionava em outra casa. Indaguei: teria a edificação recebido algum anexo, ou mesmo teria sido adequada alguma das salas para funcionar o xadrez, em ano posterior? Teria sido desapropriada mais tarde, uma vez que hoje é próprio público municipal? Afinal, o atual prédio seria aquela edificação visitada por Dom Pedro em 1860? Desconfiei eu que não. E, naquele mesmo dia, resolvi pesquisar. Coisa de pretenso historiador chato, como sempre digo.

Interessantemente, na internet, todas as informações sobre a edificação hoje restaurada caminhavam na mesma direção. Unanimemente, todas as publicações que encontrei diziam que o atual prédio que serviu de Câmara e Cadeia de Santa Cruz recebeu, em 1860, a visita de Dom Pedro II. Algumas publicações, inclusive, informavam que o prédio foi construído especialmente para a visita do Imperador! Mas, para mim, algo não encaixava; e eu não conseguia encontrar respostas para as minhas perguntas. Socorri-me, então, da hoje famosa hemeroteca digital da Biblioteca Nacional. E fui para o "garimpo".

Lá pesquisando, no início de setembro de 2014, consegui encontrar as respostas. E, mais uma vez, constatei que a tradição e a memória, às vezes, distorcem ou adequam eventos passados para explicar ou fundamentar realidades presentes. São detalhes, para alguns, bobos e sem sentido. Mas, para mim, são importantes. Tanto que, ainda em setembro, até fiz um comentário em um post de divulgação do restauro, alertando para o fato de que não havia sido aquela edificação que Dom Pedro havia visitado, como se acreditava até então.

A propósito: sobre a "tese", defendida por algumas publicações, de que a edificação foi especialmente construída para a visita do Imperador, os fatos também conspiravam contra. Foi depois do dia 05 de setembro de 1859 que o Presidente da Província recebeu a notícia de que Dom Pedro II visitaria o Espírito Santo, após passar pelo norte do Brasil. Um tanto difícil seria edificar uma obra tão sólida e bem acabada como a Casa de Câmara e Cadeia, ora restaurada, em uma época que as construções públicas demoravam anos e que o dinheiro para sua construção era sempre "minguado", em apenas cinco meses...

Desejando contribuir com esse importante momento, que será a entrega da restaurada Casa da Câmara e Cadeia de Santa Cruz no próximo dia 13 de março de 2015, resolvi tornar pública a minha pesquisa realizada no ano passado. Nela constatei que Dom Pedro não esteve naquele prédio específico, pois ele ainda não existia. Abaixo, segue um histórico de todo o processo, desde a instalação do Município de Santa Cruz, até a conclusão da edificação hoje restaurada.


HISTÓRICO DAS CASAS DE CÂMARA E CADEIA EM SANTA CRUZ
PARTE I

Santa Cruz, antiga Aldeia Velha, foi elevada a categoria de vila e município em 03 de abril de 1848, desmembrada do município de Nova Almeida. O município foi instalado em 13 de janeiro de 1849, com a posse e entrada em exercício dos vereadores da Câmara Municipal. Foi sede da municipalidade por cem anos, até que em 1948 a Câmara Municipal aprovou a transferência da sede para o distrito de Sauassú, atualmente cidade de Aracruz. A transferência da sede foi executada em 1950.

Antes de iniciar a exposição do histórico da Câmara e da Cadeia de Santa Cruz, entendi por bem aqui colocar o que está no livro do Levy Rocha, já citado, sobre a matéria. Dom Pedro esteve em Santa Cruz no dia 02 de fevereiro de 1860. Chegou às oito horas da manhã, e deixou a Vila às três e meia da tarde.

Segue, in verbis:
"(...) sua elevação a município [de Santa Cruz], em 1848, muito devia ao particular empenho do cidadão José Alves da Cunha Bastos que construiu, por sua conta, uma casa para servir de Paço Municipal e onde também funcionava o júri, sendo, para esse fim, alugada por 144$000 anuais.
A cadeia pública era um rancho de taipa coberto de palha e não oferecia a menor segurança nem merecia tal título."
"S. M. [Sua Majestade] foi conduzido ao Paço da Câmara onde o presidente da casa lhe entregou a chave da vila, com discurso (...)".
"O prédio tinha bom aspecto:
"Casa da Câmara com telha; sala sofrível para as sessões do Júri; quarto para o Conselho, e outro para as testemunhas; pintou-se de novo agora"."

Quando o município de Santa Cruz foi criado e instalado, não havia edificação pública para servir de sede à Câmara. Assim, procedeu-se o que, normalmente, ocorria nesses casos: alugou-se uma casa para abrigar as sessões do Conselho. O proprietário desse primeiro imóvel que serviu de Paço Municipal em Santa Cruz é presumível, embora não seja conclusivo: o cidadão José Alves da Cunha Bastos, português que seria naturalizado brasileiro em 1855. O aluguel, em 1850, era de 36$000 por ano.

A primeira Cadeia foi construída pelo governo provincial; portanto, um prédio público. Era uma edificação bem simples. Em 1855, enquanto não havia ainda casa pública própria para a reunião do Conselho, a Casa pública de Prisão já estava concluída. Era, porém, uma "palhoça". Ainda em 1855, o governo provincial destinou 400$000 para as despesas com uma cobertura de telhas, para melhorar a segurança da Casa de Prisão da vila de Santa Cruz. No ano seguinte, porém, a casa ainda estava em mal estado e oferecendo pouca segurança. Em 1857 a situação permanecia: a Cadeia continuava sendo "uma pequena casa de taipa, coberta de palha, com uma sala, um insignificante xadrez e um acanhado quarto, e é ela a cadeia pública aí". Possuía um tronco e um par de algemas, e não havia carcereiro. O xadrez tinha "lotação" para seis pessoas.

Situação precária, que perdurou por uns bons anos. Como foi relatado mais acima, a Cadeia ainda estava nessa condição em 1860, quando da visita do Imperador, e continuava assim em 1864: uma casa de taipa coberta de palha. Entre esses anos, em 1862, a Cadeia era descrita como "uma casa pequena, mal arejada, escura e insalubre". Ao que tudo indica, em julho de 1866 a Casa de Prisão finalmente foi retirada daquela "palhoça". Passou a funcionar em uma casa alugada, de propriedade do mesmo José Alves da Cunha Bastos acima citado, ao preço de 36$000 ao ano. Essa nova Casa de Prisão, ao que parece, era a mesma casa alugada que, de 1850 à 1858, havia sediado o Paço da Câmara Municipal. A Cadeia permaneceu funcionando nessa edificação até 1876, quando foi concluída a Casa da Câmara e Cadeia hoje restaurada, conforme narro adiante.

Aquela primeira casa alugada por 36$000 anuais, que servia para abrigar as reuniões da Câmara Municipal de Santa Cruz, era uma edificação razoável, porém acanhada. Desse modo, o proprietário José Alves da Cunha Bastos tratou de construir uma nova edificação, mais espaçosa e melhor acabada, com o propósito de alugá-la para sediar as reuniões do Conselho. Em dezembro de 1857 o novo imóvel já estava quase concluído: "muito adiantada já vai a casa nova da Câmara e Jury; julgo que por estes dois meses ficará ela concluída". Terminada a nova edificação, em 1858, "transferiu-se" a sede do Paço municipal. Aumentou, também, o aluguel: agora eram 144$000 anuais.

Foi essa edificação, de construção recente, que Dom Pedro II visitou em sua estada em Santa Cruz, no ano de 1860. Conforme está no livro de Levy Rocha, naquele ano "a edificação tinha bom aspecto"; era coberta de telhas e havia sido pintada recentemente. A Câmara Municipal de Santa Cruz funcionou nesse prédio de 1858 à 1876, com o governo provincial desprendendo o aluguel de 144$000 por ano; assim permaneceu até que foi inaugurada a nova Casa de Câmara e Cadeia que, presentemente, foi restaurada e abrigará o Museu Histórico de Santa Cruz.

Agora, passemos ao histórico do imóvel tombado pelo Conselho Estadual de Cultura, atualmente restaurado e que serviu, por longos anos, como Casa da Câmara e Cadeia do Município de Santa Cruz.


HISTÓRICO DA CASA DA CÂMARA E CADEIA DE SANTA CRUZ
PARTE II

Em 09 de julho de 1861, pouco mais de um ano após a visita de Dom Pedro II, tomava posse do cargo de Juiz de Direito da Comarca de Santa Cruz o Dr. Antônio Gomes Villaça. Ao assumir a função, o Dr Villaça verificou que o estado da Cadeia e da sala de reunião do Júri não era nada bom. Segundo ele, o estado da Cadeia era miserável, e havia a necessidade de uma sala descente para as sessões do Júri (Dom Pedro também constatou isso pouco mais de um ano antes: "sala sofrível para as sessões do Júri") Assim, tão logo tomou posse, levantou a ideia de se construir um edifício com as comodidades necessárias para abrigar a Cadeia, a Câmara e a Sala do Júri. "Com incansável zelo o digno magistrado bateo a todas as portas, recorreo ao fazendeiro e ao commerciante opulento, assim como ao jornaleiro que só tinha para offertar o seo trabalho", narrou o então Presidente da Província, Dr. José Fernandes da Costa Pereira Junior, que governou o Espírito Santo entre 1861 e 1863. E assim conseguiu, através de subscrição entre os moradores, a quantia de 6:600$000, montante quase suficiente para se construir o edifício.

Já no ano de 1861 principiaram as obras, "às expensas do povo", com a preparação do terreno e com a aquisição de parte dos materiais necessários. No dia 14 de março de 1862, com a presença do Presidente Costa Pereira, ocorreu a cerimônia do lançamento da primeira pedra do edifício, sendo por ele assentada solenemente a pedra fundamental da edificação que se ergueria. A obra seguiu "de vento em popa" e adiantou-se bastante. Em fevereiro de 1863, porém, o Dr. Villaça foi chamado para exercer, interinamente, o cargo de Chefe de Polícia, tendo que se ausentar de Santa Cruz. "A obra está bastante adiantada, e estaria talvez concluída se não fosse minha ausência daquela vila, nos dez meses que fiquei como Chefe interino de Polícia", relatava o Dr. Villaça no final de dezembro de 1863.

No início de 1864, as obras pararam. Tiveram, até então, bom desenvolvimento. Mas havia algumas dificuldades para arrecadar as quantias subscritas pelos particulares. "Está em construção um edifício destinado a servir de Paço da Câmara e Tribunal do Jury, cuja obra, tendo tido algum desenvolvimento, chegando as paredes à altura do telhado, está presentemente paralisada", informava o Presidente da Província em relatório de 1864. O governo provincial, para não deixar a obra parada, aprovou uma ajuda de 500$000 para dar seguimento à construção. No ano seguinte, 1865, a Província entregou à Câmara de Santa Cruz a quantia de 800$000 para continuar as obras. Mas elas praticamente não andavam; o dinheiro, ao que tudo indica, foi destinado a pagar débitos em atraso com fornecedores e trabalhadores. Em 1867 as obras estavam totalmente paralisadas e ainda somente com o primeiro pavimento construído, exposto ao tempo. Nesse mesmo ano o Deputado José Delgado Figueira de Carvalho conseguiu que a Assembléia Provincial aprovasse uma Lei autorizando o Presidente da Província a conceder à Câmara de Santa Cruz a quantia necessária para se terminar a construção. A Câmara oficiou ao Presidente, informando que iria dar andamento às obras da nova Casa da Câmara e Cadeia. Mas nem a Câmara Municipal deu seguimento às obras, nem o governo provincial auxiliou com quantia alguma, naquele ano.

Em 1872 as obras permaneciam paradas, com a estrutura ainda exposta ao tempo e começando a correr o risco de desabar. Como a Lei de 1867 não falava em valores, acabou não sendo executada. Ante ao risco de se perder o que já havia sido levantado, foi votada uma nova Lei pela Assembléia Provincial, em 1872, autorizando ao Presidente da Província à desprender até 6:000$000 para a conclusão da construção da Casa da Câmara e Cadeia. Mas a autorização, novamente, não "saía do papel". Em 1874, nova Lei provincial foi aprovada, dessa vez destinando 2:000$000 para concluir a Casa da Câmara e Cadeia de Santa Cruz.

Foi então que entrou em ação outro Juiz de Direito, o bacharel Antônio Luiz Ferreira Tinoco. Entre 1861 e 1863, as obras estiveram sob a direção do Dr. Villaça. Entre 1863 e 1875, as obras estiveram sob a direção da Câmara Municipal. Em 1875, o Dr. Tinoco tomou a direção da construção. Em maio desse ano, foi feita uma "reunião para concluir as obras da Casa da Câmara e Cadeia, principiadas em 1861". Em junho do mesmo ano, a comissão responsável para executar a obra estava formada. O Juiz fez correr nova lista de subscrição, e conseguiu arrecadar o montante de 2:769$000. E as obras recomeçaram. Em 1876, com a construção em andamento, o governo provincial entregou ao Juiz a quantia de 2:000$000, em duas vezes (a primeira parcela em março, e a segunda em maio), amparado pela Lei de 1874, para aplicar nas obras da Casa da Câmara e Cadeia. Em maio de 1876 o prédio estava com as obras andando "em pleno vapor"; com a Província concorrendo por último com esse dinheiro, o montante necessário para terminar a obra estava garantido.

E assim, em setembro de 1876, a construção foi concluída. Tão logo que inaugurada, passou a receber as sessões da Câmara Municipal. Os presos da Cadeia foram transferidos, nesse mesmo mês, para o novíssimo xadrez. Em 1877, a Província ainda auxiliou com a quantia de 200$000, devido a necessidade de se fazer circunstancial reforma na sala de sessões. Mas nesse ano já não se precisava mais pagar os 144$000 anuais pelo aluguel da casa que servia para a reunião do Conselho. Construída em "estilo moderno", não era simplesmente uma Casa de Câmara, mas também uma prisão; uma das primeiras da Província, nesse gênero. Feito em forma de "quadrilátero", foi construído todo de pedra e cal no caixão, com uma escadaria de três faces e quatro degraus. As esquadrias da porta principal foram montadas em granito polido, e a casa tinha quatro janelas envidraçadas. Era, como se dizia na época, um edifício sólido, pensado para durar para o futuro. E durou. Pois mesmo com o abandono e o descaso que suportou por longos anos, depois que deixou de ser usado, conseguiu chegar até o nosso tempo. Alquebrado, porém ainda de pé.

Em 1915, o prédio recebeu uma nova "repartição". Com a criação das Prefeituras (até então o poder executivo municipal era exercido pelo presidente da Câmara), em 1914, a Casa de Câmara e Cadeia passou a abrigar, também, a Prefeitura de Santa Cruz. Daí para frente é história mais recente, que foge aos objetivos do presente trabalho. Nosso objetivo com a divulgação dessa pesquisa foi contribuir com a confecção da correta história do referido imóvel, nesse especial momento em que foi restaurado e que abrigará o novo Museu Histórico de Santa Cruz. Destarte, serve também como um "presente" meu para o inventário do imóvel, na data da sua entrega. Parabéns à Secult por sua dedicação ao restauro e à conservação do patrimônio histórico do Espírito Santo.


Gerson Moraes França

domingo, 22 de fevereiro de 2015

O Boi Pintadinho de Muqui

Caro leitor, esse é um post informal. Não tratarei aqui, minuciosamente, do boi pintadinho de Muqui. Falarei apenas de minha experiência pessoal, que levou-me a pesquisar mais à fundo sobre essa manifestação popular folclórica. É apenas um registro, que resolvi tombar para que fique guardado.

Minha primeira experiência pessoal com o boi pintadinho foi na infância. Não posso precisar a data, mas certamente foi no comecinho da década de 1980. Foi em Muqui, aonde residiam meus avós maternos e aonde eu costumava passar algumas de minhas férias. Foi uma experiência bem rápida. Só lembro-me de ver o boi rodopiando sem parar, e de uma pequena turba ao seu redor, com crianças correndo das investidas.

Depois disso, nunca mais vi o boi. Eu não costumava passar os carnavais em Muqui. Lembro-me que, nessa época de infância, passávamos o carnaval em Iriri e, vez ou outra, em Conceição da Barra.

Passaram-se muitos anos, até que me interessei pelo assunto. Eu já conhecia o boi pintadinho por causa das publicações de jornais e outras mídias. Mas eu continuei não passando o carnaval em Muqui. Meu interesse maior por pesquisar e estudar o boi pintadinho deu-se já quando estava cursando minha graduação em História. Foi no início de 2013. Lembro-me de conversar com um professor sobre o assunto, e de essa conversa ter me despertado o interesse por conhecer melhor esse folguedo folclórico.

Foram dois anos de pesquisas. Li tudo o que consegui encontrar sobre o boi. Passei dois carnavais em Muqui, aonde ocorre a folia do boi. Elaborei teorias, fucei aqui e ali, fiz quadros comparativos e estatísticos. Li pesquisas de estudantes e textos de memorialistas. Vasculhei arquivos de jornais. Vi documentários. Enfim, pesquisei à fundo o tema. E, dessa pesquisa, "descobri" muita coisa bacana.

E agora, nesse ano de 2015, espero escrever e, quiçá, publicar um livro à respeito. E desde já adianto: virão algumas novidades. Quando surgiu o boi? Em que lugar? Quando o boi chegou ao Espírito Santo? Quem o trouxe, e de onde? Essas e outras perguntas eu responderei em meu trabalho. É claro que se tratam de teses, mas estão todas elas muito bem fundamentadas.

Grande abraço à todos.
Gerson Moraes França

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

A Origem do Futebol em Mimoso do Sul

A história da origem do futebol em Mimoso do Sul foi registrada, pela primeira vez, na famosa obra "Mimoso do Sul, um Município em Revista", de 1951, sob a direção de Ormando de Moraes e de Newton Braga. Praticamente todos os textos posteriores, que tocaram nessa matéria, usaram (e ainda usam) desse belo trabalho para retratar o início da prática do futebol e a fundação dos primeiros clubes em Mimoso. Quando foi publicada, havia mais de trinta anos que o futebol era praticado na cidade. Desse modo, muito do que foi escrito sobre as origens desse esporte em Mimoso foi baseado em memórias dos que presenciaram, ou escutaram os relatos dos que vivenciaram aqueles tempos primeiros do futebol. Na matéria da revista, o informante principal foi o sr. Augusto Monteiro de Castro, que "era um dos garotos que corriam ávidos para apanhar a bola" nos idos de 1914/18.

As memórias são uma excelente fonte para a pesquisa histórica. Mas as memórias, às vezes, são incertas; a passagem do tempo apaga, algumas vezes, dados mais precisos. No caso do surgimento do futebol em Mimoso do Sul, as memórias resgataram dois fatos principais. Um deles foi a "chegada" do esporte em Mimoso, "na época da guerra 1914/18", quando "uns holandeses que costumavam ir à São José das Torres para explorar turfas (...) ficavam batendo bola na rua". Outro foi o surgimento do primeiro clube de futebol local, assim descrito na matéria: "Quando os holandeses deixaram de aparecer ficou a ideia da fundação de um clube de futebol e foi então que surgiu o Mimosense F.C., por volta de 1918 e 1920, incentivado principalmente pelo médico Dr. Esperidião de Góis Lima".

Assim, em síntese, e de acordo com as memórias resgatadas e registradas na obra, podemos dizer que o futebol chegou em Mimoso entre 1914 e 1918, trazido por holandeses, e que, quando eles não mais voltaram, surgiu a ideia de se fundar um clube de futebol, que teria sido criado entre 1918 e 1920 com o incentivo de um médico chamado Esperidião. Foi à partir desses fatos que, então, resolvi pesquisar mais à fundo sobre o assunto, na intenção de ter dados mais precisos sobre a "chegada" do futebol em Mimoso, e sobre a fundação do primeiro clube de futebol local.

TURFAS, HOLANDESES E A CHEGADA DO FUTEBOL

Assim diz a matéria de 1951 sobre a chegada do esporte em Mimoso: "A primeira vez que Mimoso viu homens brincarem com uma bola de couro impulsionando-as com os pés, foi na época da guerra 1914/1918. Todo sábado, pelo noturno da Leopoldina, chegavam do Rio uns holandeses que costumavam ir à São José das Torres para explorar turfas. Hospedavam-se no hotel do Deoclécio Paiva e enquanto esperavam condução, (naquele tempo animais), ficavam batendo bola na rua, para grande admiração do povo que juntava em volta".

Assim, resolvi pesquisar. Teriam mesmo vindo holandeses para Mimoso? E, se sim, quando foi que esses holandeses começaram a frequentar Mimoso? Teria sido na época da primeira guerra? E abaixo está a conclusão, baseada em documentação, referendando o que o sr. Augusto Monteiro de Castro narrou aos repórteres da revista.

Durante a primeira guerra mundial houve uma mudança no comércio entre o Brasil e os países envolvidos no conflito. Bens importados pelo Brasil, como o carvão, que servia principalmente como combustível, escassearam devido ao esforço de guerra. Assim, premido pelas circunstâncias do conflito, o Brasil precisou encontrar outras fontes de combustível. E uma delas era a turfa.

Em 1913, antes de começar a guerra, um engenheiro belga chamado Emilio Lecoq estudou as jazidas de turfas, ou turfeiras, de São José das Torres, então distrito do Município de São Pedro de Itabapoana, da qual Mimoso também era distrito. Remeteu amostras para a Bélgica e Alemanha, onde constatou-se que as turfas de Torres eram altamente comburentes e de ótima qualidade. E, além de boa fonte de combustível, eram jazidas de grande largura e extensão e de fácil escoamento, seja através do do Rio Preto e do Itabapoana, seja através da estação ferroviária da Leopoldina em Mimoso, distante 23 quilômetros das jazidas. Lecoq conseguiu a concessão do Estado para explorar essas jazidas, mas seus planos foram por "água abaixo" no ano seguinte, quando começou a grande guerra e sua empresa na Bélgica não pôde enviar capitais e técnicos.

Diante do problema da escassez e do aumento de preço do carvão no mercado internacional, o Brasil passou a procurar fontes de combustível classificadas como "prata da casa", ou seja, locais. E as turfeiras de Torres "voltaram à baila"; suas jazidas eram as maiores e mais ricas até então conhecidas no país. Essa discussão teve início em julho de 1916. Em novembro do mesmo ano, o Estado aprovou uma lei regulando a exploração e o comércio da turfa de Torres como combustível, concessionando o industrial e comendador Antonio Luiz da Silva, residente no Rio de Janeiro e então proprietário da maior parte das jazidas. A concessão, com o privilégio de vinte e seis anos, implicava a construção e instalação de usinas e maquinismos para beneficiar a turfa.

Assim, em 21 de dezembro de 1916 foi constituída, no Rio de Janeiro, a empresa "The Rio Preto das Torres Land Company", que tinha como sócios o comendador, além de José Olympio de Abreu (então residente em Ponte do Itabapoana) e de João Carlos Cabral, Antonio Rolim Nunes de Azevedo e Domingos de Souza Barbosa (estes todos fazendeiros com terras em São José das Torres). Participavam da empresa, como técnicos administrativos, Carl Christian Stokle e Jacomo Arthur Gleck. Em março de 1917 começaram os primeiros trabalhos de exploração. Foi aí que apareceram os tais "holandeses" que jogavam bola em Mimoso enquanto esperavam condução para Torres.

A empresa, porém, não foi para frente. Em 1918 encerrava-se a guerra, e o fornecimento estrangeiro de combustível voltava a normalidade. Em fevereiro de 1919, o Estado ainda prorrogou em quinze meses o prazo para a "The Rio Preto das Torres Land Company" montar os maquinismos para o processamento da turfa, que até então não haviam sido concluídos. Em maio de 1920, o governo concede por mais um ano a  prorrogação do prazo estabelecido em 1919. A empresa nunca cumpriu os prazos, e nem concluiu suas usinas e maquinismos.

Concluindo. As memórias do sr. Augusto Monteiro de Castro foram corroboradas pela pesquisa documental. Foi, sim, durante a primeira guerra mundial que os estrangeiros estiveram em Mimoso. Resta saber se eram holandeses, belgas ou ambos. E com a pesquisa, podemos afirmar que começaram a frequentar Mimoso por volta de março de 1917; e que foram embora entre 1918 e 1920, possivelmente em 1919.

O MÉDICO E A FUNDAÇÃO DO CLUBE

Relembrando o que a revista de 1951 narrou sobre a fundação do primeiro clube de futebol de Mimoso: "Quando os holandeses deixaram de aparecer ficou a ideia da fundação de um clube de futebol e foi então que surgiu o Mimosense F.C., por volta de 1918 e 1920, incentivado principalmente pelo médico Dr. Esperidião de Góis Lima".

A matéria informa que foi um médico, acima citado, o principal incentivador da fundação do Mimosense Foot-ball Club. E informa que tal fato teria ocorrido entre 1918 e 1920. Em minhas pesquisas, não encontrava o nome desse médico. Até que percebi que houve um lapso na memória do informante dos repórteres. O sobrenome do Dr. Esperidião não era "Góis", mas sim, "Queiroz".

O Dr. Esperidião de Queiroz Lima, tio da escritora Rachel de Queiroz, nasceu em Quixadá, Ceará, no ano de 1880. Formou-se em medicina pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro no ano de 1903. Em 1904, resolveu clinicar no Amazonas e no Acre, onde residiu até 1911. Foi nomeado para o cargo de médico do Serviço da Indústria Pastoril no Pará, órgão ligado ao Ministério da Agricultura, de onde mais tarde foi transferido para Minas Gerais, e depois para o Rio de Janeiro. Foi escritor e pesquisador, com muitos trabalhos científicos reconhecidos.

Especializado em veterinária, o Dr. Esperidião foi transferido para o Espírito Santo em 1920, à pedido dos criadores de gado do Estado. Fixou residência no povoado de Mimoso, distrito do Município de São Pedro do Itabapoana, em março de 1920. Residiu em Mimoso até setembro de 1921, quando mudou-se para Vitória e, em janeiro de 1922, foi designado para dirigir o Posto de Profilaxia Rural da Vila de Linhares, então recentemente instalado. Anos mais tarde, também trabalhou em São Paulo, Mato Grosso e Santa Catarina. Faleceu no Rio de Janeiro, em 1967.

Durante sua curta estada em Mimoso, dirigiu obras de saneamento e de desobstrução dos rios Muqui do Sul e Preto. E foi nesse ano e meio de residência em Mimoso que o Dr. Esperidião incentivou a fundação do primeiro clube de futebol local. As memórias do sr. Augusto Monteiro de Castro foram, mais uma vez, importantíssimas para o estabelecimento da uma data mais específica para a fundação do Mimosense Foot-ball Club. Isso porque, de acordo com ele, a fundação teria ocorrido entre 1918 e 1920; e, citando o nome do Dr. Esperidião Lima, mesmo que não tenha se recordado do sobrenome correto (conforme vimos, confundiu "Queiroz" com "Góis"), o Sr. Augusto nos presenteou com uma informação que nos faz ter quase certeza que o clube foi fundado, portanto, no ano de 1920. É claro, depois de março, que foi quando o Dr. Esperidião fixou residência em Mimoso. É possível que tenha sido fundado, também, no ano de 1921, antes de setembro, que foi quando o Dr. Esperidião deixou o povoado. Mas, diante da boa memória do sr. Augusto, prefiro fiar o ano de 1920, embora o de 1921 também seja plausível. O primeiro registro conhecido de uma partida do Mimosense FC, que foi a sua primeira fora de Mimoso, conforme narrei em outro artigo, é de dezembro de 1921.

HELCIO PAIVA NO MIMOSENSE FC

Aproveitarei o presente artigo, também, para complementar o artigo anterior do BLOG, onde tratei de um dos maiores futebolistas mimosenses de todos os tempos: Helcio Paiva, No texto, assim escrevi sobre as primeiras partidas conhecidas do Mimosense FC: "Não sabemos se Helcio presenciou, ou mesmo se jogou, essas partidas. Estaria com seus dezenove anos, nessa época".

Pois bem, retrato-me: Helcio Paiva, que na citada revista de 1951 era classificado como "sem dúvida o maior jogador que o Espírito Santo produziu em todos os tempos", e de acordo com os informantes consultados por Ormando Moraes e Newton Braga, "Começou jogando pelo Mimosense ao lado de Ibraim, por muitos considerado superior a ele. Depois foram esses dois zagueiros para o Mangueira do Rio, na ocasião clube de destaque na capital".

Assim, fica certificado que o começo da carreira do zagueiro Helcio Paiva foi no Mimosense Foot-ball Club, clube de futebol fundado em Mimoso provavelmente em 1920.

Em tempo: na década de 1910, o foot-ball "estava na moda" no Espírito Santo. Muitas associações informais para a prática do esporte, inorgânicas, foram criadas. Times de empregados de uma empresa, de ferroviários, ou mesmo de bairros, surgiam e desapareciam. Algumas associações, mesmo que constituídas em clube, não prosperaram. Esse foi o caso dos dois primeiros clubes fundados no antigo município de São Pedro de Itabapoana, do qual o povoado de Mimoso era distrito. A presente matéria trata da "chegada" do futebol e da fundação do primeiro clube no núcleo urbano de Mimoso. Antes disso, conforme dissemos, outros dois clubes já haviam sido fundados no Município: o FC São Pedrense (1913), na sede de São Pedro do Itabapoana, e o Democrata FC (1915), no distrito de Antônio Caetano (atual sede do Município de Apiacá); o que presume que, nessas localidades, já havia quem praticasse o esporte. Esses "clubes", ao que tudo indica, funcionaram apenas como locais para a prática do futebol de seus associados, sem realizar partidas contra outros clubes. Desconhece-se quando foram desativados, mas presumo que tenha sido na década de 1920.


Gerson Moraes França


Fontes:
Mimoso do Sul, um Município em Revista. 1951. Ormando de Moraes e Newton Braga
1001 Cearenses Notáveis. 1996. F. Silva Nobre.
Jornal O Diário da Manhã. Décadas de 1910 e 1920.
Blog Alma Acreana - Uma Doce Cobiça. 2012. José Augusto de Castro e Costa.
História do Antigo Município de São Pedro do Itabapoana. 1961. Grinalson Medina.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Helcio Paiva e o Futebol Mimosense

Helcio Paiva
Foto publicada em 30/05/1930, n'O Jornal
Pesquisa e recorte: arquivo Gerson França

Quando o neto do coronel Natinho visitou o povoado de Mimoso, em janeiro de 1926, vindo da capital federal (então no Rio de Janeiro), ele não era mais apenas o neto do coronel Natinho. Era agora o famoso footballer internacional da seleção nacional brasileira, campeão carioca pelo Flamengo e bi-campeão brasileiro pela seleção carioca. Full-back (zagueiro) insubstituível, considerado o melhor de sua posição, na época. Agora ele era o famoso sportsman Helcio Paiva.

Helcio Paiva nasceu em Mimoso, então distrito do município de São Pedro do Itabapoana, no dia 02 de outubro de 1902. Filho de Lincoln Ribeiro Paiva e de Maria da Conceição Rezende de Paiva. Neto materno de Nominato Ferreira de Paiva, o coronel Natinho. Bisneto, por parte de sua avó Amyntha, de Antão Ferreira da Silva e, por conseguinte, trineto do fundador da Fazenda Mimoso, o capitão Pedro Ferreira da Silva. Passou a infância na Fazenda da Serra, propriedade de seus avós, e na estação Mimoso, onde estudou as primeiras letras. Não é possível afirmar ainda, mas é bem provável que tenha aprendido e tomado gosto pelo futebol quando, na época da primeira guerra mundial (1914/18), alguns holandeses que estavam estudando a viabilidade econômica de se extrair turfa na região do Rio Preto, em São José das Torres, divertiam-se em Mimoso, nas horas de folga, praticando aquele esporte "novo" que era o foot-ball.

Em algum momento do início da década de 1920, Helcio Paiva mudou-se para o Rio de Janeiro, então Distrito Federal. Empregou-se no comércio. Talvez tenha presenciado a fundação do primeiro clube de futebol de Mimoso, o Mimosense Foot-ball Club. Não se sabe, ao certo, a data de sua fundação. Os primeiros registros da existência do Mimosense são de 1921. Em dezembro deste mesmo ano, o Mimosense fez sua primeira partida fora do povoado: foi à Cachoeiro e derrotou o Estrela do Norte pelo score de 3 x 2. Em abril do ano seguinte, foi a vez da revanche clamada pelo Estrela. No jogo preliminar, disputado pelos segundos-quadros das equipes, o Mimosense venceu por 4 x 2. Iniciado o jogo principal, "representativo" como se falava à época, ás 15 horas do dia 02 de abril de 1922, "numerosa e seleta era a assistência no vasto ground do Mimosense, onde a pugna transcorreu renhida, sob excelente atmosfera de entusiasmo e alegria". O resultado, porém, foi adverso ao clube de Mimoso: o Estrela venceu por 4 x 1.

Não sabemos se Helcio presenciou, ou mesmo se jogou, essas partidas. Estaria com seus dezenove anos, nessa época. Mas, decerto, tomou conhecimento, como entusiasta que era do futebol. Mas, retornando: em algum momento do início da década de 1920, Helcio Paiva mudou-se para o Rio de Janeiro e empregou-se no comércio. Mas o futebol já estava em sua vida. Em 1923, foi jogar em um pequeno clube local: o Sport Club Mangueira (hoje, extinto), que tinha campo na Tijuca. E, na posição de full-back, destacou-se. O Mangueira terminou o campeonato carioca da série B em segundo lugar. Em 1924, uma cisão no futebol carioca fez com que houvesse dois campeonatos: um, organizado pela LMDT (Liga Metropolitana de Desportos Terrestres), que teve a participação do Mangueira (que terminou na sexta colocação) e foi vencido pelo Vasco, e outro organizado pela AMEA (Associação Metropolitana de Esportes Atléticos), que tinha os grandes clubes do Rio (à exceção do Vasco) e que foi vencido pelo Fluminense. Helcio também destacou-se, e foi convidado a jogar pelo Flamengo. Sua primeira partida pelo clube rubro-negro foi no dia 07 de setembro de 1924, em um jogo contra o Vila Nova, de Minas Gerais, que terminou com a vitória flamenguista pelo placar de 4 x 0.

Iniciava aí sua bela trajetória pelo Flamengo. Já em novembro de 1924 era "convocado" para integrar a seleção carioca. E, no ano seguinte, consagrava-se de vez tornando-se titular da seleção brasileira. A história de Helcio Paiva no Flamengo e nos selecionados carioca e brasileiro é por demais conhecida. Uma pequena pesquisa na internet suprirá a curiosidade do leitor. Nosso objetivo, na presente matéria, é relatar fatos menos conhecidos, especialmente no que toca à relação de Helcio com Mimoso. De todo modo, vamos lá à algumas informações. Helcio Paiva jogou no Flamengo, como titular absoluto de sua posição, entre os anos de 1924 e 1931. Jogou 141 partidas pelo clube rubro-negro, e marcou 6 gols. Foi campeão carioca nos anos de 1925 e 1927. Pela seleção carioca, foi duas vezes bi-campeão brasileiro, em 1924/25, e em 1927/28, no antigo e "badalado" campeonato que era organizado pela CBD (Confederação Brasileira de Desportos, atual CBF). Pela seleção brasileira, foi vice-campeão sul-americano em 1925.

Para se ter ideia da "fama" que Helcio Paiva passou a desfrutar no Espírito Santo, basta citar que em 1927 a LSES (Liga Sportiva Espírito Santente) organizou um pequeno torneio com seus clubes filiados, em benefício do Cachoeiro FC (para auxiliar na construção de seu estádio), torneio este que tomou o nome de "Taça Helcio Paiva"...

Em 1930, Helcio era não só titular absoluto do Flamengo: era também o capitão do escrete rubro-negro. Mas, já chegando aos trinta anos de idade, o veterano começava a sentir a ação do tempo. Não foi convocado para disputar a primeira Copa do Mundo, realizada no Uruguai, em 1930, apesar dos protestos de muitos críticos futebolisticos, que entendiam que Helcio continuava insubstituível. De todo modo, fez questão de se fazer presente e de abraçar todos os jogadores brasileiros quando de seu embarque para Montevideo. O capitão do Flamengo, em dezembro de 1930, quase no final de sua carreira no futebol carioca, mudou de posição: de full-back (zagueiro) tornou-se center-half (meio-campo). Mas essa mudança durou pouco e, em 1931, quando começaram a circular boatos de que Helcio deixaria o Flamengo, retornou à posição que o havia consagrado. Disputou, ainda, o campeonato carioca de 1931 pelo clube da Gávea. Neste mesmo ano, perde a condição de titular da seleção carioca. E resolve deixar o Flamengo e o Rio de Janeiro.

No final de julho de 1931, o afamado footballer Helcio Paiva reaparece em Mimoso. Mas, desta vez, não seria apenas uma rápida visita. Resolveu fixar residência na agora chamada cidade de João Pessoa. O povoado de Mimoso, após a revolução de 1930, havia tornado-se a sede do antigo município de São Pedro do Itabapoana; de povoado e estação de Mimoso, agora era cidade de João Pessoa. E, como não poderia deixar se ser, Helcio envolveu-se ativamente com o futebol em seu torrão natal.

Quando retornou, Mimoso possuía dois clubes de futebol: o Mimosense Foot-ball Club, fundado provavelmente por volta de 1920, e o Sport Club Ypiranga, clube mais recente fundado em 05 de março de 1929. Além desses, havia também dois clubes em distritos do município: o Ita Sport Club, de Ponte de Itabapoana, e o Boa Vista Foot-ball Club, da atual Apiacá. Fora o então "inativo" São Pedrense Foot-ball Club (hoje, extinto) da antiga sede municipal, São Pedro do Itabapoana. Enfim, a "vida futebolística" local estava em um bom momento; e a chegada de Helcio incrementaria, ainda mais, esse bom momento.

Helcio passou a integrar o team do Mimosense FC. A "temporada" de 1931 estava boa para o clube quando o grande zagueiro veio reforçar o escrete. O Mimosense havia disputado seis partidas, nesse ano, sem que houvesse sofrido uma só derrota. Venceu o Ita SC por 3 x 1, venceu o quadro da Estrada de Ferro por 2 x 0, empatou com o SC Comercial, de Muqui, pelo score de 3 x 3, mesmo resultado da partida contra o Nacional FC, também de Muqui. E, em Cachoeiro, alcançou duas belíssimas vitórias contra o Cachoeiro FC, seguidamente, pelos placares de 6 x 3 e de 3 x 1. Vale ressaltar que o Cachoeiro FC era o atual campeão do Sul do Estado de 1930, e vice-campeão espírito-santense do mesmo ano.

Com tão bons resultados, e contando com um ótimo time, agora reforçado por um jogador de renome internacional, o Mimosense foi convidado, pelo Vitória FC, para participar de duas partidas na capital do Estado. Helcio Paiva foi um dos grandes responsáveis pela realização dessas partidas. E em agosto de 1931, pela primeira vez, um clube de futebol de Mimoso esteve em Vitória. Interessantemente, a LSES (Liga Sportiva Espírito Santense), a qual nenhum clube de Mimoso estava filiado, considerava a fundação do Mimosense FC como tendo ocorrido em 1926, exatamente na época que Helcio Paiva esteve "organizando os papéis" do clube, quando de sua visita ao então povoado.

Foram dois jogos em Vitória, com duas derrotas. Em 15 de agosto de 1931, no campo de Jucutuquara, teve início a primeira das partidas, entre o Santo Antônio FC e Mimosense FC. O Santo Antônio venceu o Mimosense pelo score de 4 x 2. Importante dizer que o Santo Antônio sagrar-se-ia, pouco depois, campeão capixaba de 1931. O escrete mimosense formou com a seguinte equipe: Lilico; Marins e Helcio; Paiva, Valfredo e Moura; Geraldo, Abelardo, Fragoso, Arribe e Mitre. Helcio Paiva começou a peleja na zaga, mas no meio do jogo trocou de posição com Valfredo, passando a atuar no meio campo. No dia seguinte, 16 de agosto, também no campo de Jucutuquara, foi realizada a pugna entre o Vitória e o Mimosense, com nova derrota destes, também pelo placar de 4 x 2. O time de Mimoso formou com: Lilico; Marins e Helcio; Paiva, Umberto e Moura; Abelardo, Geraldo, Ibrahim, Arribe e Mitre.

Apesar das duas derrotas, o fato de ter se apresentado em Vitória foi considerado muito positivo para o futebol mimosense. Nenhum dos clubes locais era afiliado à LSES, e as partidas deram maior visibilidade aos clubes de Mimoso. Em junho de 1931, o SC Ypiranga já ha havia protocolizado junto a Liga um pedido de filiação, mas o Conselho de Julgamento da LSES não apreciou a solicitação por carência de informações na documentação.

Somente em 20 de abril de 1932 é que o Sport Club Ypiranga teria seu pedido apreciado e deferido pelo CJ/LSES. Nesse mesmo mês, o Mimosense Foot-ball Club fez sua solicitação de filiação à Liga, que foi aprovada em maio de 1932. Em junho de 1932, oficialmente, a LSES formalizava a afiliação dos dois clubes de Mimoso. Finalmente, e Helcio Paiva tomou parte verdadeiramente ativa para isso, o futebol de Mimoso, então João Pessoa, estava "organizado".

Helcio Paiva continuou atuando pelo Mimosense até 1932. Em novembro do ano anterior, inclusive, iniciou com uma nova atividade: passou a atuar como árbitro de partidas, e chegou a ser designado pela LSES para apitar a "final" do campeonato capixaba de 1931, decidido em uma partida entre o Santo Antônio e o Vitória. Só não arbitrou essa partida porque o Santo Antônio não aceitou, temendo alguma parcialidade do famoso zagueiro. Interessante, porém, foi a alegação do Santo Antônio para recusar o nome de Helcio; talvez não querendo ser descortês, assim arrazoou a diretoria: "(...) reconhecer no grande crack capixaba bastante critério e muita competência técnica". O Santo Antônio recusava o nome de Helcio por este ser... bom demais para aquela partida! A propósito: o Santo Antônio venceu o Vitória por 3 x 1.

Helcio Paiva no SC Ypiranga. Foto de outubro de 1932.
Pesquisa e recorte: arquivo Gerson França

Pouco após a filiação dos dois clubes de Mimoso à LSES, Helcio Paiva mudou de agremiação. Deixou o Mimosense e passou para o Ypiranga. Em setembro de 1932, inclusive, Helcio Paiva foi eleito e tomou posse como novo presidente do SC Ypiranga. Mas a estada de Helcio em Mimoso não seria longa, apesar de ter sido consideravelmente profícua. Em 1933, dois anos após ter aportado ao seu torrão natal, o afamado footballer muda-se para Lavras, em Minas Gerais, onde passa a jogar no clube local. Em 1935, Helcio Paiva, atuando então pelo SC Juiz de Fora, foi convocado para atuar como titular da seleção mineira que disputaria o campeonato brasileiro de seleções estaduais. Em 1936 voltou à jogar pelo Lavras SC. Na década de 1940 mudou-se para a capital mineira, Belo Horizonte, onde chegou à treinar pelo América. E, em 1942, atuou como técnico do próprio América.

Helcio Paiva, em 1944, de chapéu. Fonte: O Jornal.
Pesquisa e recorte: arquivo Gerson França.
Um fato curioso na vida de Helcio Paiva foi sua nomeação, pelo governador de Minas Gerais, Benedito Valadares, para o cargo de Prefeito da pequena cidade mineira de Itumirim, próxima à Lavras. Isso deu-se em 1944, quando o grande craque já havia passado dos quarenta anos. Certa feita, nesse mesmo ano, Helcio visitou o Rio de Janeiro. Como sempre ocorria, era logo cercado de fãs e de fotógrafos assim que era reconhecido. Ao observar que seria fotografado, Helcio colocou seu chapéu na cabeça; não queria que as objetivas flagrassem sua cada vez mais calva cabeça. Desejava ser lembrado pelos fãs tal como era quando jogava. Persuadido que foi, após, pelo fotógrafo e pelo repórter, que o disseram que "Helcio Paiva sempre seria o famoso full-back internacional", independente da calvície que se avizinhava, o agora Prefeito baixou a guarda e aceitou ser fotografado sem o chapéu.

Helcio Paiva, sem chapéu. Fonte: O Jornal, 1944.
Pesquisa e recorte: arquivo Gerson França.
Após a passagem "meteórica", porém "iluminada", de Helcio Paiva pelos dois clubes de futebol de Mimoso do Sul entre 1931 e 1933, o futebol local continuou seu caminho. O Mimosense, após uma derrota em casa no dia 07 de fevereiro de 1933 para o Viminas, pelo placar de 3 x 0, entrou em um período de maus resultados. Em 1936, o Ypiranga, premido por uma crise política interna, rachou: um segmento saiu do clube e uniu-se ao que "restava" do Mimosense, para em 16 de abril do mesmo ano fundarem o Independente Atlético Clube. Extinguia-se o Mimosense FC, absorvido pelo Independente. Ainda em 1936, Ypiranga e Independente participaram do campeonato de futebol do sul do Estado (espécie de precursor do campeonato sulino); participaram desse campeonato, além dos clubes mimosenses, o Estrela, o Cachoeiro, o Comercial de Castelo, o Comercial de Alegre, o Castelo e o Rio Branco de Alegre. O Independente foi muito bem; o Ypiranga, foi mal. Foi nesse campeonato que seria realizada a primeira partida oficial entre os dois hoje tradicionais clubes de futebol de Mimoso do Sul. No dia 25 de outubro de 1936, um domingo, em João Pessoa (Mimoso), o Independente bateria o Ypiranga pelo largo resultado de 5 x 0. Nesse mesmo ano, em novembro, o Independente bateria, em Vitória, o Rio Branco, então tri-campeão capixaba. Mas aí entramos em "novos tempos" do futebol mimosense, que retrataremos em uma outra oportunidade.

Por fim:
O sucesso do Independente em seu primeiro ano de fundação, combinado com influências políticas locais, foi responsável pela aprovação de uma Lei, datada de 31 de dezembro de 1936, pela qual o Estado doou vinte contos de réis para auxiliar na construção de um stadium para o Independente, que serviria também como "praça esportiva" para outras atividades.
E o nosso eterno crack Helcio Paiva, o neto do coronel Natinho, o full-back mais importante e respeitado do Flamengo na década de 1920 e comecinhos da década de 1930, o footballer internacional da seleção brasileira, abnegado incentivador do futebol mimosense, teve, infelizmente, uma trágica morte. Radicado há anos em Belo Horizonte, faleceu no dia 31 de agosto de 1970 quando, indo da capital mineira para o Rio de Janeiro (para assistir a uma partida do Flamengo, segundo alguns), sofreu um acidente automobilístico. Seu fusca capotou nas proximidades de Barbacena. Foi sepultado no dia seguinte, no cemitério do Bonfim, em Belo Horizonte.

Por:
Gerson Moraes França

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

A Fábrica de Tecidos de São Pedro do Itabapoana

Quando o agente cultural, ou o jornalista, o memorialista e até o historiador querem demonstrar, para o visitante ou o leitor, como São Pedro do Itabapoana foi uma cidade próspera no passado, é comum que elenquem algumas das coisas que existiam por lá. Assim, falam dos jornais, do cinema, das farmácias, dentre outras coisas mais. E também falam de dois estabelecimentos fabris que existiram em São Pedro do Itabapoana: a fábrica de tecidos e a fábrica de ferraduras (que era, na verdade, fábrica "semi-artesanal" de manufatura de ferragens em geral, embora especializada na produção de ferraduras).

E hoje, em um artigo que espero não ser muito grande, resolvi falar um pouco sobre um desses estabelecimentos fabris: a Fábrica de Tecidos São Pedro Ltda. E nem é possível falar muito, porque são bem escassas as fontes documentais primárias sobre essa fábrica. É possível que uma pesquisa mais apurada e específica encontre mais dados, especialmente tributários, sobre a fábrica em questão; mas, enquanto não posso "fuçar" os livros de lançamentos tributários de São Pedro do Itabapoana (que, pelo menos até a última enchente, estavam conservados no setor de arrecadação, no primeiro andar do prédio da Prefeitura) e algum registro no Arquivo Público estadual que possa ter subsistido, vamos com o que temos em mãos.

Não se sabe a data precisa da abertura da fábrica. Mas uma coisa se sabe: foi posterior à chegada da luz elétrica em São Pedro do Itabapoana, fornecida pela Usina Aparecida, da empresa Companhia de Eletricidade Muqui do Sul. A inauguração da luz elétrica em São Pedro, conforme nos informa Grinalson Medida, ocorreu no dia 04 de fevereiro de 1922. Até então, a cidade era apenas iluminada à gás acetileno, e não havia energia para alimentar estabelecimentos como, por exemplo, as fábricas ou o cinema. Qualquer empreendimento que demandasse o consumo de "muita" energia dependia, antes da chegada da energia elétrica, de geradores privados. Muitas Fazendas, por exemplo, tinham geradores próprios para iluminar suas sedes e movimentar seus engenhos ou suas máquinas de beneficiar café.

Assim, podemos apenas presumir, mais ou menos, quando foi inaugurada a fábrica. Em 1929 sabe-se, por registro contemporâneo, que a fábrica já existia. Em um memorial cuja data parece ser 1927, a fábrica, considerada "nova", já aparece como existente. Há também uma menção, embora não conclusiva, de que a fábrica já funcionava quando ainda vivia Victor Leite, fazendeiro em Mimoso. E há também um relatório da Secretaria de Agricultura, Terras e Obras do Estado, datado de 1926 (mas com dados em 1925) que não cita a existência da fábrica na "seção" que trata dos estabelecimentos fabris têxteis no Espírito Santo. Assim, com base nesses dados acima, presumo que a Fábrica de Tecidos São Pedro tenha sido fundada em algum momento entre 1926 e 1927. Mas, lembramos ao leitor, é apenas uma presunção.

Quanto ao nome da fábrica e quanto ao proprietário fundador, não há duvidas. O estabelecimento chamava-se Fábrica de Tecidos São Pedro Ltda, e seu dono era o coronel Clarindo Lino da Silveira. Clarindo Lino, "chefe político" de São Pedro na década de 1920, era um rico proprietário de várias fazendas de café, que diversificou seus investimentos na época "áurea" da rubiácea. Além do café, "mola-mestra" da economia do sul do Estado e que criou ou sedimentou fortunas na década de 1920, Clarindo Lino investiu na produção de algodão (que, até a inauguração da sua fábrica de tecidos, era toda vendida para a Fábrica de Tecidos de Cachoeiro de Itapemirim), e também na pecuária (anos mais tarde a sua empresa Agropecuária Itabapoana seria uma das mais ricas não só do Estado, mas também do país). Clarindo Lino também investiu na construção da uma Usina na fazenda União (mais tarde vendida), que produzia aguardente e um pouco de açúcar. Enfim, com os enormes capitais que o café proporcionou nessa época, Clarindo Lino, que já era fazendeiro e comerciante, tornou-se também um industrial.

Fato interessante, que pode guardar alguma relação, ou não, é que o pai de Clarindo Lino (João Lino da Silveira), bem como ele próprio por um bom tempo, foi "jeronimista"; era "seguidor" da corrente política do Partido Republicano Espírito-santense chefiada pelo ex-Presidente do Estado, e então Senador, Jerônimo Monteiro. Sabe-se do esforço industrializante levado a efeito por Jerônimo Monteiro quando governou o Estado entre 1908 e 1912 (quando João Lino tornou-se, inclusive, o "chefe político" de São Pedro), e que dentre os empreendimentos havia uma fábrica de tecidos em Cachoeiro de Itapemirim e uma usina de açúcar e aguardente em Paineiras. Foi exatamente na época que Jerônimo Monteiro passou para a oposição, em 1920, que João Lino pouco depois "entregou" o comando político do Município e "passou o bastão" para o seu filho Clarindo Lino, que sedimentou-se na liderança política de São Pedro no "bojo" da política "neutra" do Presidente Nestor Gomes (1920-1924) para a região. Se as idéias industrializantes jeronimistas influenciaram, ou não, as atividades industriais privadas de Clarindo Lino na década de 1920, talvez nunca saibamos; mas não é algo improvável.

Bom, retornemos. Inaugurada em algum momento entre os anos de 1926 e 1927, a Fábrica de Tecidos São Pedro Ltda era abastecida pela pequena produção de algodão existente nos Municípios de São Pedro, Ponte de Itabapoana e vizinhos; mas precisava importar matéria prima de fora do Estado para funcionar. Há o registro, em 1927, de dois desses pequenos produtores de algodão em São Pedro do Itabapoana; curiosamente, ambos eram italianos: Quineu Quitetti e Vicente Manvetti. Clarindo Lino, inclusive, estimulava a produção de algodão em São Pedro, embora sem muito sucesso. Até a crise de 1929, poucos eram os que investiam capitais e trabalho em lavouras que não fossem a cafeeira e as de subsistência, como milho, arroz e feijão. Interessante é que, na década de 1930, buscando diversificar a produção agrícola no Estado e diminuir a dependência em relação ao café, o governo do Interventor João Punaro Bley estimulou muito a produção de algodão, com reflexos em São Pedro.

A Fábrica de Tecidos São Pedro possuía 20 teares, importados da Inglaterra. Produzia o algodão em fio, que era exportado, e tecidos grossos como brins e riscados, utilizados principalmente para a confecção de sacos, mas que também foram utilizados para confeccionar roupas mais grosseiras usadas, principalmente, por trabalhadores rurais. Para efeitos de comparação, na mesma época, a Fábrica de Tecidos em Cachoeiro de Itapemirim possuía 161 teares e empregava 287 operários (101 homens e 186 mulheres). Não há registro de quantos operários trabalhavam na fábrica de São Pedro mas, se usarmos da mesma proporção da fábrica de Cachoeiro, não seria impossível que tenha empregado até 35 pessoas em algum momento de sua existência.

Não sabemos em que medida a crise de 1929 abalou a fábrica de tecidos em São Pedro, mas é fato que não foi suficiente para abalá-la substancialmente. Na década de 1930, inclusive, a produção da fábrica e o estímulo governamental fez com que a produção de algodão crescesse no então chamado Município de João Pessoa (Mimoso do Sul), antigo São Pedro de Itabapoana. Em 1934 a fábrica ainda estava com seus 20 teares em operação, embora tenha adequado sua produção aos novos tempos. Nesse ano, a fábrica não produzia mais os tecidos, mas somente os fios que, como antes, eram todos exportados, principalmente para a fábrica de tecidos de Cachoeiro. Em 1936 havia, no Município, boas plantações de algodão, embora ainda fossem insuficientes para abastecer a fábrica de matéria prima. Os principais produtores, nesse ano, eram: Clarindo Lino (um hectare plantado com algodão), Arnaldo Costa (com meio hectare) e o Dr. Arthur Velloso (com três hectares). Para comparar, em todo o sul do Estado havia quase 240 hectares cultivados com algodão em 35 propriedades.

O ocaso da Fábrica de Tecidos São Pedro Ltda é ainda mais nebuloso. Como vimos, fundada provavelmente em 1926/27, com 20 teares e produzindo tecidos, a maior parte para sacos, e fios, que eram exportados, em 1934 não produzia mais os tecidos, mas somente os fios que continuavam sendo exportados. Em 1936 ainda estava em plena operação, absorvendo a crescente produção de algodão do Município. Mas, em algum momento entre essa última data e o ano de 1950, a fábrica fechou as portas. Em 1951 há registro concreto de que a fábrica não mais funcionava há alguns anos. Assim, só nos resta presumir que a Fábrica de Tecidos São Pedro tenha encerrado suas atividades em algum momento da primeira metade da década de 1940. A dificuldade para a obtenção da matéria prima que fizesse a fábrica funcionar plenamente, fato observado também em outros estabelecimentos têxteis do Estado nessa época, pode ter sido um dos motivos para seu fechamento. Também a pequena produção, se comparada com os empreendimentos maiores, pode ter tornado a fábrica obsoleta ou inviável. Não sabemos. E reiteramos: é apenas presunção; nada conclusivo.


Por fim: como pesquisador e frequentador de São Pedro do Itabapoana, sempre quis saber aonde teria funcionado a tão falada Fábrica de Tecidos. Sim, queria saber em que imóvel, ou em que parte do núcleo urbano, esteve instalada a fábrica. Nem mesmo o belo trabalho "Tombar é Preservar? Caso de São Pedro do Itabapoana" (Silva e Puppo, 1987), que traçou um "mapa" de como seria São Pedro em 1930, localizava a fábrica. Então, certa vez, saí eu cedinho de Mimoso, rumo à São Pedro, para tentar "localizar" o local. Eu só tinha uma informação concreta: de que as instalações da fábrica margeavam o ribeirão São Pedro. E uma informação presumida: de que a fábrica ficava na parte "baixa" da cidade. Pois, com essas informações e de posse de um mapa da área, perambulei pelos locais que poderiam ter abrigado a edificação. Aproveitei e "entrevistei" alguns velhos moradores, na esperança de que algum deles pudesse ter alguma ideia. Os três moradores com informes mais confiáveis (José Miguel de Souza - pai de Balbino Miguel Nunes, Maurino Vasconcelos e José de Souza - o "Seu Setenta") foram todos unânimes: a fábrica teria funcionado na parte baixa da cidade, nos "fundos" da rua da antiga Cadeia Pública, acessível por uma via sem saída perto da escada de pedras que havia ao lado da antiga residência de Grinalson Medina. E lá fui eu.

De fato, há duas edificações nessa área, uma delas claramente bem antiga. Mas esses imóveis, por algum motivo, não entraram no "rol" dos prédios tombados pelo Estado. "Rodei" por ali, encontrei vários cacos de cerâmica e de telhas e alguns pedaços de metal. Nada conclusivo. Mas, considerando os testemunhos e as evidências, é bem possível que aquelas edificações tenham abrigado a antiga Fábrica de Tecidos São Pedro Ltda. Abaixo segue uma foto aérea do local, com a possível área e edificações circundada de vermelho.

Por: Gerson Moraes França