domingo, 3 de outubro de 2010

O Início da História de Mimoso do Sul

Em cima e à esquerda, a casa que servia de sede da Fazenda Mimozo. No centro, o terreiro para secar café. Embaixo, outras edificações do complexo da fazenda. A antiga sede não existe mais.


Quem já procurou ler, com algum pormenor, os tempos primeiros da história de Mimoso do Sul, já se deparou com esse texto:

"A sede atual, sua história nasce no dia 11 de outubro de 1852. Quando o Capitão Pedro Ferreira da Silva compra de José Lopes Diniz em Campos —RJ, junto ao tabelião José Francisco Correa, a Fazenda do Vale Mimozo (da Fazenda Palestina até o Porto da Limeira)". [texto de autoria de Rosângela Guarçoni]

Sempre tive muita curiosidade para saber algumas coisas sobre esse evento acima descrito. Quais foram as motivações que levaram o capitão Pedro Ferreira a sair lá de Oliveira/MG e vir ter à região da mata do sul do Espírito Santo? Quem foi José Lopes Diniz que, afinal, teria chegado antes de Pedro Ferreira, uma vez que vendeu as terras para este? Muitas interrogações!

O fato cru, em si, não me deixava satisfeito. Então, "garimpei" algumas informações, no decorrer desses anos de pesquisa sobre a história local mimosense. E aqui colocarei um pouco do que consegui encontrar. Só não citarei, ainda, as fontes, porque quero um dia publicar algo sobre isso, impresso. Na obra estarão elencadas todas as fontes. E apenas para título de informação: nenhum dos documentos que me serviram de fonte foram encontrados em Mimoso do Sul.


CAPITÃO PEDRO FERREIRA DA SILVA

Pedro Ferreira da Silva nasceu no então arraial de Nossa Senhora da Oliveira, atualmente municípo de Oliveira, em Minas Gerais, no dia 30 de novembro do ano de 1816, filho de Pedro Luiz Ferreira e Felizarda Rosa Ribeiro da Silva. Seu pai, natural da Ilha Terceira, nos Açores, foi Alferes e grande proprietário de terras em Oliveira. Sua mãe era filha do capitão José Ribeiro de Oliveira e Silva, que esteve em Goiás, minerando ouro, antes de se fixar no arraial surgido no caminho conhecido como "picada de Goiás", onde os viajantes pousavam.

Em 1842, estoura em Minas Gerais a rebelião conhecida atualmente como "revolução liberal". Em Oliveira, já então vila e sede de Município, os insurgentes rapidamente dominam a situação. Pedro Ferreira e sua família ingressam nas hostes rebeldes. Derrotado o movimento e restabelecida a ordem, ainda no ano de 1842, Pedro Ferreira e seu irmão Bartholomeu estão entre os implicados na revolta. Em 1844, os participantes do movimento são todos anistiados pelo Imperador. Mas as perseguições por parte de alguns dos vencedores acabam por fazer Pedro Ferreira tomar a decisão de ir embora de Oliveira.

Na esteira dos fatos, um conflito familiar acaba por sedimentar essa decisão. Pedro e seu irmão Bartholomeu se desentendem por questões patrimoniais. E tomam rumos diferentes. Bartholomeu adquire terras na região do atual triângulo mineiro, e Pedro compra terras no "rio Muquy do Itabapuanna", adquiridas junto à um posseiro. Só viriam fazer as pazes muitos anos depois.

Ao que parece, Pedro Ferreira da Silva tomou posse de suas novas terras e formou sua fazenda entre abril de 1854 e fereveiro de 1856. Na primeira data citada, há relato de que escravos de seu sobrinho estavam sendo deslocados de Oliveira para o Itabapoana. E na última data há documento que prova que o capitão Pedro Ferreira já estava estabelecido com seus escravos em suas novas terras no Espírito Santo. Em 1857, com a criação do "Districto Policial da Barra do Muqui" e do "Districto de Paz do Caxoeiro do Itabapuanna", o capitão Pedro Ferreira da Silva foi nomeado em maio/57 para o cargo de Subdelegado, sendo a primeira autoridade estatal da região.
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As terras de Pedro Ferreira eram muitas, e no começo este ficou estabelecido mais próximo ao Itabapoana. Foi apenas em 1858 que a região onde hoje está a cidade de Mimoso do Sul foi aberta como fazenda. Na ocasião, estava sendo contruída a primeira estrada ligando Cachoeiro do Itapemirim ao Cachoeiro do Itabapoana. Nesse ano, já com a picada toda terminada e com boa parte do caminho "prestando trânsito", o capitão Pedro Ferreira iniciou a exploração da que se tornaria sua principal propriedade: a Fazenda Mimozo. Era justamente nesse ponto que foi construída a primeira ponte sobre o rio Muqui do Sul, de passagem obrigatória para os que transitavam pela estrada. Em 1859, ao que tudo indica, já estava morando na sua nova sede, embora a grande edificação que serviria de sede da fazenda, por muitos anos, fosse concluída somente por volta de 1870.

Já sobre o mateiro José Lopes Diniz, que vendeu as suas posses para o capitão Pedro Ferreira da Silva em 1852, vou falar num próximo post; o presente acabou ficando grande demais.
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Gerson Moraes França


EDIT (23/07/2025)

Escrevi essa matéria há quinze anos atrás, e já uns poucos anos depois havia eu retificado algumas informações aqui postas. Mas, como já disse eu em outras postagens, prefiro colocar "edit's" e manter o texto original, do que corrigir e modificar o próprio texto.

Assim, segue abaixo um link que trata de retificar algumas infos postas no presente artigo:

Outra info que precisa ser corrigida e que já conheço há muitos anos é a data da chegada do capitão Pedro Ferreira da Silva na atual região onde está a cidade de Mimoso do Sul e a abertura da "Fazenda do Mimozo". Foi antes de 1858 que a fazenda foi aberta e que o capitão Pedro chegou em Mimoso; como estou escrevendo esse edit "de cabeça", aproveitando um pequeno tempo de sobra no trabalho, não posso aqui escrever agora o ano exato: mas foi em 1853 ou 1854 que a Fazenda do Mimoso se tornou a principal propriedade do nosso "fundador". Assim que me for possível, farei a correção com a data exata em novo edit.

sábado, 2 de outubro de 2010

Aldeia de São Pedro e Limeira do Itabapoana - mais um pouquinho

Que tal retornarmos, agora, aos tempos mais antigos, antes mesmo dos primórdios da colonização do hinterland das terras que atualmente pertencem ao Município de Mimoso do Sul?

Em outro post, aqui falamos sobre a "fundação" da pequenina aldeia de índios tupis, sob a direção dos jesuítas de Neves e Muribeca, no século XVII, chamada de São Pedro Apóstolo. Importante salientar que nunca houve uma "fundação oficial" para essa aldeia. Seu estabelecimento foi decorrente da "espalhada" dos índios tupis que foram levados, pelos jesuítas, quando estes fundaram a Fazenda Muribeca e a Capela de Nossa Senhora das Neves, no baixo Itabapoana, que atualmente ficam em terras do Município de Presidente Kennedy.

Assim, a aldeia de São Pedro não foi Missão, nem Fazenda, nem Sesmaria, sem nada congênere. Foi apenas um pequeno "arraial", formado quando os jesuítas reiniciaram com o cultivo de cana-de-açúcar na região. Logo e rapidamente, porém, o cultivo da cana foi abandonado, especializando-se a posterior fazenda da Muribeca na criação de gado, que abastecia o Colégio jesuíta de Vitória. Esses índios que inicialmente povoaram a região das primeiras cachoeiras do Itabapoana, que séculos depois seria chamada de Limeira, eram todos provenientes da Aldeia de Reriritiba, atual cidade de Anchieta.

À exemplo de muitos povoados formados por índios aculturados e "caboclos mamelucos", como Piúma, Itaipava/Itaoca, Perocão, Meaípe, Santa Cruz e Riacho, São Pedro era um pequeno arraial onde os seus moradores praticavam pequena agricultura de subsistência, e que se dedicavam à pesca. Quando o eixo da atividade econômica da fazenda Muribeca deslocou-se definitivamente para a criação de gado, mais próximo ao litoral, alguns desses índios continuaram vivendo naquela aldeia. No século XVIII, os jesuítas acabaram adquirindo escravaria negra para as atividades da fazenda.

Sem nenhuma tutela formal, os moradores da aldeia de São Pedro lá sobreviveram em suas atividades de subsistência por cerca de dois séculos. Eram poucos; não mais que cinquenta, em seu início. Seu arraial parece ter sobrevivido à expulsão dos jesuítas, e até mesmo às investidas dos puris. Mas não parece ter sobrevivido aos posseiros, quando o médio e alto Itabapoana foram ocupados por fazendeiros fluminenses e mineiros. Por volta de 1.800, sua pequena comunidade não tinha mais que cinco casas; em 1.850, estavam já esbulhados pelos posseiros. Os caboclos que não se adequaram à nova realidade foram embora.

Existe um registro muito interessante, que foi "garimpado" por Márcia Malheiros e publicado em sua tese de doutorado, "Homens da Fronteira - Índios e Capuchinos na ocupação dos Sertões do Leste, do Paraíba ou Goytacazes", de 2008. Discorrendo sobre a chegada de índios de outras localidades da aldeia de São Fidélis, predominantemente puri, cita na página 294:

"Há também o registro de batismo de Geralda, 'índia', cuja mãe, Claudina do Espírito Santo, foi identificada como proveniente da 'Aldeia de São Pedro do Norte'. Ainda que não tenha sido possível localizar essa Aldeia, pergunto-me o que esta mulher, vinda provavelmente de outro aldeamento, 'mãe solteira', estava fazendo na Aldeia de São Fidélis, em 1840.
Esta, sem dúvida, é mais uma pergunta de difícil resposta. Não há menção sobre os avós maternos de Geralda, filha de pai também incógnito. Os padrinhos escolhidos por sua mãe, registrados sem identificação étnica, também não fornecem qualquer pista.
(...)"

É apenas hipótese, claro, mas é plausível crer que Claudina, apelidada "do Espírito Santo", e proveniente da "Aldeia de São Pedro do Norte", sem identificação étnica que não "índia" (assim como se classificavam os antigos índios tupis aculturados), já presente na Aldeia de São Fidélis em 1840 (quando gerou Geralda), tenha lá chegado alguns anos antes, vinda da aldeia de São Pedro. A data também é bem sintomática - a primeira posse, já no hinterland das terras atualmente de Mimoso do Sul, data de 1.837.

O nome "São Pedro" acabou sendo preservado no rio que deságua perto da antiga aldeia, rio no qual, em suas cabeceiras, surgiria anos depois o primitivo arraial de São Pedro do Alcântara, que se transformaria posteriormente na sede do antigo Município de São Pedro do Itabapoana.

No curso da década de 1.840, a localidade passaria a ser chamada de Limeira. Há registro dos proprietários da localidade, na década de 1.850: Manoel Marques de Souza (do lado do Estado de Rio de Janeiro) e a viúva Maria Angélica de Abreu Lima (do lado do Espírito Santo). Tornou-se o porto de onde se escoava, rio abaixo até a barra, toda a produção de café do médio e alto Itabapoana. Cresceu, e de arraial tornou-se povoado e paróquia.

Ainda não se pode afirmar o porquê do nome "Limeira". Seria porque haviam muitas limeiras na localidade? Não é impossível; afinal, foram quase dois séculos de ocupação por famílias de pescadores que tinham pequenas lavouras de mantimentos e subsistência. Mas é apenas mera hipótese. A fazenda de Manoel Marques de Souza já era classificada como sendo em "Limeira do Itabapoana", mas ainda não é possível saber se foi ele quem cognominou, ou não.
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Gerson Moraes França

terça-feira, 14 de setembro de 2010

O Banco do Brasil e a pecuária em Mimoso do Sul

Ora, vejam; quase três meses sem desenvolver um novo texto para o BLOG. Mas que desrespeito para com os leitores!!! (risos) Mas a explicação é bem simples: estou acelerando a confecção do livro que pretendo terminar ainda nesse ano, de preferência no início de novembro. Assim, estou dedicando meu tempo livre para atingir esse fim.

No dia 23 de junho havia eu iniciado um escrito sobre o Banco do Brasil, e o incentivo que este deu ao desenvolvimento da pecuária em Mimoso do Sul, em detrimento das lavouras de café, já amparadas por financiamentos e créditos de outros bancos públicos e privados. Minha vontade era colocar lá dados de minhas pesquisas, pois possuo os números da evolução da pecuária e das pastagens em Mimoso, desde a década de 1920 até os dias atuais. E, concomitante, colocar algo sobre o incentivo que a recém inaugurada agência do Banco do Brasil prestou aos pecuaristas.

Meus arquivos são grandes e, o que é pior, bagunçados. Não tive tempo (e nem saco) para procurar os dados. É provável que, em EDIT futuro, eu aqui coloque as informações. Mas, por hora, vai somente isso: durante a década de 1940 e 1950 a pecuária aumentou muito o seu espaço em Mimoso do Sul, principalmente nas terras mais baixas. Esse fator foi muito importante para minimizar, no final da década de 1960, o impacto que a política de erradicação dos cafezais provocou no Município.

Posto, então, apenas um pequeno texto, com colocações de um dos primeiros funcionários do Banco do Brasil em Mimoso do Sul. Observa-se uma visão progressista, de olho no futuro, deste funcionário que logo se tornou o gerente da agência.

O nome desse funcionário era José Andrade de Souza. Chegou em Mimoso em 1942, quando foi inaugurada a agência do Banco do Brasil em Mimoso do Sul. Chegou como sub-gerente. No mesmo ano, tornou-se o gerente da agência. Tinha apenas 22 anos, na ocasião.

José ficou dez anos à frente da Agência de Mimoso. Foi embora em 1952, quando foi transferido para Pirassununga, em São Paulo. Quando chegou em Mimoso e assumiu a gerência, o café imperava na economia local; a pecuária, embora existente, era de pequena monta comparada aos cafezais.

A equipe da agência do Banco do Brasil em Mimoso do Sul - 1950


Segundo José, suas previsões de crescimento para a cidade se concretizaram, ao final desses 10 anos. Não através da lavoura cafeeira, muito maltratada por falta de orientação técnica antes da chegada do Banco, mas graças à pecuária, que logo virou um dos pilares fortes da economia local com o apoio do Banco do Brasil aos criadores. José disse em entrevista prestada à Revista VEJA, em 1978: "Para você ter uma idéia de como o Banco foi importante para aquela gente, basta dizer que quando saí de lá fui abraçado por vinte afilhados".

José Andrade de Souza cita também alguns fatos pitorescos.

Um agricultor local, "Para provar que tinha crédito, me apresentou suas promissórias: - quatro quilos, doutor; um eu pesei agora -. Isso aconteceu em Mimoso do Sul, no Espírito Santo, quando eu trabalhava na subgerência local do Banco do Brasil. Por sinal, tinha 22 anos quando fui convocado para sua gerência".

"Lembro que cheguei lá e fui direto à uma firma de café explicar que a gerência ia ser instalada. Disse que devia fazer o cadastro da praça e fiz um discurso sobre a riqueza da região. Aí um dos sócios da firma interrompeu-me: - Está bem, temos certeza que a agência do BB dará bons resultados. E quando é que vem o gerente? -".
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Investindo no financiamento e na ajuda financeira e técnica aos pecuaristas, o Banco do Brasil em Mimoso do Sul ajudou à cimentar uma importante atividade econômica do Município. E isso numa época que o café, embora já decaindo em sua primazia, era o carro forte econômico local. Visão progressista e de longo prazo, que muito beneficiou Mimoso do Sul, e que foi importantíssimo para minimizar os efeitos que a erradicação dos cafeeiros produziu localmente.
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Gerson Moraes França
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Fontes:
Revista Veja - ed. 507 - 1978
Foto: "Mimoso do Sul, um município em revista" - 1951

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Estou escrevendo um texto para o BLOG, tratando da "virada" do norte do Banco do Brasil em Mimoso do Sul, na década de 1940. Nessa época, o café imperava como principal atividade econômica do Município; mas a gerência do BB em Mimoso, com uma visão progressista e futurista, resolveu financiar a pecuária local. Considerando a erradicação dos cafezais na década de 1960, essa medida pregressa ajudou a minimizar o impacto da execução de tal política em Mimoso do Sul.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Agente(s) ianque(s) em Mimoso

Dez pessoas foram presas nos Estados Unidos, no último dia 27 de junho, acusadas de serem espiões russos. O décimo primeiro suspeito, que estava foragido, foi preso hoje no Chipre quando tentava embarcar para a Hungria; deverá ser extraditado nos próximos dias. Segundo os norte-americanos, os supostos espiões residiam nos Estados Unidos a muitos anos, vivendo como pessoas comuns, e seriam resquícios da época da "guerra fria".

Tal fato me fez lembrar de algo que pesquisei a pouco tempo, e que envolve suposta espionagem, fruto das "lutas ideológicas" da guerra fria, em Mimoso do Sul.

Sim, caro leitor! Os Estados Unidos da América mantiveram ao menos um "agente" em Mimoso do Sul, embora não seja possível ainda afirmar (e provar) até que ponto esta pessoa se imiscuiu em espionagem. Um fato, porém, é inconteste: análises de conjuntura ele certamente executou, e as remeteu ao seu país.


OS CORPOS DA PAZ

A vigilância e interferência ianque no Brasil durante a primeira metade dos anos de 1960 são matéria já bastante estudada e comprovada. Após a revolução em Cuba em 1959, e a permanente "ameaça comunista" na América Latina, os Estados Unidos adotaram políticas para frear qualquer avanço dos comunistas em seu "quintal". A atuação do IBAD nas eleições de 1962 com financiamento de campanhas, a participação de diplomatas norte-americanos na conspiração que derrubou Goulart em 1964, o plano para despachar uma esquadra da Marinha norte-americana caso houvesse guerra civil, dentre outras coisas mais, são fatos hoje já provados.

E uma das instituições norte-americanas que até hoje ainda causam alguma polêmica, no tocante à sua atuação no Brasil, são os Peace Corps, os "Corpos da Paz". Nascidas quando da assunção de Kennedy nos E.U.A. em 1960, eram uma espécie de coorporação de voluntários que iam residir em países do "terceiro mundo", para executarem ações de assistência, educação, sociais, dentre outros propósitos humanitários. Tinham objetivos humanistas e assistencialistas, embora defendendo o ideal liberal norte-americano contra as idéias comunistas.

Milhares de voluntários dos Corpos de Paz desembarcaram no Brasil, justamente na época que o Governo Goulart começou a radicalizar para a esquerda, na esteira de outros movimentos de caráter sindicalista ou comunista: 4.968 em 1962 e 2.463 em 1963, ano que o Governo começou à desconfiar da real intenção das Peace Corps e restringiu a concessão de vistos. Assim, muitos entendem que esses voluntários eram, na verdade, apenas fachada para uma operação de inteligência e infiltração muito mais elaborada. Hoje, sabe-se que muitos deles estavam realmente imboídos de espírito humanitário legítimo, embora pregando o ideal liberal norte-americano concomitante às suas ações de campo, fazendo um contraponto ao comunismo. Sabe-se também que, dentre eles, haviam também agentes e até espiões.


AS PEACE CORPS EM MIMOSO DO SUL

A primeira leva de voluntários dos Corpos da Paz que desembarcou no Estado do Espírito Santo chegou em março de 1963. Seus elementos foram treinados na Universidade do Novo México, e vieram para implementar no Estado o School Lunch Program, ou "Programa de Merenda Escolar". Depois foi implementado o Community Development Program, ou "Programa de Desenvolvimento da Comunidade", dentre outros mais. Os voluntários recebiam vultosa quantia em dinheiro para executar os programas, e se fala na cifra de 75 mil dólares mensais para alguns deles.

Em 1965, os Corpos da Paz enviaram para Mimoso do Sul um de seus voluntários. Era John Williams, treinado em junho de 1965 na Universidade de Georgetown, Washington D.C. Chegou em Mimoso no mesmo ano, para implementar os Programas de Merenda Escolar e de Desenvolvimento da Comunidade. Curiosamente, nessa época havia voluntários norte-americanos trabalhando em vários Municípios capixabas que possuíam importantes lideranças ligadas ao PTB, Partido Político do ex-Presidente deposto João Goulart.

No caso do Espírito Santo, 1965 foi um ano de sucessivas crises políticas, advindas das ações dos setores militares e civis mais radicais e contrários ao Governador Francisco Lacerda de Aguiar, o Chiquinho, aliado ao PTB. Esses setores denunciavam frequentemente desmandos e corrupção no Governo, buscando e forçando a destituição ou a renúncia de Chiquinho. O Vice-governador era, na ocasião, o mimosense Rubens Rangel, que foi presidente estadual do PTB.

Chiquinho não era comunista; embora seus opositores alegassem ligações suas com elementos esquerdistas, seu afastamento efetuou-se mais por uma questão de rivalidades políticas estaduais do que por alguma ligação ideológica com a esquerda. Rubens Rangel também não era esquerdista, e muito menos comunista; dentro do PTB, inclusive, fazia um contraponto com Ramon de Oliveira Netto, Deputado Federal do PTB cassado logo no primeiro ato do Governo Revolucionário. O fato de ter ficado contra as "reformas de base" de Goulart, e de ter apoiado Argilano Dario (PTB, depois um dos fundadores do MDB) para a Deputação Federal, em detrimento de Ramon de Oliveira, bem como os manifestos de apoio à Revolução de 1964 de seu grupo político mimosense, serviram para torná-lo "palatável" junto aos militares, que o engessaram, porém, com a imposição e a chancela do Secretariado.

Teria sido John Williams mandado à Mimoso do Sul com o objetivo de verificar a conjuntura política local, atrás de informações mais específicas sobre Rubens Rangel? Fato é que Chiquinho cedeu às pressões e renunciou em 1966, e Rubens Rangel assumiu o Governo com o aval dos militares e das forças civis ligadas à UDN e ao PSD. Na composição do Secretariado, o novo Governador formou uma equipe que contemplou essas forças, alocando militares e civis simpatizantes ou ligados ao "projeto revolucionário de 1964".

Em obra recente (Em nome da América - Os Corpos da Paz no Brasil), a escritora Cecília Azevedo cita um voluntário de nome John Breen, que foi remetido a Mimoso do Sul também em 1965. Seria ele o John Williams? Ou seria outro voluntário das Peace Corps em Mimoso? Seja qual for a resposta, fato é que ele presumia que sua alocação em Mimoso do Sul deveria ser por motivos político-ideológicos. Em carta que o mesmo despachou para os E.U.A., deixou ele claro que só conseguia imaginar como justificativa para sua missão na cidade a presença de um elemento soviético nas proximidades. Breen orgulhava-se por ser um "agente de propaganda do sistema americano", pois pregava genuinamente a democracia e a liberdade.

Abaixo segue trecho de suas declarações:

Eu sou simplesmente o embaixador dos EUA em Mimoso do Sul. (...) Tudo o que eu faço é o reflexo do meu povo e de meu país. Eu tenho que dar um bom exemplo 24 horas por dia. (...) Ninguém, incluindo eu próprio, pode apontar qualquer coisa que eu tenha feito por aqui e, ainda assim, eu tenho ouvido algumas declarações como essa: "John, quando você partir, nós vamos chorar e sentir sua falta". E eles são sinceros. Quando eu ouço isso, sinto que estou realizando algum tipo de missão, embora nunca tenha recebido nenhum treinamento para liderar uma "quadrilha" [dança de rua brasileira - adendo da autora] ao longo da rua principal, o que estarei fazendo neste sábado à noite, porque ninguém mais quer fazê-lo. Dessa forma, eu nunca sei para o que serei chamado em termos de promoção da amizade e boa vontade. O maior de todos os sacrifícios é abrir mão de toda a privacidade. (1)

A sua inserção na sociedade local, as suas atividades sociais, bem como a sua consciência de que ali estava para fazer contraponto aos ideais comunistas, em prol do ideal norte-americano, denotam claramente que, além de estar executando suas atribuições dos programas de assistência e de desenvolvimento, estava também executando uma missão de proselitismo e de vigilância. Não é possível afirmar que tenha desempenhado, também, missão de inteligência e/ou espionagem, mas é praticamente certo que tenha procedido com análises de conjuntura, enviando informes aos Estados Unidos.

Essa "missão dos agentes ianques" em Mimoso do Sul durou de 1965 a 1967. De espionagem e inteligência, ou não, o fato é que os Estados Unidos mantiveram em Mimoso do Sul um ou mais agentes das Forças da Paz em missão. E exatamente no conturbado período que Chiquinho resignou e que Rubens Rangel assumiu o Governo do Estado, o qual governou de 05 de abril de 1966 a 31 de janeiro de 1967.

FONTES -
Em nome da América: os Corpos da Paz no Brasil, 1999
Cecília Azevedo; Horácio Gutiérrez
(1) sobre voluntário em Mimoso: págs. 265 e 381
Outras obras sobre os Corpos da Paz no Brasil:
Raízes e rumos: perspectivas interdisciplinares em estudos americanos, 2001, Sonia Torres
Viagem incompleta: a experiência brasileira. A grande transação, 2000, Carlos Guilherme Mota
Site das Peace Corps que atuaram no Brasil:

domingo, 27 de junho de 2010

Homenagem a Clarindo Lino da Silveira

Meses atrás, fiz no BLOG uma brincadeira, registrando alguns dos "causos" contados pelos mais velhos, "causos" estes que serviram para escrever um texto que, obviamente, não se tratava de afirmação ou atestado, muito menos de fato histórico comprovado e verdadeiro. São apenas "causos" que os antigos contavam, sem nenhuma prova ou fundamentação fática. Assim, nem mesmo pode ser o texto classificado como anedota. Porém, penso ser interessante aqui registrá-los, pois fazem parte de nosso "folclore social", parodiando Sebastão Nery em seu termo "folclore político".
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O fato é que, dentre prós e contras - pois nós, os seres humanos, sempre seremos dotados e virtudes e defeitos - os prós dos personagens lá elencados elevam-se muito além de qualquer contra. E resolvi aqui prestar uma pequena homenagem, trazendo ao BLOG um discurso do então Deputado Dirceu Cardoso, tecido dias após ao falecimento de Clarindo Lino da Silveira, em 1966. São as palavras de um dos nossos maiores homens públicos que servirão, aqui, para fazer essa humilde homenagem a um dos mais importantes mimosenses da nossa história.
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Para ler a íntegra do discurso, basta clicar na imagem abaixo.

Gerson Moraes França

quarta-feira, 23 de junho de 2010

O primeiro automóvel de Mimoso

Não me lembro exatamente quando, mas lá pelos idos de 1998, nas "reuniões" que fazíamos praticamente todos os dias no Departamento de Cultura, veio a baila esse assunto: quem teria sido o proprietário do primeiro automóvel de Mimoso? Rosângela Guarçoni, Diego Meloni, William Minassa Júnior e eu, em "sessão deliberativa", discutíamos a respeito. Não faço a mínima idéia do porquê de termos iniciado aquele debate. A "tradição", segundo Rosângela, reportava que o primeiro automóvel mimosense havia sido de propriedade da família Costa; mas não havia nada que assim comprovasse.

Nessa mesma época tive acesso à um dos poucos documentos governamentais ainda preservados do Município de São Pedro do Itabapoana; eram fragmentos, algumas poucas folhas apenas, de um livro de lançamento de tributos municipais referentes à Agência de Mimoso. Esses fragmentos do antigo livro faziam parte do "acervo" dos poucos que ainda existiam, salvos que foram da fogueira pelas mãos de Rosângela Guarçoni. Como me referi em outro post, a grande maioria dos documentos que "entulhavam" espaços na Prefeitura foram incinerados na segunda metade da década de 1970, ou início dos anos 1980. Rosângela conseguiu salvar alguns documentos descartados, antes que o fogo os consumisse.

De posse dessas folhas, organizei-as de modo a colocá-las em "ordem lógica". Depois copiei, à mão, todos os dados lá constantes. Eram informações muito interessantes, pois lá estavam elencados todos os moradores do Distrito que exerciam profissão ou atividade comercial, bem como outros dados mais. Tais registros eram usados para a Prefeitura fazer o lançamento de tributos como o "imposto de indústria e profissão", dentre outros que eram de competência municipal. E, naqueles documentos, encontrava-se a prova que responde a pergunta que fazíamos: afinal, quem teria sido o proprietário do primeiro automóvel de Mimoso?

As primeiras estradas de automóveis na região do Distrito de Mimoso foram construídas em 1924 - em maio desse ano, o trecho Mimoso-Palestina, de 7 Km, já estava terminado, prolongando-se nos anos seguintes a construção da estrada de rodagem entre Mimoso e São Pedro. Antes, as estradas eram apenas carroçáveis. E, em 1925, o distrito de Mimoso já possuía 3 caminhões e 1 automóvel em circulação. A propriedade desse primeiro automóvel: Salustiano Costa e seu filho. Em 1928, este automóvel já estava em nome de Dionísio Costa, e mais outro lhe fazia companhia transitando pelas ruas mimosenses, de propriedade de Francisco Borges Ribeiro; e o número de caminhões já havia chegado a 10.

Assim, resta provado, documentalmente, que a "tradição" corrente corresponde aos fatos: o primeiro automóvel em Mimoso foi, realmente, de propriedade da família Costa. O veículo, provavelmente, seria como o da foto que ilustra o começo deste post. Um Ford modelo T Sedan 1924. Dionísio Costa é pai de Pedro Costa, que já foi Prefeito e é o atual Vice-prefeito de Mimoso do Sul.
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À propósito: o primeiro caminhão (hoje chamaríamos de caminhonete), que teria sido o primeiro veículo automotor de Mimoso, ainda não consegui desvendar de que foi: se de João Talyule ou se de Chrispim Braga. Ambos eram proprietários de caminhão no início de 1925.
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Gerson Moraes França