terça-feira, 26 de maio de 2026

23 de maio de 1535 - Colonização do solo espírito-santense

ESPÍRITO SANTO, 23 DE MAIO DE 1535
Rápida Memória Sobre a Construção da Data

Tela representando a chegada de Vasco Coutinho ao Espírito Santo.
Morgana de Sá, 1999. Acervo da Casa da Memória, Vila Velha/ES.
Fonte da imagem: site "Morro do Moreno".
Grifo nosso no canto superior direito.

Os historiadores que se debruçam sobre a data convencionada para memorar a oficialmente chamada "colonização do solo espírito-santense" - 23 de maio - conhecem o fato de que essa data é, como dito, uma convenção. Não há documento que assevere as datas precisas da chegada dos europeus para se estabelecerem na atual baía de Vitória, nem para a fundação das vilas do Espírito Santo (atual Vila Velha) e Vitória. As datas hoje estabelecidas foram definidas por presunção; fundamentada, sim, mas ainda assim é hipótese. O que, de forma alguma, invalida a efeméride: na impossibilidade de se estabelecer um marco com precisão cirúrgica, criemo-lo. Não há, absolutamente, nada de errado com isso. É importante estabelecermos datas para memorar feitos históricos: tanto para lembrar e comemorar, quando para refletir e problematizar.

Respeitáveis historiadores locais, como Fernando Achiamé, por exemplo, são categóricos ao entender que o 23 de maio é um marco cronológico criado, e que não há registro histórico que comprove a data da chegada de Vasco e companhia: "(...) a data específica é uma coisa inventada. Uma convenção estabelecida, e muito tempo depois da chegada dos portugueses.".

Importante, também, lembrar que o dia 23 de maio remete à oitava de pentecostes, e não ao dia de pentecostes propriamente dito, como vemos em muitas publicações pela internet afora. O domingo de páscoa, em 1535, caiu no dia 28 de março, ainda sob o calendário juliano (o que, no atual calendário gregoriano, corresponderia ao dia 07 de abril). O dia de pentecostes é celebrado 49 dias depois da páscoa, ou 50 dias usando da contagem inclusiva; o que daria, considerando o calendário juliano, no dia 16 de maio (dia 26 de maio, no gregoriano). O último dia da oitava de pentecostes é então, justamente, o dia 23 de maio de 1535 - data escolhida para lembrar o início da conquista e ocupação europeia do atual Espírito Santo e que, no calendário gregoriano, corresponde ao dia 02 de junho.

Os primeiros cronistas que trataram da história espírito-santense não se preocuparam em registrar uma data específica para a ocupação europeia da baía de Vitória. Por muito tempo, inclusive, não se conhecia com precisão nem mesmo o ano da chegada de Vasco Coutinho e seus colonos: até as primeiras décadas do século XIX achava-se que havia sido em 1525. Frei Jaboatão, em seu "Novo Orbe Serafico Brasilico" publicado em 1761, foi um dos primeiros (se não foi o primeiro) que aventou a tese de que os europeus chegaram em terras hoje capixabas em dias do Espírito Santo. Assim reza: "(...) levantando alli huma Villa chamada do Espírito Santo, de que tomou o nome toda a Capitania, sem dúvida, porque no dia, ou oitavas desta solemne Festa aportarão neste lugar, que pela razão, que logo diremos, se ficou chamando depois a Villa Velha."

Foi no século XIX que, dentre os cronistas locais, se sedimentou a tese de que Vasco e os seus haviam chegado em terras hoje espírito-santenses no dia do Espírito Santo: encontramos tal assertiva, por exemplo, nas "Memórias para servir à História", de Francisco Rubim e escritas em 1818. Assim está, de acordo com o autor: "(...) e abordou a esta no Domingo do Espírito-Santo (...) por motivo do dia assim a denominou.". Ignacio Accioli, em sua "Memória Statística" escrita dez anos depois também adota a mesma tese: "(...) conseguio chegar em dia do Espírito Santo (...) à barra do Rio deste nome".

Essa tradição historiográfica construída em finais dos setecentos e consolidada durante os oitocentos baseia-se na antiga prática portuguesa de batizar os acidentes geográficos e territórios com o nome do santo ou da data litúrgica do dia em que a terra era avistada, visitada ou ocupada. No decorrer do século XIX essa ideia foi se capilarizando pela produção historiográfica local, até que foi especificada em data: o dia 23 de maio. Mas, como já dissemos acima, o dia 23 de maio de 1535 não foi o dia de pentecostes (dia do Espírito Santo, que nesse ano caiu no dia 16 de maio), mas sim a oitava de pentecostes. Equívoco?

Esse suposto erro foi percebido já no final do XIX por pesquisadores que trataram dos primórdios da história do Espírito Santo. Mas, como a data de 23 de maio já encontrava-se corrente e oficial, resolveram mudar a data litúrgica associada à chegada da caravela Glória: ao invés do dia de pentecostes (16 de maio de 1535), mudou-se para o último dia da oitava de pentecostes (o nosso aclamado 23 de maio). E assim encontra-se até hoje estabelecida a data memorativa que a história oficial chama de "Colonização do Solo Espírito-Santense".

Antes de encerrar o presente escrito, é importante frisar que há uma corrente robusta de especialistas em nossa história local que entende que o nome dado por Vasco Coutinho à sua Capitania - Espírito Santo - pode não ter sido arrazoado pela data de sua chegada em terras hoje capixabas; mas, sim, por causa da grande devoção ao Divino Espírito Santo que existia, nessa época, em Alenquer, terra de onde Vasco era originário. Assim assevera o historiador João Eurípedes Franklin Leal, que não exclui a tese do dia de pentecostes, mas abre discussão de se problematizar essa última possibilidade. É uma hipótese verossímil e até bem tentadora.

Gerson Moraes França